Rumo ao Paraguai

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Ponte da Amizade, que liga o Brasil ao Paraguai. (Foto: GAZETA/CHRISTIAN RIZZI)

 

Há algo de profundamente simbólico no fato de o Paraguai, país que por décadas figurou como sinônimo de contrabando, desordem e informalidade, ter se convertido no destino preferido dos empreendedores brasileiros. Não é ironia menor: a nação que o imaginário coletivo associava às feiras de eletrônicos pirateados às margens do Rio Paraná hoje ostenta filas de brasileiros acampados ao sol, dispostos a enfrentar madrugadas em cadeiras de praia para conquistar o direito de residir e produzir do outro lado da fronteira.

Esses brasileiros não fogem da miséria. Fogem da prosperidade impossível. São empresários, industriais, profissionais liberais e aposentados que fizeram suas contas e chegaram a uma conclusão incômoda: no Brasil atual, trabalhar muito e pagar impostos honestos não garante futuro. Garantir futuro, ao contrário, exige emigrar.

Os números confirmam o que a intuição já denunciava. Segundo a Direção Nacional de Migrações do Paraguai, entre janeiro e outubro de 2025 foram registrados 38.236 pedidos de residência de estrangeiros, número que já supera todo o ano de 2024 e representa crescimento de 31,3% em relação ao período anterior. Desse total, 22.136 pedidos vieram de brasileiros, equivalendo a 57,9% de todos os imigrantes que escolheram o Paraguai no período. Em 2024, foram 17.139 autorizações de residência apenas para cidadãos do Brasil, representando 60,21% do total de imigrantes formalizados no país.

Estima-se que mais de 263 mil brasileiros já vivam em território paraguaio. Para entender esse êxodo, é preciso olhar para o que acontece dentro de casa. Em 2024, a carga tributária brasileira atingiu o maior patamar da série histórica: 34,24% do PIB, segundo o Observatório de Política Fiscal da FGV, superando o recorde anterior de 33,01%, registrado em 2022. A arrecadação do governo federal, dos estados e dos municípios somou R$ 2,7 trilhões no ano, crescimento de quase 10% sobre o ano anterior, conforme dados da Receita Federal. Em 2025, o recorde foi renovado: a carga tributária chegou a 32,4% do PIB apenas pela metodologia do governo geral, mas analistas indicam que a cifra real, incluindo contribuições parafiscais, supera os 34%.

O mais estarrecedor não é o volume arrecadado, mas o que esse dinheiro não entrega. Mesmo batendo todos os recordes históricos de impostos, o governo federal registrou em 2024 um déficit nominal de 7,67% do PIB, o equivalente a R$ 900,57 bilhões apenas na esfera federal. A dívida bruta do governo geral caminha para 78% do PIB, segundo projeções do mercado financeiro. Em linguagem direta: o Estado brasileiro arrecada mais do que nunca, gasta mais do que nunca e ainda assim não fecha as contas.

“Mesmo batendo recordes de arrecadação e carga tributária, a conta continua não fechando”, sintetizou o economista Ecio Costa da Universidade Federal de Pernambuco ao Poder 360. Para o especialista e consultor, o aumento persistente dos gastos obrigatórios e a ausência de reformas estruturais do lado da despesa tornam a trajetória da dívida pública insustentável. “O arcabouço fiscal é uma mera peça ilusória, cheia de furos que são usados para gerar um déficit adicional de R$ 300 bilhões nesse governo”, afirmou.

De acordo com o Instituto Liberal “Não é que o Paraguai seja atrativo demais. O Brasil é que se tornou caro demais para produzir.” A folha de pagamento brasileira é uma das mais caras do mundo. Encargos trabalhistas e previdenciários podem dobrar o custo efetivo de um funcionário em relação ao seu salário nominal. O chamado Custo Brasil, que engloba complexidade tributária, infraestrutura deficiente e insegurança jurídica, aparece diretamente na decisão de investir ou não investir no país, como alertou o secretário de Desenvolvimento Econômico de São Paulo, Jorge Lima.

