Categoria: ÍNTEGRA
VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960
hoje
Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade
jornalistacircecunha@gmail.com
Construída ao longo de décadas, a política externa de uma nação não pode ser confundida com a política doméstica nem subordinada às conveniências ideológicas de governos transitórios. Sua função primordial consiste em proteger interesses permanentes do Estado, preservar mercados, ampliar oportunidades econômicas e reduzir áreas de conflito capazes de comprometer o desenvolvimento nacional. Quando essa lógica é invertida, o custo costuma aparecer de forma silenciosa, porém concreta: diminuição da confiança internacional, retração de investimentos, perda de competitividade das exportações e desgaste das relações diplomáticas. Como observava o diplomata americano George F. Kennan, um dos formuladores da política externa dos Estados Unidos no século XX, “a diplomacia existe para administrar diferenças, não para ampliá-las”. A frase sintetiza um princípio que permanece atual: países não escolhem seus parceiros por afinidade ideológica, mas pela convergência de interesses.
Brasil e Estados Unidos constituem um exemplo eloquente dessa realidade. Há mais de duzentos anos, os dois países mantêm uma das relações bilaterais mais relevantes do continente americano. Os Estados Unidos figuram entre os principais investidores estrangeiros no Brasil, enquanto milhares de empresas brasileiras mantêm vínculos comerciais diretos com o mercado norte-americano. Em 2024, o intercâmbio comercial entre os dois países ultrapassou US$ 80 bilhões, consolidando os Estados Unidos como um dos maiores parceiros econômicos do Brasil. Além do comércio, a cooperação estende-se às áreas científica, universitária, tecnológica, energética, agrícola e de defesa, formando uma rede de interesses cuja importância transcende governos e ciclos eleitorais.
Nos últimos anos, entretanto, essa relação passou a conviver com um ambiente político mais tenso. Divergências em torno do comércio internacional, das plataformas digitais, das mudanças climáticas, dos organismos multilaterais e de diferentes conflitos internacionais ampliaram o distanciamento entre Brasília e Washington. O episódio mais sensível foi a adoção de novas tarifas sobre determinados produtos brasileiros, inseridas em uma política comercial mais ampla adotada pelos Estados Unidos em relação a diversos parceiros. Paralelamente, foram abertas investigações comerciais envolvendo alegações de práticas consideradas desleais pela legislação americana. Evidentemente, nenhuma decisão dessa natureza decorre de um único fator. Tarifas resultam de estratégias econômicas, disputas comerciais, pressões domésticas e cálculos geopolíticos. Ignorar, porém, a influência do ambiente político sobre essas decisões seria desconhecer o funcionamento da diplomacia contemporânea.
Ao longo do atual mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez sucessivas críticas públicas ao governo de Donald Trump e aproximou o Brasil de agendas internacionais frequentemente recebidas com reservas pela atual administração norte-americana. Em resposta às medidas tarifárias, o governo brasileiro reafirmou a defesa da soberania nacional, contestou a legalidade das sanções e declarou disposição para negociar. A posição oficial dos Estados Unidos, por sua vez, fundamentou-se em argumentos relacionados a práticas comerciais, questões ambientais, comércio digital e procedimentos conduzidos pelo Escritório do Representante Comercial norte-americano. Independentemente da avaliação que se faça sobre os méritos de cada argumento, permanece válido um princípio elementar das relações internacionais: interesses nacionais dificilmente prosperam quando são subordinados ao acirramento político.
Como escreveu Henry Kissinger, “não existem amigos permanentes nem inimigos permanentes; existem interesses permanentes”. Embora a frase seja frequentemente associada a ele, e tenha origem atribuída anteriormente a Lord Palmerston, ela permanece como uma das definições mais precisas da lógica que orienta a política internacional.
Nesse contexto, surgem críticas formuladas por setores da oposição, segundo os quais o governo brasileiro teria elevado desnecessariamente o tom político das divergências, reduzindo o espaço para negociações pragmáticas. O governo, em sentido oposto, sustenta que apenas respondeu de forma firme a medidas consideradas unilaterais e incompatíveis com o direito internacional. Trata-se de um debate legítimo em qualquer democracia. O que não deveria admitir controvérsia, entretanto, é a necessidade de preservar empregos, investimentos, mercados consumidores e oportunidades para empresas brasileiras. Cada aumento tarifário reduz competitividade, pressiona cadeias produtivas, dificulta exportações e amplia incertezas para trabalhadores e investidores. Em um cenário internacional marcado pelo avanço do protecionismo, a previsibilidade tornou-se um ativo econômico de enorme valor.
As grandes potências costumam combinar firmeza e confronto porque compreendem que declarações públicas produzem efeitos concretos sobre decisões de investimento, contratos internacionais e confiança dos mercados. Não por acaso, Rui Barbosa, patrono da diplomacia brasileira, advertia que “a pátria não é ninguém; são todos”. Em matéria de política externa, essa máxima recorda que governos passam, mas os custos e benefícios de suas decisões permanecem para toda a sociedade.
A frase que foi pronunciada:
“Política externa brasileira: só ventos do norte não movem moinhos”
Janina Onuki
História de Brasília
O dever de cidadão, participando do Juri Popular, obrigar-me-ia a deixar êste espaço sem a coluna, hoje. Mas, como estou na Casa da Justiça, neste momento, abro o espaço para citar um caso interessante, já que terão início, no fim do mês, as partidas de futebol pelo Campeonato Mundial.(Publicada em 25.05.1962)
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Existe uma crença difundida segundo a qual a idade, por si só, conduz inevitavelmente à sabedoria. A história da filosofia, da religião e da literatura está repleta de referências ao ancião prudente, cuja longa experiência de vida lhe permitiria julgar melhor os homens e os acontecimentos. O tempo ensina apenas quem continua disposto a aprender. Aos demais, apenas envelhece. Há homens que chegam à velhice mais serenos, mais equilibrados e mais conscientes de suas limitações. Outros chegam apenas mais endurecidos, mais desconfiados e mais apegados ao poder que acumularam durante décadas. Essa diferença torna-se particularmente perigosa quando o envelhecimento alcança aqueles que controlam Estados.
