Hipertrofismo do Judiciário compromete a futura governabilidade e o equilíbrio da República

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Você não precisa ser nenhum vidente em predições do futuro. Além disso, não precisa ser um embasado especialista em ciências políticas para antever o cenário. Caso o futuro presidente não esteja devidamente alinhado ideologicamente com a maioria dos ministros do Supremo, governar será um exercício demasiadamente estressante. De fato, haverá impossibilidades reais de mando no Poder Executivo. O visível hipertrofismo do Judiciário molda hoje os rumos do país.

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Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense

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O hipertrofismo do Judiciário nas eleições

Tais são as seguidas interferências dessa corte desde o início da campanha. Por conseguinte, a situação toda tem levado a maioria da população a entender algo grave. O Supremo tornou-se o principal personagem dessas eleições. Dessa forma, a corte possui mais protagonismo do que os próprios candidatos.

Por conseguinte, as evidências mostram um nítido hipertrofismo do Judiciário entre os poderes da República. Isso, mesmo na visão mais otimista dos constitucionalistas, não deverá acabar bem. Pesquisas do Instituto AtlasIntel apontam que mais de 51% dos eleitores percebem uma interferência excessiva do STF na política nacional.

“A Suprema Corte não pode agir como um poder político alternativo, sob pena de esvaziar a vontade das urnas.” — Prof. Ives Gandra Martins, jurista e constitucionalista

Com isso, fica mais uma vez constatado o antigo dizer popular. Um homem ou grupo só mostra seu caráter por completo quando recebe poder sobre outros indivíduos. Não há garantias para quem quer que seja diante de uma situação como essa. Ou seja, indivíduos ou um pequeno grupo se arvoram em ditar os rumos nacionais. A grande maioria das pessoas sequer lhes concedeu poder para tal tarefa.

O avanço do STF e a incerteza do futuro

Portanto, não chega a ser exagero afirmar que toda uma nação segue tateando no escuro. O país espera uma saída para essa situação surreal. O cenário atingiu os píncaros da excentricidade institucional.

Em contrapartida, o que há hoje é um medo profundo diante do futuro. Não há dúvidas de que caminhamos para um processo de ruptura. Isto ocorrerá se nada for feito para libertar a nação deste verdadeiro labirinto do Minotauro.

Dados do Anuário da Justiça indicam que o STF julga mais de 80 mil processos por ano. Esse volume contrasta drasticamente com a Suprema Corte dos Estados Unidos, que analisa cerca de 80 casos anualmente. Consequentemente, essa hiperatividade gera um volume colossal de intervenções nas decisões do Congresso e da Presidência.

A quebra do sistema de freios e contrapesos

A origem dessa encruzilhada reside no paulatino desmanche do arranjo tripartite concebido para equilibrar a República. O sistema originalmente deveria funcionar como uma engrenagem de freios e contrapesos. No entanto, transformou-se em uma balança viciada.

Nessa nova estrutura, um único prato acumula o peso da caneta, da interpretação final e da execução sumária de decisões. O cidadão comum, ao se dirigir às urnas, nutre a ilusão de estar escolhendo os diretores do país. Contudo, ele assiste à anulação sistemática de prerrogativas dos outros Poderes por expedientes canetados em gabinetes fechados. Assim, ele descobre que o sufrágio universal virou uma formalidade decorativa.

“O Judiciário é o guardião da Carta Magna, mas não pode se tornar seu único autor e intérprete absoluto.” — Ministro Marco Aurélio Mello, ex-vice-presidente do STF

A ascensão da oligarquia togada no Brasil

Esse agigantamento não ocorre por acaso. Ao contrário, resulta de uma ocupação progressiva de espaços que a própria classe política deixou abertos. A classe política, fragilizada e acuada por inquéritos, recuou sucessivamente.

O resultado direto é a consolidação de uma oligarquia togada. Essa casta não presta contas a ninguém e tampouco submete seus integrantes ao crivo das urnas. Da mesma forma, esse grupo não padece dos riscos da rejeição popular.

Quando o julgamento técnico cede lugar à militância política travestida de direito, a lei deixa de ser um porto seguro. Em vez disso, transforma-se em uma teia tecida para enredar adversários e blindar aliados. Criou-se um estado de exceção permanente sob o pretexto de defesa das instituições. Nesse ambiente, a própria Constituição é rasgada em nome de sua suposta proteção.

A vassalagem institucional do Poder Executivo

Sob essa ótica, o exercício do cargo do próximo governante não passará de uma vassalagem institucional. O hipertrofismo do Judiciário inviabilizará a governabilidade diária.

Qualquer plano de governo e qualquer diretriz aprovada pelo voto popular sofrerão bloqueios. Da mesma maneira, qualquer medida provisória desenhada na esplanada dos ministérios correrá o risco diário de engavetamento. Bastará uma decisão individual de um único magistrado para paralisar o país.

       CONGRESSO NACIONAL           PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
      (Propostas e Leis)               (Atos Executivos)
               │                               │
               └───────────────┬───────────────┘
                               │
                               ▼
                   SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
             (Decisões Monocráticas & Veto Final)
                               │
                               ▼
                  PARALISIA ADMINISTRATIVA

Instala-se, assim, a paralisia administrativa plena. Governar deixa de ser a busca pela concretização de promessas de campanha. Torna-se, em vez disso, uma maratona humilhante de pedidos de vênia. O chefe do Executivo operará sob a constante espada de Dâmocles de um processo ou de uma cassação iminente.

“Governar tornou-se um ato de permanente negociação cautelar com o STF, onde o mandato popular perdeu sua força originária.” — Declaração recorrente em debates da campanha presidencial de 2022

O esgotamento do contrato social brasileiro

É preciso encarar sem rodeios a extrema gravidade do momento. Nenhuma sociedade prospera ou se mantém coesa quando a imprevisibilidade jurídica vira norma. Ademais, uma nação degrada-se quando a vontade soberana do povo é substituída pelo arbítrio de um punhado de iluminados.

O sentimento de desamparo que hoje ecoa das ruas não nasce de histeria coletiva. Pelo contrário, surge da constatação direta de que o contrato social foi quebrado unilateralmente. A nação foi empurrada para um beco sem saída.

O país tornou-se refém de um ecossistema punitivo e sufocante. Esse modelo restringe a liberdade de expressão, atropela o devido processo legal e trata qualquer discordância como ameaça à ordem constitucional.

Os caminhos para restaurar os limites constitucionais

O desfecho dessa crise não virá do conformismo ou da passividade. As ilegalidades não podem continuar sendo naturalizadas pela sociedade civil.

Se as lideranças políticas continuarem anestesiadas, a ruína das liberdades individuais será inevitável. Aceitar o papel de meras espectadoras dessa usurpação de poder custará caro ao país.

