Quando a literatura encontra a zoologia

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Construído com viuvinhas, joões e marias, o pequeno universo enciclopédico de Maria Esther Maciel é um mundo muito delicado. Começou com uma pesquisa acadêmica sobre animais na literatura, iniciada há alguns anos. Dezenas de compêndios zoológicos de todas as épocas, incluindo os bestiários medievais, livros de história natural e manuais de zoologia fantástica passaram sob os olhos da pesquisadora. Depois de listar um sem número de animais e plantas de diferentes espécies, ela sentou para escrever a pequena enciclopédia de seres comuns. E, numa associação profundamente poética entre zoologia e literatura, construiu um breviário de sutilezas povoado por seres que não são nem monstruosos nem fantásticos, mas ganham certa magia na narrativa da escritora mineira e nas ilustrações de Julia Panadés.

Novo livro de Bernardo Carvalho imagina o mundo pós-pandemia

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O último gozo do mundo começou a tomar forma como uma novela curta feita sob encomenda. O escritor Bernardo Carvalho estava em casa, isolado por causa da pandemia, e topou a encomenda de um produtor de cinema para escrever uma história que se passasse logo após a quarentena. O combinado era o produtor pagar uma quantia mensal em troca do trabalho do autor. O contrato não seguiu adiante, mas o livro, sim. O romance que chega às livrarias pela Companhia das Letras é descrito como uma distopia, mas é tão próximo da realidade atual que pode ser lido como uma visão catastrófica para o que nos espera após a pandemia, caso ela acabe. 

A casa e as incertezas da pandemia na poesia de José Luís Peixoto

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A pandemia tem colocado em causa muitas certezas e o escritor português José Luís Peixoto anda pensando sobre isso. Além de levá-lo para um estado de fragilidade e medo, o mesmo que acometeu o mundo, o caos gerado pelo novo coronavírus também levou Peixoto de volta à poesia. Regresso a casa é um livrinho de poemas nascido da pandemia, gestado durante a primeira quarentena em Portugal e repleto de reflexões sobre o ser humano, o pertencimento, a individualidade, a convivência e a percepção do outro.

Rosa Montero reedita livro sobre mulheres com 90 novos perfis de ilustres desconhecidas

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Rosa Montero é viciada em biografias. Em casa, em Madri, ela guarda uma biblioteca com centenas de volumes desse gênero. Neles a escritora espanhola vislumbrou, pela primeira vez, lá pelo início dos anos 1990, a vontade de escrever um livro inteiro sobre mulheres históricas desconhecidas. “Como leitora assídua de biografias, descobri várias mulheres fascinantes que eram completas desconhecidas”, conta Rosa. “Eram absolutamente fascinantes e eu caí nelas por pura casualidade, com biografias que me levavam a outras biografias.” Na época, ela decidiu se aprofundar nas histórias dessas figuras, que renderam várias colunas para o jornal El País e o livro Nós, mulheres, publicado em 1995. 

Michel Laub e os dois lados de um país

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A certa altura de Solução de dois estados, a cineasta alemã que produz um documentário sobre a violência brasileira se dá conta de que sua entrevistada não consegue separar o lugar do ódio e da vingança e o espaço íntimo no qual nada disso existe, mesmo quando se perde alguém em ações violentas. No novo romance de Michel Laub, essas duas noções estão em constante embate e servem de arena para os sentimentos conflituosos que povoam as mentes de Raquel e Alexandre.

Cinco autores para pensar o racismo ontem e hoje

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Frantz Fanon foi um dos maiores pensadores pós-coloniais da França. James Baldwin, um dos nomes mais importantes da literatura americana dos anos 1950 quando o assunto é racismo e colonização. Ralph Ellison, também americano, venceu o National Book Award de 1953 com um livro no qual o personagem se tornava invisível graças à sua cor negra. A britânica Bernardine Evaristo tem sido celebrada como a voz literária negra mais importante da cena inglesa contemporânea quando se trata de escrever sobre a diáspora africana. A pandemia continua seu curso, ficar isolado ainda é o único remédio contra o coronavírus e, apesar de amargo, pode ser atenuado com boas leituras. Então, na esteira de um 2020 marcado pelos protestos contra o racismo em todo o mundo, que tal começar 2021 prestigiando autores preocupados em compreender questões cruciais para a sociedade contemporânea? O Leio de tudo fez uma seleção de lançamentos recentes disponíveis em e-book ou no site das editoras, todos assinados por nomes fundamentais do pensamento negro mundial. 

Quatro livros para entender questões do Brasil de hoje

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A morte de Marielle Franco, o lugar das milícias no Rio de Janeiro, o estupro como uma violência repetida a cada vez que a vítima precisa se explicar. Que tal mergulhar em leituras sobre o Brasil contemporâneo para começar 2021 com um pouco mais de informação de qualidade? O Leio de tudo separou quatro livros recém-lançados e escritos por jornalistas sobre fatos recentes da história do país. 

O navio da morte e a gripe espanhola no Brasil

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Lilia Schwarcz quase ficou detida nos Estados Unidos em março, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou a pandemia. Ela dava aulas na Universidade de Princeton quando o país começou a tomar as medidas de isolamento com o fechamento das fronteiras. “Eu passei pela chegada de duas pandemias, porque estava dando aulas em Princeton, e fui quase retirada da universidade: ou volta ou fica por aqui”, conta.

Angélica Freitas: Versos que atormentam

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Em 2008, a poeta Angélica Freitas passou uma temporada na Holanda, Não tinha um tostão no bolso, mas tinha uma bicicleta velha e um cartão de biblioteca. O combo permitiu muita leitura e o tempo deu início à gestação de Canções de atormentar. Nos anos seguintes, Angélica foi morar na Argentina e em Pelotas. Só voltou para São Paulo em 2017. “Escrevi muito nessa época, inclusive o poema que dá título ao Um útero eu escrevi quando estava em Delft. O que acontece é que eu abro o caderno e deixo as coisas acontecerem, normalmente, e às vezes elas acontecem. E quando elas acontecem é muito claro pra mim. Esses poemas são os que quero mostrar”, conta. 

Racismo, violência e relações familiares no terceiro romance de Jeferson Tenório

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Jeferson Tenório sempre gostou de escrever, mas nunca havia pensado em entrar para a faculdade de letras até ser abordado pela polícia, aos 18 anos, quando saía do trabalho numa pizzaria de Porto Alegre. O episódio desencadeou um processo de consciência racial e literária cujo fruto é um respiro profundo para a literatura brasileira contemporânea. O avesso da pele, que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, deveria ser lido por brasileiros de todas as idades, cores e formações. Terceiro romance do autor, o livro fala de uma realidade conhecida por muitos brasileiros cuja cidadania é usurpada todos os dias e de várias formas, do desprezo do Estado pela educação ao descaso diante das estatísticas raciais.