Em regimes democráticos, a alternância de poder funciona justamente como mecanismo de renovação institucional. O voto periódico permite corrigir rumos, substituir lideranças e impedir que um único indivíduo confunda seu destino pessoal com o destino da nação. Nas ditaduras ocorre exatamente o contrário. O governante deixa de servir ao Estado para convencer-se de que o Estado existe para servi-lo. A oposição deixa de ser vista como parte natural da vida política para tornar-se inimiga da pátria. Aos poucos, todas as instituições passam a existir apenas para preservar o governante.
O caso da Nicarágua tornou-se um dos exemplos mais recentes desse processo. Daniel Ortega retornou ao poder em 2007, após já ter governado o país nos anos 1980. Desde então, promoveu sucessivas mudanças institucionais que ampliaram seu controle sobre o Estado. Nas eleições de 2021, praticamente todos os principais pré-candidatos oposicionistas foram presos ou impedidos de concorrer, em um processo amplamente criticado por organismos internacionais. Posteriormente, novas reformas concentraram ainda mais poder na Presidência e reduziram o espaço para oposição organizada e imprensa independente. A questão foi atualizada de modo surpreendente. Eleições não fariam mais sentido com a eternização do poder corrupto.
Fenômeno semelhante pode ser observado retrospectivamente em diversos regimes autoritários do século XX. Fidel Castro permaneceu décadas no comando de Cuba, inicialmente como primeiro-ministro e depois como presidente. Seu governo atravessou gerações inteiras sem permitir competição política multipartidária. Ao longo dos anos, a continuidade do regime passou a depender cada vez mais da preservação do próprio sistema de poder construído em torno da liderança revolucionária. Não se trata de um fenômeno exclusivo da América Latina. A União Soviética conheceu seus anos finais sob uma sucessão de dirigentes idosos, incapazes de promover reformas profundas enquanto preservavam estruturas burocráticas envelhecidas. Mao Tsé-Tung governou a China até idade avançada, conduzindo campanhas políticas que produziram consequências humanas devastadoras. Robert Mugabe permaneceu quase quatro décadas no comando do Zimbábue antes de ser afastado. Em diferentes continentes, a combinação entre poder prolongado e ausência de mecanismos de alternância revelou padrão semelhante. O problema central não está propriamente na idade. Winston Churchill retornou ao cargo de primeiro-ministro britânico já idoso. Konrad Adenauer liderou a reconstrução da Alemanha Ocidental em idade avançada. Nelson Mandela chegou à Presidência da África do Sul aos 75 anos e deixou voluntariamente o cargo ao término do mandato.
Nessas experiências, o fator decisivo não foi a data de nascimento dos governantes, mas a existência de instituições capazes de limitar o exercício do poder e garantir sua sucessão. Quando um governante passa décadas cercado apenas por pessoas que concordam com tudo o que diz, a realidade deixa gradualmente de chegar ao seu gabinete. O dirigente passa a enxergar apenas aquilo que seus auxiliares julgam conveniente mostrar. Forma-se uma bolha política onde toda crítica é interpretada como conspiração e toda derrota precisa ser atribuída a inimigos externos. É nesse ambiente que surgem algumas das decisões mais desastrosas da história contemporânea. A ausência de contraditório elimina o principal mecanismo de correção dos erros. Sem imprensa livre, oposição organizada ou eleições competitivas, desaparecem os instrumentos que normalmente obrigam um governo a rever seus equívocos. Há também um componente psicológico frequentemente observado pelos estudiosos do autoritarismo. O poder prolongado tende a produzir personalização do Estado. O governante passa a acreditar sinceramente que sua permanência é condição indispensável para a estabilidade nacional.
A democracia não parte da premissa de que existam governantes perfeitos, mas da convicção de que nenhum ser humano deve concentrar poder indefinidamente. A alternância protege não apenas os governados, mas também as próprias instituições. A história do século XX e das primeiras décadas do século XXI oferece exemplos suficientes para mostrar que não é a idade que ameaça as nações, mas a permanência ilimitada de qualquer indivíduo no comando delas. Não precisamos ir muito longe para aprender essa lição.
A frase que foi pronunciada:
“Não haverá mais eleições aqui para que eles [a oposição] tentem tomar o governo e o poder” Daniel Ortega
História de Brasília
Quem entende de lei espantou a lebre, e o assunto aqui vai tratado, de maneira como me foi relatado: Mazzola e Sormani, os dois jogadores brasileiros que estão — na qualidade de cidadãos italianos — integrando a seleção do simpático país peninsular, podem vir a perder a cidadania brasileira. (Publicada em 25.05.1962)
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Entender e aceitar que a transparência é a mais importante ferramenta e um direito do consumidor, ainda é uma das maiores deficiências dos planos de saúde. Trata-se, em linguagem atualizada de uma governança dos sistemas de saúde, que em muitos casos é deixada de lado. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que cuida dessa área, tem sob sua responsabilidade mais de 50 milhões de brasileiros, que em virtude da precariedade da saúde pública, possuem planos privados. De um lado temos a ANS e de outro o os custos operacionais das empresas. No meio dessa questão estão os beneficiários, que não param de recorrer à justiça para obter atendimento adequado.
Na outra ponta entram também os hospitais, clínicas e laboratórios que buscam sempre maximização de receitas. Por si só a regulação não consegue resolver essa intrincada situação, já que faltam investimentos, pessoal e normalmente essa Agência tem sido acusada de atender muito mais aos interesses da empresas de plano privado. O fato é que o atual modelo está esgotado. A crise econômica agrava ainda mais esse quadro, com empresas de planos ou falindo, ou elevando progressivamente o número de beneficiários excluídos dos planos, sobretudo aqueles classificados como de pacientes de alto custo, na sua maioria idosos.
