O número que ordena e o número que apenas soma

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Segundo o Olivertalk, o número não é apenas quantidade: representa a estrutura do real, a proporção, a relação e a forma. O número qualitativo não apenas mede; ordena. A realidade não seria um amontoado de coisas, mas um conjunto de tensões e harmonias cuja ruptura compromete a ordem, e não somente a estética. Daí a sentença mais dura do texto: quem perde o sentido qualitativo do número perde o critério.

Essa distinção ajuda a compreender a leitura de qualidade dos números da apuração eleitoral. A formulação parece abstrata até que uma noite de votação a transforma em exercício prático. Na noite de domingo, 25 de outubro, o país viu um mesmo número mudar de sentido sem mudar de valor.

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A dinâmica dos dados na apuração das urnas

Inicialmente, os fatos são amplamente conhecidos. Com 0,29% das seções apuradas (1.456 de 499.248), Lula aparecia com 56,70% dos votos válidos, contra 43,30% de Flávio Bolsonaro. Logo depois, às 19h45, com 13,65% das urnas, Flávio assumia a frente. Conforme a cobertura dali em diante, a liderança permaneceu com ele até cerca de 20h20.

Posteriormente, o resultado final registrou 51,79% dos votos válidos para Lula (64.256.232 votos contra 59.826.041). Isso representou uma diferença de 4,43 milhões de votos. Consequentemente, houve a reversão da vantagem de 2,22 milhões que Flávio tivera no primeiro turno. Nesse sentido, o gráfico da apuração, em forma de gangorra, alimentou ansiedade no público. Além disso, gerou suspeitas que ainda não estão suficientemente postas à luz da verdade. Por conseguinte, numa primeira análise, os gráficos insistem em tentar contrariar a percepção geral.

É exatamente aqui que a leitura dos estatísticos se encontra com a tese filosófica. Afinal, o gráfico da apuração não mede a disputa em si; ele mede a ordem em que as urnas chegam. Primeiramente, as seções totalizadas vieram em boa parte do exterior. Em seguida, vieram o Sul e o Sudeste e, finalmente, o Nordeste.

Por um lado, quem olha o placar enxerga apenas quantidade bruta. Por outro lado, quem pergunta o quanto cada seção se desvia do primeiro turno enxerga proporção e estrutura. Foi justamente o que fizeram os modelos estatísticos. De acordo com o analista Frederico Dornellas, os modelos já indicavam Lula perto de 51,8% com menos de 2% das urnas. Da mesma forma, a projeção do jornal Estadão, de 51,4%, ficou a menos de meio ponto do resultado final. Visto que um número parcial é uma fração cujo denominador não se conhece, tratá-lo como veredito é perder o critério, no sentido exato de Mário.

Estrutura estatística e a leitura qualitativa dos números da apuração

A cautela, porém, vale da mesma maneira para os modelos. O próprio Dornellas relata um aspecto relevante. Uma extrapolação ingênua, aplicando ao primeiro turno o desvio das primeiras seções, acertou o destino por pouco. Todavia, errou por completo a trajetória. Em síntese, proporção sem estrutura continua sendo quantidade disfarçada. Portanto, a boa estatística não promete certeza; ela promete intervalo, sendo essa a sua honestidade.

O mesmo raciocínio vale para a escolha do gráfico. A curva percentual da apuração oscila com violência nos primeiros minutos. Como resultado, ela esconde que poucas centenas de milhares de votos separavam os candidatos no início. Além do mais, cada seção nova pesa menos à medida que o total cresce.

Em contrapartida, a comparação entre turnos revela uma proporção de outra natureza. Nesse período, Lula somou 10,38 milhões de votos entre os dois turnos. Enquanto isso, Flávio somou 3,72 milhões. De modo que, segundo cálculo da imprensa, três de cada quatro votos novos foram para o petista. Ou seja, não é a quantidade que explica a virada, mas a relação entre os incrementos.

O papel das pesquisas eleitorais e a margem de erro

Do mesmo modo, as pesquisas ilustram o mesmo problema do outro lado da urna. Na véspera, dez das doze pesquisas davam Flávio numericamente à frente, quase todas por 51% a 49%. Contudo, segundo levantamento publicado pela Genial Investimentos, sete dos nove institutos ficaram fora da margem de erro. Em média, subestimaram Lula em 2,5 pontos.

Além disso, o dado mais instrutivo é a direção variável do erro. Em 2022, as pesquisas subestimaram Jair Bolsonaro em cerca de sete pontos. Já no primeiro turno de 2026, subestimaram Flávio em dois a cinco pontos. Agora, por sua vez, subestimaram Lula. Assim sendo, quem vê nisso conspiração de um campo contra o outro precisa explicar um ponto. Por qual razão o sinal do erro troca de lado?

Diante disso, a hipótese mais sóbria é a de um problema de medida: o comparecimento. A abstenção caiu 1,86 ponto percentual, para 19,22%. Ademais, análises apontam que o eleitor pouco provável acabou comparecendo. Enquanto a pesquisa registra intenção declarada, a urna registra quem efetivamente comparece. Dessa maneira, um “51 a 49” lido como previsão transformou o empate técnico em um “deve vencer” não autorizado pela margem de erro.

Questões jurídicas e a legitimidade do resultado

Por fim, resta o ponto mais delicado, que é o da contestação. Reportagens informam que Flávio Bolsonaro anunciou não reconhecer o resultado e pretender pedir a anulação do pleito. Para tanto, ele questionou a prorrogação da votação, decidida no Supremo a pedido da campanha petista.

Sob a ótica da aritmética, um levantamento aponta 35.521 votos registrados depois das 17h, ou seja, 0,80% da vantagem final de 4.430.191. O número é útil, mas é onde Mário mais ajuda. Afinal, se justiça é relação ordenada e não opinião, tampouco é soma. Por conseguinte, uma quantia pequena não torna regular o irregular. Do mesmo modo, uma margem grande não dispensa o devido processo.

“Se justiça é relação ordenada e não opinião, tampouco é soma.” — Mário Ferreira dos Santos (Filósofo brasileiro)

Em suma, a pergunta sobre se a prorrogação foi legítima é puramente jurídica. Ela pertence à Justiça Eleitoral — cujas diretrizes oficiais podem ser acompanhadas no portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) —, com provas e contraditório. Portanto, quem a levanta exerce um direito legítimo. Em contrapartida, quem a rejeita deve responder com argumentos, não com o tamanho da vitória. Igualmente, a diferença de 3,58 pontos legitima aritmeticamente o vencedor. Entretanto, a legitimidade democrática é também procedimento, e a dúvida não é prova.

Conclusão: a lição para além das urnas

Diante disso, usar qualquer discurso ideológico contra a democracia é crime de grande poder ofensivo e um tiro no próprio pé. A eleição é o regime em que a quantidade decide por decisão constitucional. Ou seja, cada voto vale um, e nenhuma qualidade metafísica substitui a contagem.

Portanto, o que a leitura qualitativa dos números da apuração oferece não é um critério alternativo de vencedor. Em vez disso, ela oferece uma disciplina de leitura. Trata-se de saber qual é o denominador, em que ordem os dados chegam e qual é o intervalo de confiança.

Em suma, dizendo com a metáfora do próprio Olivertalk, a realidade tem proporções. Desse modo, o gráfico só a representa bem quando se respeita a proporção entre o que se vê e o que ainda falta ver. Por essa razão, a lição final de uma adequada leitura qualitativa dos números da apuração é educativa, não eleitoral.

Erro histórico do intelectual e a armadilha do porta-voz ideológico

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É certo que o pensador que abraça uma ideologia e passa a combater todos os divergentes comete um erro histórico do intelectual, pois acerta o alvo central, mas perde o entorno. Afinal, o mundo real é sempre mais diverso do que o ponto escolhido. Consequentemente, perde-se a bússola, a régua e o compasso, isto é, a orientação e a capacidade de traçar o círculo de um mundo inteiro. A imagem final mostra um filósofo dividido e cativo, com um muro no meio do universo, enxergando apenas metade de tudo. Essa observação é menos uma questão de gosto político e mais uma questão de método. Portanto, o que está em causa é a função do pensamento, e não o conteúdo da crença.

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Diagnósticos clássicos sobre o erro histórico do intelectual

Essa intuição possui forte pedigree histórico. Em 1927, Julien Benda publicou “A Traição dos Intelectuais” para denunciar exatamente o fenômeno. Os clérigos, que deveriam servir a valores universais como a verdade, a justiça e a razão, entregavam-se às paixões políticas de classe, de nação e de partido. Para Benda, o intelectual que se faz porta-voz deixa de ser guardião do universal e passa a ser advogado de interesses particulares. Posteriormente, Raymond Aron publicou “O Ópio dos Intelectuais” em 1955, acrescentando um diagnóstico complementar: a fé política dos letrados costuma ser mais dogmática do que a do homem comum, pois dispensa o contato com o custo concreto das decisões.

Exemplos históricos e as faces do erro histórico do intelectual

A história oferece um acervo doloroso de exemplos que ilustram claramente o erro histórico do intelectual. É fundamental notar que eles vêm de todos os lados, indicando que o problema não está na ideologia escolhida, mas no gesto de se tornar seu porta-voz. Martin Heidegger, profundo filósofo do século XX, aderiu ao partido nazista e assumiu o reitorado de Friburgo em 1933. Ezra Pound transmitiu propaganda fascista pelo rádio italiano durante a guerra. Louis-Ferdinand Céline escreveu panfletos antissemitas que mancharam sua obra. Na outra margem, Pablo Neruda compôs odes a Stalin quando o terror já era notório. André Gide viajou à União Soviética em 1936, voltou desiludido e foi tratado como traidor por descrever a realidade. Jean-Paul Sartre relativizou crimes soviéticos e rompeu com Albert Camus quando este recusou a máxima de que o fim justifica os meios.

O padrão se repete com notável regularidade. Primeiro ocorre a escolha do lado, muitas vezes movida por indignação legítima ou amor pela pátria. Em seguida surge a lealdade exigida pela facção, forçando a leitura favorável de fatos incômodos. Por fim, instala-se o silêncio seletivo: o intelectual deixa de ver os erros do próprio campo. Quem cumpre essa trajetória descobre, tarde demais, que cedeu a credibilidade de quem não precisa dizer o que convém.

Contraponto de pensadores fiéis aos valores universais

Há, porém, um erro simétrico que precisa ser evitado. A honestidade intelectual exige reconhecer que não se prega a neutralidade como virtude nem o silêncio como prudência. Émile Zola publicou “J’accuse” em 1898 escolhendo um lado, mas defendeu um homem, Dreyfus, e um princípio de justiça, e não um partido. George Orwell lutou na Guerra Civil Espanhola e denunciou as mentiras da própria esquerda com absoluta lucidez. Václav Havel criticou o regime comunista sem virar propagandista de outra bandeira. A diferença nesses casos reside na direção da lealdade: Zola, Orwell e Havel serviram a valores permanentes, enquanto os outros serviram a organizações.

Efeitos nocivos da militância e o erro histórico do intelectual

O custo não recai apenas sobre quem se alista. A esfera pública, dependente de vozes justas para arbitrar disputas, sofre graves danos. Quando essas vozes se alinham cegamente, o árbitro desaparece. Cada fato ganha uma etiqueta de origem, e o cidadão comum aprende a descontar o que vem do adversário e a absorver sem filtro o que vem do seu grupo.

