Carlos Sanabria pretende lançar em agosto de 2027 dois rótulos de vinhos com castas autóctones da região do Dão
Enólogo português vir ao Brasil para fazer vinho é muito comum, afinal a pátria mãe abriga uma antiga e profunda expertise sobre o assunto. O que não é nada usual é profissional brasileiro ir a Portugal para elaborar vinhos. Foi isso mesmo o que fez o enólogo gaúcho Carlos Junior Sanabria, que está na Serra da Estrela, na região do Dão, desenvolvendo um projeto autoral de vinhos junto à Casa da Passarella, vinícola comandada pelo premiado enólogo português Paulo Nunes.

A iniciativa para fortalecer a presença da vitivinicultura brasileira no exterior começou após uma viagem a Mendoza, na Argentina, onde Sanabria acompanhou a safra de 2026. Depois dessa incursão, o enólogo, que não tem vinícola própria, enviou uma proposta à Casa da Passarela para viver lá a experiência de fazer vinho em terras lusitanas.
Por quatro meses, até novembro, Carlos Sanabria, que se define como “um enólogo em movimento” e nos últimos anos dividiu seu tempo entre Brasília e a Serra Gaúcha, estará explorando novos terroirs, culturas e métodos de vinificação. “Esse projeto representa um marco histórico para a minha trajetória. É uma oportunidade de levar a identidade da enologia brasileira a um país com grande tradição na produção de vinhos”, justificou.
Novos rótulos
O que mais atraiu o gaúcho de Bento Gonçalves, de 42 anos, formado em viticultura e enologia pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) é a variedade de uvas autóctones do Dão, que representa a D.O. mais antiga de vinhos em Portugal. Abanico, Uva-Cão, Bastardo, Baga, que todo mundo pensa que é da Bairrada, têm origem no Dão, Tinta Roriz e, claro, a incensada Touriga Nacional.

As variedades de uvas ainda serão definidas, mas a intenção de Sanabria é elaborar em Portugal dois novos rótulos de vinhos mantendo o perfil desenvolvido pelo enólogo no Brasil com frescor, delicadeza e valorização da expressão natural da fruta. A altitude, o clima seco e frio e os solos bem drenados da região do Dão contribuem para intensificar aromas, texturas e concentração. A produção terá caráter experimental e buscará equilibrar elegância, energia e respeito às características do terroir português.
“O pré-lançamento dos rótulos está previsto para agosto de 2027”, anuncia o autor, que pretende aplicar os conhecimentos adquiridos em Portugal em futuros projetos no Brasil, fortalecendo a produção de vinhos autorais e a presença da marca no cenário internacional.
Conexão com a música
Um dos diferenciais do projeto Sanabria está na construção sensorial ampliada: cada novo vinho nasce acompanhado por uma playlist exclusiva. A curadoria musical faz parte da identidade do enólogo, que busca transformar a degustação em uma experiência apoiada no vinho, música e cultura.
Esse tripé esteve presente no Buteco Sanabria, que funcionou no Bloco F das Entrequadras 708/709 Norte, onde eram maturados os vinhos em barricas de carvalho francês e americano. Sanabria levava uvas do Vinhedo Lacustre, no Paranoá, para vinificar em Bento Gonçalves e de lá trazia o vinho para maturar aqui.

O irrequieto enólogo gaúcho ganhou muitos prêmios, como o Melhor Pinot Noir da região de Campos de Cima (RS) no Guia Adega 2023, conquistado pelo vinho Cartola, com 91 pontos. Já no Prêmio CNA Brasil Artesanal obteve o segundo lugar para o vinho Onde Anda Você, que traz um corte inusitado de 50% de Cabernet Franc, 30% Tannat e 20% Pinot Noir. Esse resultado emocionou o enólogo que agora faz vinhos em Portugal.
“Pude entregar o prêmio para minha mãe, Dona Juliana. Foi um momento de imensa gratidão”, afirmou o filho reconhecido. A mãe o ajudou a realizar o sonho de fazer vinhos quando comprou o carro dele – um celta branco – e entregou o valor da compra para Carlos Sanabria investir na primeira microprodução.