     1. Fim das decisões monocráticas sobre leis federais
2. Fixação de mandatos por tempo determinado no STF
3. Respeito estrito ao devido processo legal





A frase que foi pronunciada:
“Ditadores não têm interesse em permitir eleições que possam destituí-los do poder.”
Gene Sharp


História de Brasília
A pena de tudo isto é, ainda, porque Claudionor Machado é ex-pracinha, tem medalha de campanha, e o presidente do IAPB não hesitou em jogá-lo na rua. É uma injustiça que o Ministro da Guerra bem poderia corrigir em despacho com o presidente da República. Há decreto amparando os ex-combatentes. ( Publicada em 26.05.1962)

A Areia Movediça da República: A Polarização Política no Brasil e o Esgotamento Institucional

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A imagem ilustra a metáfora da "Areia Movediça da República", mostrando as instituições e a sociedade civil afundando em meio ao caos gerado pela polarização política e pela desinformação.

Se você ainda não rompeu com amigos ou familiares por motivos eleitorais, aproveite este momento. Portanto, o tempo para a sanidade prevalecer parece escasso. Antigamente, tal afirmação soaria como um exagero retórico. Hoje, no entanto, ela retrata um cenário surreal de antagonismo na sociedade contemporânea. A polarização política no Brasil tensiona o tecido social ao limite. Dessa forma, uma lógica binária elimina qualquer chance de diálogo ou consenso. Segundo pesquisas recentes do Datafolha, cerca de 82% dos brasileiros relatam desgaste nas relações pessoais devido a divergências ideológicas.

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A Origem da Polarização Política no Brasil: Dividir para Dominar

Quem observa a história reconhece a raiz desse fenômeno social. Trata-se da antiga estratégia de poder: dividir para dominar. Infelizmente, essa tática funciona com precisão matemática para impedir a pacificação nacional.

Ao longo da última década, os atores políticos cultivaram a discórdia no país. Assim, transformaram o mote “nós contra eles” em uma verdadeira ferramenta ideológica de controle.

Consequentemente, espalhou-se a ideia de que o adversário político é um inimigo. Não o tratam mais como um concidadão com ideias divergentes sobre o Estado. A meta virou extirpar o opositor da praça pública.

Desde então, a situação desandou completamente no cenário nacional. A retórica inflamada de palanque ganhou corpo de gigante. Por conseguinte, algoritmos e câmaras de eco alimentam esse monstro diariamente. Hoje, a polarização política no Brasil ameaça desabar sobre as instituições a cada novo ciclo eleitoral.

Redes Sociais, Fake News e a Guerra de Narrativas

Atualmente, habitamos um mundo dominado pela ameaça das notícias falsas (fake news). Além disso, enfrentamos uma constante guerra de narrativas no espaço público.

As bolhas ideológicas relativizam o conceito de verdade. Por isso, os fatos objetivos perdem relevância diante de crenças pré-estabelecidas. Dados do Digital News Report do Reuters Institute revelam que 63% dos brasileiros declaram preocupação constante com a desinformação online.

Portanto, a desinformação não representa um mero acidente de percurso. Ela funciona como um modelo de negócios rentável e uma arma de engenharia social.

Neste ecossistema incerto, até os termômetros da nossa democracia falham. Os institutos de pesquisa de opinião encontram sérias dificuldades metodológicas. Por exemplo, eles não capturam com precisão o eleitor escondido. De forma idêntica, sofrem bombardeios sistemáticos contra sua credibilidade.

Assim, a sociedade sente uma vertigem constante. Caminhamos diariamente sobre areia movediça. Em suma, nenhum dado parece sólido para sustentar um debate racional na política brasileira.

A Crise Institucional e a Fadiga Anticorrupção

Nos salões do poder, os líderes travam batalhas retóricas de curto prazo. Contudo, eles esquecem que a base da pirâmide social atingiu seu limite.

A sociedade civil sente exaustão após sucessivas décadas de escândalos de corrupção. A impunidade sempre marcou a formação estatal brasileira. No entanto, o combate à corrupção trouxe reveses históricos em um passado recente. Com efeito, o cidadão alimentou a esperança de ver a lei aplicada a todos.

Todavia, as reviravoltas dramáticas levaram a população ao desespero. Diante da desilusão com o Executivo e o Legislativo, o cidadão busca o Poder Judiciário. A população esperava encontrar no Judiciário um bastião de moralidade e ordem.

Infelizmente, a crise de credibilidade também tragou a última fronteira de segurança institucional. Esse cenário aprofunda ainda mais a polarização política no Brasil.

Os Três Pilares da Vertigem Social

  • Efeito da Desinformação: O Brasil lidera índices globais de uso de redes sociais. Desse modo, o país virou terreno fértil para campanhas de desconstrução de reputações e criação de realidades paralelas.
  • Fadiga Anticorrupção: O país assistiu a um retrocesso sistemático após prisões de figuras poderosas. Como resultado, gerou-se um profundo cinismo na população quanto à eficácia da lei.
  • Insegurança Jurídica: Mudanças repentinas de jurisprudência nos tribunais superiores criam um ambiente imprevisível. Consequentemente, afastam o capital social e a confiança mútua na sociedade.

O Desmonte Institucional e a Erosão da Confiança

Juristas independentes e editoriais jornalísticos alertaram sobre essa crise. Afinal, o que começa mal não pode terminar bem.

Atualmente, assistimos a um desmonte institucional promovido pelos próprios guardiões da estabilidade. Ocorreram descondenações surpreendentes e anulações de processos por questionamentos territoriais tardios. Da mesma forma, chicanas jurídicas afrontaram o senso comum de justiça. Por conseguinte, a espinha dorsal da confiança nas instituições sofreu uma fratura exposta.

Os cidadãos comuns pagam impostos altos e cumprem a lei rigorosamente. Todavia, eles não contam com bancas milionárias de advogados. Por isso, essas manobras jurídicas transmitem uma mensagem letal à sociedade. Fica a impressão de que os donos do poder moldam as regras do jogo conforme sua conveniência.

Quando o povo desacredita da imparcialidade do árbitro, o jogo democrático perde o sentido. Em consequência, abre-se espaço para a barbárie, para o radicalismo e para o desgaste do sistema republicano.

Portanto, a sensação de irrealidade não surge do nada. Ela reflete decisões judiciais e discursos desconectados da realidade nacional. Colhemos agora a tempestade de ventos semeados por décadas de permissividade, agravados pela pós-verdade digital.

A frase que foi pronunciada:

“Ao invés de uma festa cívica, estamos passando por momento de imenso perigo para a normalidade democrática, com risco às instituições da República”

Carta em Defesa da Democracia e pelo sistema eleitoral, divulgada pela Faculdade de Direito da USP, em 11 de agosto de 2022

História de Brasília

A mais bela superquadra de Brasília, ninguém pode negar, é a do IAPB. E principalmente por causa dos jardins. Pois bem. Um dos homens que fez aqueles jardins, depois de nos deliciar com seu trabalho, acaba de ser demitido.

(Publicada em 26.05.1962)

A imprensa responsável

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Foto: ©Freepick

 

A relação entre imprensa e democracia é objeto recorrente de análise em estudos institucionais, acadêmicos e de organismos internacionais. No caso brasileiro, essa relação insere-se no marco jurídico estabelecido pela Constituição Federal de 1988, que define, em seu artigo 1º, que “todo poder emana do povo”. Esse princípio fundamenta o papel da informação como elemento central para o funcionamento do sistema democrático.