A confiança social, construída ao longo de séculos, consome-se em poucas décadas de militância partidária. Não por acaso, as sociedades mais polarizadas são exatamente aquelas onde o respeito pelos pensadores e pela imprensa mais se deteriora. Como já discutimos em nossa análise sobre o que as escolas deixaram de ensinar, a perda de referências críticas compromete as novas gerações.

Urgência como inimiga da lucidez no debate público

O muro no meio do universo representa o mecanismo mental que classifica as pessoas antes de ouvi-las. O interlocutor vira representante do inimigo, e o debate transforma-se em guerra de trincheiras. O filósofo militante já não investiga a verdade, mas avalia a utilidade política do argumento.

Seria ingenuidade atribuir esse desvio apenas à vaidade. Na maioria das vezes, o intelectual é movido por uma sinceridade genuína, tornando o erro persistente. Contudo, a urgência converte-se na grande inimiga da lucidez. Ela convence de que matizar é trair e de que a complexidade é um luxo desnecessário.

O papel distorcido de jornalistas e artistas na política

Para o jornalista, o cantor e o ator militantes, o problema agrava-se porque a eles se confia a mediação cultural. Quando o jornalista seleciona fatos por causa da ideologia ou o artista transforma o palco em palanque, ambos reduzem seu alcance à facção. Quem busca informação ou beleza no teatro e no jornal descobre que participa de uma assembleia doutrinária. A arte torna-se panfleto, e a causa perde o poder de convencer quem pensa diferente.

Nos dias atuais, as redes sociais aceleram esse processo. As plataformas premiam a declaração de pertencimento em detrimento da ponderação. O pensador que hesita perde seguidores, enquanto o extremista colhe curtidas imediatas. Resistir a esse incentivo perverso constitui, hoje, uma verdadeira forma silenciosa de coragem.

Conclusão sobre a verdadeira independência do pensador

Convém distinguir o intelectual do cidadão comum. Todo pensador tem o direito de votar, filiar-se e debater com paixão em sua vida privada. O problema surge quando a obra transforma-se em instrumento permanente de uma facção, abandonando o público inteiro.

A verdadeira independência exige dizer a verdade a qualquer poder e preservar o espaço de diálogo entre adversários. Camus resumiu essa postura ao recusar ser vítima ou carrasco. Trata-se de uma posição incômoda, mas indispensável para conservar a bússola, a régua e o compasso diante da complexidade do mundo.

O que as escolas deixaram de ensinar na crise da educação nacional

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Em setembro, a OCDE divulgou os resultados do Pisa 2025. O Brasil marcou 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências, ficando abaixo da média da organização nas três áreas. Ficamos em 71º lugar em matemática, 67º em ciências e 52º em leitura entre os países com resultados comparáveis. Em ciências, apenas cerca de 48% dos nossos estudantes de 15 anos alcançam o nível básico de proficiência. Na média da OCDE, por sua vez, esse número atinge 74%. Além disso, em leitura, apenas 1% dos alunos chega aos níveis mais altos, contra 6% da média dos países ricos. Desse modo, surge inevitavelmente o debate sobre o que as escolas deixaram de ensinar ao longo dos últimos anos.

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Questionamento de fundo sobre os objetivos da educação brasileira

Esses dados já são amplamente conhecidos. A cada nova edição, produzem o mesmo ritual de lamento, promessas e planos governamentais. Contudo, raramente se faz a pergunta de fundo sobre a real aplicação das horas letivas. Se o resultado final permanece tão baixo, talvez o problema não esteja apenas nos recursos investidos, mas nas metas do sistema.

Analisando o impacto econômico, observa-se que esse atraso possui um custo concreto para o país. Em 2022, a OCDE estimou que estudantes de Singapura estavam até cinco anos de escolaridade à frente da média. Consequentemente, jovens que saem da escola sem dominar leitura e matemática chegam ao mercado com sérias limitações intelectuais. Onde o ensino falha, sobra inevitavelmente a dependência individual.

Tese de Bernardin sobre Maquiavel Pedagogo e a engenharia social

Essa reflexão dialoga diretamente com a obra Maquiavel Pedagogo, do engenheiro francês Pascal Bernardin. Publicado em 1995 e traduzido no Brasil em 2013, o livro sustenta uma mudança discreta nos objetivos educacionais. Segundo o autor, organismos internacionais deslocaram o foco da transmissão do conhecimento para a alteração de comportamentos. Assim, a criança deixa de ser alguém a instruir para se tornar matéria a moldar.

Analisando o método, Bernardin destaca o uso de um vocabulário técnico e atraente. Termos como “competências”, “habilidades”, “inovação” e “protagonismo” dificultam a crítica pública. Afinal, quem questiona tais conceitos é rapidamente rotulado como conservador ou ultrapassado.

Conexões teóricas entre Gramsci e a Escola de Frankfurt

Essa transformação educacional dialoga com duas correntes teóricas marcantes. Primeiramente, refere-se ao pensamento de Antonio Gramsci sobre a conquista da hegemonia cultural antes da tomada do poder. Em segundo lugar, conecta-se à Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, que usou a cultura para desconstruir valores sociais.

Nessa perspectiva, o ensino rigoroso de conteúdos perde o protagonismo. Ler com fluência, calcular com precisão e argumentar logicamente passam a ocupar um papel secundário. Prioriza-se, dessa forma, a tarefa de “conscientizar” ideologicamente os estudantes.

Diagnóstico das falhas estruturais e da pedagogia engajada no Brasil

Diversos críticos apontam que o Brasil seguiu rigorosamente essa trajetória ideológica. Citam a obra de Paulo Freire como referência quase exclusiva nas faculdades de pedagogia. Além disso, observam que os cursos de licenciatura priorizam teorias educacionais em detrimento do domínio da matéria a ser lecionada.

Outro ponto levantado envolve o viés militante presente em materiais didáticos e currículos. Há uma clara desconfiança da autoridade do professor, do esforço individual, da repetição e das avaliações externas. Portanto, a estagnação nas avaliações do Pisa passa a ser vista não como um acidente, mas como consequência direta de prioridades equivocadas.

Aumento da desigualdade social provocado pela falta de conteúdo

Importante ressaltar que essa abordagem pedagógica gera profundas injustiças sociais. Famílias de renda mais alta compensam as falhas do ensino público com aulas particulares, colégios seletivos e livros. Em contrapartida, os alunos mais pobres dependem exclusivamente da escola pública.

Dados recentes do Pisa mostram que a distância em matemática entre as notas mais altas e as mais baixas aumentou entre 2022 e 2025. Desse modo, o abandono do conteúdo acadêmico aprofunda a desigualdade em nome de combatê-la. Quem tem alternativas aprende apesar da escola; os desfavorecidos aprendem apenas o que a sala de aula oferece.

Requisitos fundamentais para a reconstrução do ensino de qualidade

Educar consiste em introduzir as novas gerações no patrimônio cultural acumulado pela humanidade. Esse processo exige alfabetização sólida nos anos iniciais, matemática ensinada com rigor e amplo domínio da língua portuguesa. História e ciências devem ser tratadas como saber acadêmico, e não como instrumento de militância política.

Exige-se, da mesma forma, valorização da autoridade intelectual do professor e empenho dos estudantes. Uma instituição que informa e ensina a pensar forma cidadãos livres. Por outro lado, um sistema que conduz o aluno a conclusões preconcebidas gera apenas militantes.

Comparação com modelos internacionais de alto desempenho

Modelos bem-sucedidos em países como a Coreia do Sul demonstraram que reformas reais focam nos meios de ensino. Nesses locais, houve valorização docente, maior tempo de estudo e exigência acadêmica, em vez de experimentos ideológicos.

Sistemas que lideram o Pisa — a exemplo de Singapura, Japão e Estônia — compartilham currículos exigentes e avaliações constantes. Nenhum desses países utiliza o estudante como ferramenta para projetos políticos alheios ao aprendizado real.

Centralidade do método fônico e da alfabetização baseada em evidências

No tocante ao aprendizado inicial, a alfabetização surge como o teste mais claro dessa divisão. Atrasos na leitura nos primeiros anos geram defasagens que acompanham o estudante por toda a vida.

Defensores do ensino estruturado sustentam que a alfabetização explícita e sistemática deve prevalecer sobre teorias construtivistas. A ideia de que a criança é autora espontânea do próprio aprendizado falhou na prática. Afinal, ler é o direito básico de todo estudante.

Transparência e prestação de contas na gestão educacional

Diante do cenário atual, a discussão sobre os rumos da educação exige debate público imediato. Famílias, professores e pesquisadores precisam analisar abertamente currículos, diretrizes e materiais didáticos distribuídos pelo Estado.

Caso a escola esteja cumprindo sua missão de ensinar, os indicadores demonstrarão os avanços. Contudo, se os resultados permanecerem negativos, a sociedade tem o direito de saber a quem esses métodos estão servindo.

Ponto de vista oposto sobre os fatores socioeconômicos do Pisa

Para garantir a honestidade do debate, cumpre apresentar as objeções formuladas pelos críticos dessa tese. Quanto à obra de Bernardin, analistas lembram que o texto analisa reformas europeias e norte-americanas, sem provar causalidade direta com as notas do Pisa.

Argumenta-se também que os resultados brasileiros apresentaram avanços nas últimas duas décadas. Desde 2006, a distância para a média da OCDE caiu em matemática, leitura e ciências. Entretanto, especialistas ponderam que parte dessa aproximação decorreu da queda do desempenho dos países ricos.

Desafios operacionais e variações regionais no desempenho escolar

A maioria dos pesquisadores atribui os baixos resultados a fatores estruturais históricos. Entre eles, destacam-se a desigualdade socioeconômica, a formação deficiente de docentes, a jornada escolar reduzida e a precariedade das instalações. Adicionalmente, pontuam que até mesmo os alunos da rede privada brasileira pontuam abaixo da média da OCDE em matemática.

Por fim, dados regionais dentro do próprio Brasil trazem novos elementos para a reflexão. Sob as mesmas diretrizes curriculares nacionais, o estado do Paraná obteve 423 pontos em matemática no Pisa 2025 e São Paulo alcançou 404 pontos, resultados bem superiores à média nacional. Isso demonstra que a gestão escolar e as práticas pedagógicas adotadas em sala de aula exercem um peso decisivo no aprendizado real.

O impacto psicológico das ideologias políticas na sociedade

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Não é de hoje que sabemos como as ideologias políticas estão ligadas diretamente ao nosso inconsciente coletivo. Há, de fato, elementos muito além da lógica e da razão que orientam nossas escolhas cotidianas. Nossos traumas individuais e coletivos não desaparecem com o tempo. A fome, a guerra, a ditadura, a humilhação e a perda transformam-se em medos e lealdades. Esses sentimentos atravessam gerações e aparecem na urna ou na mesa de jantar. A pergunta que se impõe é incômoda. Afinal, estamos agindo de forma consciente ou apenas repetindo padrões herdados do passado? Ademais, podemos nos libertar dessa influência inconsciente ou estamos presos numa espécie de matrix preestabelecida?

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As ideologias políticas têm o poder de moldar pensamentos e comportamentos. Além disso, muitas vezes elas fazem isso de modo extremamente sutil. Elas alimentam crenças e esculpem em nós uma identidade rígida. Consequentemente, essa identidade funciona como uma programação para agir de uma forma ou de outra.

