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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Há uma distopia em construção no Brasil. Ela não chegou de repente, com tanques nas ruas ou decretos autoritários. Chegou silenciosamente, protocolar, embrulhada em resoluções normativas, rubricas orçamentárias e jargões técnicos. Chegou pela via dos tributos que se multiplicam sem correspondência em serviços, pelas emendas parlamentares que sangram o Tesouro para alimentar currais eleitorais, pela corrupção que corrói cada real arrecadado antes mesmo que chegue ao destino declarado e pelo crime organizado que ocupa os espaços abandonados pelo Estado.
O resultado é um país que tributa como nação desenvolvida e entrega como nação falida. Manchetes estampam “O Brasil atingiu em 2025 a maior carga tributária da série histórica: 32,4% do PIB. Nenhum serviço público correspondente foi entregue”. Cada esfera governa os próprios instrumentos de coleta: na União, o Imposto de Renda, a Cofins, o PIS e as contribuições previdenciárias; nos estados, o ICMS, o IPVA e o ITCMD; nos municípios, o ISS, o IPTU e o ITBI. O contribuinte é o mesmo em todos os balcões. O Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) calculou que, em 2024, o trabalhador brasileiro precisou trabalhar até 28 de maio — 149 dias — apenas para quitar suas obrigações com o Estado. Trata-se de quase metade do ano consumida em tributos antes que um único real reste para o indivíduo construir patrimônio, investir, poupar ou simplesmente viver com dignidade.
A carga tributária de 2025 foi de 32,40% do PIB maior da série histórica (Tesouro Nacional). A de 2023, 30,26% do PIB — ou seja, alta de 2,14 pontos percentuais em dois anos. Os dias trabalhados para pagar tributos em 2024 foram 49. A posição no ranking mundial, 14ª maior carga entre os países da OCDE — pior retorno em bem-estar. A perversidade do modelo está, contudo, menos no volume e mais na estrutura. Enquanto os países da OCDE concentram sua arrecadação predominantemente em tributos sobre renda e patrimônio, o que tende a ser mais progressivo, o Brasil arrecada principalmente sobre consumo e folha de pagamento. Em 2025, os impostos sobre bens e serviços representaram 13,78% do PIB.
O que isso significa, na prática, é que o faxineiro e o executivo pagam o mesmo ICMS ao comprar arroz no supermercado. É a regressividade institucionalizada. O chamado Custo Brasil, resultante dessa estrutura que pune produção e consumo, encarece sistematicamente os produtos nacionais e torna as empresas brasileiras não competitivas no mercado global. Cada ponto percentual de carga tributária sobre o consumo é um imposto oculto cobrado na boca do caixa de quem tem menos. Outra constatação nas páginas eletrônicas:”O trabalhador brasileiro é tributado como suíço, mas atendido como cidadão de quinto mundo”. Essa é a essência do pacto perverso que governa o país. A teoria econômica, já há décadas, advertiu sobre os limites da tributação. A Curva de Laffer demonstra que, acima de determinado ponto, o aumento de alíquotas não gera mais receita — ao contrário, destrói a base produtiva, estimula a evasão fiscal, a informalidade e a desindustrialização.
O Brasil cruzou essa fronteira. O mercado informal responde por cerca de 40% do PIB, segundo estimativas do IBGE. A fuga da formalidade não é desonestidade cultural, é resposta racional ao custo insuportável de existir legalmente. A desindustrialização avança há duas décadas. A participação da indústria de transformação no PIB caiu de cerca de 22% nos anos 1980 para menos de 11% no período recente.
Pequenas e médias empresas, espinha dorsal do emprego formal, morrem não pela falta de mercado, mas pela impossibilidade de pagar tributos, salários com encargos e, ainda, competir com importados livres de toda a mesma burocracia. O IPVA cobrado sobre veículos, o IPTU sobre imóveis urbanos, as taxas de licenciamento, as contribuições sindicais compulsórias que sobreviveram à reforma trabalhista, são camadas sobre camadas de extração que não se comunicam com a prestação de serviços públicos. A cobrança existe; a contrapartida, não.
Há no Brasil mais de 90 tributos distintos, entre impostos, taxas, contribuições, contribuições de melhoria e contribuições especiais. Muitos incidem em cascata sobre os mesmos fatos geradores. A bitributação não é acidente: é design. O cidadão paga o ICMS embutido na conta de energia elétrica e, depois, paga o PIS/Cofins sobre o mesmo produto. O empresário paga o IRPJ sobre o lucro e, ao distribuir dividendos, o acionista paga novamente. A complexidade é o produto, não o subproduto.
Na lente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), há o cálculo que apenas as licitações viciadas custam ao país R$ 20 bilhões anuais. Os números mais recentes confirmam a gravidade. Em 2025, a Controladoria-Geral da União (CGU), em articulação com a Polícia Federal, realizou 76 operações especiais — crescimento de 46% em relação a 2024 — identificando R$ 13,6 bilhões em prejuízos potenciais. O valor médio por operação pulou de R$ 5,4 milhões em 2022 para R$ 188,6 milhões em 2025. A escala do crime cresceu na mesma proporção que a capacidade de investigação.
A frase que foi pronunciada:
“O diabo é que a nossa inflação não é de demanda ou de custo. É inflação de chuchu mesmo.”
Mário Henrique Simonsen

História de Brasília
Essa operação traria as seguintes vantagens: entrega a curto prazo de 2.400 apartamentos; canalização, para Brasília, de 50% do custo, ou sejam 5 bilhões de cruzeiros da iniciativa privada. (Publicado em 20/5/1962)
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No próximo dia 24, o Supremo Tribunal Federal (STF) retomará um dos julgamentos com maior potencial de transformação para melhor ou para pior da economia brasileira nos últimos anos. A Corte decidirá, em caráter vinculante e com repercussão geral, se motoristas da Uber, entregadores da Rappi, iFood, 99 e plataformas similares têm vínculo empregatício formal com essas empresas. A decisão, seja qual for, não ficará circunscrita às paredes do plenário: chegará às ruas, às mochilas térmicas, aos carros particulares, às carteiras e, sobretudo, à liberdade de milhões de brasileiros.
Antes de qualquer análise, é preciso enunciar o dado mais inconveniente para os defensores da CLT a qualquer custo: a maioria dos trabalhadores de aplicativos não quer o vínculo empregatício. Pesquisas, audiências públicas e manifestações públicas têm demonstrado, à exaustão, que esses profissionais valorizam a flexibilidade de horários, a autonomia para aceitar ou recusar corridas e entregas, e a possibilidade de conciliar o trabalho por aplicativo com outras atividades. Para eles, a relação de emprego formal não representa proteção, representa uma gaiola.