A imprensa é frequentemente caracterizada como mediadora entre instituições e sociedade. Segundo o relatório do Reuters Institute for the Study of Journalism, 56% dos brasileiros concordam que a mídia exerce função de monitoramento do poder, indicador que posiciona o país entre os mais elevados nesse quesito em comparação internacional. Esse dado sugere a percepção da imprensa como mecanismo de fiscalização institucional.

Ao mesmo tempo, indicadores de confiança revelam um cenário de estabilidade em níveis moderados. Em 2025, 42% dos brasileiros declararam confiar nas notícias, percentual considerado próximo à média global. Esse índice representa uma queda acumulada ao longo da última década, associada, segundo o mesmo relatório, a fatores como polarização política e expansão das plataformas digitais.

A transformação tecnológica também alterou os padrões de consumo de informação. Cerca de 78% da população brasileira utiliza a internet como principal meio de acesso a notícias, enquanto apenas 10% recorrem a jornais impressos. Além disso, aproximadamente 65% dos entrevistados afirmam obter informações por meio de redes sociais e plataformas digitais. Esse deslocamento evidencia uma mudança estrutural no ecossistema informacional.

No plano internacional, a liberdade de imprensa é frequentemente utilizada como indicador de qualidade democrática. O Brasil ocupa posições intermediárias em rankings globais, como o da organização Repórteres Sem Fronteiras, que avalia condições estruturais, independência editorial e segurança dos profissionais. Esses indicadores são utilizados como referência comparativa entre diferentes sistemas políticos.

A literatura especializada também destaca a concentração de propriedade como fator relevante para análise do sistema midiático. Estudos do Banco Mundial e da OCDE apontam que a diversidade de fontes é um dos elementos associados à pluralidade informativa, embora não haja consenso sobre modelos ideais de regulação.

No ambiente digital, pesquisadores têm observado mudanças nos critérios de circulação de conteúdo. De acordo com o Reuters Institute, plataformas on-line tendem a priorizar conteúdos com maior potencial de engajamento, o que influencia a visibilidade de determinadas informações em detrimento de outras. Esse fenômeno tem sido relacionado à velocidade de disseminação de conteúdos não verificados.

A discussão sobre imparcialidade também aparece em estudos teóricos sobre jornalismo. O pesquisador Nic Newman afirma que “a confiança nas notícias está ligada à percepção de independência e transparência das organizações jornalísticas”, destacando a relação entre credibilidade e práticas editoriais.

No contexto brasileiro, a percepção de independência da mídia apresenta níveis mais baixos. Apenas 27% dos entrevistados consideram que os meios de comunicação são independentes de influências políticas ou econômicas. Esse dado indica um grau de ceticismo em relação à autonomia editorial.

A atuação da imprensa também é frequentemente associada ao conceito de “esfera pública”, desenvolvido por Jürgen Habermas, que define o espaço de debate como elemento central das democracias modernas. Nesse modelo, a circulação de informações confiáveis é considerada condição para a formação de opinião pública.

Em síntese, os dados disponíveis indicam que a imprensa no Brasil opera em um ambiente caracterizado por transformação tecnológica, níveis moderados de confiança e desafios relacionados à percepção de independência. O papel da mídia como mediadora entre sociedade e instituições permanece presente nos indicadores, ao mesmo tempo em que novas dinâmicas de produção e circulação de informação alteram a forma como esse papel é exercido.

 

A frase que foi pronunciada:
“Imprensa se combate com imprensa.”
D. Pedro II

D. Pedro II. Foto: Instituto Moreira Salles

 

Cratera
Na L2 Norte, sentido sul/norte, entre as quadras 11/12, um bueiro fundo acaba com os pneus, os amortecedores e as finanças dos motoristas desavisados. O impacto é grande. Vale a presença e solução do GDF.

 

História de Brasília
Brasília está para perder um bom amigo, embora que por pouco tempo. O sr. Hermes Lima viajará para o Rio, donde voltará senador pela Guanabara na próxima legislatura. (Publicada em 18/5/1962)

O caminho natural das coisas

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Cartunista: Adão Iturrusgarai

 

Nunca foi uma boa ideia pular etapas. Essa é uma verdade simples, quase banal, mas que a política insiste em ignorar com frequência. A história, quando observada sem paixões, mostra que os atalhos, sobretudo na condução do poder, raramente terminam bem. Convém começar pelo óbvio. Experiência importa. Em qualquer atividade humana minimamente complexa, a progressão natural aprender, testar, errar, corrigir é o que permite maturidade de decisão. Ninguém entrega a direção de uma empresa bilionária a quem nunca administrou sequer um pequeno negócio. Ou não deveria entregar. Na política, porém, essa lógica elementar é frequentemente ignorada. Quando se fala em cargos como o de presidente da República, não se trata apenas de ocupar uma cadeira. Trata-se de conduzir um país com milhões de habitantes, uma máquina pública gigantesca e uma economia cheia de fragilidades. Exige-se, portanto, mais do que discurso.

Ao longo da história, exemplos não faltam. Líderes que ascenderam rapidamente, sem a devida experiência administrativa ou política, frequentemente enfrentaram dificuldades para lidar com a complexidade do poder. Em muitos casos, recorreram a improvisos, cercaram-se de assessorias frágeis ou tomaram decisões erráticas.

Por outro lado, há casos de líderes que percorreram etapas mais longas — governos locais, cargos legislativos, funções executivas intermediárias — e chegaram ao topo com uma bagagem mais sólida. Isso não garante sucesso automático, mas oferece instrumentos melhores para enfrentar a realidade. Governar, afinal, não é teoria. É prática acumulada ao longo dos anos. O problema agrava-se quando o eleitorado, movido por frustração ou esperança imediata, passa a enxergar o “novo” como solução automática. O discurso de ruptura, muitas vezes sedutor, pode esconder a ausência de preparo. A promessa de fazer diferente não substitui a capacidade de fazer funcionar. E, nesse momento, escolher certo com quem trabalhar é crucial.

Os custos são muitos quando governar torna-se uma aventura. Custos administrativos, quando decisões mal calibradas geram desperdícios ou paralisia. Custos econômicos, quando políticas mal formuladas afetam investimentos e crescimento. Custos institucionais, quando a falta de experiência leva a conflitos desnecessários entre Poderes ou a uma leitura equivocada das regras do jogo.

Diria o filósofo de Mondubim: nunca colocar os carros adiante dos bois. Esse é o princípio da organização. Da mesma forma, “não começar uma casa pela cumeeira” traduz a ideia de que toda construção — física ou institucional — exige base sólida e prática.

Outro ponto importante diz respeito à própria cultura política. Em democracias mais consolidadas, é comum que lideranças nacionais tenham passado por diferentes níveis de governo ou por longas carreiras legislativas. Isso cria um filtro natural em que competências são testadas ao longo do tempo. Quando esse filtro é ignorado, abre-se espaço para ciclos de entusiasmo e frustração. A cada nova aposta em soluções rápidas, repete-se o padrão: expectativas elevadas, dificuldades na execução e, por fim, decepção. O resultado de todo esse processo é a perda de tempo. Um passo para frente e dez para trás.