A justiça tem sido o caminho natural para que muitos beneficiários desses planos assegurem seus direitos, o que demonstra que o sistema privado de saúde está também enfermo. Tem sido cada vez mais frequentes as queixas de pacientes que, embora sejam os destinatários do atendimento e os responsáveis, direta ou indiretamente, pelo custeio dos planos de saúde, não têm acesso à conta hospitalar detalhada apresentada pelos hospitais às operadoras. Essa falta de transparência impede que o usuário conheça os itens efetivamente cobrados, verifique a correção das despesas e exerça qualquer controle sobre os valores que, em última análise, poderão repercutir no custo do plano que financia. Sem acesso à discriminação das cobranças, o paciente permanece alheio à negociação entre hospitais e operadoras, mesmo sendo ele quem suporta, ao final, os impactos financeiros dessas despesas. Para essas empresas a relação financeira fica restrita entre o hospital e o sistema de saúde ou planos ou entre o sistema de saúde e o prestador de serviço. O paciente fica em terceiro plano. Em casos de cirurgia ou atendimentos mais complexos o paciente não sabe quanto foi cobrado, quais materiais foram lançados na conta, quais medicamentos foram faturados ou que procedimentos extras foram autorizados.
O que muitos teimam em negar é que a própria transparência poderia servir como prevenção de desperdícios e controle. Sem a devida transparência o paciente pode ser cobrado por exames que não reconhece, materiais que não utilizou, procedimentos diferentes do realizado, medicações que não tomou, diárias que não existiram e uma infinidade de outras cobranças que são verdadeiros jabutis, plantados na conta final. O acesso a totalidade real das contas só acontece depois de muita peregrinação e auditorias, muitas vezes por força da justiça.
Obviamente que nessa barafunda toda, estão as informações médicas protegidas pela legislação de proteção de dados (LGPD). Nesse caso a transparência financeira e o sigilo de informações têm que ser melhor equilibrados já que na verdade, há um equívoco relativamente comum: algumas instituições invocam a LGPD para restringir o acesso do próprio titular às suas informações, quando a lei faz justamente o contrário. A LGPD protege o titular contra terceiros, não contra ele mesmo.
Para os especialistas nessa área sensível, é preciso, antes de tudo, a criação de uma espécie de portal de transparência da assistência com informações como atendimento realizado, hospital responsável, valores cobrados, valor pago, glosas ou valores recusados, auditorias realizadas, comparação de custos médios e todas as informações de interesse exclusivo dos pacientes. A questão é simples: Se o beneficiário participa do financiamento do sistema, muitos com mensalidades caríssimas, ele deveria também participar do controle de despesas. É isso que que a boa administração chama de accontability ou prestação de contas.
Numa Estado de Direito, esses planos deveriam estar submetidos a mesma transparência da administração pública, embora se saiba que ainda estamos longe dessa meta. Pelo o que está descrito no papel, a ANS deveria desempenhar papel crucial em defesa dos interesses dos beneficiários de planos, cuidando de promover práticas justas e transparentes para todo o mercado de saúde suplementar em nosso país. Não é segredo para ninguém que hoje a ANS vem enfrentando sérios desafios tanto na regulação como na judicialização, além de restrições que afetam sua autonomia financeira e capacidade operacional. A verdade é que há muito ainda o que ser feito nessa área. O problema é que a saúde do indivíduo, o bem mais preciso de cada um não pode esperar.
A frase que foi pronunciada:
“Nós queremos mais concorrência e, para isso, precisa haver transparência. São dois pilares: concorrência e transparência. O custo da saúde suplementar é um dos problemas: é repassado integralmente para o beneficiário.”
Frase do então Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, em audiência na Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização e Controle e Defesa do Consumidor do Senado, em 2022
História de Brasília
O que êles defendiam, o regime pelo qual lutavam não vem ao caso, mas não se deve pretensiosamente desmerecer um povo que construiu o que a União Soviética construiu. (Publicada em 24.05.1962)
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Poucas experiências históricas fracassaram tanto quanto a tentativa de substituir milhões de decisões individuais pela vontade de um pequeno grupo de planejadores. Sempre que governos imaginaram ser capazes de decidir, de cima para baixo, o que uma sociedade inteira deveria produzir, consumir, pensar ou aprender, os resultados foram semelhantes: desperdício, burocracia, estagnação e perda de qualidade. Na economia esse fenômeno ficou conhecido como o problema do cálculo econômico.
Ludwig von Mises demonstrou, ainda na década de 1920, que nenhum planejador consegue reunir todas as informações espalhadas por uma sociedade para tomar decisões melhores do que aquelas produzidas espontaneamente por milhões de indivíduos. Ou seja, pelo mercado. Friedrich Hayek aprofundou essa análise ao mostrar que o conhecimento está disperso entre pessoas, famílias, empresas e comunidades, tornando impossível sua concentração nas mãos do Estado.
Como dizia o filósofo de Mondubim, a verdade está espalhada no ar. Na educação brasileira parece ocorrer exatamente o mesmo fenômeno. Brasília insiste em acreditar que conhece as necessidades de quase cinquenta milhões de estudantes distribuídos por um país continental. A cada novo Plano Nacional de Educação, Base Nacional Comum Curricular ou diretriz ministerial, aumenta a quantidade de normas, competências, habilidades, indicadores e metas burocráticas. Diminui, entretanto, aquilo que realmente interessa: ensinar português, matemática, ciências, história e desenvolver pensamento crítico.
Enquanto o governo central produz milhares de páginas de regulamentações, os resultados permanecem praticamente inalterados. Os indicadores internacionais mostram uma realidade preocupante. O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), coordenado pela OCDE, coloca sistematicamente o Brasil entre os últimos colocados em leitura, matemática e ciências entre as economias participantes. Em matemática, mais de dois terços dos estudantes brasileiros não atingem sequer o nível considerado básico. Em leitura, parcela significativa termina o ensino médio sem compreender plenamente textos relativamente simples. Os problemas, obviamente, aparecem ainda antes. Avaliações nacionais mostram elevados índices de analfabetismo funcional. Milhões de estudantes conseguem decifrar palavras, mas não interpretar corretamente o significado de um texto, resolver problemas matemáticos elementares ou elaborar argumentos consistentes. Essa realidade não decorre da falta de planejamento. Talvez de um excesso sem pé na realidade e mais ligado à uma burocracia estatal e cada vez mais estatizante.