O custo da energia elétrica industrial exemplifica o abismo. Enquanto no Brasil o preço médio gira em torno de 123 dólares por megawatt-hora, no Paraguai o mesmo insumo custa apenas 39 dólares por megawatt-hora, segundo levantamentos divulgados pela imprensa. Isso significa que uma indústria instalada em território paraguaio pode abastecer três plantas fabris pelo preço de uma operação equivalente no lado brasileiro da fronteira. A diferença não decorre de tecnologia superior ou de subsídio artificial: é a energia de Itaipu, co-construída com dinheiro e engenharia brasileiros, chegando muito mais barata ao lado de lá. O resultado é visível nas decisões corporativas.

No início de 2025, a Lupo, uma das maiores fabricantes têxteis do país, com décadas de história no Brasil, sinalizou a abertura de uma fábrica de meias no Paraguai, alegando inviabilidade econômica da produção doméstica diante da carga tributária e do ambiente regulatório brasileiro. O caso não é exceção. Dados do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, atualizados em junho de 2025, mostram que 65% de tudo que é produzido sob o regime de Maquila no país tem como destino o Brasil. Ou seja: empresas saem daqui, produzem lá e nos vendem o produto acabado, pagando impostos muito menores.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Não adianta ficar desinformado sobre o que está acontecendo com a economia e os cenários macroeconômicos e setoriais e achar que sua empresa, instituição ou evento irá ter sucesso.”
Ecio Costa

 

História de Brasília
Transformou-a em Associação de Imprensa de Brasília, e nos convidou a depor numa comissão de inquérito instaurada para aparar os nomes. Os nomes todos já sabem. Dos que venderam e dos que compraram. E chega de inquéritos! (Publicada em 18.05.1962)

A imprensa responsável

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Foto: ©Freepick

 

A relação entre imprensa e democracia é objeto recorrente de análise em estudos institucionais, acadêmicos e de organismos internacionais. No caso brasileiro, essa relação insere-se no marco jurídico estabelecido pela Constituição Federal de 1988, que define, em seu artigo 1º, que “todo poder emana do povo”. Esse princípio fundamenta o papel da informação como elemento central para o funcionamento do sistema democrático.

A imprensa é frequentemente caracterizada como mediadora entre instituições e sociedade. Segundo o relatório do Reuters Institute for the Study of Journalism, 56% dos brasileiros concordam que a mídia exerce função de monitoramento do poder, indicador que posiciona o país entre os mais elevados nesse quesito em comparação internacional. Esse dado sugere a percepção da imprensa como mecanismo de fiscalização institucional.

Ao mesmo tempo, indicadores de confiança revelam um cenário de estabilidade em níveis moderados. Em 2025, 42% dos brasileiros declararam confiar nas notícias, percentual considerado próximo à média global. Esse índice representa uma queda acumulada ao longo da última década, associada, segundo o mesmo relatório, a fatores como polarização política e expansão das plataformas digitais.

A transformação tecnológica também alterou os padrões de consumo de informação. Cerca de 78% da população brasileira utiliza a internet como principal meio de acesso a notícias, enquanto apenas 10% recorrem a jornais impressos. Além disso, aproximadamente 65% dos entrevistados afirmam obter informações por meio de redes sociais e plataformas digitais. Esse deslocamento evidencia uma mudança estrutural no ecossistema informacional.

No plano internacional, a liberdade de imprensa é frequentemente utilizada como indicador de qualidade democrática. O Brasil ocupa posições intermediárias em rankings globais, como o da organização Repórteres Sem Fronteiras, que avalia condições estruturais, independência editorial e segurança dos profissionais. Esses indicadores são utilizados como referência comparativa entre diferentes sistemas políticos.

A literatura especializada também destaca a concentração de propriedade como fator relevante para análise do sistema midiático. Estudos do Banco Mundial e da OCDE apontam que a diversidade de fontes é um dos elementos associados à pluralidade informativa, embora não haja consenso sobre modelos ideais de regulação.

No ambiente digital, pesquisadores têm observado mudanças nos critérios de circulação de conteúdo. De acordo com o Reuters Institute, plataformas on-line tendem a priorizar conteúdos com maior potencial de engajamento, o que influencia a visibilidade de determinadas informações em detrimento de outras. Esse fenômeno tem sido relacionado à velocidade de disseminação de conteúdos não verificados.