“O indivíduo, ao se fundir a um grupo, entrega ao líder e à bandeira o lugar de seu ideal de eu, e passa a sentir, pensar e odiar em coro.”

— Sigmund Freud, médico neurologista e fundador da psicanálise, em Psicologia das Massas e Análise do Eu.

Da mesma forma, em O Mal-Estar na Civilização, Freud descreveu o “narcisismo das pequenas diferenças”. Quanto mais próximos somos de alguém, mais necessitamos de um inimigo que confirme quem somos. Portanto, a polarização contemporânea é, em boa medida, a encenação pública desse mecanismo psíquico.

A projeção da sombra e as ideologias políticas contemporâneas

Carl Jung acrescentou a essa leitura a noção de sombra. Aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos não deixa de existir. Por exemplo, a agressividade, a inveja, a covardia e o desejo de poder continuam ativos. Assim, esses sentimentos são projetados diretamente no outro. O adversário passa a carregar o que há de pior em nós. Por conseguinte, combatê-lo torna-se uma forma de nunca olhar para dentro.

“O maior risco das sociedades modernas não é uma ideologia específica, mas a perda da capacidade de cada pessoa de se perceber como indivíduo.”

— Carl Gustav Jung, psiquiatra e fundador da psicologia analítica, em Presente e Futuro.

Os complexos funcionam como pequenas personalidades autônomas. Quando um debate nos faz ferver, raramente é a discussão presente que fala. Pelo contrário, trata-se de uma ferida antiga que foi tocada. Em O Eu e o Inconsciente, Jung alertava para o perigo da mentalidade de massa. Nesse estado, o indivíduo se dissolve em slogans e abdica da própria responsabilidade moral.

A individuação como resposta às amarras das ideologias políticas

É aqui que o processo de individuação se torna politicamente relevante. Individuar-se não significa isolar-se nem tornar-se apolítico. Trata-se, contudo, de tornar-se consciente dos próprios conteúdos inconscientes. Desse modo, integramos esses conteúdos para que eles deixem de nos governar às cegas.

Jung acreditava que a religião era parte essencial desse processo. Trata-se da função psíquica que nos liga ao sentido e ao transcendente. Quando essa dimensão simbólica é negada, ela não desaparece simplesmente. Em vez disso, ela migra diretamente para a política. Assim, partidos, líderes e causas passam a ocupar o lugar do sagrado. Daí surge o caráter fanático de tantas disputas atuais. De certa forma, a individuação permite ao ser humano se libertar das amarras e da hipnose proporcionada pelas ideologias políticas. Afinal, ela devolve aos símbolos o seu lugar interior e retira das figuras públicas um peso excessivo.

O método da psicanálise diante da polarização

A psicanálise oferece o método adequado para essa travessia. Em análise, aprendemos a suspeitar da própria certeza. Igualmente, aprendemos a perguntar de onde vem a intensidade de uma reação e a que história ela pertence. Esse gesto, aparentemente pequeno, é profundamente subversivo. Quem consegue dizer “sinto raiva, e preciso entender o que ela quer me dizer” já não é inteiramente capturado por ela.

“Onde estava o Id, deve advir o Eu.”

— Sigmund Freud, sobre a tomada de consciência no processo analítico.

A atenção flutuante do analista e a associação livre do paciente ajudam nesse processo. Além disso, a interpretação dos sonhos e a elaboração do luto transformam a repetição em memória. Trazido ao campo prático, isso significa que onde havia reflexo condicionado pode haver decisão consciente.

O respeito às diferenças nas escolhas e ideologias políticas

A recompensa dessa abertura mental é o respeito real às diferenças. Quem reconhece a própria sombra deixa de precisar de um bode expiatório. Do mesmo modo, quem conhece os próprios complexos desconfia do prazer de odiar. Quem integrou o medo já não o terceiriza a um salvador. Passa-se, então, a enxergar no outro um ser humano com feridas e esperanças parecidas com as nossas.

Isso não elimina o conflito, que é inerente à democracia. Elimina, contudo, a sua versão mais tóxica. Trata-se daquela em que a divergência de ideias é vivida como ameaça à própria existência. É dessa maturidade que nasce a harmonia possível numa sociedade plural. Essa harmonia não surge da uniformidade de opiniões, mas da capacidade de sustentar a tensão sem destruir o outro.

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| PASSO A PASSO PARA A LIBERTAÇÃO DAS MANIPULAÇÕES IDEOLÓGICAS          |
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| 1. Análise pessoal para examinar convicções e origens afetivas.         |
| 2. Autoconhecimento através de sonhos, escrita e contato com a arte.   |
| 3. Reflexão prévia sobre o que a indignação revela sobre nós mesmos.    |
| 4. Escuta ativa do adversário sem preparar respostas defensivas.        |
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Como praticar a libertação consciente no dia a dia

Mas como se dá, na prática, essa libertação? Em primeiro lugar, ela ocorre pela análise pessoal. Ela oferece um espaço seguro para examinar as origens afetivas de nossas convicções. Em segundo lugar, ocorre por práticas de autoconhecimento valorizadas pela tradição junguiana. Entre elas estão o registro dos sonhos, a imaginação ativa, a escrita simbólica e o contato com a arte.

Em terceiro lugar, dá-se pelo hábito de perguntar o que a indignação revela sobre nós antes de acusar o outro. Há ainda um exercício simples e raramente praticado: escutar um adversário sem preparar a resposta. Trata-se de ouvir com a curiosidade de quem tenta compreender de qual medo aquela posição foi feita. Quem faz isso descobre que muitos desacordos políticos são desacordos sobre o que cada grupo teme perder.

Esse movimento tem uma dimensão coletiva que não deve ser subestimada. Povos que viveram violência política carregam memórias não elaboradas. Por conseguinte, o que não é elaborado tende a ser repetido. Sociedades também precisam de seus processos de luto e memória. Cada indivíduo que se torna mais consciente contribui para que a história seja contada com menos idealização. Assim, as gerações seguintes herdam menos ressentimento.

O papel do ambiente digital na reprodução de ideologias políticas

O ambiente digital agrava consideravelmente esse problema. Os algoritmos premiam a indignação e aproximam apenas quem pensa igual. Além disso, eles expõem cada pessoa a estímulos desenhados para ativar medo e raiva. Em termos junguianos, trata-se de uma máquina de produzir projeções. A sombra de cada grupo é continuamente exibida no outro. Consequentemente, o complexo é acionado antes que a reflexão possa intervir.

Reconhecer esse mecanismo é o primeiro passo de liberdade. Quem percebe que o impulso de atacar nasce de um afeto ganha um intervalo vital. Nesse pequeno espaço entre o estímulo e a resposta, a consciência finalmente pode agir.

A ética do diálogo frente às ideologias políticas

Esta travessia também pede uma ética rigorosa do diálogo.

“O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas transformam-se.”

— Carl Gustav Jung, psicólogo e ensaísta.

Dialogar de verdade é aceitar o risco de ser alterado pelo outro. Isso só é possível para quem não depende da vitória para se sentir inteiro. A polarização prospera onde a identidade é frágil e precisa de inimigos. Por outro lado, o diálogo prospera onde a identidade é sólida para tolerar a dúvida. A educação e a formação política ganhariam muito se incorporassem esse aprendizado emocional aos seus conteúdos.

Há ainda um conceito junguiano essencial: a função transcendente. Quando duas posições opostas são mantidas em tensão consciente, a psique produz um terceiro elemento. Trata-se de um símbolo novo que reconcilia o que parecia irreconciliável. Politicamente, isso equivale a reconhecer que cada polo guarda uma verdade parcial. Seja o cuidado com a ordem, seja o anseio por mudança, ambas são necessidades legítimas. Quem suporta essa tensão deixa de ver o debate como guerra. Não se trata de relativismo, mas de saber que nenhuma ideologia esgota a complexidade da vida.

Autoconhecimento e cidadania ativa

Convém, no entanto, evitar um otimismo ingênuo. A libertação do inconsciente não é um estado definitivo que se conserva para sempre. Jung falava de um processo que dura a vida inteira e jamais se completa. O próprio inconsciente continuará a produzir complexos e atração coletiva. Tampouco se trata de um privilégio individual dissociado das condições concretas. Pobreza, violência e desinformação também moldam escolhas. Portanto, nenhuma psicologia dispensa instituições justas.

A individuação não substitui a política; ela apenas qualifica quem a pratica. Um cidadão consciente continuará tendo posições e valores. Ele sustentará suas ideias por convicção e não por compulsão. Assim, poderá revê-las sem sentir que perde a si mesmo. Os insights que possibilitam a libertação são dados pelo desenvolvimento da mente. Nenhum poder se sustenta apenas pela força. Ele depende da adesão emocional de quem o obedece e de medos manipulados.

“A paz social começa, silenciosamente, na paz que cada um constrói com as próprias sombras.”

— Síntese da Psicologia Analítica sobre a Vida Pública.

Uma população que aprende a reconhecer essas engrenagens torna-se bem menos manipulável. Por isso, o trabalho interior é também um ato cívico relevante. Cada pessoa que atravessa a própria sombra reduz a quantidade de ódio disponível para mobilização. É possível ao indivíduo se libertar das polarizações, entendendo libertação como o fim da servidão inconsciente. A psicologia analítica não promete uma sociedade sem conflitos. Ela propõe algo mais realista: pessoas capazes de olhar para dentro antes de apontar para fora. Num tempo em que tudo nos convida ao ódio, o gesto mais radical é parar e perguntar quem em nós está falando.

Extremismo e Segurança Pública: As Lições do Colapso Europeu para o Brasil

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O avanço do extremismo e a segurança pública vulnerável tornaram-se desafios globais urgentes. O termo Intifada, de origem árabe, significa “agitar” ou “sacudir”. Ele marcou os levantes palestinos entre 1987 e 2005. No entanto, o fenômeno não se limita mais a Israel. Hoje, ele se espalha pelo mundo como uma praga.

Paris e outras cidades francesas enfrentam esses levantes de forma frequente. Além disso, a Europa vê esse pesadelo se repetir em metrópoles como Milão, Bruxelas e Londres. Os principais protagonistas desses atos são, na maioria, filhos de imigrantes muçulmanos.

Por essa razão, arruaças exibem bandeiras palestinas e do Hamas. Tais grupos reúnem os autoproclamados novos revolucionários árabes do século XXI. Contudo, esses rebeldes dispõem de planejamento e dinheiro abundantes. O financiamento vem de fundações como a de Soros, da Irmandade Muçulmana e de partidos de esquerda.

VISTO, LIDO E OUVIDO Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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As Conexões Financeiras e o Alerta Histórico

A fusão entre esquerdas globais e movimentos muçulmanos promete desestabilizar o planeta. Além disso, somam-se recursos do terrorismo, do narcotráfico e do crime organizado. Essa união constrói uma superestrutura focada em aniquilar a cultura ocidental.

Portanto, toda civilização que desmorona deixa um rastro de avisos ignorados. Ninguém perde a segurança e a autoridade das leis de um dia para o outro. Pelo contrário, essa perda ocorre aos poucos. Ela avança por concessões pequenas, silêncios convenientes e autoridades covardes.

A Europa vive exatamente esse processo de erosão institucional. Enquanto isso, o Brasil observa tudo de camarote com sua insensatez habitual, como se a história fosse um espetáculo alheio.