Mesmo com planos decenais, planos estaduais, planos municipais, parâmetros curriculares, diretrizes nacionais, competências gerais, competências específicas, habilidades, metas quantitativas e inúmeros instrumentos administrativos o desenvolvimento é mirrado e imperceptível nos rankings.
Países que alcançaram elevados padrões de ensino seguiram caminho bastante diferente. A Finlândia tornou-se referência internacional justamente por conceder elevada autonomia às escolas e aos professores. Singapura trabalha com currículo objetivo, rigoroso e fortemente baseado em domínio de conteúdo. A Estônia, hoje uma das maiores surpresas da educação mundial, investiu pesadamente na formação docente, na tecnologia e na autonomia escolar. A Coreia do Sul apostou na valorização social do professor, na disciplina acadêmica e em avaliações permanentes. O fato é que nenhum desses países resolveu seus problemas multiplicando burocracias. Os esforços foram concentrados em ensinar melhor.
Enquanto isso, conteúdos fundamentais vão perdendo espaço. Em muitos casos, disciplinas essenciais cedem lugar a projetos transversais cuja efetividade jamais foi comprovada por avaliações independentes. Instituições de ensino superior gastam cada vez mais tempo oferecendo disciplinas de nivelamento para alunos que chegam incapazes de escrever corretamente, interpretar textos complexos ou realizar operações matemáticas básicas. O problema já não está apenas no ensino fundamental. Ele percorre toda a cadeia educacional. A centralização excessiva acaba produzindo um currículo que atende parcialmente a todos e plenamente a ninguém. Outro equívoco recorrente consiste em imaginar que aumentar gastos públicos resolve automaticamente problemas educacionais. O Brasil já investe percentual significativo do Produto Interno Bruto em educação quando comparado a diversos países desenvolvidos. O desafio principal encontra-se menos no volume de recursos e muito mais na qualidade da gestão, na eficiência do gasto e na aprendizagem efetiva dos estudantes. Recursos são indispensáveis. Mas não substituem boa administração. Também não substituem professores capacitados. Nem escolas organizadas. Nem famílias presentes. Nem liderança pedagógica. Talvez seja justamente nesse ponto que o debate precise amadurecer. Educação de qualidade não nasce de decretos. Também não surge da multiplicação de planos nacionais. Quando um sistema educacional passa a acreditar que alguns especialistas conseguem decidir, sozinhos, o que milhões de estudantes devem aprender, corre exatamente o mesmo risco identificado por Mises e Hayek na economia: substituir a riqueza produzida pela diversidade de experiências humanas pela pobreza intelectual gerada pela uniformização burocrática.
A frase que foi pronunciada:
“Os melhores professores são aqueles que mostram onde olhar, mas não dizem o que ver.”
Alexandra K. Trenfor
História de Brasília
Descobrindo a polvora, o deputado explica por que a Exposição não está completa, e diz coisas que aprendeu no nosso regime, principalmente. As faltas da Exposição são, inclusive, algumas histórias escritas com patriotismo por um povo. (Publicada em 24.05.1962)
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Criado por Walt Disney em 1942, durante a Política da Boa Vizinhança, Zé Carioca nasceu como um símbolo da aproximação entre Brasil e Estados Unidos. Elegante, simpático, dono de conversa fácil e de um talento quase sobrenatural para escapar das dificuldades, o papagaio brasileiro tornou-se um dos personagens mais conhecidos dos quadrinhos mundiais. Representava um Brasil cordial, criativo, improvisador e profundamente confiante na força da própria lábia. Passadas mais de oito décadas, o personagem continua servindo como metáfora útil para compreender certos momentos da vida política nacional.
(Gemini)
Na diplomacia, como na vida, existe uma diferença fundamental entre simpatia e poder. A boa conversa pode abrir portas. Não substitui interesses nacionais. A habilidade retórica pode aliviar tensões. Não altera a correlação de forças entre países. Grandes potências negociam com base em interesses estratégicos permanentes, muito mais do que em afinidades pessoais entre governantes. Foi justamente essa lição que a história da diplomacia ensina repetidas vezes. Os Estados Unidos mantiveram relações estreitas com governos democráticos e autoritários, conservadores e progressistas, republicanos e socialistas, sempre que seus interesses nacionais assim recomendaram. A China faz exatamente o mesmo. Rússia, Índia e União Europeia seguem lógica semelhante.
Na política internacional, amizades são circunstanciais. Interesses costumam ser permanentes. Por isso, encontros entre chefes de Estado raramente podem ser avaliados apenas pelas imagens produzidas para a imprensa. Um aperto de mão não significa convergência estratégica. Um sorriso diante das câmeras não elimina divergências comerciais, tecnológicas ou geopolíticas. O Brasil ocupa posição singular nesse tabuleiro. É a maior economia da América Latina, possui enormes reservas minerais, enorme produção agrícola, matriz energética relativamente limpa e importância crescente na segurança alimentar mundial. Justamente por isso desperta o interesse simultâneo de Washington, Pequim, Bruxelas e Moscou. Essa condição exige uma diplomacia extremamente cuidadosa. Qualquer percepção de alinhamento automático ou de antagonismo permanente tende a reduzir a margem de manobra brasileira.
A tradição diplomática construída pelo Itamaraty ao longo de décadas sempre buscou preservar autonomia, previsibilidade e capacidade de diálogo com diferentes polos internacionais. Nos últimos anos, entretanto, a política externa brasileira tornou-se mais polarizada internamente. Decisões diplomáticas passaram a ser interpretadas também sob a ótica da disputa política doméstica. Isso elevou o custo de cada gesto e aumentou a repercussão de cada declaração presidencial. Nesse ambiente, a metáfora de Zé Carioca volta a fazer sentido. O personagem acreditava que inteligência improvisada bastava para resolver praticamente qualquer situação. Muitas vezes conseguia. Outras tantas descobria que havia interlocutores igualmente experientes, conhecedores das regras do jogo e pouco suscetíveis ao charme do improviso. A política internacional raramente recompensa improvisações, corpo a corpo ou conexão descontraída e despreparada. Negociações entre países envolvem cadeias produtivas, investimentos bilionários, segurança nacional, tecnologia, comércio exterior e alianças militares.