A política, quando bem exercida, deveria ser o espaço em que a responsabilidade se sobrepõe à improvisação. Onde o acúmulo de conhecimento orienta decisões. Onde o poder não é um experimento, mas uma continuidade de aprendizado. E, como a História também ensina, repetir erros conhecidos raramente leva a resultados diferentes. Expertise política não é saber dobrar os oponentes pela força do poder ou do dinheiro, ou pela lábia e verborragia, mas agir conforme indica o bom senso e o norte que aponta sempre para o cumprimento dos direitos fundamentais e obrigações do Estado como previsto na Constituição.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Uma marca infalível do amor à verdade é não aceitar nenhuma proposição com maior certeza do que as provas em que ela se baseia podem garantir.”
John Locke

Retrato de John Locke, de Sr. Godfrey Kneller. Fonte: Coleção de Sr. Robert Walpole, Houghton Hall, 1779.

 

História de Brasília
O ministro Ari Franco, que mora em Brasília, onde funciona seu tribunal, endereçou ao sr. Armando Monteiro o seguinte telegrama: “Agradeço V. Exa. convite para assistir posse Comissão Nacional Reforma Agrária dia 14 corrente, salão nobre êsse Ministério Rio de Janeiro. Esclareço Vossência porém não poderia comparecer uma vez que resido em Brasília onde funcionam o Tribunal Superior Eleitoral, órgão que presido, e o Supremo Tribunal Federal, do qual sou um dos juízes. Cordiais saudações. Ari Franco”. (Publicada em 18/5/1962)

Fantasmas

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Walter Lippmann. Foto: Los Angeles Times/Wikimedia Commons

Não são poucos os historiadores que concordam com a máxima de que “o povo, em história, é uma porção de ninguém”. No livro The phantom public (O público imaginário), do jornalista Walter Lippmann, publicado em 1925 e que se firmou como uma obra clássica, esse tema volta com força total. No livro, Lippmann afirma que o público, nas democracias de massas, é não só uma ilusão, como é um mito e um fantasma. O motivo, segundo ele, é que o cidadão comum não consegue compreender a complexidade dos eventos políticos, vivendo em um “pseudo-ambiente de narrativas fabricadas”. Da mesma forma, a capacidade do público de vir a intervir diretamente na gestão pública é, para o autor, bastante questionável. “O público vê o governo como um problema técnico-administrativo, não como uma deliberação democrática constante”. Mesmo o eleitor é visto como uma espécie de espectador impotente.

Apesar da visão pessimista, o livro se tornou um pilar da teoria política e, mais incrível, parece descrever a sociedade atual, hiperconectada e, ao mesmo tempo, longe da realidade. De fato, o diagnóstico formulado por Walter Lippmann permanece inquietantemente nos dias atuais. O que parecia um alerta teórico do início do século 20 tornou-se, no século 21, uma descrição empírica do cotidiano político global. A premissa de Lippmann não é que o povo seja irrelevante, mas que sua participação efetiva é mediada por filtros que condensam complexidades em símbolos manejáveis. Em seu tempo, esses filtros eram jornais, líderes partidários e campanhas impressas; hoje, são plataformas digitais, algoritmos e máquinas de comunicação política capazes de segmentar audiências com precisão cirúrgica.

A promessa de hiperconexão ampliou o acesso à informação, mas não eliminou a assimetria cognitiva entre a complexidade dos sistemas políticos e a capacidade individual de compreendê-los em profundidade. Ao contrário, a multiplicação de estímulos e a velocidade da circulação de conteúdos intensificaram o fenômeno que Lippmann descreveu: a opinião pública formada por imagens e slogans.

Essa dinâmica não é neutra. Governos, movimentos e corporações aprenderam a operar no nível simbólico com notável eficácia. O caso da britânica Cambridge Analytica tornou-se emblemático ao revelar o potencial de microssegmentação comportamental no direcionamento de mensagens políticas. A lógica é simples e poderosa: em vez de persuadir um público homogêneo, molda-se a narrativa para perfis psicológicos específicos, reforçando predisposições e atenuando dissonâncias. O cidadão deixa de ser interpelado como participante de uma esfera pública comum e passa a ser tratado como um conjunto de traços comportamentais, suscetível a estímulos personalizados. O resultado é uma opinião pública fragmentada, na qual consensos são mais difíceis, e percepções divergentes coexistem sem diálogo efetivo.

Temos exemplos eloquentes de lideranças que exploram esse terreno simbólico. A comunicação direta por redes sociais, adotada por figuras da política, redefiniu a mediação tradicional da imprensa. Ao falar “sem intermediários”, o líder parece reduzir a distância entre governante e governado. Na prática, porém, estabelece um circuito de mensagens de alto impacto emocional, com forte capacidade de mobilização identitária. A política torna-se espetáculo contínuo, no qual a verificação factual perde espaço para a adesão afetiva. O público, nesse cenário, oscila entre plateia e tropa, reagindo a estímulos que organizam o mundo em narrativas morais simples.

No Brasil, essa lógica encontra terreno fértil em um histórico de desconfiança institucional e desigualdades informacionais. Quando a realidade administrativa, complexa por natureza, é traduzida em enredos de fácil assimilação, a deliberação pública tende a ceder lugar à performance política. O debate sobre políticas públicas passa a ser substituído por disputas de enquadramento: quem define a narrativa, define o campo do possível. A consequência é a redução do cidadão a um papel reativo, convocado a aplaudir ou rejeitar, raramente a deliberar com base em informações completas.

O “fantasma” de Lippmann não é a ausência do povo, mas sua presença esvaziada de agência substantiva. Obras posteriores aprofundaram esse diagnóstico. A tradição crítica que analisa propaganda, fabricação do consenso e economia da atenção converge para a ideia de que a esfera pública é um espaço disputado por atores com capacidades desiguais de produzir visibilidade. Em ambientes digitais, essa disputa é intensificada por métricas de engajamento que privilegiam o conteúdo mais polarizador. A arquitetura das plataformas incentiva a simplificação e a dramatização, reforçando bolhas de percepção. Assim, o pseudo-ambiente não é apenas um subproduto da mediação; ele se torna um ecossistema autônomo, com regras próprias de relevância e circulação.

Governos que dominam essa gramática simbólica conseguem governar também no plano das percepções. Políticas complexas podem ser apresentadas como soluções instantâneas; fracassos podem ser reconfigurados como vitórias narrativas; opositores podem ser reduzidos a caricaturas. O risco, como advertia Lippmann, é que a política deixe de ser um processo de deliberação informada para se tornar um teatro de representações no qual o público participa como espectador mobilizado. Isso não implica fatalismo. Onde a realidade é substituída por imagens convenientes, a cidadania torna-se um simulacro. Recuperar sua densidade é o imperativo que define o futuro das democracias.