A Crise na Europa: O Extremismo e a Segurança Pública em Risco

Precisamos olhar os fatos sem anestesia. Desde os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, a ameaça terrorista contra judeus cresceu. Consequentemente, relatórios do International Centre for Counter-Terrorism (ICCT) confirmam um aumento nos ataques antissemitas na Europa após o início da guerra no Irã, em fevereiro de 2026.

Por exemplo, em outubro de 2025, um agressor atropelou e esfaqueou pessoas diante de uma sinagoga em Manchester. O ataque deixou dois mortos. Da mesma forma, dois meses depois, um atentado jihadista na praia de Bondi, na Austrália, matou 15 pessoas e feriu 40 durante o Hanucá.

Esses fatos não são abstrações estatísticas. Trata-se de famílias reais que foram acender velas e voltaram em caixões. O número de crimes de ódio permanece elevado. Na Holanda, os 867 casos registrados em 2025 ficaram próximos dos recordes de 2023 e 2024. Quando o ódio vira rotina, o Estado falha e perde o monopólio da ordem.

A Falência das Autoridades na Proteção dos Cidadãos

Certamente, o problema central não é a fé religiosa. Milhões de muçulmanos vivem na Europa e no Brasil de forma honesta. Eles trabalham, criam seus filhos e respeitam as leis. Inclusive, eles costumam ser as primeiras vítimas do fanatismo.

O verdadeiro problema é a ideologia extrema. Ela transforma tragédias políticas distantes em licença para depredar e matar. Sobretudo, o problema é a omissão de governos covardes. Por medo de perder votos ou sofrer acusações de intolerância, o Estado tolerou o intolerável.

Durante anos, a Europa tratou a falha na integração sociocultural apenas como tese acadêmica. Como resultado, bairros inteiros ficaram sem emprego, escola ou presença policial. Assim, o ressentimento fermentou nesses locais.

Quando a violência explodiu, os governantes hesitaram entre a negação e o pânico. Ou seja, confundiu-se tolerância com omissão. O poder público permitiu que radicais celebrassem massacres em vias públicas sob o pretexto da liberdade de expressão. Todavia, a liberdade protege a divergência; ela jamais deve proteger a apologia ao assassinato.

“A lição é simples e brutal: o Estado que não impõe a lei com igualdade acaba substituído por quem a imponha à força.”

O Impacto no Brasil: Crime Organizado e Segurança Pública

O Brasil costuma se acomodar no mito do povo cordial. Contudo, essa ilusão nos cega para uma realidade perigosa. Nós já enfrentamos nossa própria versão do problema: o poder paralelo desafiando as instituições.

Na Europa, a ameaça surge do extremismo que importa guerras estrangeiras. No Brasil, contudo, o risco vem do crime organizado refinado. As facções brasileiras agora vestem terno, abrem fintechs e compram usinas.

A Operação Carbono Oculto revelou o tamanho desse abismo financeiro. O capital ilícito do Primeiro Comando da Capital (PCC) comprou distribuidoras, transportadoras e postos de combustível. Estima-se que o esquema sonegou R$ 7,67 bilhões em tributos.

Portanto, não estamos lidando com criminalidade comum de rua. Pelo contrário, trata-se de uma estrutura econômica que corrompe o mercado e desafia a soberania nacional.

O Confronto Direto Contra o Estado Brasileiro

A audácia dos criminosos atingiu níveis alarmantes. O assassinato do ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes exemplifica essa escalada. As investigações apontam o PCC como mandante do crime em retaliação ao seu histórico de combate à facção. Esse ato demonstra que o crime organizado ensaia o confronto direto contra o Estado.

A gravidade da situação internacionalizou o debate. Em maio de 2026, a Casa Branca designou o Comando Vermelho (CV) e o PCC como organizações terroristas estrangeiras.

Especialistas e políticos discutem os riscos desta medida para a soberania nacional. O próprio chanceler honorário Celso Amorim apontou preocupações com a classificação externa. No entanto, o simples fato de a discussão atingir esse nível expõe o veredicto de décadas de omissão estatal. Deixamos o problema crescer a ponto de potências estrangeiras planejarem intervenções.

O Niilismo de Gabinete e a Omisão Estatal

Alguns analistas chamam as manifestações violentas de niilismo das ruas. Contudo, o niilismo mais perigoso nasce nos gabinetes governamentais.

É o niilismo de quem trata o combate ao crime como “criminalização da pobreza”. É a postura de quem perdoa a violência política sob o pretexto de “compreender o contexto”. Trata-se da hesitação de autoridades que renunciaram ao seu dever constitucional.

Diretrizes Fundamentais para Preservar a Segurança Pública

Se o Brasil deseja evitar o colapso de cidades como Paris, Londres e Bruxelas, precisará adotar medidas firmes:

  1. Aplicação igualitária da lei: Quem depreda, ameaça ou apoia o terrorismo deve responder por seus atos. A seletividade punitiva destrói a credibilidade da Justiça.
  2. Presença estatal em áreas vulneráveis: O Estado precisa retomar territórios dominados por facções. Isso exige policiais treinados, inteligência financeira, presídios de segurança máxima e rapidez judicial.
  3. Fiscalização do fluxo financeiro: O crime moderno atua no sistema financeiro. Fintechs de fachada e empresas-laranja funcionam como fuzis econômicos. Quem controla o dinheiro domina a guerra.
  4. Limites claros para a tolerância: Um país democrático acolhe a diversidade, mas não pode tolerar quem prega a destruição do próximo. Importar conflitos internacionais para o espaço público brasileiro é uma atitude irresponsável.

Conclusão: O Momento de Agir é Agora

A Europa não ruiu de um dia para o outro. Ela foi cedendo aos poucos. Por fim, os europeus perceberam que o preço de ceder era muito maior do que o de resistir.

Felizmente, o Brasil ainda tem tempo para agir, embora o prazo seja curto. Nosso país possui instituições fortes, uma sociedade pacífica e uma valiosa tradição de convivência inter-religiosa.

No entanto, essas qualidades não se mantêm por inércia. Elas exigem coragem, vontade política e leis aplicadas com firmeza. Entender a liberdade como licença para o caos resulta na perda da própria liberdade. O fogo que queima distante pode chegar à nossa porta. Resta saber se seremos a geração que agiu ou a que preferiu mudar de canal.

❓ Pergunta aos leitores

Você acredita que as autoridades brasileiras estão aplicando a lei de forma rigorosa contra o avanço do crime organizado e do extremismo? Deixe seu comentário abaixo!

França é o Brasil de amanhã na alerta sobre a expansão do Estado

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A expansão do Estado, o peso dos impostos e a concentração de poder econômico nas mãos da burocracia são problemas globais. Diante desse cenário, surge o alerta de que a França é o Brasil de amanhã caso escolhas econômicas equivocadas persistam. Afinal, uma das maiores economias do planeta oferece ao nosso país uma advertência urgente. Com efeito, até nações ricas enfrentam ciclos de endividamento, crescimento medíocre e conflitos sociais quando o poder público gasta mais do que arrecada de forma sustentável.

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Paralelos econômicos entre o modelo francês e o cenário brasileiro

Certamente, ninguém afirma que os dois países sejam idênticos ou caminhem para o mesmo resultado exato. Pelo contrário, trata-se de reconhecer que determinadas escolhas econômicas produzem consequências semelhantes, independentemente da história ou geografia. Portanto, quando governos prometem mais do que podem entregar e aumentam despesas sem prioridades, a conta recai diretamente sobre o contribuinte.

Analisando os indicadores recentes, a dimensão do problema francês fica evidente. Com efeito, projeções da Comissão Europeia indicam que a dívida pública francesa pode alcançar 118,1% em 2026 e 120,2% em 2027. Além disso, o déficit público deve permanecer em 5,1% do PIB em 2026, podendo atingir 5,7% no ano seguinte. Paralelamente, projeções de crescimento econômico de apenas 0,8% no mesmo período revelam a enorme dificuldade de conciliar um Estado gigante com uma economia estagnada.

Peso das despesas públicas na sustentabilidade financeira

Relatórios da Comissão Europeia mostram que os gastos governamentais franceses atingiram 57,2% do PIB em 2025. Esse patamar supera consideravelmente a média dos países da União Europeia. Desse modo, manter uma estrutura desse porte exige arrecadação pesada, endividamento contínuo ou uma combinação perigosa de ambos.

Serviços públicos são indispensáveis para qualquer sociedade desenvolvida. Todavia, a grande questão reside na capacidade de financiá-los sem comprometer o futuro econômico. Por conseguinte, o acúmulo de dívidas reduz a margem de manobra dos governantes e transfere o custo das decisões atuais para as próximas gerações.

Alertas internacionais sobre o avanço do endividamento público

Observando o cenário brasileiro, fica claro que não podemos nos iludir com nossa dimensão continental. Estruturas tributárias complexas, necessidades sociais imensas e baixa produtividade marcam a realidade nacional. Consequentemente, reproduzir os erros de economias maduras significa desperdiçar a oportunidade de aprender com a experiência alheia.

Diferenças institucionais e de renda por habitante entre Brasil e França existem e são expressivas. Apesar disso, a expansão permanente das despesas sem estratégia clara de crescimento gera travamentos inevitáveis. Assim, mais cedo ou mais tarde, a realidade força os governos a escolher entre cortar gastos, elevar impostos ou emitir mais dívida.

Tentação do aumento de impostos no debate fiscal

Historicamente, o debate fiscal no Brasil trata a arrecadação como se pudesse crescer indefinidamente. Diante de cada crise, surgem propostas para criar contribuições, aumentar alíquotas e expandir bases de incidência. Por outro lado, raramente a classe política demonstra a mesma coragem para cortar privilégios, avaliar programas ou eliminar despesas ineficientes.

Efeitos concretos desse desequilíbrio afetam o setor produtivo diariamente. Por exemplo, empresas adiam investimentos necessários, empreendedores lutam para sobreviver e famílias perdem poder de compra. Ademais, a tributação excessiva destrói a capacidade de poupança e limita a geração espontânea de riquezas.

Círculo vicioso do baixo crescimento econômico

Travamentos na produtividade mantêm a renda limitada e expandem as demandas sociais por socorro estatal. Como resposta, o governo eleva a pressão por mais impostos, alimentando um círculo vicioso. Portanto, superar essa armadilha exige a retirada parcial do Estado de atividades próprias da iniciativa privada e a melhoria do gasto público.

Com efeito, promessas irrealistas feitas por políticas de esquerda frequentemente comprometem a saúde das finanças públicas mundialmente. Desse modo, esse modelo gera dependência e enfraquece as bases da prosperidade sustentável.

União da Poupança e direcionamento do capital privado

Debates recentes na Europa examinam também a relação entre poupança privada e financiamento estatal. Em março de 2025, a Comissão Europeia apresentou a iniciativa União da Poupança e dos Investimentos. O objetivo oficial busca aproximar os cerca de 10 trilhões de euros parados em depósitos bancários dos mercados de capitais e das empresas.

Oferecer instrumentos para o cidadão investir voluntariamente difere radicalmente de impor direcionamentos compulsórios. A primeira opção estimula a concorrência e fortalece a formação de patrimônio. Em contrapartida, qualquer grau de coerção estatal compromete a liberdade econômica e transfere riscos indevidos ao poupador.

Fronteiras entre incentivo voluntário e coerção estatal

Propostas europeias em sua forma oficial não preveem o confisco da poupança dos cidadãos. É fundamental fazer essa distinção para manter a precisão das críticas com base em documentos públicos.