A discussão sobre imparcialidade também aparece em estudos teóricos sobre jornalismo. O pesquisador Nic Newman afirma que “a confiança nas notícias está ligada à percepção de independência e transparência das organizações jornalísticas”, destacando a relação entre credibilidade e práticas editoriais.

No contexto brasileiro, a percepção de independência da mídia apresenta níveis mais baixos. Apenas 27% dos entrevistados consideram que os meios de comunicação são independentes de influências políticas ou econômicas. Esse dado indica um grau de ceticismo em relação à autonomia editorial.

A atuação da imprensa também é frequentemente associada ao conceito de “esfera pública”, desenvolvido por Jürgen Habermas, que define o espaço de debate como elemento central das democracias modernas. Nesse modelo, a circulação de informações confiáveis é considerada condição para a formação de opinião pública.

Em síntese, os dados disponíveis indicam que a imprensa no Brasil opera em um ambiente caracterizado por transformação tecnológica, níveis moderados de confiança e desafios relacionados à percepção de independência. O papel da mídia como mediadora entre sociedade e instituições permanece presente nos indicadores, ao mesmo tempo em que novas dinâmicas de produção e circulação de informação alteram a forma como esse papel é exercido.

 

A frase que foi pronunciada:
“Imprensa se combate com imprensa.”
D. Pedro II

D. Pedro II. Foto: Instituto Moreira Salles

 

Cratera
Na L2 Norte, sentido sul/norte, entre as quadras 11/12, um bueiro fundo acaba com os pneus, os amortecedores e as finanças dos motoristas desavisados. O impacto é grande. Vale a presença e solução do GDF.

 

História de Brasília
Brasília está para perder um bom amigo, embora que por pouco tempo. O sr. Hermes Lima viajará para o Rio, donde voltará senador pela Guanabara na próxima legislatura. (Publicada em 18/5/1962)

O caminho natural das coisas

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Cartunista: Adão Iturrusgarai

 

Nunca foi uma boa ideia pular etapas. Essa é uma verdade simples, quase banal, mas que a política insiste em ignorar com frequência. A história, quando observada sem paixões, mostra que os atalhos, sobretudo na condução do poder, raramente terminam bem. Convém começar pelo óbvio. Experiência importa. Em qualquer atividade humana minimamente complexa, a progressão natural aprender, testar, errar, corrigir é o que permite maturidade de decisão. Ninguém entrega a direção de uma empresa bilionária a quem nunca administrou sequer um pequeno negócio. Ou não deveria entregar. Na política, porém, essa lógica elementar é frequentemente ignorada. Quando se fala em cargos como o de presidente da República, não se trata apenas de ocupar uma cadeira. Trata-se de conduzir um país com milhões de habitantes, uma máquina pública gigantesca e uma economia cheia de fragilidades. Exige-se, portanto, mais do que discurso.

Ao longo da história, exemplos não faltam. Líderes que ascenderam rapidamente, sem a devida experiência administrativa ou política, frequentemente enfrentaram dificuldades para lidar com a complexidade do poder. Em muitos casos, recorreram a improvisos, cercaram-se de assessorias frágeis ou tomaram decisões erráticas.

Por outro lado, há casos de líderes que percorreram etapas mais longas — governos locais, cargos legislativos, funções executivas intermediárias — e chegaram ao topo com uma bagagem mais sólida. Isso não garante sucesso automático, mas oferece instrumentos melhores para enfrentar a realidade. Governar, afinal, não é teoria. É prática acumulada ao longo dos anos. O problema agrava-se quando o eleitorado, movido por frustração ou esperança imediata, passa a enxergar o “novo” como solução automática. O discurso de ruptura, muitas vezes sedutor, pode esconder a ausência de preparo. A promessa de fazer diferente não substitui a capacidade de fazer funcionar. E, nesse momento, escolher certo com quem trabalhar é crucial.

Os custos são muitos quando governar torna-se uma aventura. Custos administrativos, quando decisões mal calibradas geram desperdícios ou paralisia. Custos econômicos, quando políticas mal formuladas afetam investimentos e crescimento. Custos institucionais, quando a falta de experiência leva a conflitos desnecessários entre Poderes ou a uma leitura equivocada das regras do jogo.