Quando uma governante aposta na informalidade e na quebra de protocolos, o argumento de seus defensores é que isso humaniza a liderança, abre canais diretos de diálogo e projeta um soft power autêntico no exterior. No entanto, o contra-argumento que ganha muita força em momentos de crise econômica ou de impasses diplomáticos sérios é o de que a liturgia do cargo não é mero capricho estético. Ela serve para blindar a imagem do país e garantir que as negociações de alto nível sejam tratadas com a gravidade que os interesses nacionais exigem. Ao longo da história, países que confundiram retórica com estratégia acabaram reduzindo sua influência internacional. Os que preservaram instituições diplomáticas profissionais conseguiram atravessar mudanças de governo mantendo credibilidade perante diferentes parceiros. O verdadeiro patrimônio de uma política externa não é o brilho momentâneo de uma fotografia nem o impacto de uma declaração. É a confiança acumulada durante décadas de comportamento previsível. Zé Carioca permanece um personagem fascinante justamente porque simboliza um traço conhecido da cultura brasileira: a crença de que criatividade e improvisação sempre encontrarão uma saída. Na vida cotidiana, isso pode até funcionar. Na geopolítica, entretanto, costuma prevalecer uma máxima muito mais antiga: nem sempre quem parece ingênuo realmente o é, e quase nunca as grandes potências entram numa negociação sem conhecer, com antecedência, todos os interesses que pretendem defender. Entre a simpatia do papagaio e o pragmatismo das relações internacionais existe uma distância que nenhuma boa conversa consegue eliminar. É nessa distância que se decide o espaço de um país no cenário mundial.
A frase que foi pronunciada:
“Lula é o presidente que o Brasil merece”
Celso Amorim
História de Brasília
A primeira disputa pela presidência da Novacap partiu do PTB de Goiás. Fala-se na fôrça que os políticos estão fazendo para substituir o dr. Afrânio Barbosa pelo deputado Haroldo Duarte, vice-presidente da Assembléia Legislativa de Goiás. (Publicada em 24.05.1962)
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*Gemini
Poucas imagens conseguem sintetizar tão bem uma crise institucional quanto aquela oferecida por parte dos campi de universidades públicas brasileiras. Em diversas instituições espalhadas pelo país, o visitante encontra prédios envelhecidos, fachadas cobertas por pichações, corredores ocupados por cartazes acumulados ao longo dos anos, laboratórios necessitando de modernização, equipamentos defasados e sinais evidentes de falta de manutenção. Independentemente da posição ideológica de quem observa esse cenário, uma conclusão parece inevitável: boa parte do patrimônio público brasileiro destinado ao ensino superior vem sofrendo um processo prolongado de deterioração.
Naturalmente, esse diagnóstico não se aplica da mesma forma a todas as universidades. O Brasil possui instituições públicas que continuam produzindo pesquisa de alto nível, formando profissionais altamente qualificados e ocupando posições relevantes em diferentes áreas do conhecimento. Universidades como USP, Unicamp, UFMG e outras permanecem responsáveis por parcela expressiva da produção científica nacional. Ainda assim, a realidade de muitos campi revela dificuldades que deixaram de ser episódicas para se tornar estruturais. A crise começa pela infraestrutura. O resultado aparece em salas superlotadas, dificuldades administrativas e crescente pressão sobre professores e técnicos.
Outro aspecto frequentemente debatido diz respeito ao ambiente universitário. Universidades são, por definição, espaços de liberdade intelectual. Devem acolher diferentes correntes de pensamento, estimular o confronto de ideias e formar cidadãos capazes de questionar consensos. Quando esse ambiente plural é substituído por intolerância ao dissenso, perde-se uma das características fundamentais da vida acadêmica. Estudos sobre o Perfil do Funcionalismo Público e Elites Intelectuais (Ipea / Universidades Federais, Análises de Produção Acadêmica nas Ciências Humanas e Pesquisas de Opinião em Períodos Eleitorais (Simulações e Enquetes por Categorias mostram que a maioria dos docentes das universidades brasileiras tende a posicionar-se mais à esquerda no espectro político.
Pesquisadores vinculados a áreas como a Ciência Política e a Sociologia têm investigado o ambiente universitário. Um dos argumentos centrais dessas análises é a aplicação da Teoria da Espiral do Silêncio (de Elisabeth Noelle-Neumann): estudantes que percebem suas opiniões (sejam liberais na economia, conservadoras nos costumes ou críticas a correntes teóricas hegemônicas) como minoritárias no grupo tendem a se calar por medo do isolamento social ou de retaliação acadêmica (como avaliações subjetivas de trabalhos e bancas).Outros pesquisadores contestam essa percepção e sustentam que faltam evidências sistemáticas de doutrinação institucionalizada. O tema permanece objeto de intenso debate.
Há ainda questões relacionadas à convivência cotidiana nos campi. É comum encontrar relatos sobre consumo de álcool e, em alguns locais, uso ostensivo de drogas ilícitas em áreas abertas das universidades. Embora essa realidade varie significativamente entre instituições e não caracterize a totalidade dos campi, ela alimenta críticas sobre a dificuldade de garantir segurança, preservar o patrimônio público e assegurar um ambiente adequado ao ensino e à pesquisa. Enquanto isso, os desafios acadêmicos tornam-se cada vez maiores.