A pergunta que se impõe, portanto, é: se os próprios trabalhadores não querem o vínculo, para quem, afinal, essa decisão seria uma vitória? A resposta, infelizmente, não é difícil de encontrar. O lobby mais ativo e organizado em prol do reconhecimento do vínculo empregatício não vem dos trabalhadores, vem das centrais sindicais. E a motivação não é altruísta. Com o vínculo formalizado, os sindicatos voltam a ter acesso a uma base imensa de contribuições compulsórias, uma fonte de recursos que o legislador havia restringido com a Reforma Trabalhista de 2017.
Os milhares de motoristas e entregadores que foram às redes sociais, às ruas e a fóruns públicos defender a manutenção do modelo atual não dispõem dos mesmos recursos, da mesma articulação política nem do mesmo acesso aos corredores do poder. A assimetria é flagrante e reveladora. Os defensores do reconhecimento do vínculo empregatício constroem um discurso sedutor, recheado de promessas que merecem ser examinadas com rigor:
“Os trabalhadores terão acesso a todos os direitos trabalhistas.” Verdade, mas a que custo? Com FGTS, férias remuneradas, 13º salário, aviso prévio e contribuições pre videnciárias, o custo por trabalhador para as plataformas aumenta entre 40% e 80%. Esse custo não desaparece: é repassado aos preços, reduzido via cortes de pessoal ou eliminado com a saída das empresas do país.
“Haverá mais estabilidade e renda garantida.” Mas quem garante que as plataformas manterão os contratos? A experiência internacional mostra o contrário: na Espanha, após legislação similar, o iFood demitiu milhares de entregadores e passou a operar com frotas próprias reduzidas. Na Califórnia, a Prop 22 foi aprovada justamente porque os trabalhadores preferiram a flexibilidade à suposta proteção.
“As empresas têm lucros bilionários e podem pagar.” O argumento ignora que parte significativa dessas empresas ainda opera no vermelho globalmente, subsidiadas por capital de risco. Mais importante: mesmo as lucrativas não são filantrópicas diante de custos inviáveis, adaptam o modelo de negócios ou saem do mercado. O trabalhador que hoje tem renda flexível pode amanhã não ter renda nenhuma.
“O vínculo traz dignidade ao trabalhador.” Digno não é apenas o trabalho com carteira assinada, digno é o trabalho que existe, que paga as contas e que respeita a autonomia de quem o executa. Dizer ao entregador que ele só terá dignidade quando estiver enquadrado em um modelo do século 20 é, no mínimo, uma condescendência disfarçada de proteção. O cenário mais provável, em caso de decisão desfavorável às plataformas, não é o paraíso trabalhista prometido pelos sindicatos, é o desemprego em massa.
As plataformas de mobilidade e entrega operam com margens apertadas, dependem de escala e são altamente sensíveis a mudanças no ambiente regulatório. Diante de uma conta trabalhista que pode superar centenas de bilhões de reais em passivos, as opções são poucas: encerrar operações, reduzir drasticamente a força de trabalho ou repassar os custos de forma que inviabilize o serviço para a população.
Com histórico bem documentado de espantar investimentos com seu ambiente tributário e regulatório, a chamada “gula arrecadatória” do Estado brasileiro que tributa o trabalho, o consumo e a produção de maneira regressiva e ineficiente combina-se com a ganância institucionaliza da de entidades sindicais para criar um cocktail capaz de afastar qualquer empresa racional. Os sindicatos, nesse sentido, funcionam como a velha “mão morta” do feudalismo europeu: estruturas que extraem renda sem produzir valor, perpetuando privilégios em nome de uma clas se que, ironicamente, não as escolheu para representá-la.
Convém lembrar que o Brasil tem mais de 12 milhões de trabalhadores vinculados a plataformas digitais, segun do dados do IBGE. Qualquer decisão que comprometa a viabilidade desse modelo de negócios afeta diretamente a renda de famílias que dependem desse trabalho para sobreviver, muitas delas em situação de vulnerabilidade social, para as quais o aplicativo representa não um bico, mas a principal fonte de sustento. Espera-se de um tribu nal constitucional que julgue com base no direito, nos fa tos e nas consequências reais de suas decisões.
A frase que foi pronunciada:
“Deixem o trabalhador trabalhar!”
Lucio Silva, em manifestação de motoboys

História de Brasília
O GTB garantiria, então, a locação das residenciais tão logo estivessem concluídas e não vendidas ou alugadas diretamente pelo comprador construtor. (Publicado em 20/5/1962)
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Brasília foi concebida como símbolo de um Brasil novo, racional e capaz de planejar seu próprio destino. Sete décadas após sua fundação, a capital da República assiste, perplexa, ao esfacelamento daquele ideal diante de uma crise que é, ao mesmo tempo, financeira, política e moral. A emancipação representativa do Distrito Federal, vendida à população como conquista democrática, revelou, com o tempo, sua face mais sombria: a de um arranjo que servia, antes de tudo, às lideranças locais e ao poder do capital.
Nesse contexto, a democracia tornou-se fachada. O que se instalou nos corredores do Buriti foi uma gestão que misturou interesses públicos e privados com uma naturalidade que deveria nos alarmar há muito. Hoje, o desfecho do caso Banco Master tem o poder de arrastar para a vala comum boa parte das lideranças políticas do DF e todos aqueles que assinaram, sem qualquer escrúpulo aparente, a documentação que atrelava o futuro do BRB, banco público, patrimônio do cidadão brasiliense às peripécias financeiras do grupo de Vorcaro.
Assinaturas que comprometeram o dinheiro público não podem ficar impunes. A responsabilidade dolosa precisa ter endereço certo. Não é possível ignorar o risco, já evidente, de que manobras nas altas cúpulas do poder transformem todo o caso Master num labirinto jurídico inconcluso. Seria uma tragédia anunciada: mais um mega escândalo do sistema financeiro nacional engolido pelo aparelho do Estado que deveria combatê-lo.
Vale lembrar, que o sistema financeiro brasileiro é um ser extraordinariamente resiliente, sobretudo, na sua capacidade de prosperar independentemente de quem governa. Entra governo, sai governo: os lucros astronômicos permanecem. E quando a conta chega, ela é invariavelmente depositada no colo da população. Não é incomum ouvir, nos meios políticos e financeiros, a defesa de que crises do porte do caso Master exigem uma nova reforma do sistema financeiro nacional. É possível que algum iluminado, ali à frente, se convença disso. Mas a história nos ensina a desconfiar: reformas gestadas no seio das mesmas elites que produziram o problema raramente mudam o essencial.