Diria o filósofo de Mondubim: nunca colocar os carros adiante dos bois. Esse é o princípio da organização. Da mesma forma, “não começar uma casa pela cumeeira” traduz a ideia de que toda construção — física ou institucional — exige base sólida e prática.

Outro ponto importante diz respeito à própria cultura política. Em democracias mais consolidadas, é comum que lideranças nacionais tenham passado por diferentes níveis de governo ou por longas carreiras legislativas. Isso cria um filtro natural em que competências são testadas ao longo do tempo. Quando esse filtro é ignorado, abre-se espaço para ciclos de entusiasmo e frustração. A cada nova aposta em soluções rápidas, repete-se o padrão: expectativas elevadas, dificuldades na execução e, por fim, decepção. O resultado de todo esse processo é a perda de tempo. Um passo para frente e dez para trás.

A política, quando bem exercida, deveria ser o espaço em que a responsabilidade se sobrepõe à improvisação. Onde o acúmulo de conhecimento orienta decisões. Onde o poder não é um experimento, mas uma continuidade de aprendizado. E, como a História também ensina, repetir erros conhecidos raramente leva a resultados diferentes. Expertise política não é saber dobrar os oponentes pela força do poder ou do dinheiro, ou pela lábia e verborragia, mas agir conforme indica o bom senso e o norte que aponta sempre para o cumprimento dos direitos fundamentais e obrigações do Estado como previsto na Constituição.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Uma marca infalível do amor à verdade é não aceitar nenhuma proposição com maior certeza do que as provas em que ela se baseia podem garantir.”
John Locke

Retrato de John Locke, de Sr. Godfrey Kneller. Fonte: Coleção de Sr. Robert Walpole, Houghton Hall, 1779.

 

História de Brasília
O ministro Ari Franco, que mora em Brasília, onde funciona seu tribunal, endereçou ao sr. Armando Monteiro o seguinte telegrama: “Agradeço V. Exa. convite para assistir posse Comissão Nacional Reforma Agrária dia 14 corrente, salão nobre êsse Ministério Rio de Janeiro. Esclareço Vossência porém não poderia comparecer uma vez que resido em Brasília onde funcionam o Tribunal Superior Eleitoral, órgão que presido, e o Supremo Tribunal Federal, do qual sou um dos juízes. Cordiais saudações. Ari Franco”. (Publicada em 18/5/1962)

O Titanic e o trajeto da soberba

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Titanic prester a zarpar do porto de Southampton, na Inglaterra. • Getty Images

 

A Epopeia do RMS Titanic permanece, mais de um século depois, como uma das metáforas mais poderosas sobre o destino de projetos grandiosos conduzidos sob o signo da autoconfiança excessiva. Concebido como símbolo máximo da engenharia e do progresso de sua época, o navio partiu cercado por expectativas quase míticas de invulnerabilidade. Poucos dias depois, repousava no fundo do Atlântico, vítima não apenas de um iceberg, mas de uma cadeia de decisões equivocadas, negligência e soberba. A história, que poderia ser apenas um episódio trágico do início do século XX, revela, na verdade, um padrão recorrente que se repete em empresas, governos e instituições públicas ao longo do tempo. Sempre que decisões são tomadas com base em ilusões de controle absoluto, desprezo por limites e ausência de transparência, o resultado tende a seguir uma rota previsível: o colapso.

Marcada por um espírito de competição e afirmação de poder a construção do navio tratava de provar ao mundo a capacidade técnica e econômica de uma era. No entanto, no processo, escolhas críticas foram relativizadas. Redução no número de botes salva-vidas, velocidade elevada em área de risco e confiança excessiva nos sistemas de segurança compuseram um cenário em que o desastre deixou de ser uma possibilidade remota para se tornar uma consequência provável. Transpondo essa lógica para o campo institucional, observa-se fenômeno semelhante.