Contudo, monitorar tentativas futuras de transformar a poupança privada em instrumento obrigatório de financiamento político permanece essencial. Portanto, a linha entre incentivo econômico e imposição governamental precisa continuar claramente definida.

Avanço das moedas digitais e o projeto Drex no Brasil

Acompanhar esse cenário exige atenção redobrada do Brasil quanto ao desenvolvimento de infraestruturas financeiras digitais. O Banco Central vem testando gradualmente a adoção do Drex, moeda digital associada a plataformas de ativos financeiros. A autoridade monetária destaca a busca por eficiência, segurança e integração de serviços.

Tecnologias de digitalização podem reduzir custos operacionais e acelerar transações complexas. No entanto, os riscos principais não residem no software, mas nas regras jurídicas que disciplinarão seu uso.

Garantias fundamentais e limites ao poder de vigilância

Sistemas digitais avançados exigem proteção rigorosa da privacidade, transparência e limites legally claros à atuação do Estado. Sem essas salvaguardas, ferramentas criadas para gerar eficiência podem se transformar em mecanismos de vigilância ou restrição financeira.

Atualmente, não existem provas de que as regras do Drex autorizem confiscos automáticos ou controle arbitrário de despesas. Todavia, debater os limites da tecnologia antes de sua implementação em larga escala representa uma medida de prudência institucional.

Correção de rumos e proteção da liberdade econômica

O leitor não deve interpretar os alertas do exemplo francês como profecias de desastre inevitável, mas como um convite à responsabilidade fiscal. Dívidas fora de controle não surgem da noite para o dia; resultam de sucessivas decisões que os governantes justificam como exceções.

Defender a liberdade econômica exige mais do que discursos genéricos contra a burocracia. Requer contas públicas transparentes, avaliação rigorosa de programas, segurança jurídica e respeito à propriedade privada.

Lições urgentes para a sustentabilidade da economia brasileira

Recursos são escassos em qualquer regime político, e a prosperidade depende de produzir mais do que se consome ao longo do tempo. Consequentemente, ignorar essa realidade limita as condições materiais que sustentam até as políticas sociais mais bem intencionadas.

O momento adequado para corrigir incentivos, estabelecer limites e proteger o patrimônio dos cidadãos é agora, antes que a escassez de opções imponha escolhas dolorosas. Caso o governo nada faça para melhorar a qualidade do gasto e estimular a produtividade, o Brasil enfrentará custos cada vez mais altos pela inércia.

Neoenergia e o limite de paciência dos consumidores

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A prestação de um serviço público essencial exige avaliação rigorosa. Portanto, não podemos avaliá-la apenas pelo número de consumidores atendidos. Tampouco basta analisar o volume de investimentos anunciado ou os resultados financeiros da concessionária. A medida mais importante de sua eficiência está naquilo que chega diariamente à casa do cidadão. Ou seja, energia disponível, faturamento correto, atendimento resolutivo e respeito aos direitos de quem paga a conta.

No Distrito Federal, a escalada das reclamações contra a empresa coloca em evidência um problema grave. Esse quadro vem acompanhado de questionamentos do Ministério Público e de cobranças dos órgãos de defesa do consumidor. Dessa forma, a situação ultrapassa os limites de uma simples divergência comercial. Afinal, até que ponto a população pode continuar submetida a um serviço cuja qualidade sofre contestações crescentes?

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O aumento das reclamações e o caso Neoenergia e a paciência dos consumidores

Os números divulgados pelo Procon-DF são suficientemente expressivos para exigir explicações imediatas. Entre janeiro e junho de 2026, o órgão registrou 521 reclamações contra a concessionária, ante 276 no mesmo período de 2025. Esse salto representou um aumento de aproximadamente 88,8%. Além disso, até o início de setembro, o total alcançou 731 registros. Esse número superou em 25,6% as 582 reclamações contabilizadas durante todo o ano anterior.

Portanto, não se trata de uma variação estatística irrelevante. Pelo contrário, os dados revelam uma deterioração que merece investigação, transparência e providências concretas. A reportagem do portal Metrópoles publicou esses dados em 7 de outubro de 2026, com informações oficiais atribuídas ao órgão de defesa do consumidor.

Ação civil pública do Ministério Público (MPDFT)

Mais contundente ainda é o quadro apresentado pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). Em 22 de julho de 2026, a Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor ajuizou ação civil pública contra a empresa. O órgão requereu R$ 86 milhões por danos morais coletivos. Um inquérito civil instaurado em fevereiro antecedeu essa iniciativa judicial. O processo teve motivação nas reclamações de consumidores de diferentes localidades do DF.

Entre os problemas relatados estão interrupções sucessivas no fornecimento e demora no restabelecimento da energia. Além disso, os moradores relataram danos a eletrodomésticos, prejuízos à produção agrícola e dificuldades para solucionar demandas administrativas. Por conseguinte, o Ministério Público sustenta que as ocorrências revelam falhas persistentes e sistêmicas. Cabe ressaltar que o valor solicitado constitui um pedido judicial, não uma condenação definitiva.

Problemas comerciais e a plataforma Consumidor.gov.br

A gravidade da situação aumenta quando se observa a abrangência das queixas. Segundo o MPDFT, os problemas identificados não se restringem à continuidade do fornecimento. As falhas atingem também o sistema comercial da concessionária. Moradores relatam dificuldades para emitir segundas vias de contas, cobranças duplicadas, faturas zeradas e falhas no atendimento ao cliente.

Na plataforma Consumidor.gov.br, as reclamações contra a empresa passaram de 1.049, em 2024, para 2.078, em 2025. Além disso, até maio de 2026, os registros já haviam alcançado 2.183 ocorrências. Ou seja, o número ultrapassou todo o total do ano anterior em poucos meses. Embora as plataformas e os critérios de registro sejam diferentes, os números reforçam uma urgência evidente. As autoridades precisam examinar a qualidade do atendimento e a capacidade da empresa de resolver os problemas apresentados.

Direitos do consumidor e a polêmica das faturas no DF

O peso da burocracia sobre o cidadão

O consumidor não pode transformar-se em fiscal permanente da concessionária. Quem recebe uma conta de energia tem o direito de presumir a precisão dos serviços. O cidadão espera que o valor cobrado corresponda ao consumo efetivo. Espera também que os equipamentos de medição funcionem corretamente. Além disso, exige que a empresa corrija eventuais erros sem exigir uma peregrinação exaustiva. Essa saga costuma envolver centrais telefônicas, aplicativos, protocolos e repartições públicas.

A necessidade de recorrer repetidamente a diferentes canais para obter solução representa um custo invisível. Esse processo consome tempo, dinheiro e tranquilidade do morador. Portanto, esse peso não aparece na fatura mensal, mas impacta diretamente a vida cotidiana das famílias.

“A necessidade de recorrer repetidamente a diferentes canais para obter uma solução representa um custo de tempo, dinheiro e tranquilidade que não aparece na fatura.” — Análise sobre direitos do consumidor no DF

As contas de luz de setembro de 2026 e o fator climático

A controvérsia sobre o aumento das contas de luz em setembro de 2026 ilustra essa dificuldade. Moradores relataram valores muito superiores aos esperados, mesmo sem mudanças significativas em seus hábitos de consumo. A distribuidora atribuiu a elevação, entre outros fatores, ao calor intenso e ao uso mais frequente de aparelhos de climatização. A empresa informou um aumento médio de 14% no consumo de energia no Distrito Federal no período.

Por sua vez, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) reconheceu o crescimento das reclamações relacionadas à variação do consumo. O órgão regulador registrou um aumento preliminar próximo de 7% em relação ao mês anterior.

Transparência e a fiscalização da Neoenergia e a paciência dos consumidores

A necessidade de respostas individualizadas

É necessário, portanto, distinguir duas questões fundamentais sobre o tema. Uma conta mais alta não comprova, por si só, erro de medição ou cobrança indevida. Afinal, temperaturas elevadas, ciclos de leitura mais longos, alterações no consumo e incidência de tributos podem explicar parte da variação.

Entretanto, essas possibilidades tampouco autorizam a concessionária a tratar toda contestação como consequência natural do clima. A resposta adequada exige demonstrativos compreensíveis, histórico de consumo detalhado e verificação técnica dos medidores quando cabível. Exige também a apuração individualizada de cada divergência. Afinal, a transparência não é um favor concedido ao cliente, mas uma obrigação inerente à prestação de um serviço público essencial.

A atuação do Ministério Público e as tentativas de negociação

A própria atuação do MPDFT demonstra que o problema ultrapassou a esfera das reclamações isoladas. De acordo com o órgão, promotores realizaram reuniões com a diretoria da empresa. Houve inclusive a tentativa de formalizar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).

Contudo, a Promotoria considerou a contraproposta apresentada insatisfatória. Por essa razão, a instituição decidiu recorrer diretamente à Justiça. Essa medida não substitui a necessidade de apuração judicial. No entanto, o gesto evidencia que os instrumentos de negociação administrativa não produziram o resultado esperado pelas autoridades.

O papel dos órgãos reguladores e do governo local

A responsabilidade fiscalizatória da Aneel

Diante desse quadro crítico, a responsabilidade da Aneel também precisa passar por exame rigoroso. A agência reguladora dispõe de instrumentos legais para fiscalizar indicadores de qualidade. O órgão pode acompanhar reclamações, apurar descumprimentos e aplicar as medidas previstas nas normas do setor elétrico.

Portanto, não basta apenas registrar queixas e recomendar que o consumidor procure novamente a distribuidora. É indispensável demonstrar quais providências concretas a agência adotou. A sociedade precisa saber quais metas a empresa descumpriu, quais sanções eventualmente se justificam e quais resultados as ações alcançaram. A fiscalização deve manter proporção com a gravidade das evidências. Além disso, deve ser transparente para permitir o controle público.

O posicionamento do Governo do Distrito Federal

A discussão envolve ainda o Governo do Distrito Federal, o Procon-DF e os representantes políticos da população. A governadora Celina Leão declarou, em entrevista à Rádio Metrópoles em agosto de 2026, que o governo poderia rever a concessão caso a prestação do serviço não melhorasse.

Contudo, declarações dessa natureza somente terão significado real se vierem acompanhadas de medidas verificáveis. O governo precisa estabelecer prazos definidos e realizar a cobrança efetiva dos compromissos contratuais. A população não precisa de promessas formuladas em meio à insatisfação pública. O cidadão exige resultados claros que possam ser medidos no dia a dia.

Respostas concretas e soluções para o setor elétrico

Qualidade do serviço versus modelo de concessão

Também seria precipitado concluir que toda falha decorre exclusivamente da condição privada da concessionária. Tampouco a simples substituição do operador resolveria automaticamente os problemas operacionais. O princípio que deve prevalecer é a capacidade de prestar um serviço adequado, contínuo, seguro e eficiente, conforme as obrigações legais e contratuais.

A concessão não transfere à empresa apenas o direito de explorar economicamente uma atividade. Pelo contrário, impõe responsabilidades proporcionais à relevância social do serviço. A energia elétrica possui caráter indispensável para residências, hospitais, estabelecimentos comerciais, escolas e atividades produtivas.

Medidas indispensáveis para recuperar a confiança

O caminho para recuperar a confiança da sociedade começa pela publicação periódica de indicadores transparentes. A empresa deve divulgar dados sobre interrupção no fornecimento, duração das ocorrências e reincidência de falhas por região administrativa. Precisa também informar o tempo de atendimento, erros de faturamento e ressarcimentos por danos elétricos.