A competição internacional por produção científica, inovação tecnológica e formação de pesquisadores intensificou-se nas últimas décadas. Países asiáticos ampliaram maciçamente seus investimentos em universidades. Estados Unidos e Europa continuam concentrando boa parte dos centros de excelência. A China transformou o ensino superior em prioridade estratégica nacional. O Brasil, por sua vez, enfrenta dificuldades para acompanhar esse ritmo. Nos principais rankings internacionais, poucas universidades brasileiras conseguem manter posições de destaque. Embora continuem figurando entre as melhores da América Latina, ainda enfrentam limitações significativas quando comparadas aos grandes centros mundiais de pesquisa. Além disso, indicadores de inovação, transferência tecnológica e registro de patentes permanecem aquém do potencial científico do país. Essa realidade não pode ser atribuída exclusivamente à falta de recursos. Gestão eficiente, planejamento estratégico, avaliação permanente de desempenho, internacionalização, aproximação com o setor produtivo e autonomia administrativa também desempenham papel decisivo na qualidade universitária. Os sistemas mais bem-sucedidos combinam financiamento adequado com mecanismos transparentes de cobrança por resultados.
A frase que foi pronunciada:
“A universidade precisa estar aberta à realidade inteira do seu tempo, precisa imergir no espaço público… Quando ela se fecha em dogmas ou se isola em si mesma, ela deserta de sua missão universal e torna-se um casarão de espectros.” José Ortega y Gasset
História de Brasília
Um amigo nosso saiu de Fortaleza porque o povo vivia em muitas dificuldades, e a cidade tinha clubes demais. Veio para Brasília, ouviu o que dizem os comerciantes, os gerentes de bancos, recebeu, no mesmo dia, proposta para comprar 15 ações de clubes diferentes, fechou a mala, marcou a passagem e foi embora. (Publicada em 24.05.1962)
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Ao longo de seus dois mil anos de história, poucas ameaças mostraram-se tão perigosas para a Igreja Católica quanto aquelas que nasceram dentro de seus próprios muros. Perseguições externas, impérios hostis, revoluções anticristãs e regimes totalitários jamais conseguiram destruir a Igreja. As maiores crises surgiram quando parte de sua própria hierarquia passou a divergir sobre questões doutrinárias, disciplinares ou pastorais. Foi assim no Grande Cisma do Oriente, em 1054. Foi assim durante a Reforma Protestante do século XVI. Em todos esses momentos, o problema não estava apenas nas forças que pressionavam a Igreja de fora para dentro, mas também na incapacidade de preservar a unidade em torno daquilo que sempre foi considerado imutável.
É nesse contexto que chamam atenção as recentes declarações do bispo Jan Paweł Lenga, bispo emérito de Karaganda, no Cazaquistão. Em um texto que circulou amplamente entre grupos católicos tradicionalistas, ele afirma que “cargos-chave estão sendo cada vez mais ocupados por pessoas completamente corrompidas pelo mundo” e sustenta que determinados cardeais e bispos “já não têm absolutamente nada em comum com a Igreja de Cristo”. Para Lenga, aqueles que acusam outros de provocar divisões seriam justamente os responsáveis por um cisma silencioso em curso. Trata-se de uma acusação gravíssima. Mais do que uma crítica administrativa ou disciplinar, ela atinge o próprio coração da autoridade eclesiástica. O termo “cisma”, na tradição católica, significa a ruptura da comunhão com a autoridade legítima da Igreja. Historicamente, essa palavra nunca foi utilizada de forma leviana. Seu emprego sempre esteve associado a acontecimentos capazes de alterar profundamente o destino do cristianismo. É evidente que essa não é a posição oficial da Igreja Católica. A Santa Sé continua afirmando que o Concílio Vaticano II deve ser interpretado em continuidade com toda a tradição anterior, e não como uma ruptura.
Diversos teólogos sustentam que as reformas litúrgicas e pastorais buscaram responder aos desafios do mundo contemporâneo sem modificar os dogmas fundamentais da fé. Em outras palavras, os dogmas fundamentais permanecem os mesmos, enquanto a liturgia, a linguagem, os métodos pastorais e o relacionamento da Igreja com a sociedade podem ser renovados para responder às necessidades de cada época.
Essa interpretação tornou-se especialmente influente após a formulação da “hermenêutica da continuidade” por Bento XVI, que procurou mostrar que as reformas conciliares devem ser lidas como um desenvolvimento orgânico da tradição católica, e não como uma ruptura com ela. Entretanto, seria igualmente um erro ignorar que existe hoje um debate interno de grandes proporções.
Em diferentes países, bispos, cardeais, sacerdotes e intelectuais católicos manifestam preocupação com temas que vão desde a liturgia até questões morais envolvendo casamento, sexualidade, comunhão, ecumenismo e sinodalidade. Não se trata de uma discussão periférica, mas de um confronto entre diferentes compreensões sobre a missão da Igreja no século XXI. Nomes como o cardeal Raymond Burke, o cardeal Gerhard Ludwig Müller, o bispo Athanasius Schneider e o próprio arcebispo Carlo Maria Viganò têm expressado críticas contundentes a diversos rumos adotados nos últimos anos, ainda que cada um o faça em graus e fundamentos distintos. Alguns falam em crise doutrinária. Outros preferem falar em crise pastoral. Há ainda aqueles que enxergam uma crescente influência da cultura secular sobre decisões e documentos eclesiais.
O temor manifestado por esses setores é o de que, na tentativa de dialogar com o mundo contemporâneo, a Igreja acabe assimilando categorias culturais incompatíveis com sua tradição bimilenar. Para esses críticos, a preocupação excessiva com adaptação social poderia levar ao enfraquecimento da identidade católica. Por outro lado, muitos bispos e teólogos argumentam exatamente o contrário. Sustentam que a evangelização exige novas linguagens e novas formas de presença pastoral, sem que isso implique abandono da doutrina. Segundo essa perspectiva, a Igreja sempre passou por processos de desenvolvimento e atualização ao longo da história, preservando o depósito da fé enquanto adaptava sua ação missionária às circunstâncias de cada época. O fato é que a tensão existe e dificilmente pode ser ignorada. A própria história demonstra que grandes divisões nunca surgem de um dia para o outro. Elas costumam ser precedidas por anos de debates, incompreensões, acusações mútuas e perda gradual da confiança entre diferentes setores da mesma comunidade. Também merece reflexão o uso recorrente da imagem bíblica do “lobo entre as ovelhas”. A metáfora aparece nos Evangelhos como advertência contra falsos mestres e falsos profetas.