Projetos públicos e privados frequentemente nascem sob promessas grandiosas, discursos otimistas e projeções ambiciosas. O problema surge quando esses projetos deixam de ser guiados por critérios técnicos, responsabilidade fiscal e ética administrativa, passando a ser conduzidos por interesses políticos, vaidades pessoais ou expectativas irreais. Nesse contexto, a metáfora da “carta náutica da ética pública” ganha relevância. Assim como uma embarcação depende de mapas, instrumentos e regras claras de navegação para evitar perigos, instituições dependem de princípios como transparência, prestação de contas e respeito às normas para garantir sua sustentabilidade. Quando esses parâmetros são ignorados, a navegação torna-se errática.

Max Weber, ao tratar da ética da responsabilidade, alertava que o exercício do poder exige consciência das consequências dos atos. Para Weber, governar não é apenas decidir, mas assumir os riscos e impactos dessas decisões. Quando essa responsabilidade é substituída por voluntarismo ou improviso, o resultado tende a ser instabilidade. No ambiente empresarial, casos de colapsos corporativos ao redor do mundo mostram como estratégias baseadas em crescimento acelerado sem fundamentos sólidos podem levar à ruína. Empresas que ignoram riscos, mascaram informações ou operam com estruturas frágeis podem, por um tempo, sustentar a aparência de sucesso. Mas, assim como no Titanic, basta um evento crítico para expor fragilidades acumuladas.

No setor público, os efeitos são ainda mais amplos. Decisões mal fundamentadas não afetam apenas acionistas ou investidores, mas toda a sociedade. Obras superfaturadas, políticas públicas mal planejadas e gestão ineficiente de recursos geram impactos que se estendem por anos, comprometendo desenvolvimento econômico e qualidade de vida.

Outro elemento presente na tragédia do Titanic foi a comunicação falha. Alertas sobre icebergs foram recebidos, mas não devidamente considerados. A crença na invulnerabilidade do navio reduziu a percepção de risco. Em instituições, fenômeno semelhante ocorre quando críticas são ignoradas, órgãos de controle são enfraquecidos ou informações são deliberadamente omitidas. A ausência de mecanismos eficazes de controle e transparência cria um ambiente propício para decisões desconectadas da realidade. Sem feedback adequado, líderes podem acreditar que suas escolhas são infalíveis, reforçando um ciclo de autoconfiança que se afasta progressivamente dos fatos.

Editorialmente, a lição que emerge dessa analogia é clara. Não são apenas icebergs que afundam grandes projetos, mas a combinação de arrogância, falta de planejamento e desprezo por limites. A ética pública, nesse sentido, não é um adorno moral, mas um instrumento de sobrevivência institucional. Respeitar normas, ouvir alertas, planejar com base em dados e manter transparência não são obstáculos ao progresso, mas condições para que ele seja sustentável. Ignorar esses princípios pode até gerar resultados imediatos, mas tende a produzir crises no médio e longo prazo.

A história do Titanic não é apenas um relato do passado. Ela continua a se repetir, em diferentes escalas e contextos, sempre que instituições acreditam estar acima das regras que deveriam segui-las. E, como no oceano, os sinais de perigo raramente desaparecem, eles apenas aguardam o momento em que serão finalmente percebidos. No fim, toda travessia exige prudência. Porque, diante da força dos fatos, nenhuma construção, por mais grandiosa que pareça, está imune às consequências de escolhas mal orientadas. E quando a rota ignora a carta da ética, o destino dificilmente será outro que não o naufrágio.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Desde o dia em que foi projetado, ele estava praticamente condenado… isso [o uso de rebites de ferro] foi quase o calcanhar de Aquiles do Titanic.”

Paul Louden-Brown, Arquivista da White Star Line

Paul Louden-Brown. Foto de John McVitty.

 

História de Brasília
Esta é, particularmente, uma notícia de grande repercussão para os pais, que estavam enfrentando uma situação de desespero vendo o exemplo que os professôres estavam dando a seus filhos. (Publicada em 17. 05.1962)

O pêndulo da história e os sinais de uma contrarrevolução

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Cenário econômico de 2026 deve ser marcado por desaceleração global Foto: iStock

 

Ciclos históricos raramente se desenvolvem em linha reta. Ao contrário, movem-se como um pêndulo, ora avançando em determinada direção, ora reagindo com igual intensidade no sentido oposto. Essa percepção, que atravessa séculos de reflexão política e filosófica, encontra eco até mesmo na ciência, na formulação clássica da Terceira Lei de Newton: a toda ação corresponde uma reação de mesma intensidade. Aplicada à dinâmica das sociedades, essa ideia ajuda a compreender momentos de inflexão como o que parece se desenhar no mundo contemporâneo.

