Crédito: André Violatti/Esp.CB
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Da escravidão à Lava Jato: sociólogo pensa o país de forma particular

Publicado em ensaio, filosofia, história, política, Sem categoria, sociologia

O problema do Brasil não estaria na corrupção herdada dos portugueses, mas na escravidão. Não estaria na maneira como fomos colonizados e sim na estrutura do sistema escravocrata implantado por aqui. E estaria, sobretudo, na desigualdade gerada por um projeto de país que, para funcionar, precisa manter grandes distâncias entre as classes pobres e as abastadas. Jessé de Souza não é unanimidade, mas é voz que tem sugerido uma nova maneira de olhar para os problemas brasileiros.

Sim, é dele o recém-lançado A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato, que Lula está lendo na prisão. Assim como é dele A ralé brasileira: quem é e como vive e A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado. Jessé de Souza participa da série de debates Diálogos contemporâneos nesta terça (17/04), às 19h, no Museu da República. Durante o encontro com o público, ele faz a palestra A formação do Brasil: do descobrimento aos tempos atuais – a herança cartorial, o patrimonialismo e a cultura de privilégios, tema que vem desenvolvendo em boa parte de seus livros.  

É sério o que o sociólogo fala, embora, às vezes, pareça também bastante óbvio. Para ele, criminalizar a política acusando-a de ser prática corrupta e demonizar o estado enquanto o mercado é enaltecido como o salvador e, eventualmente, a vítima, é um erro. No raciocínio do sociólogo, a elite brasileira representa o mercado e, sempre que pode, assalta o estado. A corrupção na política, as malas de dinheiro entregues aqui e ali, são apenas a gorjetas da elite para os políticos por serviços prestados. Nesse cenário, a classe média é manipulada diariamente para acreditar em mentiras que ajudam o sistema a se manter.

Em A elite do atraso, Jessé parte da história do Brasil recente para sustentar a ideia. Em entrevista, o autor de 10 livros e ex-presidente do IPEA, que dirigiu no apagar das luzes do governo Dilma Rousseff, explica como chegou ao que chama de “uma interpretação do Brasil de outro modo” e fala sobre como a desigualdade faz parte de um projeto de país desenhado para ser eternamente patrimonialista.

 

Crédito: Ed Alves/CB/D.A Press
Crédito: Ed Alves/CB/D.A Press

 

Entrevista: Jessé de Souza

Como olhar para o Brasil pelas lentes de A elite do atraso?

O livro faz uma interpretação da história do Brasil de outro modo. A história do Brasil foi montada em 1930 por intelectuais, começando na USP, criada pela elite paulistana que havia perdido o poder político para Vargas a partir de uma rebelião de classe média, que foi o tenentismo. Essa elite precisava do estado, porque é a elite que assalta o estado, assalta o orçamento, faz isenções fiscais para suas empresas, e isso nunca é percebido porque foi construída uma interpretação do Brasil que é ensinada na escola, e depois nas universidades, montada sobre uma gênese que é mentirosa: a de que o povo inteiro tem uma queda por corrupção que vem de Portugal. São coisas absurdas porque em Portugal, no século 14, não havia corrupção simplesmente porque não podia haver. A corrupção, no sentido moderno, é do século 18. Mas o povo acreditou nisso. E tudo isso vai desaguar na história do patrimonialismo, que é essa coisa do personalismo, como se tivesse uma cultura da corrupção no Brasil.

E qual a consequência disso?

Isso vai desaguar não no mercado, mas no estado. Vai dar a possibilidade de estigmatizar o estado e a política, enquanto o mercado fica sendo percebido como trabalho duro, honestidade, decência. Assim, você captura o imaginário da sociedade como um todo e forma uma falsa questão que vai organizar todas as outras e esquece que a questão principal de um país como o nosso é a escravidão.

Que papel tem a escravidão na sociedade brasileira até hoje?

É a escravidão que vai influenciar todas as outras instituições, a forma da família, do pobre, que é a mesma do escravo antes. A forma como a elite brasileira vê o próprio país é muito semelhante a como a elite escravocrata via o país, com essa coisa de saque, de rapina, do “eu quero o meu agora”. Não é uma elite como a francesa, a alemã ou a japonesa, que pensa o país a longo prazo. Toda elite fica com a maior parte do bolo no mundo todo, mas é muito distinto uma elite que está aí para o saque do país. Tudo isso é esquecido de forma a criminalizar e estigmatizar o estado e a política quando ela é ocupada por partidos que tenham a ver com interesses populares. Isso foi montado para derrubar Vargas. Com Jango foi a mesma coisa, e agora Lula e Dilma.

E como isso acontece?

O que mostra que a escravidão continua são as práticas. O que marca mais um sistema escravocrata? O ódio ao escravo. Alguém que você tem que explorar e, ao mesmo tempo, desprezar. Humilhar todos os dias. É exatamente isso que acontece com o pobre entre nós, até hoje. Ele tem que ver retirado seus direitos, não pode consumir, não pode ir pra shopping que a classe média frequente, não pode andar de avião, ir para as universidades. Foi isso que causou o golpe. Dizer que o golpe foi causado pela coisa moral da classe média com a corrupção é uma bobagem. Por que saíram milhões nas ruas com Lula e não saiu ninguém com Aécio e Temer? Então não é corrupção. E se  não foi corrupção, foi outra coisa. O PT e Lula representam uma pequena inclusão, que é histórica em um país como o nosso, que é doente por conta disso. E o ódio ao pobre é uma forma muito perversa de sociabilidade, você nega a quem não tem nada.