As próximas eleições para o governo do Distrito Federal se aproximam marcadas por um elemento inédito: a possibilidade real de que nomes centrais da política local sejam, neste momento, alvos de investigações sobre sua cumplicidade no caso Master. O espectro da responsabilização paira sobre o campo político como nunca antes. Nenhum nome consolidado ocupa, com conforto, o espaço de favorito. Os partidos que controlam o Buriti e a Câmara Legislativa do DF carregam o peso de explicações que ainda não deram. E a oposição, fragmentada e sem liderança clara, tem dificuldade de transformar o escândalo em projeto. O campo político do DF enfrenta sua maior crise de legitimidade desde a fundação.
Há uma lição que este e tantos outros escândalos tentam, sem sucesso, ensinar às instituições brasileiras: os estragos causados por más gestões políticas e financeiras não podem, em hipótese alguma, ser debitados nas costas da população. A conta deve ser cobrada exclusivamente de quem agiu dolosamente. Mas tudo indica, mais uma vez, que será o cidadão comum a arcar com as consequências. Seja por meio da deterioração dos serviços públicos que deveriam ser financiados pelo BRB, seja pelo custo oculto de uma crise de credibilidade que afasta investimentos e encarece o crédito para quem mais precisa.
Diante desse quadro, é preciso ir além dos diagnósticos já conhecidos. Surge a tese de que o acesso direto de políticos aos recursos públicos precisa ser estruturalmente vedado. Não se trata de ceticismo antipolítica, mas de realismo institucional: dadas as características demonstradas por nossas lideranças ao longo de décadas, controles mais rígidos, acesso de informações de emendas pelos contribuintes para acompanhamento de todo o trâmite, auditoria independente e separação efetiva entre o político e o financeiro não são luxo são condição de sobrevivência das instituições democráticas.
Brasília merece mais do que os gestores que tem tido. Merece mais do que um sistema financeiro capturado por interesses privados. Merece mais do que eleições decididas pela amnésia coletiva ou pela ausência de alternativas. O caso Master não é apenas um escândalo bancário. É um espelho. E o que ele reflete é desconfortável demais para ser ignorado nas urnas. O cidadão brasiliense terá, nas próximas eleições, uma oportunidade rara: a de exigir responsabilidade antes, e não apenas lamentar a ausência dela depois. Primeiro, passa a capital a limpo. Depois pensar em eleições. É o futuro da população que está em jogo e isso é o que mais importa.
A frase que foi pronunciada:
“Obrigar um homem a subsidiar com seus impostos a propagação de ideias nas quais ele não acredita e que abomina é pecaminoso e tirânico.”
Thomas Jefferson

História de Brasília
O Rotary Club de Brasília realizou um grande trabalho de colaboração aos planos do presidente da Republica. Endereçou ao sr. João Goulart, por intermédio de seu porta voz deputado Milton Reis uma série de sugestões em benefício de Brasília.
Sugeriu colocar à venda, pela Novacap, os terrenos para a edificação dos 50 blocos residenciais previstos na ultima concorrência, para construção, financiada, pela Iniciativa Privada. (Publicado em 20.05.1962)
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Vivemos numa era em que a aparência suplantou a realidade. Das gôndolas de supermercado às tribunas do Congresso, do feed do Instagram ao cardápio de fast food tudo ostenta uma fachada polida que esconde o vazio ou a mentira por trás. O filósofo Guy Debord previu isso em 1967: a sociedade do espetáculo. Mas o que vivemos hoje vai muito além do que ele imaginou. Não se trata apenas de aparências superficiais. Trata-se de uma arquitetura sistemática do falso, erigida camada por camada, que substitui o real pelo simulacro, até que ninguém mais consiga distinguir um do outro.
George Orwell, em 1984, descreveu um Estado que fabricava mentiras. O que não previu é que o mercado faria o mesmo trabalho, com mais eficiência e sem precisar de cassetetes. “Quando tudo é espetáculo, nada é real — e quando nada é real, qualquer mentira pode parecer verdade.”
Consideremos a moda. Nas vitrines das redes mais populares do Brasil, expõem-se calças jeans fabricadas com rasgos e furos propositais, desbotamento artificial e manchas simuladas vendidas a R$ 350 a peça ou R$1.500. São roupas que, há três décadas, seriam enviadas ao brechó com pena. Hoje, são vistas como sinal de status, dependendo de uma etiqueta na peça. O consumidor paga como rico e se veste como pobre. A indústria da moda transformou o desleixo em estética, o pijama em roupa de rua e o moletom em traje para reuniões remotas. A pandemia acelerou esse colapso das fronteiras: o que se usava para dormir passou a ser aceitável em videoconferências profissionais. O conforto virou desculpa para a dissolução de qualquer padrão. E a indústria, naturalmente, lucrou em cada etapa.
No universo alimentar, a situação é ainda mais grave. Segundo a UFCSPA, mais de 57% das calorias consumidas por brasileiros vêm de alimentos ultraprocessados, aqueles compostos, majoritariamente, de amido modificado, xarope de glicose, corantes artificiais e estabilizantes. São produtos que ostentam embalagens vibrantes com imagens de frutas frescas, enquanto seus ingredientes reais se escondem em letras minúsculas numa fonte ilegível. Um iogurte industrializado típico pode conter apenas 3% de componente lácteo real. O resto é gelificante, adoçante e aroma artificial de morango que nunca viu um morango. A comida de astronauta, desenvolvida para sobrevivência em missões espaciais, desceu às gôndolas dos mercados populares não como inovação, mas como substituição da comida de verdade.
Na arena política, o fake ganhou sofisticação cirúrgica. Pesquisa do Instituto Reuters de 2024 apontou que o Brasil é o país com maior exposição à desinformação política no mundo. Não porque os brasileiros sejam mais ingênuos, mas porque as estruturas de distribuição de mentiras são aqui mais eficientes. Vemos candidatos que se apresentam como ‘do povo’ enquanto gerenciam fortunas offshore. Basta escolher qualquer nome e ler o discurso de posse. Vemos líderes que bradam contra a corrupção enquanto seus filhos registram contratos milionários com o Estado. A dicotomia esquerda-direita, que mobiliza multidões, serve muitas vezes apenas para ocultar que ambos os lados compartilham os mesmos financiadores.