 

A frase que foi pronunciada:

“Eu não troco a justiça pela soberba. Eu não deixo o direito pela força. Eu não esqueço a fraternidade pela tolerância. Eu não substituo a fé pela superstição, a realidade pelo ídolo.”
Rui Barbosa

Foto: academia.org

 

História de Brasília

Dos depoimentos na Comissão de Inquérito da Novacap, a imprensa teve notícia somente do que foi feito pelo deputado Ademar da Costa Carvalho, e isso mesmo porque êle desfruta de imunidade parlamentar. (Publicada em 15/5/1962)

Quando o enredo se reescreve com novas máscaras

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Imagem: tribunadoplanalto.com

Parecia que o Brasil atravessava uma dessas horas em que a política deixa de ser apenas disputa institucional e se transforma em atmosfera, em tensão espalhada pelas ruas, em sensação quase física de que algo, no centro do poder, se aproximava de um ponto irreversível. Aconteceu na capital federal, que era apenas um palco condensado de pressões, boatos, reuniões fechadas, sirenes morais e expectativas contraditórias. Mais do que uma instalação que abrigava autoridades, o local convertia-se num símbolo sitiado, cercado por vozes que exigiam, por um lado, a renúncia imediata, e por outro, a permanência obstinada de alguém, que para milhões, ainda representava o Estado protetor e o pai político de uma era.

A crise não surgira do nada, nem era fruto exclusivo de um episódio isolado, embora um evento em si catalisava como faísca em terreno saturado. Poderia ser qualquer evento, mas esse episódio desencadeou um processo de corrosão acelerada. Era a prova do descontrole e violência nos subterrâneos do poder que alimentou a certeza de que o governo havia perdido a legitimidade moral para continuar. A oposição intensificava sua ofensiva, e setores militares, inquietos, falavam abertamente em ruptura, num cenário em que a democracia brasileira, ainda jovem e frágil, parecia sempre caminhar sobre gelo fino.

Naquele dia anterior, os jornais já não escondiam o tom de ultimato. Redações fervilhavam. Repórteres se acotovelavam, tentando captar sinais mínimos, uma janela que se abrisse, um carro oficial que saísse, um ministro que entrasse apressado. Muitos testemunhos posteriores insistiriam na mesma impressão, a de que autoridades estavam tomadas por um silêncio incomum, como se o centro do poder tivesse se tornado uma sala de espera da História. Um funcionário, citado em memórias e entrevistas, descreveu os corredores “mais longos do que nunca”, passos abafados, e a sensação de que ninguém falava alto, como se cada palavra pudesse precipitar um desfecho.

Segundo pessoas próximas, aquela autoridade apresentava-se abatida, mas não derrotada no sentido convencional. Havia nele, como declarou a filha, uma mistura de cansaço e lucidez, a percepção de que não se tratava apenas de um governo em crise, mas de um projeto político sob ataque, e de uma disputa mais ampla sobre o papel do Estado e do povo. Os relatos indicavam que ele passava horas ouvindo relatórios, recebendo auxiliares, conversando com ministros, e recusando-se a aceitar, sem resistência, a ideia de renúncia. A palavra renúncia, ali, não era um gesto administrativo, mas uma capitulação simbólica, e talvez, por isso, parecesse carregar nos ombros não apenas o peso de um mandato, mas o de uma era inteira.

O ambiente militar era particularmente sensível. Generais e oficiais discutiam abertamente a necessidade de afastamento, e circulavam exigências formais para que se retirasse, sob pena de medidas mais duras. Um dos elementos mais dramáticos daquela véspera era precisamente essa suspensão institucional, pois o país não sabia se amanheceria com uma solução negociada, com uma deposição ou com um colapso. A democracia brasileira, naquele instante, parecia depender de conversas noturnas, de telefonemas discretos, de encontros reservados, e essa fragilidade estrutural produzia um medo difuso, sentido tanto nas elites quanto nas ruas.

Nas ruas, contudo, a percepção era ambígua. Não se tratava de um povo uniformemente mobilizado, mas de uma sociedade dividida entre o apoio visceral e o desgaste acumulado. Trabalhadores lembravam as conquistas e o viam como alguém perseguido pelos mesmos setores que sempre resistiram à inclusão. Uma costureira entrevistada anos depois por pesquisadores do período resumiu a emoção popular com simplicidade contundente, “queriam tirar o homem que olhava pelos pobres”. Ao mesmo tempo, setores urbanos de classe média, influenciados pela retórica moralizante da oposição, repetiam que o governo estava cercado de corrupção e violência, e que a permanência seria insustentável.

Foi o jornalista que conviveu de perto que descreveu o clima de tragédia anunciada, como se todos soubessem que a crise já ultrapassara o campo do possível retorno. Relatou que o chefe compreendia a solidão do poder, e que parecia cada vez mais consciente de que seus adversários não buscavam apenas sua saída, mas sua humilhação histórica. Esse componente, frequentemente subestimado, é essencial para entender a atmosfera da véspera, pois o drama não era apenas político, mas profundamente psicológico, um homem acuado não apenas por forças externas, mas por uma narrativa que pretendia transformá-lo em vilão absoluto ou em obstáculo a ser removido.

Claro que os ministros se dividiam. Alguns defendiam a resistência, outros sugeriam concessões, outros, ainda, tentavam construir uma saída intermediária. Mas a própria ideia de saída intermediária parecia evaporar, porque a crise se alimentava de radicalização. A oposição não queria acordos, queria o fim. Parte dos militares não queria transição, queria ruptura. Por sua vez, ele parecia recusar o papel que simplesmente abandona a cadeira sob pressão. O impasse, portanto, não era técnico, era existencial.

Naquela véspera, o Brasil vivia uma espécie de vertigem institucional. As conversas em cafés, os murmúrios nos transportes coletivos, as manchetes, tudo parecia anunciar que o dia seguinte não seria comum. Uma testemunha, citada em crônicas posteriores, disse que “a capital estava com cara de domingo triste”, mesmo sendo dia útil, como se a cidade pressentisse que a política, quando chega ao limite, deixa de ser debate e se torna destino.

O cenário, portanto, era de cerco, não apenas aquela autoridade, mas ao próprio significado do Estado. Era amado e odiado, símbolo e contradição, estava no centro de uma tempestade que misturava moralismo, luta de classes, disputa geopolítica, ressentimentos militares e expectativas populares. Naquele último dia inteiro, antes do fato que mudaria o curso da República, o país parecia suspenso, como se respirasse com dificuldade, aguardando o instante em que a História, impaciente, finalmente se imporia.

Que espécie de obstinação nos impede de olhar para a História e reconhecer nela o aviso necessário para não repetirmos, uma vez mais, os mesmos erros?

Era o dia 24 de agosto de 1954, por volta das 8h30 da manhã. Getúlio Vargas estava no seu quarto no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, então capital do Brasil.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“Não se pode fazer política com o fígado, conservando o rancor e ressentimentos na geladeira. A Pátria não é capanga de idiossincrasias pessoais. É indecoroso fazer política uterina, em benefício de filhos, irmãos e cunhados. O bom político costuma ser mau parente.”