É igualmente necessário esclarecer quantas reclamações a distribuidora resolveu, quantas permanecem pendentes e quantas voltaram a ocorrer com o mesmo consumidor. A divulgação desses dados permitiria avaliar a conduta da concessionária. Dessa forma, a população saberia se a empresa está corrigindo as causas dos problemas ou apenas encerrando protocolos sem eliminar suas origens.

Conclusão: a energia elétrica como bem fundamental

Energia elétrica não é um privilégio, muito menos uma mercadoria cujo fornecimento possa sofrer tratamento indiferente. O consumidor brasiliense cumpre sua parte ao pagar as faturas pontualmente. Em contrapartida, ele depende da concessionária para manter atividades elementares de sua vida. Portanto, o cidadão tem o direito pleno de exigir continuidade, segurança, cobrança correta e atendimento digno.

A multiplicação das reclamações, os questionamentos do Ministério Público e as dificuldades relatadas pelos usuários compõem um cenário que exige respostas objetivas. Se houver falhas comprovadas, a empresa deverá corrigi-las, e os responsáveis estarão sujeitos às consequências previstas em lei. Por outro lado, se houver cobrança correta e aumento efetivo de consumo, a empresa deverá demonstrá-lo com total clareza. O que a sociedade não admite é a normalização do conflito permanente entre a concessionária e os consumidores.

A empresa precisa demonstrar, por resultados concretos, que está à altura da responsabilidade que assumiu. À Aneel cabe fiscalizar com rigor; ao Procon-DF, defender os consumidores; ao Ministério Público, buscar a proteção dos direitos coletivos; e ao governo local, acompanhar o cumprimento das obrigações da concessão. Por fim, à população cabe exigir que cada instituição exerça suas atribuições. A conta de luz já pesa excessivamente no orçamento. Não pode pesar também sobre o cidadão o custo da ineficiência, da falta de transparência e da ausência de soluções.

O Estado como quintal: o preço de insistirmos num modelo viciado

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O patrimonialismo no Brasil e o conceito do Homem Cordial, formulado por Sérgio Buarque de Holanda em 1936, aliam-se ao corporativismo entranhado nas nossas instituições. Consequentemente, esses fatores transformaram a nossa república e o presidencialismo num sistema corroído por crises contínuas.

Portanto, existe aqui uma espécie de enfermidade hereditária, transmitida de governo para governo fruto da assimilação de uma cultura nefasta. De fato, são situações que transformam o aparelho do Estado num quintal para a satisfação de interesses privados. Diante disso, esses interesses nunca são públicos e jamais atendem ao bem comum. Em síntese, presenciamos a privatização do Estado por um sistema vicioso. Esse modelo resiste a todo remédio, inclusive àqueles recomendados pela Constituição de 1988. Por causa dessa estrutura, não surpreende que permaneçamos correndo em círculos. Ficamos entregues à sanha de vontades que corroem o Estado por dentro. Além disso, essas práticas distanciam-se do que deseja o cidadão comum, que é quem paga essa conta.

A herança do patrimonialismo no Brasil se recusa a morrer

Convém lembrar que o problema não nasceu ontem. Da mesma forma, a questão não pertence a um único partido, governante ou ideologia. Na verdade, essa tragédia vem da própria formação do Estado brasileiro. A Coroa portuguesa ergueu o país tratando o território e a administração como extensões do patrimônio do soberano. Naquela época, o mundo ocidental seguia os ditames do mercantilismo.

Mais tarde, o jurista e sociólogo Raymundo Faoro detalhou essa estrutura em sua obra clássica de 1958:

“O estamento burocrático se apropria da máquina pública e a conduz em benefício próprio, sobrevivendo a todas as mudanças de regime: da Colônia ao Império, do Império à República, da República Velha ao Estado Novo e à democracia de 1988. Trocam-se as vestes, permanecem os donos.” — Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder

Por sua vez, Sérgio Buarque de Holanda ofereceu a chave de leitura mais fina desse fenômeno. Segundo o autor, o “homem cordial” não representa uma pessoa bondosa. Pelo contrário, trata-se daquele que atua a partir do coração e das afinidades pessoais. Por essa razão, esse indivíduo enfrenta dificuldades para distinguir a esfera íntima da esfera pública. Para ele, o critério da regra impessoal cede sempre ao favor, ao parentesco e à lealdade pessoal. Como resultado, o Estado passa a conceber o cargo como benesse, a regra como obstáculo e o interesse coletivo como mera abstração.

O impacto do corporativismo no século XX

Ademais, o corporativismo somou-se a esse caldo cultural ao longo do século XX. A engenharia institucional herdada do varguismo organizou a sociedade em categorias tuteladas pelo Estado e deixou marcas profundas. Hoje, diversas corporações, de carreiras estatais a grupos econômicos organizados, operam a defesa de seus privilégios com extraordinária eficácia. Enquanto isso, o cidadão comum sem lobby nem gabinete paga a conta integralmente.

Por exemplo, levantamentos recentes de portais de transparência indicam que penduricalhos e verbas indenizatórias elevam os vencimentos de milhares de servidores acima do teto constitucional de R$ 44,0 mil. Assim, supersalários, benefícios fiscais sem avaliação de resultado e aposentadorias especiais tornaram-se sintomas de um mesmo mal: a captura do interesse geral por grupos de pressão.

O presidencialismo como correia de transmissão dos privilégios

Atualmente, o nosso presidencialismo de cooptação assenta-se exatamente nesse terreno viciado. O sistema combina eleições proporcionais, multipartidarismo fragmentado e um Executivo que necessita de maioria para governar. Por isso, essa fórmula produziu o arranjo que o cientista político Sérgio Abranches batizou de “presidencialismo de coalizão”. Em tese, a fórmula é legítima, pois toda democracia plural exige negociação. Contudo, na prática, a coalizão tem sido construída menos em torno de programas e mais na distribuição de cargos, verbas e vantagens.

Assim, cada novo governo descobre que a governabilidade possui um preço elevado. Esse preço é cobrado em ministérios, estatais, fundos e emendas parlamentares. Inclusive, a execução dessas emendas tornou-se obrigatória e pouco transparente nos últimos anos. De acordo com dados do Orçamento Geral da União, os recursos alocados via emendas parlamentares saltaram de cerca de R$ 10 bilhões em 2015 para mais de R$ 50 bilhões nos ciclos orçamentários recentes.

Episódios como o chamado orçamento secreto mostram até onde avança a privatização do orçamento. O Supremo Tribunal Federal considera esse mecanismo incompatível com a Carta Magna. No entanto, o instrumento ainda serve para ameaçar opositores políticos na prática. Trata-se de dinheiro público distribuído sem critério claro e sem rastreabilidade para o contribuinte. Quando o dinheiro de todos atende à conveniência de poucos, o Estado deixa de ser a casa comum e converte-se num feudo.

Por conseguinte, o conflito deixa de ser um debate sobre projetos de país nesse arranjo. Tudo se reduz a uma contabilidade mesquinha de favores. O Executivo cede para sobreviver e o Legislativo cobra para apoiar. Da mesma forma, as demais instituições aprendem a defender o seu quinhão. Desse modo, ninguém se sente responsável pelo conjunto, pois o conjunto não pertence a ninguém.

Os perigos de manter o patrimonialismo no Brasil

Seria um grande erro tratar esse quadro como mera inconveniência administrativa. Pelo contrário, manter esse modelo gera custos concretos e crescentes para o país.

1. Gargalo econômico

Em primeiro lugar, enfrentamos o custo econômico. Um Estado capturado mostra-se caro e ineficiente. A máquina pública gasta muito com a própria manutenção e destina poucos recursos para o saneamento, segurança, educação e saúde. Embora a carga tributária brasileira supere 33% do PIB, o retorno em serviços públicos permanece desproporcionalmente baixo. Além disso, investidores reagem com cautela diante de regras instáveis e privilégios concedidos aos detentores do poder. Consequentemente, o crescimento econômico fica aquém do potencial do país década após década. Trata-se do “correr em círculo”: muito movimento e nenhum avanço real.

2. Impacto na estrutura social

Em segundo lugar, destacamos o custo social. A privatização do aparelho estatal aprofunda a desigualdade social. Afinal, os privilégios concentram-se no topo da pirâmide entre os cidadãos com acesso aos corredores do poder. Por outro lado, os serviços públicos mais precários atendem justamente à população mais vulnerável. Um país que aplica a lei com rigor para uns e com flexibilidade para outros ensina uma lição perversa diária. A sociedade aprende que o mérito e o esforço valem menos do que a proximidade com os poderosos.

3. Risco político e moral

Em terceiro lugar, encaramos o perigo político e moral. A repetição contínua de crises, escândalos e acomodações gera um cinismo corrosivo. O cidadão que enxerga a política apenas como balcão de negócios passa a desconfiar da própria democracia. Portanto, esse desencanto torna-se terreno fértil para aventureiros e salvadores da pátria. Esses atores prometem romper com a corrupção sem oferecer instituições melhores. Na verdade, eles buscam apenas a concentração de poder pessoal enquanto repetem o modelo viciado. A história brasileira e a de países vizinhos provam que o remédio autoritário não cura a doença patrimonialista. Pelo contrário, o autoritarismo agrava o quadro ao trocar o quintal dividido por muitos pelo quintal de um só.

4. O custo do tempo perdido

Por fim, sofremos com o custo do tempo perdido. Desafios urgentes exigem políticas públicas de Estado de longo prazo, tais como:

  • A transição demográfica acelerada e o envelhecimento da população;
  • A crise climática global e a transição energética;
  • A revolução tecnológica da inteligência artificial;
  • A qualificação profissional da mão de obra nacional.

Países que enfrentam essas transformações com instituições sólidas avançam rapidamente. Por outro lado, as nações reféns de interesses imediatistas ficam para trás. Uma vez consolidado, esse atraso histórico torna-se extremamente difícil de reverter.

Romper o ciclo do patrimonialismo no Brasil exige escolhas estruturais

Felizmente, nada disso representa um destino inevitável. Nenhuma herança cultural permanece imutável para sempre. O Brasil já provou sua capacidade de aprovar reformas importantes quando houve mobilização social. Contudo, precisamos reconhecer que o ciclo não se rompe por voluntarismo moral ou simples troca de nomes no poder. O avanço exige mudanças estruturais profundas:

  1. Transparência radical no uso dos recursos públicos: Rastreabilidade plena de emendas, contratos e benefícios fiscais, aliada à avaliação periódica de resultados. O que não pode ser explicado ao cidadão não deve ser pago com o seu dinheiro.
  2. Profissionalização da administração pública: Critérios estritamente técnicos para a ocupação de cargos de confiança, definição de metas e fim dos penduricalhos que desfiguram o teto remuneratório.
  3. Reforma do sistema político: Redução da fragmentação partidária, fortalecimento da fidelidade programática e adequação do custo das campanhas eleitorais.
  4. Fortalecimento dos órgãos de controle: Garantia de independência funcional para que a fiscalização não dependa da boa vontade do fiscalizado.
  5. Engajamento da cidadania: Formação de uma sociedade que vigie e cobre ativamente seus representantes, deixando de tratar o favor como algo normal.