A Guerra do Iraque em 2003 é o caso mais documentado: os EUA invadiram o país com base em ‘provas’ de armas de destruição em massa que jamais foram encontradas. Colin Powell apresentou ao Conselho de Segurança da ONU imagens de satélite que provaram ser fabricadas. Centenas de milhares morreram. Quando a mentira foi revelada numa publicação no The Guardian que dizia: “Um relatório do Senado dos EUA de 2004 detalhou que as avaliações da comunidade de inteligência sobre as armas de destruição em massa iraquianas, feitas antes da guerra, eram fundamentalmente falhas e amplamente influenciadas pela pressão do governo.” O mundo havia mudado e ninguém foi responsabilizado. O padrão se repete. A verdade que liberta chega sempre depois que os fatos já foram sepultados sob novos ciclos de notícias, novas guerras, novas indignações fabricadas. A mentira original cumpriu sua função; a revelação posterior é apenas uma nota de rodapé.
Hoje o Brasil abriga mais de 600 mil estabelecimentos religiosos registrados numero que supera farmácias, escolas e hospitais somados. Parte expressiva desses templos opera como franquias espirituais, onde a fé é monetizada com precisão empresarial: dízimos compulsórios, ‘sementes’ financeiras prometendo retorno sobrenatural, transmissões ao vivo com botão de PIX integrado. O Conselho Federal de Teologia não existe; qualquer pessoa pode se autointitular pastor e iniciar uma congregação. A ausência de regulação cria terreno fértil para o predador espiritual, aquele que usa o sagrado como alavanca para extrair recursos de quem já tem pouco. A fé é real; a estrutura que a comercializa, frequentemente, não.
O mundo fake não é um fenômeno recente nem uma conspiração organizada. É o resultado lógico de sistemas econômicos e políticos que recompensam a aparência sobre a substância, o curto prazo sobre o duradouro, o clique sobre a reflexão. A boa notícia, e há sempre uma, é que a mentira tem custo energético. Exige manutenção constante. A realidade, por mais inconveniente que seja, sempre encontra uma fresta. Cabe a cada um decidir se quer viver no conforto do simulacro ou na lucidez desconfortável do real.
A frase que foi pronunciada:
“As bombas atômicas estão se acumulando nas fábricas, a polícia patrulha as cidades, mentiras ecoam pelos alto-falantes, mas a Terra continua girando em torno do Sol.”
George Orwell

História de Brasília
O total das verbas liberada num só dia para Brasília atinge a cifra de um bilhão, quinhentos e oitenta e quatro milhões. (Publicado em 20.05.1962)
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Em 2016, o Brasil consolidou um triste recorde: atingiu a maior carga tributária bruta de sua história, ultrapassando a barreira dos 36% do Produto Interno Bruto. Em meio a uma das piores recessões das últimas décadas, com desemprego em alta, consumo em queda e empresas fechando as portas, o Estado brasileiro optou por apertar ainda mais os parafusos sobre contribuintes já exauridos.
Nosso país mantém hoje quase cem tributos ativos entre impostos federais, estaduais e municipais, taxas e contribuições de toda ordem. O ICMS, o ISS, o PIS, o COFINS, a CSLL, o IRPJ, o IOF, o IPI, as contribuições previdenciárias e dezenas de outras exações se sobrepõem em camadas que tornam qualquer atividade produtiva um exercício de sobrevivência contábil. Para cada real gerado, mais de um terço é imediatamente absorvido pelo Tesouro, antes mesmo de qualquer despesa operacional. O resultado é o chamado “custo Brasil”: uma combinação de burocracia, insegurança jurídica e tributação confiscatória que coloca o país em desvantagem competitiva frente a qualquer economia minimamente organizada.
Enquanto a média da OCDE situa-se ao redor de 34% do PIB em carga tributária com retorno em serviços de qualidade , o Brasil cobra o mesmo ou mais e entrega serviços públicos notoriamente precários. O economista norte-americano Arthur Laffer demonstrou, com elegante simplicidade, que existe um ponto além do qual o aumento de alíquotas resulta em queda da arrecadação. Abaixo de certo patamar, a tributação incentiva a atividade produtiva e o cumprimento fiscal voluntário. Acima dele, desestimula o investimento, expulsa capitais, estimula a informalidade e reduz a base tributável. O paradoxo é flagrante: ao cobrar mais, o Estado arrecada proporcionalmente menos do que poderia, pois a atividade econômica se contrai, a sonegação cresce e a evasão fiscal legal e ilegal se torna estratégia racional de sobrevivência empresarial.
Parece que a pressão fiscal excessiva não apenas destrói riqueza; ela destrói a própria base sobre a qual a arrecadação futura deveria se sustentar. Multinacionais relocam suas operações para países vizinhos Uruguai, Chile, Colômbia onde a carga é significativamente menor e a previsibilidade jurídica, maior. Empresas nacionais de médio porte, incapazes de arcar com a estrutura de compliance tributário exigida, optam por migrar parcelas de sua produção para o exterior ou simplesmente encerrar atividades. A indústria brasileira, que chegou a representar 32% do PIB nos anos 1980, viu sua participação encolher para menos de 12% em 2016. Parte dessa desindustrialização deve-se à tributação em cascata que onera cada elo da cadeia produtiva, tornando o produto nacional não competitivo mesmo dentro do próprio mercado interno.
Desse modo o Brasil fabrica cada vez menos e importa cada vez mais— para depois tributar as importações também, num ciclo kafkiano de ineficiência. Os números de falências e recuperações judiciais em 2016 atingiram patamares alarmantes. O Serasa Experian registrou crescimento expressivo nos pedidos de recuperação judicial no período, com micro e pequenas empresas respondendo pela esmagadora maioria dos casos. Para esses negócios, a carga tributária não é abstração econômica é causa direta de encerramento.
Um estabelecimento que não consegue repassar ao preço final o custo do Simples, do INSS patronal e das guias municipais, simplesmente fecha. O desemprego resultante alimenta o círculo vicioso: menos trabalhadores formais significam menor arrecadação previdenciária, o que pressiona o governo a elevar alíquotas sobre os contribuintes remanescentes, que por sua vez reduzem ainda mais a contratação. É a dinâmica predatória de um sistema fiscal que se alimenta de sua própria destruição.
Um sistema que pune o trabalho, o investimento e a produção enquanto preserva privilégios de grupos específicos não pode ser chamado de justo. A simplificação do modelo, a exoneração da folha de pagamentos, a eliminação de tributos cumulativos e a adoção de uma estrutura de IVA moderno como fizeram dezenas de países com sucesso é o que esperam os pagadores de impostos. Enquanto o Estado brasileiro não compreender que tributar em excesso não é sinônimo de responsabilidade fiscal, mas sim de miopia estratégica, continuaremos a produzir recordes que ninguém deseja celebrar. O fardo que carregamos é pesado demais.
A frase que foi pronunciada:
“Se a história pudesse nos ensinar alguma coisa, seria que a propriedade privada está intrinsecamente ligada à civilização.”