A frase que foi pronunciada:
“O maior entre vós seja como o mais jovem, e aquele que governa como quem serve.”
Jesus Cristo
História de Brasília
Dona Elba Sette Câmara foi ao Hospital Distrital, solicitou uma relação de material, levou para as crianças, socorreu-as, e, embora tenha provocado uma crise administrativa, salvou muitas crianças e adultos. (Publicada em 24.05.1962)
VISTO, LIDO E OUVIDO
*Criada por Ari Cunha DESDE 1960
hoje
Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade
Depois do apito final do jogo entre Brasil e Noruega, comentaristas de todas as áreas, não somente do futebol, mas de todas as áreas correram para apresentar explicações e visões dessa derrota ao grande público. O que sabemos desde há muito, é que a Seleção, como o nome indica como reunião dos melhores, é, antes de tudo a “pátria de chuteiras”. Somos nós mesmos em campo, com toda a nossa bagagem cultural e nossas idiossincrasias e nossos complexos. Apesar das mazelas que o país parece experenciar desde 1500, sempre acreditamos ser uma potência de primeiro mundo, quando o assunto é futebol. Perdendo essa que seria a nossa única qualidade perante o mundo, o que nos resta? Nesse caso antes mesmo de reformular o modelo e a arquitetura de nosso futebol profissional, sufocado pelos descaminhos da cartolagem e das contas mal explicadas de cada federação e mesmo da CBF, envolta agora em escândalos de toda a ordem, é preciso é mais a fundo e analisar essa derrota como um todo. Com isso fica patente que estamos em meio a uma crise não só no futebol mas em todas as áreas da vida nacional. A começar pelo Estado, pela República, pelos Poderes e por aí vai.
expressões definiram tão bem o Brasil quanto a célebre imagem criada por Nelson Rodrigues da “pátria de chuteiras”. O futebol nunca foi apenas um esporte entre nós. Foi uma forma de identidade nacional, uma linguagem comum entre ricos e pobres, uma rara ocasião em que o país parecia esquecer suas diferenças para reconhecer-se como nação. Durante décadas, a Seleção Brasileira representou algo muito maior do que onze jogadores em campo. Ela simbolizava a ideia de que, apesar de todas as dificuldades econômicas, políticas e sociais, havia pelo menos um território onde o Brasil permanecia soberano. Hoje essa certeza já não existe. A derrota para a Noruega, por si só, não representa uma tragédia esportiva. No futebol, perder faz parte do jogo. O que desperta inquietação é o contexto em que ela ocorre.
A Seleção parece ter perdido aquilo que durante décadas foi sua maior virtude: personalidade. Não faltam atletas talentosos. O Brasil continua exportando jogadores para os principais campeonatos do mundo. Os clubes europeus seguem disputando nossos jovens talentos antes mesmo que completem uma temporada no futebol profissional. O problema, portanto, não parece residir na matéria-prima. Talvez esteja naquilo que acontece antes que esses jogadores entrem em campo. O futebol brasileiro passou a refletir, de maneira quase perfeita, as virtudes e os defeitos da própria sociedade. A desorganização administrativa, a instabilidade institucional, a falta de planejamento de longo prazo, o excesso de personalismo, a dificuldade de prestar contas e a permanente sucessão de disputas pelo poder também encontraram espaço dentro das estruturas esportivas. A Confederação Brasileira de Futebol tornou-se, nos últimos anos, protagonista de sucessivas crises administrativas, disputas judiciais, mudanças de comando e questionamentos sobre sua governança. Em diversas federações estaduais, dirigentes permanecem décadas no poder, frequentemente protegidos por estruturas pouco transparentes e sistemas eleitorais que dificultam a renovação. O torcedor acompanha resultados dentro de campo, mas raramente conhece o funcionamento das instituições responsáveis por administrar o esporte mais popular do país. Nenhuma organização produz excelência esportiva quando sua administração convive permanentemente com incertezas
Quando a criatividade florescia na economia, na cultura e na vida pública, ela também aparecia nos gramados. Quando predominavam organização, disciplina e objetivos claros, essas qualidades igualmente se refletiam na camisa amarela. Hoje o espelho parece devolver outra imagem. Vivemos um período marcado por intensa polarização política, crescente desconfiança nas instituições, dificuldades econômicas persistentes, baixo crescimento da produtividade, deficiências educacionais, violência urbana e sucessivos escândalos envolvendo diferentes setores da vida pública. Independentemente das interpretações políticas que cada cidadão faça desse cenário, há um dado difícil de contestar: a confiança coletiva encontra-se profundamente abalada.
Durante décadas, o sucesso da Seleção serviu, em alguma medida, como elemento de compensação simbólica. Em meio às crises nacionais, permanecia a convicção de que ainda éramos referência mundial em pelo menos uma atividade. O futebol funcionava como uma espécie de patrimônio emocional da República. Essa função parece estar desaparecendo. A camisa amarela já não desperta unanimidade. A Seleção já não intimida adversários. O chamado “futebol-arte”, que encantou o mundo, tornou-se lembrança histórica mais do que realidade contemporânea.
O futebol tornou-se uma atividade altamente profissionalizada, baseada em ciência esportiva, planejamento estratégico, análise de desempenho, gestão financeira e formação continuada. A improvisação perdeu espaço. Outros países aprenderam. A derrota diante da Noruega, portanto, talvez não seja apenas um resultado esportivo. Ela funciona como metáfora de um país que parece ter perdido parte de sua capacidade de transformar talento em excelência, potencial em realização e tradição em liderança. A Seleção permanece sendo a pátria de chuteiras. Se ela hoje parece jogar abaixo de sua história, talvez seja porque reflete, com fidelidade desconfortável, as dificuldades, as incertezas e as contradições de um Brasil que ainda procura reencontrar seu próprio rumo em pleno século XXI.