Você diz que a política não pode ser criminalizada, Por quê?

A política ganha a gorjeta do mercado, como  ficou demonstrado no caso das malas, supostamente para Temer e Aécio. A mala dos donos do mercado paga a política por serviços prestados. Como você faz com um lacaio. Então não pode transformar a política na questão importante. É claro, toda mentira tem que ter um grão de verdade e o grão de verdade dessa mentira, tendo a corrupção como a grande questão, é que se  rouba também na política. E claro que isso é reprovável, mas o que se rouba na política é uma gota no oceano se você compara com a sonegação de impostos dos ricos. São R$ 1,5 trilhão sonegados, além de isenções fiscais. E agora teve aí um trilhão para grandes empresas estrangeiras, latifundiários, bancos, o que significa a privatização dos lucros e a socialização das perdas para a sociedade como um todo. A Lava Jato não recuperou nem R$ 2 bilhões. Você percebe que é uma mentira montada para que a sociedade jamais perceba que está acontecendo.

Um dos temas de A ralé brasileira é a questão da herança imaterial: qual o peso dessa herança na desigualdade brasileira?

Normalmente, como você só percebe as classes pela renda, você, no fundo, não percebe nada. A renda não explica nada, é uma coisa que você tem quando é adulto. A infância da pessoa, a adolescência, o que aconteceu com ela, isso é que é importante saber. Quando falo de  herança imaterial, é isso: classe não é renda, é reprodução de privilégios. A elite que manda reproduz o privilégio do acesso à propriedade nas suas mais variadas formas. A classe média, que no fundo serve a essa elite no mercado e no estado, reproduz o conhecimento, altamente valorizado. E as classes populares reproduzem seu privilégio negativo de parco acesso a tudo isso, não tem estímulo em casa. E a família não tem culpa nisso, é a sociedade que abandona, que despreza, humilha. Quando você diariamente humilha alguém, você tira a autoiniciativa, a confiança dessa pessoa. Isso é uma herança imaterial e é extremamente importante, é ela que vai dizer se você vai se dar bem na escola ou no mercado de trabalho. Nada disso é consciente, mas essa herança imaterial vai criar redes de solidariedade entre os indivíduos e as classes, vai criar o preconceito com os de baixo, que não é explicitado, que é sentido.

  • filomena seiffert

    Nos estados unidos e em todo o oeste e’ a mesma coisa, quem manda sao as grandes companias que pagam quase nada de imposto. Rottschild, Rockfeller, and bankers such as Morgan & Sacks sao predadores da humanidade inteira, eles dao as ordems no que deve ser feito com o povo, e’ tudo programado por eles. Temerda e’ um fantoche estupido nas maos deles.

  • HENRIQUE

    Esquerdopatas falam tanto da elite, mas nunca especificam, de fato, quem é essa elite. Lula teve como Vice o José Alencar, milionário e empresário; e se juntou com o PMDB, milionário e corrupto. Portanto, pra mim, elite são eles. Mas, ao fazer vista grossa e não especificar quem é a elite, este autor ( e toda a esquerda) dão a entender que, quem é classe média ou classe média alta e são anti-PT, são taxados de ”elite”. Aliás, até membros de movimentos sociais que são anti-PT, são taxados de ELITE e, por incrível que pareça, de ”esquerda”. Manuella, D’ávila, recentemente, disse que Marina e Ciro são de direita. Acreditam?
    AFINAL: QUEM É ESTA ELITE? GOSTARIA QUE ELES EXPLICASSEM…. Os empresários (para os quais Lula governou), ou a classe média (que sustenta o país)?

  • antoine

    Ah tá, se entendi bem, então o que o Lula recebeu foi apenas uma migalha insignificante num mar de roubalheira, logo não merece ser preso…

  • igorbcfh

    Parei de dar atenção a este autor quando assisti uma entrevista em que ele fez um enorme esforço de rebuscamento intelectual para argumentar em favor da interpretação popular do ‘rouba, mas faz”. Sem falar que ele é interessado direto na defesa dos governos PT, dos quais fez parte como presidente do IPEA – que neste mesmo período, curiosamente, produziu muitos estudos elogiosos às políticas do governo, e quase nenhum crítico.

  • Carlos Borges

    Sábio é o cidadão, mesmo sabendo usar a terminologia, que puxa a sardinha e a brasa para seu prato?
    Defender ideias próprias é curioso: posso campear argumentos que canalizem para minha tese. E concluo: – Estou certo, tá?
    Nesses meus longos anos li ideias divergentes.
    Uns, são uns. Outros, são outros…
    Quem duvidar dessa tese, leia melhor o autor ‘das’elitis’, como costuma dizer um certo cidadão brasileiro, atualmente recluso.

  • Paulo Belli

    Boas reflexões sobre o tema, deixando de lado o tradicional discurso sobre corrupção: Brasileiro não é corrupto. As comunidades quilombolas e as comunidades indígenas estão em risco de sobrevivência nesse país.