Ludwig von Mises

Ao vento
No Plano Piloto, falta policiamento. Motocicletas disputam calçadas com pedestres, brigas de moradores de rua assustam, disputas no trânsito correm sem fiscalização.
História de Brasília
Como sempre, o st. Afonso Almiro viajou para o Rio no mesmo dia, mas nessa oportunidade, prestou um relevante serviço ao Distrito Federal, e, particularmente, às Fundações da Prefeitura do Distrito Federal. (Publicado em 20.05.1962)
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A Magnífica Humanitas não fala apenas para os 1,4 bilhão de católicos no mundo, fala para qualquer pessoa que acredite que o ser humano não pode ser reduzido a dado, a usuário, a perfil de comportamento, a insumo de treinamento. E essa crença não exige fé religiosa: exige apenas que se leve a sério a pergunta sobre o que nos faz humanos. “Desarmar não significa recusar a tecnologia, mas impedir que ela domine a humanidade”, diz o texto. Há uma coragem intelectual rara na decisão de Leão XIV de fazer da inteligência artificial (IA) o tema central de sua primeira encíclica.
Como estreias, os papas costumam introduzir seus pontificados com documentos cristológicos ou eclesiológicos sobre Cristo, sobre a Igreja. Leão XIV escolheu falar sobre algoritmos, sobre trabalho precário digital, sobre armas autônomas, sobre transhumanismo e pós-humanismo, sobre o risco de que a busca por otimização substitua a busca por sentido. É um gesto de leitura fina da história: reconhecer que o maior desafio pastoral do século 21 não é a secularização em si, mas a substituição silenciosa do humano por métricas de eficiência.
A encíclica critica explicitamente o transhumanismo, ideologia cada vez mais influente nos centros de poder do Vale do Silício de que o ser humano deve e pode ser superado por versões tecnologicamente aprimoradas de si mesmo. Para Leão XIV, a humanidade, mesmo “ferida”, “não deve ser substituída nem superada”. É uma frase simples que contradiz diretamente o discurso de figuras como aquelas que investem bilhões na promessa de imortalidade digital, de uploads de consciência, de fusão entre humano e máquina. A Igreja diz não. E diz com argumentação filosófica, não apenas com dogma.
O Brasil é um caso de estudo singular nesse debate. País de dimensões continentais, com uma das maiores populações do mundo, somos simultaneamente grandes consumidores de tecnologia e grandes produtores das desigualdades que a IA pode aprofundar. Já temos algoritmos decidindo sobre concessão de crédito, sobre candidatos em processos seletivos, sobre monitoramento de periferias urbanas, muitas vezes sem transparência, sem recurso e sem que as populações afetadas sequer saibam que uma máquina está tomando decisões sobre suas vidas.
A Magnífica humanitas chega, portanto, num momento em que o Brasil precisa de parâmetros éticos para a própria política de IA. O Marco Legal da Inteligência Artificial tramita no Congresso, as pressões de empresas contrárias à regulação são intensas, e a sociedade civil ainda não conseguiu articular com força suficiente uma visão de IA que proteja direitos fundamentais. Um documento que
mobilize a base cristã do país, a maior base religiosa de uma nação majoritariamente cristã, em torno de princípios como dignidade humana, bem comum e recusa da escravidão digital pode ter um peso político concreto.
Seria desonesto, neste espaço que preza pela honestidade intelectual, não registrar também as tensões inevitáveis do documento. A Igreja que assina essa encíclica é a mesma que demorou séculos para reconhecer seus crimes históricos, que ainda enfrenta crises de credibilidade profundas ligadas a escândalos de abuso. A crítica ao poder tecnológico ganha força moral quando vem de uma instituição que pratica, internamente, os valores que professa externamente. Esse é um projeto inacabado.
Há também a questão da implementação. Encíclicas são documentos de orientação moral, não de regulação técnica. Nenhuma lei será promulgada pela Magnífica humanitas. Nenhuma corporação será obrigada a mudar seus termos de serviço. O poder da Igreja nesse campo é o poder da palavra, e o poder da palavra, nas condições atuais de fragmentação da atenção e desinformação algorítmica, é um poder real, mas limitado. Inspira legisladores, ativa consciências, fortalece movimentos, mas esse documento depende de atores concretos para se traduzir em mudança.
Ainda assim, registramos aqui o que julgamos ser o mérito central da iniciativa: Leão XIV fez a pergunta certa. Não perguntou “como podemos usar a IA para crescer?”, como perguntam os governos. Não perguntou “como podemos monetizar a IA de forma sustentável?”, como perguntam as corporações. Perguntou “o que a IA faz com o ser humano? E o que queremos que o ser humano seja?”. Essas são as perguntas que a civilização técnica sistematicamente evita, porque suas respostas honestas perturbam os modelos de negócio vigentes. “A IA não é neutra.”
Num mundo em que a velocidade do desenvolvimento tecnológico superou a capacidade das instituições políticas e jurídicas de acompanhá-lo, é surpreendente — e bem-vindo — que a mais antiga instituição ocidental ainda em funcionamento seja a que chama ao freio, à reflexão e ao cuidado com os que ficam para trás. Não é pouco. É, talvez, exatamente o que a época exige. A Magnífica humanitas não vai parar a corrida da IA. Mas pode ajudar a estabelecer, com uma linguagem que atravessa fronteiras culturais e seculares, que existe algo que não deve ser colocado à venda, otimizado por gradiente descendente ou substituído por eficiência computacional: a dignidade de cada ser humano. Enquanto houver quem faça essa pergunta — seja num laboratório de ética, seja num Parlamento, numa sala de aula ou numa sala sinodal do Vaticano —, há esperança de que a escolha que o papa descreve ainda seja possível. A cidade ainda pode ser construída.
A frase que foi pronunciada:
“Estruturas legais robustas, supervisão independente, usuários informados e um sistema político que não se exima de sua responsabilidade”.
Papa Leão XIV, sobre a inteligência artificial

História de Brasília
Mas esteve em Brasília o sr. Afonso Almiro. Diretor Geral da Fazenda Nacional, que, façamos justiça, resolveu em pouco tempo a questão em tôrno de uma verba que poderia não ser recebida. (Publicado em 20/5/1962)
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Numa segunda-feira de maio, enquanto os mercados globais de tecnologia somavam mais um trilhão em capitalização, um homem de hábito branco sentou-se diante de cardeais e engenheiros de inteligência artificial (IA) no Vaticano. Nunca antes um papa havia estado presente na Sala Sinodal para apresentar ao público um documento magisterial próprio. O gesto era, em si, uma declaração. E o documento que trazia nas mãos, a encíclica Magnifica humanitas, pode ser a mais importante provocação ética do ano. Existe uma tradição dentro da Igreja Católica de responder às grandes revoluções do capitalismo com documentos sociais.