Ulysses Guimarães

Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

 

História de Brasília

Ajuda e Campanha do Cobertor. Há muita criança com frio, sem agasalho, em Brasília. (Publicada em 15.05.1962)

Estado de graça

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Foto: issoebrasil.com

 

A frase segundo a qual o Estado nunca tolerou rivais funciona como chave interpretativa para compreender a forma como se estruturam, historicamente, as relações de poder e a relação do indivíduo com a autoridade pública. Não se trata de mera provocação teórica, mas de uma constatação repetida em diferentes momentos da história ocidental: sempre que o Estado se sente ameaçado ou desafiado pela emergência de instituições independentes, a sua reação imediata é expandir mecanismos de controle, vigilância e regulação. Esse movimento, que vai do monopólio da força à imposição de códigos normativos cada vez mais intrusivos, tende a sufocar a pluralidade institucional que deveria sustentar uma sociedade madura. Sob essa lógica, comunidades locais, igrejas, associações civis, empresas privadas, famílias e até o próprio indivíduo passam a ser vistos como potenciais competidores, e não como componentes essenciais de uma ordem social saudável, capaz de equilibrar liberdades com responsabilidades.

O fenômeno torna-se ainda mais evidente num contexto em que o liberalismo, não como slogan, mas como tradição filosófica e prática de limitação do poder, é tratado com desconfiança ou como inimigo a ser anulado. O liberalismo, com todas as suas limitações e contradições ao longo dos séculos, sempre serviu como barreira contra as tendências expansivas do Estado, oferecendo um conjunto de princípios orientados à proteção da autonomia individual, da propriedade privada, da livre associação e da independência das esferas civil e econômica. Não surpreende, portanto, que regimes ou governos hostis a esses valores tenham promovido, ao longo da história, a concentração de poder em níveis incompatíveis com a convivência democrática. O repertório de adversários é conhecido: mercantilismo, absolutismo, socialismo autoritário, imperialismos de diversas naturezas, protecionismos sufocantes e até práticas moralmente indefensáveis, como a escravidão. Todas essas estruturas, embora distintas entre si, compartilham uma raiz comum: a crença de que o Estado deve prevalecer sobre o cidadão e que a liberdade, quando existe, é concessão, e não direito.

A carga tributária opressiva, que recai especialmente sobre empresas produtivas e famílias, é apenas um dos sintomas mais visíveis desse processo. A cada novo conjunto de normas, decretos ou regulações, o Estado brasileiro reafirma uma tendência crônica de considerar o empreendedor como adversário, e não como parceiro no desenvolvimento nacional. A burocracia sufocante, aliada a um sistema judicial que frequentemente legitima decisões intervencionistas, aprofunda um ambiente de insegurança jurídica que afasta investimentos e desestimula a iniciativa privada. Essa lógica perpetua um ciclo perverso no qual o Estado, incapaz de garantir eficiência mínima em áreas essenciais como saúde, educação, segurança e infraestrutura, insiste, paradoxalmente, em reclamar para si ainda mais funções, mais recursos e mais poder.

Ao mesmo tempo, observa-se, no campo político, um discurso cada vez mais hostil à crítica, à divergência e à própria ideia de oposição. A democracia, para prosperar, exige espaços de contestação, circulação de ideias, pluralidade de vozes e instituições capazes de limitar o poder, sejam elas parlamentares, judiciais, mediáticas ou civis. Quando essas barreiras começam a ser enfraquecidas, seja por meio de estratégias de intimidação, seja pelo uso seletivo de órgãos estatais para fins políticos, instala-se uma atmosfera de medo e autocensura que lembra mais regimes de exceção do que repúblicas democráticas. Esse tipo de ambiente, já alertado por analistas internacionais, acende sinais de alerta sobre a saúde institucional do país e coloca o Brasil no radar de nações preocupadas com o avanço global das tendências liberais.

Não há o que discutir sobre a necessidade de políticas públicas robustas, mas sim a transformação do Estado em um agente que se autopromove a guardião exclusivo do bem-estar social, desconsiderando a importância das redes comunitárias, do capital social e das iniciativas privadas que, em democracias sólidas, colaboram para um equilíbrio saudável entre solidariedade e autonomia.

A preservação de liberdades é a verdadeira base do progresso, da inovação, da justiça e da dignidade humana. Em tempos de crescente preocupação internacional com o risco de deriva autoritária em diversas partes do mundo, reafirma-se a urgência de um debate honesto e profundo sobre os rumos do país. A defesa da liberdade não é uma bandeira partidária, mas um compromisso civilizatório. Ignorá-la, relativizá-la ou subordiná-la a agendas de ocasião é abrir caminho para um Estado que, incapaz de tolerar rivais, passa a considerar seus próprios cidadãos como obstáculos e não como fundamento de sua existência. O futuro democrático do Brasil depende da capacidade de reconhecer esse risco e de reafirmar que a função do Estado é servir, não dominar.

 

A frase que foi pronunciada:

“Eu acreditava muito nos mecanismos governamentais, mas eles têm células cancerígenas que crescem incontrolavelmente. Há algo de doentio na máquina estatal. A experiência de jovem me tornou cético para as reais possibilidades do Estado.”

Roberto Campos

Roberto Campos. Foto: RAIMUNDO VALENTIM/ESTADÃO CONTEÚDO/AE

 

História de Brasília

A Festa do Candango, que alcançou tanto êxito no ano passado será realizada também êste ano, nos dias 29 e 30 de junho e primeiro de julho. O local, como o IAPI está ajardinado, será transferido para o IAPETC. (Publicada em 12.05.1962)

Eleições 2026 em mar revolto

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Charge do Cazo

 

Daqui a um ano, em 4 de outubro de 2026, o país voltará às urnas para um pleito geral que, dificilmente, será um simples ato rotineiro. Na verdade, analistas políticos convergem para a conclusão de que esse será um ano que entrará para a história da democracia brasileira; não por acaso, mas porque um conjunto de variáveis se combina para torná-lo complexo, instável e possivelmente decisivo para os rumos institucionais, sociais e econômicos da nação.

Primeiro, há a extrema polarização política que marca o panorama atual. Já nas eleições municipais de 2024, o país assistiu a um jogo em que o eixo tradicional entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro pareceu perder alguma centralidade ainda que as facções à direita e à esquerda continuem fortíssimas. Segundo a imprensa independente, os resultados deixaram claro que o “centro” político captou força e que o eleitorado busca alternativas, mas não rompeu de vez com a divisão estrutural direita-esquerda.

Debates públicos prometem visibilidade sobre a ausência de um comprovante físico impresso durante as eleições, assunto que alimenta dúvidas sobre auditagem, publicidade e transparência. Segundo a Freedom House, no Brasil, há um “vibrante”, mas também “frágil” debate público, e as armas digitais constituem uma fonte relevante de interferência ou desinformação. Três variáveis merecem destaque especial. Legitimidade e confiança institucional: quando parcela expressiva do eleitorado questiona se as urnas ou a contagem podem ser “auditadas”, o sistema perde força para exercer sua função pacificadora. Estrutura partidária e fragmentação política: com dezenas de partidos, coligações efêmeras, “troca-troca” de partidos por parte dos parlamentares e governabilidade comprometida, cresce a instabilidade e Contexto socioeconômico adverso. O país vive ainda os efeitos da pandemia, a inflação persiste, o desemprego e informalidade são elevados, e o eleitorado está menos disposto ao risco. Um cenário econômico frágil gera maior volatilidade política, e quem confia que o “sistema eleitoral dê conta” tende a reagir com ceticismo.