Nas últimas décadas, consolidou-se um modelo de globalização que buscava reduzir fronteiras econômicas, integrar culturas e promover fluxos intensos de pessoas, capitais e ideias. Esse movimento foi, em muitos aspectos, responsável por avanços tecnológicos, expansão do comércio e aumento da interdependência entre as nações. No entanto, como ocorre em todo processo histórico de grande escala, os efeitos não foram homogêneos nem isentos de tensões.

Em diversas regiões do mundo ocidental, parte significativa da população passou a perceber esse modelo não como progresso compartilhado, mas como uma transformação acelerada que afetava identidades culturais, estruturas econômicas e formas tradicionais de vida. Surge, então, o que muitos analistas descrevem como um movimento de reação. Não necessariamente organizado ou uniforme, mas perceptível em diferentes países e contextos. Trata-se de uma resposta social e política a mudanças consideradas excessivas ou desconectadas das expectativas de parcelas relevantes da população.

Na Europa, por exemplo, o crescimento de partidos e movimentos críticos à globalização, às políticas migratórias amplas e à centralização de decisões em organismos supranacionais revela uma mudança no humor político. Nos Estados Unidos, fenômenos eleitorais recentes também indicam uma reconfiguração do debate público, com maior ênfase em soberania nacional, controle de fronteiras e revisão de acordos econômicos. Esse movimento não pode ser compreendido apenas como uma rejeição simplista ao novo. Em muitos casos, ele expressa preocupações concretas com emprego, segurança, identidade cultural e coesão social. Ao mesmo tempo, também carrega riscos, especialmente quando se traduz em polarização extrema ou em soluções simplificadas para problemas complexos.

No Brasil, sinais desse pêndulo histórico também se manifestam. O país, que por décadas oscilou entre diferentes projetos políticos e econômicos, experimenta hoje um ambiente de forte polarização ideológica. Parte da sociedade demonstra resistência a agendas percebidas como impostas de cima para baixo, enquanto outra parcela defende a continuidade de transformações sociais e institucionais iniciadas nas últimas décadas.

Esse embate revela algo mais profundo do que simples divergência política. Ele expõe uma disputa sobre o próprio sentido do desenvolvimento, da identidade nacional e do papel do Estado. Em outras palavras, trata-se de uma disputa sobre quais valores devem orientar o futuro da sociedade.

O filósofo Friedrich Nietzsche já falava, no final do século XIX, sobre o avanço do niilismo a perda de referências tradicionais de sentido e valor. Para Nietzsche, esse processo poderia levar a uma crise profunda, na qual antigos sistemas de crenças deixam de oferecer respostas, sem que novos paradigmas estejam plenamente consolidados. A leitura contemporânea desse diagnóstico sugere que parte das tensões atuais pode estar relacionada a esse vazio de referências. Em um mundo onde tradições são questionadas, instituições são desafiadas e identidades são redefinidas, não surpreende que surjam movimentos de reação buscando restaurar algum tipo de estabilidade ou continuidade.

No entanto, é importante reconhecer que o pêndulo da história não opera de forma mecânica ou previsível. A reação a um determinado movimento não significa necessariamente um retorno simples ao passado. Muitas vezes, o que emerge é uma síntese imperfeita entre elementos antigos e novos, moldada pelas circunstâncias específicas de cada época. Nesse sentido, falar em “fim” de um determinado modelo pode ser menos preciso do que reconhecer um processo de transformação. O que está em curso não é apenas a rejeição de ideias associadas à globalização ou a determinadas correntes políticas, mas a tentativa de redefinir os termos do debate em um mundo cada vez mais complexo e interdependente.