O Brasil não é refém do seu passado, mas continuará sendo enquanto fingir que ele não existe. Manter o patrimonialismo no Brasil e a estrutura corporativa atual significa aceitar que o Estado sirva a quem o ocupa, e não a quem o sustenta. Cada ciclo de crise encerrado sem reformas estruturais funciona apenas como o prólogo da próxima tragédia. A pergunta urgente para o país não é se podemos nos dar ao luxo de mudar, mas por quanto tempo mais suportaremos não mudar.

O caos da despedida

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Consequentemente, o ambiente é de confronto, com as esquerdas forçando a barra para que esses protestos saiam de controle e acabem fazendo um mártir entre esses estudantes. Desse modo, trata-se da velha aposta no tudo ou nada.

Para Lula, que de modo ambicioso nunca deixou surgir entre suas hostes um herdeiro político, essa seria uma maneira de perder a eleição de um jeito menos patético. No entanto, o fato é que Lula, como outros déspotas que não fizeram herdeiros políticos, envelheceu da pior maneira possível. Assim, acumulou adversários, repetiu erros, mentiu e prometeu um futuro de abundância que parece ter chegado apenas para as pessoas do seu entorno imediato. Por isso, de pai dos pobres, Lula transformou-se no pai da pobreza e das crises. Sua saída de cena não poderia ser feita de outra forma que não em meio ao caos que construiu ao longo de duas décadas.

A despedida de Lula e o cenário pós-primeiro turno reacendem o tom do “nós contra eles”, raiz de toda a polarização política que o país vive desde a chegada do PT ao poder. Numa atitude de quase desespero, o presidente convoca a militância a vir para as ruas para impedir o que chama de retrocesso. O chamamento atendeu logo e de imediato os estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que vieram protestar contra as eleições que obrigaram o mandatário a disputar o segundo turno em desvantagem.

A Semeadura da Divisão na Política Nacional

Não há nada de acidental nesse desfecho. A política, como a agricultura, devolve a quem a pratica aquilo que foi semeado. Por conseguinte, Lula semeou, durante anos, a divisão como método de governo. Ao dividir o país entre “nós” e “eles”, entre o povo e as elites, entre os bons e os maus, ele transformou o adversário em inimigo e o debate em trincheira. Ele fez isso quando era conveniente e fez isso quando não era necessário. Agora que a trincheira se volta contra ele, surpreende-se com a hostilidade de metade do eleitorado, como se ela tivesse brotado do nada.

Primeira Colheita: A Crise de Confiança e Escândalos

A primeira colheita é a da desconfiança. O PT chegou ao poder em 2003 prometendo ética na política e entregou, poucos anos depois, o escândalo do Mensalão, seguido do Petrolão, que revelou um esquema de desvio de recursos públicos em escala poucas vezes vista no país. Além disso, entre os escândalos que marcaram a trajetória recente do governo, acrescenta-se o Caso Master, ampliando as controvérsias de gestão.

Posteriormente, Lula acabou condenado, preso e libertado. Teve as condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021 por questões de competência do foro, e não por um julgamento de mérito que o declarasse inocente. Preferiu, porém, tratar a anulação como absolvição moral e o passado como página virada. Entretanto, milhões de brasileiros não a viraram. Quando o escândalo dos descontos indevidos em benefícios do INSS veio à tona, atingindo justamente aposentados e pensionistas, a memória coletiva fez o resto. Assim, a promessa de proteger os mais pobres convivia, mais uma vez, com a sombra da apropriação do dinheiro público.

A gangorra de Lula e Bolsonaro

Segunda Colheita: O Retorno da Realidade Econômica

A segunda colheita é a da economia. Lula voltou ao Planalto vendendo a lembrança dos anos de bonança das commodities, como se a prosperidade do passado fosse um atributo pessoal, e não o produto de um ciclo externo irrepetível. Por outro lado, tratou o equilíbrio das contas públicas como obsessão de rentistas e viu o desconforto do mercado como mera conspiração.

O resultado foi um governo que gastou mais, convenceu menos e conviveu com juros em patamares elevadíssimos, dólar pressionado e alimentos caros na mesa do trabalhador. Desta forma, o brasileiro que ouviu falar de picanha barata e churrasco farto encontrou, no supermercado, uma realidade bem menos generosa. Afinal, prometer abundância e entregar escassez é a forma mais rápida de transformar um líder em personagem de sua própria ironia.

Terceira Colheita: A Solidão Política e a Sucessão

A terceira colheita é a da solidão política. Lula nunca tolerou sombras. Dilma Rousseff, escolhida sem ter feito carreira eleitoral, foi a síntese desse método: um nome de confiança, jamais um rival. Fernando Haddad, em 2018, foi o substituto improvisado de um líder que não aceitava deixar o palco. Nos anos seguintes, quem ousou crescer dentro do partido acabou contido, absorvido ou esquecido.

Como resultado, no momento em que o eleitor pediu renovação, o PT só soube oferecer a mesma figura, aos quase oitenta anos, de volta para mais uma batalha. Consequentemente, quem não prepara a sucessão não pode reclamar quando a sucessão se transforma em disputa selvagem, ou quando o seu fim de carreira se parece mais com um acerto de contas do que com uma despedida.

Quarta Colheita: Credibilidade Externa e Alianças Internacional

A quarta colheita é a da credibilidade externa e dos aliados escolhidos. A diplomacia que se dizia soberana e pragmática mostrou-se, em muitos momentos, fiel a afinidades ideológicas. Observa-se o afago a regimes autoritários na América Latina, a relutância em criticar eleições contestadas e a leniência com ditaduras desde que se declarassem de esquerda.

Portanto, um país que se apresenta ao mundo como defensor da democracia perde autoridade quando seu presidente escolhe a quem cobrar e a quem perdoar. O mesmo vale dentro de casa. Nesse sentido, quem passou anos chamando de golpe qualquer derrota e de fascismo qualquer divergência não tem crédito para pedir serenidade agora.

Quinta Colheita: O Entorno do Poder e o Aparelhamento

A quinta colheita é a do entorno. Em cada governo petista, a promessa de que o Estado serviria aos mais pobres encontrou o obstáculo de uma máquina pública ocupada por aliados, sindicatos e partidos satélites. Estes passaram a tratar cargos e orçamentos como patrimônio. Por causa disso, a distância entre o discurso e a prática ficou evidente.

O líder que dizia governar para quem mais precisa governava, na prática, com quem mais o cercava. O benefício chegou, sim, a muita gente. Contudo, o sentimento que se consolidou na parcela do eleitorado que o abandonou foi o de que a abundância prometida tinha endereço certo, e que esse endereço não era o da periferia que o consagrou.

Sexta Colheita: Relação com as Instituições e a Verdade

A sexta colheita é a da relação com as instituições e com a verdade. Lula atacou a imprensa quando a imprensa o incomodou. Além disso, desqualificou o Judiciário quando o Judiciário o condenou e passou a elogiá-lo quando o Judiciário o beneficiou. Tratou a Constituição como escudo nos dias bons e como obstáculo nos dias ruins.

Do mesmo modo, prometeu, em campanha, o que sabia ser difícil cumprir, desmentiu-se em discursos sucessivos e passou a acusar de mentira quem apontava as contradições. Num país em que a confiança nas instituições já estava corroída, a atitude do presidente não ajudou a reconstruí-la. Em vez disso, aprofundou a erosão que ele mesmo dizia combater.

O Apelo às Ruas no Segundo Turno

É nesse ponto que o apelo às ruas, feito depois do primeiro turno, ganha seu verdadeiro sentido. Não se trata de defender a democracia, a qual está funcionando e acaba de impor ao presidente a obrigação de disputar um segundo turno. Trata-se de reagir ao desagrado das urnas com a velha pedagogia da mobilização, na qual a rua serve de pressão sobre quem votou, sobre as instituições e sobre a narrativa do dia seguinte.

Quando um governante responde a um resultado eleitoral convocando militantes para o confronto, ele diz, na prática, que só reconhece a vontade popular quando ela lhe é favorável. Assim sendo, é a mesma lógica do “nós contra eles”, agora em sua versão final.

O Custo Social da Polarização Política

O custo dessa semeadura não foi pago apenas pelo presidente. Foi pago por famílias que deixaram de conversar à mesa, por amigos que se afastaram, por um debate público reduzido a gritos e por uma política em que quase ninguém ouve ninguém. A polarização que Lula alimentou, e que seus adversários também souberam explorar, tornou o país mais áspero e mais difícil de governar, inclusive para ele.

Certamente, um presidente que depende de maioria para aprovar o que promete precisa de pontes. Por outro lado, quem passou anos dinamitando pontes descobre, tarde demais, que governar exige o que o palanque dispensa.

A Defesa dos Apoiadores no Debate Eleitoral

Há, é claro, a defesa que seus apoiadores farão, e ela não deve ser ignorada. Dirão que o governo reduziu a fome, ampliou programas de transferência de renda, reconstruiu políticas públicas desmontadas nos anos anteriores e que o país cresceu e gerou empregos sob sua gestão.

Além disso, dirão que a anulação das condenações foi uma correção de abusos de uma operação que desrespeitou o devido processo legal, e que a polarização é obra de um campo político inteiro, e não apenas de um homem. Dirão ainda que mobilização popular é direito democrático, e não ameaça. São argumentos legítimos e fazem parte do debate. Mas cabe ao eleitor, no segundo turno, pesar essa defesa contra o balanço que este editorial procurou fazer.

O Balanço Final e o Legado da Divisão

O fato permanece: os governantes não escapam de si mesmos. Lula teve, em três mandatos, a oportunidade rara de ser lembrado como o líder que reconciliou o país e preparou o futuro.

Contudo, preferiu o conforto da divisão, a vaidade da indispensabilidade e a ilusão de que bastaria o carisma para sustentar o que as entregas já não sustentavam. A despedida que se desenha, em meio a protestos, desconfiança e ressentimento, é a conta de um longo processo. O país, cansado, seguirá em frente. Resta saber se o ex-metalúrgico que prometeu unir os brasileiros terá a grandeza de reconhecer, ao final, que a cizânia que agora o cerca tem, em boa medida, a sua assinatura.

A frase que foi pronunciada:

“O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta.” Maquiavel

História de Brasília -A Quadra 48 ainda é a grande sem sorte da W-3. Começaram o serviço de urbanização. Deixaram pelo meio, com esgotos e telefones cortados. Consertaram, e diante à poeira. Agora, está sendo preferida pelos ladrões de automóveis. (Publicada em 25.05.1962)

O país está num ponto de inflexão e reforma do Estado é urgente

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A discussão sobre a reforma do Estado no Brasil não é nova. No entanto, poucas vezes ela se mostrou tão urgente quanto agora. Em meio a um cenário de estagnação econômica, descrédito institucional e crescente insatisfação social, as ideias defendidas pelo deputado e pensador político Luiz Philippe de Orléans e Bragança voltam a ganhar força. Consequentemente, seu diagnóstico de que o Brasil vive um “ponto de inflexão” institucional ecoa em diferentes setores da sociedade. Isso ocorre especialmente entre aqueles que percebem que o modelo estatal concebido pela Constituição de 1988 já não responde com a agilidade e a eficiência que o país demanda.

  • VISTO, LIDO E OUVIDO
  • Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense
  • Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com
  •  instagram.com/vistolidoeouvido
  • facebook.com/vistolidoeouvido

O Diagnóstico da Arrecadação e dos Serviços Públicos

O ponto de partida dessa leitura é simples e incômodo. Atualmente, o Brasil arrecada como país rico, mas entrega como país que ainda não resolveu seus problemas básicos. De acordo com dados recentes do Tesouro Nacional, a carga tributária no país ronda 33,07% do PIB, ou seja, cerca de um terço da produção nacional. Esse patamar é perfeitamente comparável ao de economias desenvolvidas da OCDE.