Em 1891, o papa Leão XIII publicou a Rerum novarum, enfrentando de frente os horrores da industrialização, o trabalho infantil, a miséria operária, o acúmulo obsceno de riqueza numa era de máquinas a vapor e chaminés negras. Cento e trinta e cinco anos depois, e não por acaso nessa data exata, o papa Leão XIV assina a Magnifica humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA. O nome escolhido para o pontificado não foi acidente: é uma declaração de continuidade histórica. A nova revolução industrial chegou, e a Igreja pretende ter algo a dizer sobre ela.
A encíclica, dividida em cinco capítulos e com mais de 230 páginas, parte de uma premissa que parece singela, mas é radicalmente subversiva dentro do espírito da época: a tecnologia não é neutra. Numa era em que Silicon Valley vendeu ao mundo a ideia de que o código é pura ferramenta, um martelo não tem moral, argumentam os tecnoentusiastas, Leão XIV diz o contrário com precisão teológica e filosófica.
A IA não é má em si mesma, reconhece o documento, mas também não é inocente. Toda tecnologia carrega consigo os valores, as estruturas de poder e os interesses econômicos de quem a projeta e de quem financia seu desenvolvimento. Fingir o contrário é uma mentira confortável e lucrativa.
Segundo a encíclica, o desafio é “construir uma nova Torre de Babel ou edificar a cidade na qual Deus e a humanidade habitem juntos”. A metáfora da Torre de Babel, usada pelo próprio papa na abertura do documento, é mais do que retórica bíblica. É um diagnóstico preciso da arquitetura atual do poder tecnológico: uma construção monumental financiada por um punhado de corporações, edificada sobre a ilusão de que a tecnologia nos tornará onipotentes, capaz de conectar tudo e a todos e, ao mesmo tempo, profundamente destrutiva da linguagem comum, da confiança mútua e do sentido coletivo.
A Babel digital não derruba as torres; ela destrói os laços. E o papa parece ter enxergado isso. A encíclica não é um documento reacionário. Leão XIV não pede que se apague o código. Pelo contrário: reconhece que a IA pode ser instrumento de libertação, de diagnóstico médico, de democratização do conhecimento. O que o documento questiona, e aqui está sua força provocadora, é quem decide como, a serviço de quem e com qual velocidade essa tecnologia é implantada. Pede prudência. Pede sobriedade. Pede, em linguagem papal, algo que os conselhos de administração das grandes techs tratam como blasfêmia: desaceleração.
O papa chama isso de “desarmar a IA”. A expressão é feliz e incômoda ao mesmo tempo. Desarmar não significa destruir, significa retirar da tecnologia a pretensão de ser neutra, inevitável, imparável. Significa questionar a ideia, hoje dominante nos corredores do poder técnico-financeiro, de que quem tem o poder computacional tem automaticamente o direito de governar.
Como as “novas formas de escravatura”, a encíclica denuncia a economia digital: trabalhadores precários que treinam modelos de linguagem por salários miseráveis, crianças em regiões pobres que trituram terras raras com as próprias mãos para que os chips existam, comunidades inteiras cujos dados são extraídos como matéria-prima sem consentimento real. É um retrato que os relatórios anuais das grandes corporações de tecnologia sistematicamente omitem. Que a imprensa econômica raramente coloca em manchete. Que os governos, seduzidos pela promessa de crescimento e pela pressão dos lobbies, evitam regulamentar com seriedade. A Igreja, sem acionistas a satisfazer, sem anunciantes a proteger e sem eleições a vencer, pode dizer o que muita gente sabe e poucos têm coragem de gritar.
Vivemos um momento de singular fragilidade coletiva. As democracias ocidentais enfrentam crises de legitimidade agravadas por algoritmos que amplificam raiva e desinformação. As guerras, e há mais de uma em curso, utilizam drones autônomos, vigilância por IA e sistemas de decisão que retiram o julgamento humano do campo de batalha. O aquecimento global acelera, enquanto os servidores que sustentam os grandes modelos de linguagem consomem quantidades crescentes de energia e água. A concentração de riqueza aumenta, e parte significativa desse aumento se deve à vantagem acumulada por quem controla os dados e as infraestruturas de IA. Nesse contexto, uma encíclica papal pode parecer um anacronismo para quem vive dentro da bolha secular do tecnocentrismo. Seria um equívoco grave pensar assim.
A frase que foi pronunciada:
“A inteligência artificial exige agora ser desarmada, libertada das lógicas que a transformam em instrumento de dominação, exclusão e morte”.
Papa Leão XIV
História de Brasília
As notícias para Brasília são as melhores possíveis. O ministro da Fazenda não fez, no dia anunciado, o esquema de verbas para Brasília porque não veio ao DF na quarta-feira, como estava anunciado. (Publicado em 20/5/1962)
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Dados divulgados pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda apontam que o mercado regulado de apostas online movimentou aproximadamente R$ 17,4 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025. Estimativas apresentadas pelo Banco Central (BC) durante debates no Senado Federal indicam que o fluxo mensal de recursos destinados às apostas pode variar entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou durante audiência pública, que “há preocupação institucional com os impactos das apostas sobre o endividamento das famílias brasileiras”. O tema passou a integrar discussões sobre estabilidade financeira, crédito ao consumidor e comportamento de consumo.
Levantamento realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo estimou que o avanço das apostas online pode provocar impacto superior a R$ 100 bilhões anuais sobre o varejo nacional, em razão da transferência de parte da renda das famílias para plataformas digitais de apostas. O estudo apontou redução do consumo em segmentos ligados à alimentação, vestuário, eletrodomésticos e serviços.
A relação entre apostas digitais e vulnerabilidade financeira também passou a mobilizar instituições bancárias e empresas do setor privado. Relatórios corporativos divulgados por Itaú Unibanco, XP Inc., Assaí Atacadista e Tok&Stok identificaram aumento da inadimplência familiar associado ao crescimento das apostas on-line. Parte das análises observou migração de recursos antes destinados à poupança, ao consumo doméstico e aos investimentos para plataformas digitais de jogos.
Segundo levantamento do SPC Brasil e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, aproximadamente 39 milhões de brasileiros realizaram apostas online nos últimos doze meses. A pesquisa mostrou ainda que 46% dos apostadores declararam já ter reduzido gastos cotidianos para manter atividades de apostas. Entre os entrevistados, parcela significativa relatou comprometimento de orçamento familiar, atraso de contas e aumento do uso de crédito pessoal.