Dessa conjunção resulta que o pleito de 2026 será menos um rito previsível e mais um momento de inflexão. A polarização não se limitará à direita vs esquerda: haverá disputa por narrativas, por controle da comunicação, por definir quem tem voz e quem se sente excluído.

É nesse contexto que se impõe, com urgência, uma reforma política profunda. Reformar não significa apenas trocar partidos, mas repensar como representamos, como elegemos e como garantimos que o resultado seja aceito por todos e, porque não, como viabilizar o recall do voto dado a quem promete e não cumpre.

Auditoria externa das urnas e contagem pública transparente, se queremos que a paz social dependa da aceitação do resultado, não basta que o TSE e as zonas eleitorais façam tudo “por trás das cortinas”: é preciso que o cidadão e a sociedade possam ver, tocar, entender os mecanismos. Reformar o sistema partidário e as coligações, diminuir a proliferação de partidos, tornar obrigatória a fidelidade partidária, limitar troca-partido pós-eleição; garantir que os partidos assumam compromissos reais perante os eleitores e que não se transformem em meros expedientes de poder. Regular fortemente a propaganda eleitoral digital, redes sociais, uso de IA, micro-segmentação; já vimos que o terreno digital virou campo de batalha, e sem regras claras e fiscalização eficaz os riscos de “efeito caixa preta” e de manipulação se tornam evidentes.

Se o 4 de outubro de 2026 for disputado sob nuvens de dúvida, com contestações à legitimidade em curso, há sério risco de convulsão, não necessariamente de um golpe clássico, mas de erosão lenta da confiança democrática e de crise recorrente pós-eleitoral. Não se trata de ser “catastrófico” por hábito, mas de realista frente à conjuntura.

2026 será um momento de tensão, risco e oportunidade. Risco, se mantivermos o sistema como está, sem reformas, alimentando incertezas, ficando à mercê de narrativas de fraude ou de veto institucional. Oportunidade, se aproveitarmos para modernizar a representação, reforçar a confiança, aprimorar transparência e fazer desse pleito um legado de fortalecimento da democracia. Em última instância, a pergunta é esta: queremos mais uma eleição onde a sociedade volte à normalidade ou um momento de ruptura de confiança democrática? A reforma política, o voto impresso conferível, a transparência eleitoral, a regulamentação da propaganda digital e a reconstrução da confiança institucional não são questões opcionais: são condição de sobrevivência democrática.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“Uma eleição é feita para corrigir o erro da eleição anterior, mesmo que o agrave.”

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade. Foto: Arquivo Nacional

 

História de Brasília

Aqui estão os primeiros parlamentaristas: presidente, Hélio Marcos; Primeiro Ministro Domingos José, Vice 1o. Ministro Mário Jorge; ministro da Cultura, Dimer Camargo Monteiro; Ministro da Economia, Marcelo Magno de Oliveira Veloso; ministro da Presidência, Italo. Ministro da Divulgação, Rogerio Brant Martins. Chaves; ministro de Assuntos Sociais, Rui Lemos Sampaio; Ministro de Assuntos Missionários, Ivan de Oliveira Delforge; ministro de Assuntos literários, George Ney e presidente do Banco, Paulo Cesar Vasques. (Publicada em 11.05.1962)

Soberania e o poder que escapa das mãos do povo

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Foto: Ministério da Defesa_149º aniversário da Batalha do Riachuelo/CC by 2.0 (Wikicommons)

 

Do ponto de vista político e filosófico, o conceito de soberania é um dos mais complexos e centrais da teoria do Estado — e também um dos mais debatidos entre cientistas políticos, juristas e filósofos ao longo da história. Em essência, soberania designa o poder supremo e independente de um Estado de decidir sobre si mesmo e sobre os que vivem sob sua autoridade, sem estar sujeito a nenhuma instância superior. Mas esse conceito, que parece simples, ganhou contornos muito distintos conforme o tempo e o contexto histórico. A noção moderna de soberania surgiu no século XVI, com Jean Bodin, considerado o primeiro teórico a definí-la de forma sistemática. Para Bodin, soberania é o poder absoluto e perpétuo de uma república — isto é, um poder que não reconhece superior na ordem temporal. Esse pensamento nasce em meio à crise do feudalismo e ao fortalecimento dos Estados Nacionais, que buscavam centralizar o poder nas mãos de reis e príncipes.

Durante séculos, a palavra soberania simbolizou, ao seu território e seu povo, um ideal nascido no berço do mercantilismo e consolidado com a formação dos Estados Nacionais no século XV. Do ponto de vista da ciência política, a soberania passou por uma profunda transformação com a globalização, o avanço das organizações internacionais e a interdependência econômica. Hoje, muitos cientistas — como Jürgen Habermas, Hannah Arendt e David Held — sustentam que a soberania já não pode ser vista como absoluta. Habermas, por exemplo, propõe o conceito de soberania comunicativa, segundo o qual o poder político deve emergir do diálogo racional entre cidadãos livres e iguais — um poder legitimado pelo consenso, e não pela força. Arendt, por sua vez, desconfiava da própria ideia de soberania como domínio, pois acreditava que a política verdadeira nasce da ação coletiva e da liberdade, não da imposição de autoridade. Para Held e outros teóricos do cosmopolitismo, a soberania hoje é compartilhada entre Estados, organismos internacionais, corporações e até movimentos sociais transnacionais.

O poder deixou de ser puramente territorial e passou a circular em redes de influência globais. Naquela época, soberania significava independência, autoridade e capacidade de decidir o próprio destino sem interferências externas. Era o alicerce da autodeterminação dos povos. Mas, passados mais de quinhentos anos, o conceito parece ter se esvaziado, especialmente quando observamos a realidade brasileira, onde o poder soberano do povo, em tese consagrado pela Constituição, parece diluído entre interesses políticos, econômicos e ideológicos. Hoje, no Brasil, a soberania tornou-se um discurso conveniente, manipulado conforme o interesse de quem ocupa o poder. Políticos, juízes e militares a evocam quando lhes convém, mas raramente em defesa autêntica da vontade popular. O cidadão comum, que deveria ser o verdadeiro soberano numa democracia, vê-se cada vez mais afastado das decisões fundamentais do país. As instituições, enfraquecidas pela polarização e pela perda de confiança, parecem servir mais a projetos de poder do que ao bem público.

A tensão é evidente. Washington observa com inquietação certos sinais vindos de Brasília: o avanço de políticas que flertam com o controle da informação, o cerceamento da imprensa, a criminalização de opiniões divergentes e a tentativa de domesticar o pensamento livre. A retórica da “defesa da democracia” vem sendo usada, ironicamente, para sufocar o próprio exercício democrático. A submissão travestida de pragmatismo revela uma contradição profunda: queremos ser soberanos, mas não temos coragem de sustentar o preço da soberania. É preciso resgatar o sentido original do termo. Soberania não é apenas o direito de um Estado sobre suas fronteiras, mas o dever de garantir que o povo, e não os interesses de elites ou potências estrangeiras, seja o verdadeiro condutor do destino nacional. Quando a liberdade de expressão é ameaçada, quando o debate público é censurado e quando a oposição é tratada como inimiga, a soberania deixa de ser um princípio para tornar-se uma farsa.

