Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
jornalistacircecunha@gmail.com
instagram.com/vistolidoeouvido

Nunca foi uma boa ideia pular etapas. Essa é uma verdade simples, quase banal, mas que a política insiste em ignorar com frequência. A história, quando observada sem paixões, mostra que os atalhos, sobretudo na condução do poder, raramente terminam bem. Convém começar pelo óbvio. Experiência importa. Em qualquer atividade humana minimamente complexa, a progressão natural aprender, testar, errar, corrigir é o que permite maturidade de decisão. Ninguém entrega a direção de uma empresa bilionária a quem nunca administrou sequer um pequeno negócio. Ou não deveria entregar. Na política, porém, essa lógica elementar é frequentemente ignorada. Quando se fala em cargos como o de presidente da República, não se trata apenas de ocupar uma cadeira. Trata-se de conduzir um país com milhões de habitantes, uma máquina pública gigantesca e uma economia cheia de fragilidades. Exige-se, portanto, mais do que discurso.
Ao longo da história, exemplos não faltam. Líderes que ascenderam rapidamente, sem a devida experiência administrativa ou política, frequentemente enfrentaram dificuldades para lidar com a complexidade do poder. Em muitos casos, recorreram a improvisos, cercaram-se de assessorias frágeis ou tomaram decisões erráticas.
Por outro lado, há casos de líderes que percorreram etapas mais longas — governos locais, cargos legislativos, funções executivas intermediárias — e chegaram ao topo com uma bagagem mais sólida. Isso não garante sucesso automático, mas oferece instrumentos melhores para enfrentar a realidade. Governar, afinal, não é teoria. É prática acumulada ao longo dos anos. O problema agrava-se quando o eleitorado, movido por frustração ou esperança imediata, passa a enxergar o “novo” como solução automática. O discurso de ruptura, muitas vezes sedutor, pode esconder a ausência de preparo. A promessa de fazer diferente não substitui a capacidade de fazer funcionar. E, nesse momento, escolher certo com quem trabalhar é crucial.
Os custos são muitos quando governar torna-se uma aventura. Custos administrativos, quando decisões mal calibradas geram desperdícios ou paralisia. Custos econômicos, quando políticas mal formuladas afetam investimentos e crescimento. Custos institucionais, quando a falta de experiência leva a conflitos desnecessários entre Poderes ou a uma leitura equivocada das regras do jogo.
Diria o filósofo de Mondubim: nunca colocar os carros adiante dos bois. Esse é o princípio da organização. Da mesma forma, “não começar uma casa pela cumeeira” traduz a ideia de que toda construção — física ou institucional — exige base sólida e prática.
Outro ponto importante diz respeito à própria cultura política. Em democracias mais consolidadas, é comum que lideranças nacionais tenham passado por diferentes níveis de governo ou por longas carreiras legislativas. Isso cria um filtro natural em que competências são testadas ao longo do tempo. Quando esse filtro é ignorado, abre-se espaço para ciclos de entusiasmo e frustração. A cada nova aposta em soluções rápidas, repete-se o padrão: expectativas elevadas, dificuldades na execução e, por fim, decepção. O resultado de todo esse processo é a perda de tempo. Um passo para frente e dez para trás.
A política, quando bem exercida, deveria ser o espaço em que a responsabilidade se sobrepõe à improvisação. Onde o acúmulo de conhecimento orienta decisões. Onde o poder não é um experimento, mas uma continuidade de aprendizado. E, como a História também ensina, repetir erros conhecidos raramente leva a resultados diferentes. Expertise política não é saber dobrar os oponentes pela força do poder ou do dinheiro, ou pela lábia e verborragia, mas agir conforme indica o bom senso e o norte que aponta sempre para o cumprimento dos direitos fundamentais e obrigações do Estado como previsto na Constituição.
A frase que foi pronunciada:
“Uma marca infalível do amor à verdade é não aceitar nenhuma proposição com maior certeza do que as provas em que ela se baseia podem garantir.”
John Locke

História de Brasília
O ministro Ari Franco, que mora em Brasília, onde funciona seu tribunal, endereçou ao sr. Armando Monteiro o seguinte telegrama: “Agradeço V. Exa. convite para assistir posse Comissão Nacional Reforma Agrária dia 14 corrente, salão nobre êsse Ministério Rio de Janeiro. Esclareço Vossência porém não poderia comparecer uma vez que resido em Brasília onde funcionam o Tribunal Superior Eleitoral, órgão que presido, e o Supremo Tribunal Federal, do qual sou um dos juízes. Cordiais saudações. Ari Franco”. (Publicada em 18/5/1962)