O tema também alcançou a área da saúde pública. Estudos conduzidos pela Fundação Oswaldo Cruz e por universidades federais passaram a analisar crescimento de sintomas relacionados à ansiedade, compulsão, depressão e dependência comportamental associados ao uso intensivo de plataformas de apostas digitais. O psiquiatra Valentim Gentil afirmou, em seminário sobre saúde mental e jogos, que “o transtorno do jogo compulsivo apresenta dinâmica semelhante à dependência química em muitos pacientes”.
Além dos efeitos econômicos e psicológicos, autoridades passaram a discutir possíveis vulnerabilidades regulatórias do setor. O Ministério Público Federal analisa mecanismos jurídicos relacionados à atuação de empresas autorizadas a operar apostas online no Brasil. Paralelamente, o Ministério da Fazenda iniciou processos de revisão cadastral, fiscalização tributária e adequação das plataformas às novas regras de licenciamento.
O crescimento do setor coincidiu com a intensificação da publicidade de apostas esportivas em transmissões esportivas, redes sociais e plataformas digitais. Clubes de futebol, influenciadores e emissoras de televisão passaram a firmar contratos milionários com empresas de apostas. Em resposta ao avanço dessa publicidade, projetos legislativos apresentados no Congresso Nacional discutem restrições à propaganda direcionada a menores de idade e consumidores vulneráveis.
Outro ponto observado pelas autoridades financeiras envolve a utilização de recursos provenientes de programas sociais em apostas digitais. Estudos apresentados ao Senado indicaram movimentação relevante de valores oriundos de contas associadas ao programa Bolsa Família em plataformas de apostas. Técnicos do governo passaram a discutir mecanismos de bloqueio e controle para evitar utilização indevida desses benefícios.
Especialistas em segurança pública também passaram a analisar o setor sob a perspectiva da lavagem de dinheiro e da atuação de organizações criminosas. Relatórios internacionais produzidos pelo Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI) apontam que plataformas digitais de apostas podem ser utilizadas em operações de ocultação patrimonial, especialmente quando associadas a pagamentos instantâneos, criptomoedas e operações transnacionais.
O Brasil tornou-se um dos maiores mercados globais de apostas online em volume de usuários e movimentação financeira. O crescimento acelerado ocorreu em paralelo à consolidação de um ecossistema digital que reúne publicidade massiva, crédito facilitado, pagamentos instantâneos e acesso contínuo por dispositivos móveis. O debate atual envolve não apenas arrecadação tributária e regulação econômica, mas também impactos sociais, financeiros e institucionais associados à expansão desse novo mercado digital.
A frase que foi pronunciada:
“Há duas ocasiões na vida em que uma pessoa não deve jogar: quando não tiver posses para isso – e quando tiver.”
Mark Twain

História de Brasília
Quanto às quadras do Setor Comercial Residencial, é preciso que o povo veja a numeração, para saber que é correspondente à da superquadra que fica logo atrás. (Publicada em 18.05.1962)
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Não há mais tanta utilidade em tentar antecipar quem ocupará o Palácio do Planalto após 2026, quais partidos formarão maioria no Congresso Nacional ou que grupos tradicionais dominarão os governos estaduais. Parte dos estudos contemporâneos em ciência política, filosofia da tecnologia e sociologia digital passou a discutir a hipótese de que as estruturas clássicas de poder construídas entre os séculos XVIII e XX estejam atravessando um processo gradual de deslocamento histórico. Em lugar da centralidade do Estado nacional, surgem sistemas de influência organizados em torno da informação, dos fluxos digitais e das plataformas tecnológicas globais.
Luciano Floridi, filósofo italiano, professor da Universidade de Oxford e um dos principais teóricos da chamada “filosofia da informação”, utiliza o conceito de hiper-história para descrever sociedades cuja sobrevivência depende integralmente das Tecnologias da Informação e Comunicação. Segundo Floridi, “sociedades hiper-históricas prosperam apenas quando baseadas em TICs e são extremamente vulneráveis a ataques informacionais”. A afirmação aparece em estudos que analisam a transformação da informação em principal eixo de organização econômica, política e cultural do século XXI.
Com o avanço das chamadas TICs, Tecnologias da Informação e Comunicação, altera-se profundamente o funcionamento das relações sociais. Internet, redes sociais, computação em nuvem, inteligência artificial, algoritmos de recomendação e plataformas digitais passaram a mediar não apenas a circulação de dados, mas também relações econômicas, afetivas, profissionais e políticas. A informação tornou-se matéria-prima estratégica.
Empresas como Alphabet, Meta, Amazon, Microsoft e Tencent passaram a concentrar capacidade inédita de coleta, processamento e distribuição de informações em escala planetária. Em alguns casos, o faturamento anual dessas corporações supera o Produto Interno Bruto de diversos países médios. A Alphabet registrou receita superior a US$ 350 bilhões em 2025. A Meta ultrapassou 3 bilhões de usuários ativos mensais em suas plataformas digitais.
Byung-Chul Han, cientista político sul-coreano, passou a utilizar o conceito de “infocracia” para descrever sistemas em que o poder deixa de operar prioritariamente pela coerção física e passa a funcionar pela gestão algorítmica da informação, da atenção e do comportamento. Em uma de suas formulações mais conhecidas, Han afirma que “a informação produz uma nova forma de dominação”. Para o filósofo, o excesso de dados, estímulos e comunicação contínua altera os próprios mecanismos tradicionais da democracia representativa.
Ao mesmo tempo, governos nacionais enfrentam crescente dificuldade para controlar fluxos informacionais transnacionais. Plataformas digitais operam simultaneamente em centenas de países, armazenam dados em servidores distribuídos globalmente e utilizam estruturas jurídicas que frequentemente escapam aos modelos clássicos de regulação estatal. Questões envolvendo privacidade, soberania digital, inteligência artificial e manipulação algorítmica tornaram-se centrais na agenda geopolítica contemporânea.
Estados Unidos e China concentram atualmente os maiores investimentos globais em IA generativa, semicondutores e infraestrutura computacional. Relatório da Stanford University divulgado em 2025 mostrou que investimentos privados globais em inteligência artificial ultrapassaram US$ 180 bilhões em um único ano. A tecnologia tornou-se simultaneamente instrumento econômico, militar e político.
Yuval Noah Harari, historiador israelense, sustenta que “quem controlar os dados controlará o futuro”. A frase sintetiza uma percepção crescente entre pesquisadores de que o domínio informacional tende a se tornar elemento determinante das novas relações de poder global. Nesse cenário, a soberania deixa de depender exclusivamente de território, população e força militar, incorporando capacidade tecnológica e controle de infraestrutura digital.
