Discurso do medo muda de lado em jantar de Lula com elite empresarial em SP

Publicado em Política

Coluna Brasília-DF publicada na sábado, 27 de setembro de 2026, por Denise Rothenburg

Arte de Caio GomezEm 2022, a atriz Regina Duarte dizia nas redes sociais ter medo se o PT voltasse a governar o país. Desta vez, esse discurso mudou de lado. No encontro de Lula com empresariado em São Paulo, foi o presidente do BNDES, Aluizio Mercadante, quem deu um dos principais recados daquela noite às 800 pessoas presentes, sendo 500 empresários, convidados pelo think tank Esfera e o grupo Prerrogativas. Mercadante disse que o candidato Flávio Bolsonaro, do PL, já acenou com a presença de um representante do governo dos EUA em sua equipe de transição, caso vença a eleição. Seria entregar para uma nação estrangeira todas as informações sensíveis do país em todos os setores estratégicos. Lula foi mais direto ao se referir às riquezas de terras raras e outros mineiras brasileiros.

Disse que, “a depender de quem vocês elejam, vão entregar tudo”. Se o petista não conseguiu virar votos, pelo menos, muitos saíram dali comentando que estão dispostos a pensar melhor até o dia 4 de outubro. Afinal, ali, o discurso da soberania teve algum apelo. Também chamou a atenção o fato de Lula ter dito que, em relação aos escândalos recentes do país, é preciso investigar tudo, doa a quem doer, algo que levou muitos a refletir sobre a reunião do então presidente Jair Bolsonaro com seus ministros, em que o capitão disse que não deixaria perseguir sua família ou aliados.

Contras

Se tem algo que deixa o empresariado reticente ao presidente Lula é a questão fiscal. Embora eles saibam que o Banco Central é independente — ou seja, Lula não tem varinha mágica para baixar os juros —, os empresários esperavam que o chefe do Executivo e seus ministros fossem mais contundentes a respeito de novas regras fiscais. Lula, porém, lembrou que isso era obrigação de qualquer governante e não um diferencial. Nesse ponto, conforme a leitura de muitos empresários, foi mais do mesmo.

Efeito Dilma I

A escolha de dois senadores tem deixado os partidos praticamente no escuro. Ninguém tira da cabeça o que houve com a ex-presidente Dilma Rousseff, em 2018. Candidata ao Senado em Minas Gerais, Dilma estava muito bem posicionada nas pesquisas de intenção de voto e terminou em quarto lugar. É que todas as pesquisas para o Senado, quando são dois votos, têm dificuldade de captar a vontade do eleitor, que, conforme o leitor da coluna já sabe, deixa para escolher a segunda vaga no último dia.

Efeito Dilma II

Essa preocupação está na cabeça de quem concorre por Minas Gerais, onde a candidata Marília Campos (PT) lidera as pesquisas, com 13% na última rodada da Quaest, mas é seguida de perto por Aécio Neves (PSDB), Carlos Viana (PSD) e Domingos Sávio (PL), todos com 10%. Considerando a margem de erro de cinco pontos percentuais, ainda tem Marcelo Aro (PP), que está com 6% e não pode ser considerado carta fora do baralho.

O tema dos bastidores

O que mais se comentou no encontro de Lula com o empresariado foi a questão das bets. Todos queriam saber de perto as projeções do governo. Em rodas de conversa, os ministros tratavam de explicar que há muito tempo o presidente já se mostrava indignado com a jogatina virtual.

O ingresso do jogo agradou

Os aliados de Lula — e até parte dos adversários — comemoram a entrada das bets na campanha eleitoral. Num país em que as pessoas se deixam levar pelas redes sociais e os temas são voláteis, esse assunto tirou os holofotes do caso Master e do INSS, escândalos que desgastam Lula e Flávio Bolsonaro. Lula, por causa do filho, Lulinha, e as suspeitas sobre o INSS e uma lobista. Já Flávio é o candidato a presidente que pediu dinheiro e voou no avião de Daniel Vorcaro, o banqueiro que se sustentou com dinheiro oriundo dos fundos de pensão e do BRB.

CURTIDAS

Perfume de poder

Cresce a cada dia o número de candidatos pedindo evento com a governadora Celina Leão no Distrito Federal. Sinal de que sentem que ela é capaz de agregar votos. Em política, o maior sinal de que um candidato majoritário tem dificuldades de vitória é o sumiço dos aliados.

Em casa

Quem se sentiu em casa no encontro com o empresariado foi o vice-presidente candidato, Geraldo Alckmin. Afinal, ali, muitos deles fizeram campanha para Alckmin, quando ele concorreu a governador de São Paulo pelo PSDB. Aliás, por lá apareceram uma filha de Fernando Henrique Cardoso e um filho de Franco Montoro, uma forma de mostrar amplitude na campanha petista.

Por falar em amplitude…/ Não foi apenas o PT que fez questão de se mostrar amplo, Camila Camargo, que comanda o think tank Esfera e foi uma das anfitriãs do encontro de Lula com o empresariado, foi direta ao dizer que “os associados do Esfera não são só a Faria Lima. São a indústria, o varejo, os serviços e também os maiores bancos do país”. Completou reforçando que o Esfera é apartidário e dialoga com todos os que desejam ouvir o setor produtivo. Na introdução, lembrou que, há quatro anos, Lula perguntava aos empresários o que eles fariam se fossem presidente e ouviu mais em vez de falar. Agora, indagou Camila: “Hoje, os empresários perguntam, o que o maior vencedor de eleições da Nova República tem a dizer a quem investe, arrisca, emprega, paga impostos e ainda sonha com um país melhor?”

Elogios

Camila fez questão de lembrar o discurso do presidente na ONU e fez também um alerta suave, mas incisivo a Lula: “Na ONU, lembrou ao mundo que a guerra é a falência da politica. O respeito da comunidade internacional pelo Brasil segue alto e isso é mérito seu. Mas o cenário externo e interno pedem cuidado e é por isso que essa conversa é importante”.

Eles tinham outro nome

Nos bastidores, antes da chegada de Lula, um empresário paulista comentava com outro que, se o Flávio (Bolsonaro), que tem muito o que explicar e zero experiência de gestão pública, está empatando com Lula, se fosse o Tarcísio, o risco de vitória da oposição no primeiro turno era grande. Referiam-se ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Pelo menos, se dependesse da seleta plateia que Lula tenta conquistar no seleto grupo que tende a votar na oposição.