O Brasil precisa decidir de que lado está — não entre direita e esquerda, nem entre Norte e Sul —, mas entre ser um país verdadeiramente livre ou um território tutelado por ideologias e poderes que não nascem da vontade popular. Enquanto o cidadão for o último a ser ouvido, a soberania será apenas uma palavra bonita nas constituições e nos discursos oficiais, mas sem vida nas ruas, nas urnas e nas consciências. Em tempos em que a voz do povo é silenciada em nome da “ordem”, e a independência nacional é negociada nos bastidores, resta-nos recordar: um país sem soberania é apenas um cenário de conveniências; e um povo sem voz, por mais que vote, já não é dono do próprio destino.

A frase que foi pronunciada:

“O que, autocracia ou democracia, é realmente mais adequado à China moderna? Se basearmos nosso julgamento na inteligência e na capacidade do povo chinês, chegaremos à conclusão de que a soberania do povo seria muito mais adequada para nós.”

Sun Yat-sen

Sun Yat-sen, c. 1911–12. Enciclopédia Britânica, Inc.

 

História de Brasília

Em vários eixos de acesso da W-3, os bueiros do DAE atingem, às vêzes, a mais de 30 centímetros de altura, no meio da pista, constituindo um sério perigo para o tráfego. (Publicada em 10.05.1962)

1984 é bem ali

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Imagem: reprodução da internet

 

Observadores da cena internacional acreditam que o mundo caminha, nesta primeira metade do século XXI, para uma espécie de “socialismo de castas”, onde as elites cada vez mais empoderadas vão se eternizando no topo, com toda a espécie de direitos e privilégios, enquanto ao povo, essa histórica porção de ninguém, é  dado como herança e destino um novo tipo de miséria, mais perniciosa e não menos desumana. Tanto a Europa como, no nosso caso, o Brasil assistem essa realidade advinda de um globalismo niilista, que vai, aos poucos, destruindo a democracia clássica em nome de uma falsa igualdade.

Trata-se aqui de reconhecermos uma realidade  poderosa que sintetiza um sentimento crescente de que os valores democráticos clássicos, como liberdade, mérito, mobilidade social, estão sendo lentamente substituídos por um sistema autoritário disfarçado de justiça social. O que vemos aqui é um novo tipo de socialismo, mais adaptado ao nosso século e a um mundo superpopuloso e inquieto. A ideia de socialismo de castas expõe também uma contradição: em vez de eliminar desigualdades, o sistema as congela como deseja o globalismo.

O discurso da igualdade, quando instrumentalizado por elites políticas e econômicas globalizadas, acaba servindo como véu para manter seus privilégios intactos, enquanto impõe ao povo uma “igualdade na miséria”. Não se trata aqui do socialismo clássico, mas de uma versão tecnocrática, centralizadora, niilista — sem valores transcendentes, sem verdade, sem limites éticos, em que tudo é relativo, exceto o poder de quem já o detém. O que está posto aqui projeta para um futuro próximo o que é hoje, no presente, a realidade de países como a Venezuela.

Essa nova elite transnacional, formada por grandes corporações, organismos multilaterais e lideranças políticas, supostamente progressistas, defende uma ordem mundial onde o indivíduo é reduzido á estatística, o Estado nacional é esvaziado, e a cultura local é vista como obstáculo à padronização social e econômica. Isso constitui um niilismo poderoso que vai rompendo paulatinamente com qualquer base moral objetiva: tudo é permitido em nome de uma suposta e ilusória inclusão e progresso. É o progresso não para a melhoria na qualidade de vida da sociedade, mas que a arrasta literalmente para um mundo distópico e já sem esperanças.

Na Europa, o discurso igualitário avançou ao ponto de se tornar um instrumento de controle ideológico. Países como França, Alemanha e Suécia vivem crises internas com o multiculturalismo imposto, a erosão da cultura nacional e a criminalização do pensamento divergente. A promessa de igualdade e integração se transformou em zonas de exclusão social, guetos e insegurança. Além disso, a burocracia da União Europeia, distante da realidade dos povos, impõe regras ambientais, econômicas e culturais que favorecem grandes conglomerados e limitam a autonomia dos cidadãos comuns. Assim, a mobilidade social é engessada e a elite política permanece girando entre os mesmos nomes, partidos e interesses, numa pantomima ensaiada que vai, aos poucos, solapando a vida social, econômica e política como a conhecemos.

No Brasil, essa lógica se manifesta também de forma ainda mais perversa. Políticas públicas mal planejadas, sob o pretexto de “inclusão”, criam dependência estatal em vez de emancipação cidadã. O bolsa família é hoje um verdadeiro labirinto sem saída e que vai aprisionando o cidadão ao Estado. A elite política brasileira, muitas vezes aliada a ONGs internacionais e à grande mídia, perpetua sua influência sob o discurso de “representatividade” e “diversidade”, enquanto entrega a população a um sistema educacional falido, violência urbana crônica e oportunidades restritas. Tristes tempos esses em que o mundo e o homem vão perdendo sua identidade em nome de projetos que não são os seus.

Com essa nova realidade que vai se impondo, a meritocracia passa a ser demonizada como “elitista”, enquanto privilégios de castas burocráticas, como no caso de  magistrados, políticos, altos funcionários seguem intocados. Cria-se, assim, um abismo intransponível: de um lado, uma elite protegida e globalizada; de outro, um povo sufocado, rotulado e manipulado. A destruição da democracia clássica, como a conhecemos, vai sendo posta de lado, como coisa do passado. A democracia clássica se baseava na alternância de poder, na liberdade de expressão, na igualdade perante a lei e no Estado de Direito. Tudo isso está sendo minado por esse globalismo niilista, que substitui o debate aberto por narrativas únicas, a autonomia nacional por tratados internacionais e o cidadão por uma massa homogênea de “clientes do Estado”.

Essa nova ordem se legitima por meio do medo, das pandemias, do clima e do discurso “de ódio” para justificar o controle crescente. O objetivo não é eliminar desigualdades, mas redistribuí-las de forma a manter a elite onde sempre esteve, blindada contra o povo e acima da lei. O mundo não caminha para uma igualdade verdadeira, mas para uma hierarquização disfarçada, onde a elite se apresenta como salvadora enquanto cristaliza seus próprios privilégios. A democracia só sobreviverá onde há liberdade real, e esta depende de pluralismo, responsabilidade individual e soberania. O desafio está lançado: ou resgatamos os fundamentos da civilização ocidental, com suas liberdades e limites, ou assistiremos à consolidação de um novo tipo de despotismo, tecnocrático, globalizado e sorridente, mais parecido com o mundo previsto por George Orwell em “1984”.

A frase que foi pronunciada:

“Você não pode escapar da responsabilidade do amanhã, fugindo dele hoje.”

Abraham Lincoln

Abraham Lincoln. Foto: wikipedia.org

História de Brasília

Como não haverá eleição no Distrito Federal, os próprios líderes se descuidaram do caso, e não procuraram apresentar , por êsse motivo, os nomes dos seus partidos. (Publicada em 08.05.1962)