ROGACIANO
Será inaugurada em Fortaleza, no próximo dia 23, a partir das 19h, a exposição “Rogaciano Leite e os Congressos de Cantadores”
A mostra será realizada no Espaço Cultural da Cegás, no bairro José de Alencar, e vai até o dia 28 de agosto.
Rogaciano Leite (1920 -1969) foi jornalista, compositor e poeta.
É autor de “Carne e Alma”, obra poética aplaudida pela critica nacional.
O jornalista e poeta Nonato Freitas, amigo de Rogaciano Leite, do qual foi colega de jornal, em Fortaleza, escreveu um cordel sobre o notável bardo.
A obra escrita por Nonato Freitas fará parte da exposição.
Helena Roraima Leite, filha de Rogaciano, é uma das organizadoras do evento.
A frase que foi pronunciada:
No futebol, a pior cegueira é só enxergar a bola.”
Nelson Falcão Rodrigues
História de Brasília
As crianças no Hospital de Sobradinho viveram momentos horríveis nestas noites de frio. Dormiam em caixotes de madeira com serragem, por falta de cobertores. (Publicada em 24.05.1962)
VISTO, LIDO E OUVIDO
Criado por Ari Cunha em 1962 – Brasília
Hoje com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
jornalistacircecunha@gmail.com
“A política não tem nada a ver com a razão, e sim com o poder.” A frase, atribuída a Maquiavel, incomoda porque despe a política de qualquer verniz moral e a devolve ao seu osso: quem manda, manda; o resto é justificativa. Para o cidadão que ainda acredita nas fábulas da soberania popular, soa cínica demais. Mas basta observar o Brasil dos últimos meses para perceber que a crueza maquiavélica descreve a realidade com mais precisão do que qualquer manual de civismo escolar. Isso não significa que o poder seja sempre exercido às claras, com a violência nua de quem empunha uma arma. A forma contemporânea de dominação é mais sutil: opera por decreto, por resolução de agência reguladora, por acórdão de tribunal que se apresenta como guardião da democracia enquanto redesenha, sozinho, as regras do jogo público. É precisamente esse o movimento que se pode observar no Brasil de 2026, às vésperas de uma eleição presidencial.
Em 20 de maio, o governo federal editou dois decretos o 12.975/2026 e o 12.976/2026 que ampliam de forma expressiva os poderes de fiscalização do Estado sobre plataformas digitais. O primeiro transforma a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), criada por lei com a competência estrita de proteger dados pessoais, em uma espécie de fiscal de conteúdo, encarregada de verificar se as redes sociais estão cumprindo obrigações de moderação. O Congresso, é bom lembrar, já havia debatido e não aprovado uma proposta semelhante, o chamado PL das Fake News. O que o Legislativo rejeitou pela porta da frente voltou pela porta dos fundos do Executivo.
O gesto não é isolado. Há apoio numa decisão do Supremo Tribunal Federal que, ao derrubar a exigência de ordem judicial para responsabilizar plataformas por publicações de terceiros, o que criou um incentivo estrutural à autocensura: toda empresa que hospeda conteúdo passa a preferir remover em excesso a arriscar sanção. Não é necessário proibir uma opinião para silenciá-la; basta tornar caro demais mantê-la no ar. Essa é a censura que não precisa se declarar censura ela se disfarça de “gestão de riscos sistêmicos”, de “proteção à integridade do processo eleitoral”, de combate a discursos vagamente definidos como “antidemocráticos”.
Aqui reside o paradoxo que autores de tradições muito diferentes já haviam identificado: os regimes que mais restringem a liberdade raramente o admitem. Preferem fazê-lo em nome de um bem maior como a proteção da democracia, o combate à desinformação, a defesa das mulheres e das crianças no ambiente digital, todas causas nobres em si mesmas, mas que servem também de veículo perfeito para normas de contornos propositalmente imprecisos.
Quando um decreto define violência digital como qualquer conduta que cause “sofrimento psicológico”, a plataforma prudente prefere apagar a crítica contundente contra uma autoridade a discutir, caso a caso, se aquela crítica configura ou não crime. O efeito prático independe da intenção declarada. É aqui que a advertência do início se confirma. Quando abrimos mão de decidir por nós mesmos o que pode ou não circular no debate público, delegando essa tarefa a um órgão do próprio governo que se autofiscaliza, não estamos defendendo a democracia, estamos entregando a um grupo específico, momentaneamente instalado no poder, a prerrogativa de definir os limites da própria liberdade que todos deveriam usufruir igualmente.
O problema do momento brasileiro é que essa simetria não existe. De um lado, um Executivo que edita normas por decreto; de outro, plataformas, veículos de imprensa e cidadãos comuns que não têm como negociar em pé de igualdade os termos de sua própria expressão. Não é à toa que o próprio Congresso, instituição que, com todos os seus defeitos, ainda depende do voto popular, se tornou o principal ponto de resistência a esse avanço, articulando decretos legislativos para sustar as medidas. Isso mostra que o fechamento político não é uma sentença irreversível, mas um processo que se pode ainda conter desde que se reconheça sua natureza. Vale lembrar que nenhum regime que restringiu liberdades o fez confessando essa intenção.. Reconhecer isso não é pessimismo, é realismo. Maquiavel não escrevia para justificar o poder, mas para que os súditos e hoje, os cidadãos deixassem de se iludir sobre sua natureza. Só quem enxerga o poder como ele é pode cobrar de suas instituições que ele seja contido pelas vias legítimas: o debate legislativo, a fiscalização parlamentar, o voto. A alternativa de aceitar cada novo decreto como um mal necessário, cada nova competência regulatória como um detalhe técnico é o caminho mais curto para transformar a exceção em regra e a vigilância em rotina.
A frase que foi pronunciada: “Quase todos os homens conseguem suportar a adversidade, mas se você quiser testar o caráter de um homem, dê-lhe poder.” Abraham Lincoln
História de Brasília
Agora, para que tenha apenas uma Igreja, está realizando um programa de quermesses, que se iniciará no dia 2 de junho. Serão quermesses nos fins de semanas 2 e 3 e 9 e 10. (Publicada em 24.05.1962)