Parte da literatura acadêmica contemporânea passou a utilizar metáforas biológicas para descrever a crise das estruturas políticas tradicionais. O conceito de “apoptose política”, mencionado em debates recentes sobre teoria do Estado, faz analogia ao processo celular programado de autodestruição. A hipótese sugere que determinadas instituições concebidas para sociedades industriais podem enfrentar esvaziamento gradual de funcionalidade diante da reorganização digital da economia e da vida social.
Esse processo não implica necessariamente desaparecimento imediato dos Estados nacionais, mas aponta para redistribuição de centralidade. Poderes tradicionais, Legislativo, Executivo e Judiciário, passam a compartilhar espaço com plataformas digitais, empresas de tecnologia, sistemas automatizados e redes globais de informação capazes de influenciar mercados, eleições, opinião pública e comportamento coletivo em escala transnacional.
A frase que foi pronunciada:
“Na midiocracia, também a política se submete à lógica das mídias de massa. O entretenimento determina a mediação de conteúdos políticos e deteriora a racionalidade.”
Byung-Chul Han

História de Brasília
Agora as notícias: o Ministério da Educação autorizou o Tesou a liberar 610 milhões para serem utilizados pela Fundação Educacional. (Publicado em 20.05.1962)
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Em 2024, o Brasil registrou o índice de Gini de 0,82, um número que não é apenas uma estatística fria, mas um veredito moral sobre as escolhas que fizemos como nação. Numa resposta rápida, esse índice mostra, em uma escala de 0 a 1, uma avaliação da desigualdade dentro de uma distribuição, quase sempre referente à renda ou riqueza de uma população. Gini é um conceito importante na Economia. O “zero” é a igualdade perfeita e o “um” é a desigualdade máxima.
Empatados com a Rússia em meio a uma guerra e situados entre as 56 nações mais desiguais do planeta, carregamos uma distinção que nenhum governo deveria aceitar com normalidade. O que torna esse dado ainda mais perturbador é o fato de que, nas últimas duas décadas, o país foi governado por forças que se autoproclamaram, incansavelmente, defensoras dos mais pobres. A pergunta que não se pode mais adiar é simples e devastadora: se o Estado governa para os desvalidos, por que a desigualdade não para de crescer?
Há um paradoxo que corrói a credibilidade do discurso público brasileiro há gerações: quanto mais o Estado se proclama redentor dos pobres, mais concentrada se torna a renda. Não é acidente. Não é azar histórico. É o resultado previsível de um modelo em que o aparato público cresceu não para redistribuir riqueza, mas para redistribuir poder e, com ele, privilégios. Marcadas, nas últimas décadas, por governos que ergueram sua identidade sobre o vocabulário da justiça social: transferência de renda, inclusão produtiva, combate à fome, ampliação de direitos.
Não se nega que programas como o Bolsa Família tenham impedido cenários ainda mais graves. O que se questiona, com dados e rigor, é a narrativa de que tais iniciativas, diante do custo do Estado brasileiro, representam uma política genuína de redução de desigualdade ou apenas um anestésico para uma ferida que o próprio governo faz sangrar.
O Gini de 0,82, vale lembrar, não mede apenas a diferença entre ricos e pobres em termos de renda anual. Ele captura a distância abissal entre aqueles que acessam o Estado como fonte de proteção e renda garantida e servidores estáveis, aposentados precoces, pensionistas privilegiados e aqueles que financiam esse sistema sem jamais dele se beneficiar proporcionalmente. O índice, nesse sentido, é um espelho do Estado, não apesar dele.
Segundo dados do Tesouro Nacional, o peso dos tributos sobre o PIB supera consistentemente os 33%, patamar comparável ao de nações escandinavas mas sem nenhuma das contrapartidas em qualidade de serviços públicos que justificariam tal extração. A pergunta que todo cidadão deveria fazer ao assinar a declaração de imposto de renda é: onde foi parar esse dinheiro?
Gasto público desordenado alimenta a inflação crônica que corrói o poder de compra das camadas mais vulneráveis. A inflação não é um imposto sobre os ricos, é um imposto regressivo que devora o salário do trabalhador informal, a aposentadoria mínima da dona de casa e a poupança inexistente do jovem da periferia. Quando o governo gasta além do que arrecada, a conta não vai para o Ministério da Fazenda. Vai para a feira do sábado de quem ganha um salário mínimo.
Há um mecanismo ainda mais perverso que o simples desperdício: a captura do Estado por grupos de interesse organizados em torno do poder político. Em economias onde as regras são feitas pelos mesmos que se beneficiam delas, a desigualdade não é uma falha do sistema, é o sistema funcionando exatamente como planejado.
Ao longo de décadas de alternância entre projetos que, no fundo, compartilhavam o mesmo amor pela expansão do Estado, um ecossistema brasileiro mantém a proximidade com o poder público e esse é o principal fator de sucesso econômico. Não o mérito, não a inovação, não o risco empreendedor, mas a capacidade de capturar contratos, subsídios, isenções e proteções tarifárias que o Estado distribui a seus favoritos.
O capitalismo de compadres, como o chamam os economistas, não é o capitalismo: é o seu oposto, travestido de mercado. Os grandes conglomerados que se beneficiaram de décadas de financiamentos subsidiados do BNDES, de desonerações setoriais e de proteções alfandegárias, não competiram no mercado, jogaram no campo inclinado montado pelo Estado. O resultado foi a criação de oligopólios disfarçados de campeões nacionais, acumulação de capital às custas do erário e concentração de renda que nenhum programa social conseguiria reverter.
Para cada real distribuído em transferências, outro e muitas vezes mais foi entregue disfarçado de política industrial. Quando o Estado escolhe vencedores, ele inevitavelmente cria perdedores. E os perdedores no Brasil não são as grandes empresas que sobreviveram sem subsídio: são o microempreendedor esmagado pela burocracia, o trabalhador informal que não tem acesso ao crédito, o jovem de escola pública que concorre em condições desiguais com o filho de quem soube negociar com o poder.
A desigualdade brasileira tem endereço. E muitas vezes esse endereço fica em Brasília. Nenhum investimento social reduz desigualdade de forma mais duradoura do que uma educação pública de qualidade universal. É o único mecanismo capaz de romper o ciclo intergeracional da pobreza, de garantir que o filho do agricultor do semiárido tenha as mesmas chances cognitivas e profissionais que o filho do advogado de Higienópolis.
A frase que foi pronunciada:
“A quem recorrer?”
Dona Dita pensando nas notícias desanimadoras
História de Brasília
Como sempre, o st. Afonso Almiro viajou para o Rio no mesmo dia, mas nessa oportunidade, prestou um relevante serviço ao Distrito Federal, e, particularmente, às Fundações da Prefeitura do Distrito Federal.