Por outro lado, o cidadão paga por saúde, educação, segurança e infraestrutura que raramente chegam com a qualidade proporcional ao que se cobra. O crescimento econômico, por sua vez, oscila em voos curtos. Dessa forma, ele é sempre interrompido por crises fiscais, instabilidade regulatória ou disputas entre os Poderes. Para os defensores da reforma, essa situação não representa mera coincidência de conjuntura. Em vez disso, é sintoma direto de um desenho institucional que concentra decisões, dilui responsabilidades e premia a manutenção do próprio aparato.

Origens Históricas e o Modelo da Carta de 1988

Nesse ponto, o argumento de Orléans e Bragança, desenvolvido em seus escritos e em sua atuação parlamentar, é o de que o problema é estrutural e histórico. O Estado brasileiro nasceu patrimonialista e centralizador. Por esse motivo, a Carta de 1988, embora tenha restaurado direitos e liberdades essenciais, consolidou um Estado extenso, caro e de difícil governo.

A Constituição brasileira é detalhista ao extremo. Assim, ela trata como matéria constitucional o que em outras democracias seria assunto de lei ordinária. Desse modo, ela transforma toda mudança de rumo em uma batalha permanente de emendas, interpretações judiciais e negociações de bastidor. O resultado prático é um país em que governar exige menos um projeto de nação do que uma capacidade constante de barganha política.

O Desgaste do Presidencialismo de Coalizão

A atualidade dessa crítica salta aos olhos quando se observa a rotina recente da vida pública. O presidencialismo de coalizão dependia de uma engrenagem delicada de cargos e emendas para sustentar maiorias. Contudo, esse sistema mostra sinais claros de desgaste. Por exemplo, o Executivo negocia cada votação em condições cada vez mais onerosas. Além disso, o Congresso ampliou seu controle sobre fatias do orçamento sem que a prestação de contas acompanhasse esse poder.

Impactos da Instabilidade na Economia do País

Ao mesmo tempo, o Judiciário, em especial a Suprema Corte, ocupa espaço crescente na arbitragem de questões políticas e administrativas. Em consequência disso, alimenta-se a percepção de que as fronteiras entre os Poderes se tornaram nebulosas. Pouco importa, para este debate, de que lado se está em cada disputa específica. O dado relevante é que a confiança nas instituições, medida por pesquisas como Datafolha e IPEC ao longo dos anos, permanece em níveis baixos. Por conseguinte, uma democracia que não é acreditada por seus cidadãos torna-se uma democracia vulnerável.

O sapo na viola

Há ainda a dimensão econômica, que torna a discussão menos abstrata do que parece. Investidores, nacionais e estrangeiros, tomam decisões com base em previsibilidade. Por isso, eles querem saber quais serão as regras tributárias nos próximos anos. Querem entender se contratos serão respeitados, se a política fiscal tem âncora crível e se disputas regulatórias serão resolvidas em prazo razoável.

Quando o ambiente institucional gera dúvidas permanentes sobre cada um desses pontos, o custo é alto. Desse modo, o país paga o preço em juros mais altos, em projetos que deixam de sair do papel e em empregos que não são criados. A reforma do Estado no Brasil, nesse sentido, não representa uma pauta exclusiva de gabinete. Pelo contrário, é condição indispensável para que o país cresça de maneira sustentada e deixe de depender de ciclos de entusiasmo seguidos de frustração.

Custo Burocrático e Complexidade do Sistema Tributário

A própria complexidade do sistema tributário brasileiro ilustra esse ponto com clareza. Especialistas de todos os espectros apontam esse fator como um dos maiores entraves à produtividade nacional. Segundo dados históricos do relatório Doing Business do Banco Mundial, empresas no Brasil gastavam cerca de 1.500 horas por ano apenas para apurar e pagar tributos.

Além disso, a multiplicidade de regimes especiais, criados ao sabor de pressões setoriais, produz sérias distorções. Essas distorções beneficiam os setores mais bem organizados em detrimento dos demais. Mudanças pontuais avançaram nos últimos anos. Entretanto, a lógica de fundo permanece. Trata-se de um Estado que cria exceções para sustentar sua base de apoio. Por essa razão, a máquina pública enfrenta enorme dificuldade em simplificar a si mesma.

Os Pilares para a Reforma do Estado no Brasil

É nesse contexto que as propostas associadas a Orléans e Bragança ganham sentido prático. Acompanhe a seguir os três eixos principais dessa agenda reformista:

1. Descentralização e Fortalecimento dos Municípios

O Brasil é formalmente uma federação. Todavia, na prática o país funciona com estados e municípios dependentes de transferências, normas e autorizações emitidas em Brasília. Devolver competências, receitas e responsabilidades a quem está mais próximo do problema é a lógica de qualquer sistema em que o gestor local responde diretamente ao eleitor local.

Um prefeito que arrecada mais do que recebe de favores federais tende a sofrer fiscalização mais rigorosa pela própria comunidade. Adicionalmente, a experimentação de políticas públicas em escalas menores permite que os acertos sejam copiados e os erros, contidos.

2. Revisão do Sistema de Governo e Governança

O diagnóstico sobre o presidencialismo brasileiro é antigo e reúne defensores de diferentes matizes ideológicos. Ele aponta que o sistema concentra, em uma só figura, as funções de chefe de Estado e chefe de governo. Consequentemente, a estrutura expõe o país a crises sucessivas toda vez que o titular perde apoio ou popularidade.

Orléans e Bragança vai além e discute, de forma aberta, modelos alternativos de governança. Ele analisa arranjos nos quais a chefia de governo responda de maneira mais direta ao Parlamento. Nesses modelos, busca-se criar uma instância de estabilidade institucional acima da disputa partidária.

Certamente, esse debate desperta resistências na sociedade. Isso ocorre também pelo simbolismo de sua origem familiar e de sua defesa histórica da monarquia parlamentar. Porém, a discussão merece atenção com base em argumentos sólidos. Afinal, o plebiscito de 1993 encerrou uma consulta popular específica, mas não encerrou o debate sobre o aperfeiçoamento do sistema.

3. Redução do Aparato Estatal e Eficiência do Gasto

Reduzir a máquina pública, simplificar o sistema tributário e abrir espaço para a iniciativa privada são medidas fundamentais. Além disso, garantir previsibilidade às regras que regem contratos e investimentos destravaria um potencial de crescimento sufocado pela burocracia.

Trata-se de reconhecer que um Estado que tenta fazer tudo acaba executando mal o essencial. Menos privilégios corporativos, mais foco em serviços básicos, mais transparência e responsabilização sintetizam essa agenda. Portanto, essa proposta dialoga tanto com o contribuinte exausto quanto com o jovem empreendedor que enfrenta labirintos para manter um negócio.

Separação Institucional e Limites Entre os Poderes

Outro aspecto central aborda a separação e o equilíbrio entre os Poderes da República. Em qualquer arranjo republicano saudável, cada instituição possui atribuições claras e responde por elas perante a sociedade.

Entretanto, problemas graves surgem quando o Legislativo delega ao Judiciário a solução de impasses que deveria resolver pela via política. Da mesma forma, o equilíbrio se rompe quando decisões individuais de ministros produzem efeitos nacionais antes de qualquer deliberação colegiada. Nesses casos, a previsibilidade do sistema sofre forte abalo.

A reforma do Estado no Brasil inclui, portanto, redesenhar mecanismos de controle mútuo. Exige definir com precisão os limites de cada esfera de poder. Por fim, requer criar incentivos para que cada instituição cumpra seu papel sem invadir a competência alheia.

Janelas de Oportunidade para Mudanças Institucionais

Vale lembrar que reformas dessa envergadura nunca ocorrem no calor de uma crise aguda. Em vez disso, elas avançam na janela de lucidez que antecede ou sucede o momento crítico. Países que modernizaram suas instituições o fizeram porque lideranças e sociedade reconheceram a tempo o esgotamento do modelo anterior.

O Brasil encontra-se hoje diante de uma oportunidade semelhante. Há diagnóstico amplamente compartilhado entre analistas. Há desconforto generalizado com o status quo. Por fim, existem, no Parlamento e fora dele, vozes dispostas a transformar insatisfação em proposta concreta. Desperdiçar esse momento seria repetir o hábito nacional de adiar decisões difíceis até que elas se imponham de forma desordenada.

O Impacto da Estrutura Estatal na Cultura Cívica

Também importa considerar o efeito dessa estrutura sobre a cultura cívica da população. Quando o cidadão percebe que o Estado é distante, lento e pouco responsável, a participação política se reduz ao voto periódico e à indignação episódica.

Por outro lado, instituições mais próximas geram dinâmicas diferentes. Com responsabilidades claras e resultados verificáveis, elas ajudam a reconstruir o vínculo entre eleitor e representante. Isso constitui condição básica para que a democracia se renove por dentro.

Visões Contrárias e Objeções ao Modelo Reformista

Há, é claro, quem discorde dessa abordagem, e a honestidade intelectual exige registrar essas visões. Críticos lembram que a Carta de 1988 sustentou o mais longo período democrático da história republicana. Além disso, o texto constitucional ampliou direitos sociais que reduziram desigualdades históricas.

Outros analistas sustentam que a descentralização fiscal, sem mecanismos adequados de compensação, pode aprofundar disparidades entre regiões ricas e pobres. Apontam também que alterar o sistema de governo não resolve, por si só, vícios da cultura política. Por fim, argumentam que propostas de forte teor reformista, quando conduzidas sem amplo consenso, podem aumentar a instabilidade política.

Essas objeções são sérias e relevantes. Consequentemente, qualquer proposta de reformulação precisará respondê-las com dados consistentes, simulações econômicas e debate público transparente.

O Risco da Inércia e os Desafios do País

Contudo, o risco de nada fazer não é menor para o futuro do país. Instituições que perdem a capacidade de entregar resultados não permanecem inertes. Pelo contrário, elas se deterioram continuamente, e o vácuo resultante é ocupado pela desconfiança, pela polarização e por soluções populistas de ocasião.

Por isso, mais do que aderir integralmente a um projeto específico, o momento exige reflexão profunda. O país precisa voltar a discutir, com franqueza e sem tabus, como deseja ser governado. As ideias de Luiz Philippe de Orléans e Bragança possuem o mérito de recolocar a pergunta no centro do debate público e de apontar caminhos para respondê-la.

Cabe à sociedade, ao Congresso Nacional e à imprensa examinar essas propostas com rigor técnico. Cabe aceitar o que resistir ao escrutínio racional e descartar o que não resistir. O ponto de inflexão está posto. O que a nação fará dele é uma decisão que pertence exclusivamente aos brasileiros.

A frase que foi pronunciada:

“O Brasil vive um ponto de inflexão institucional onde o modelo de 1988 já não responde com a agilidade necessária.”

Luiz Philippe de Orléans e Bragança

História de Brasília

História de Brasília

A pena de tudo isto é, ainda, porque Claudionor Machado é ex-pracinha, tem medalha de campanha, e o presidente do IAPB não hesitou em jogá-lo na rua. É uma injustiça que o Ministro da Guerra bem poderia corrigir em despacho com o presidente da República. Há decreto amparando os ex-combatentes. ( Publicada em 26.05.1962)