O ponto central não está em tomar partido de uma ou outra direção do pêndulo, mas em compreender a lógica que move esse movimento. Ignorar os sinais de insatisfação social pode levar à intensificação de tensões. Por outro lado, respostas precipitadas ou simplificadoras podem agravar problemas que exigem soluções mais elaboradas. O desafio das sociedades contemporâneas é atravessar esse período de transição sem comprometer princípios fundamentais como liberdade, pluralismo e respeito às instituições.

Se há, de fato, uma contrarrevolução em curso, ela não deve ser entendida apenas como negação do que veio antes, mas como parte de um processo maior de ajuste histórico. O pêndulo se move, mas o ponto de equilíbrio ainda está em disputa. E talvez seja justamente aí que reside a principal lição desse momento: mais do que celebrar ou temer o movimento do pêndulo, é preciso compreender que a estabilidade duradoura não nasce dos extremos, mas da capacidade de construir sínteses que preservem o que há de essencial enquanto se adaptam às exigências do tempo presente.

 

A frase que foi pronunciada:
“A vida do Homem oscila, como um pêndulo, entre a dor e o tédio, tais são na realidade os seus dois últimos elementos”.

Schopenhauer

Arthur Schopenhauer. Pintura de Jules Lunteschütz, 1855.

 

História de Brasília
Parece que foi ontem. O jornal ainda era um acampamento, todos nós morávamos no local de trabalho, porque ninguém tinha apartamento. Amanhecíamos e anoitecíamos juntos. Foi assim que equipe se consolidou. (Publicada em 16.05.1962)

A promessa e o limite das instituições internacionais diante das guerras

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Soldados franceses em ataque às trincheiras alemãs na Batalha de Verdun, no contexto da Primeira Guerra Mundial. Foto: historiadomundo.com

 

Conflitos armados começam quase sempre com objetivos estratégicos definidos em centros de poder, nos quais líderes políticos e militares identificam um adversário específico, um território ou um governo a ser neutralizado. No momento em que a decisão é tomada, contudo, a lógica da guerra transforma rapidamente esse alvo abstrato em um espaço habitado por indivíduos concretos, portadores de histórias, profissões, famílias e projetos de vida que deixam de ter relevância operacional. Estatísticas de conflitos recentes indicam que civis representam parcela significativa das vítimas das guerras contemporâneas, muitas vezes superior à de combatentes. Estruturas urbanas, hospitais, escolas e sistemas de abastecimento tornam-se parte do teatro de operações, e o resultado prático desse deslocamento entre intenção estratégica e realidade material é conhecido: enquanto o objetivo formal permanece um inimigo identificado, aqueles que morrem com maior frequência são pessoas que jamais participaram da decisão de iniciar o conflito.

Poucos fenômenos marcaram de maneira tão profunda a história contemporânea quanto a tentativa de organizar a paz por meio de instituições internacionais. Experiência política singular, surgida do trauma coletivo provocado pelas guerras mundiais, produziu organismos destinados a moderar rivalidades entre Estados soberanos, criando fóruns permanentes de negociação e mecanismos jurídicos que, ao menos em teoria, deveriam substituir o campo de batalha pela mesa de diálogo. A intenção nobre convive, porém, com uma contradição fundamental da ordem internacional moderna: instituições globais dependem exatamente dos governos nacionais cuja competição frequentemente desencadeia os conflitos que se pretende evitar.

A memória da devastação causada pela Primeira Guerra Mundial estimulou o surgimento da Liga das Nações em 1919, projeto inspirado sobretudo pelas ideias do presidente norte-americano Woodrow Wilson. Apresentado ao mundo por meio dos chamados Quatorze Pontos de Wilson, o plano propunha uma nova arquitetura diplomática capaz de impedir conflitos armados por meio de arbitragem obrigatória entre países e aplicação coletiva de sanções contra agressores. Naquele momento, acreditava-se que um sistema internacional institucionalizado poderia substituir a política de alianças militares que havia conduzido o continente europeu à catástrofe.

Estatísticas da guerra anterior alimentavam a convicção de que a humanidade precisava reinventar a diplomacia. Estimativas históricas indicam que o conflito iniciado em 1914 causou cerca de 16 milhões de mortes entre militares e civis. Escala inédita de destruição industrializada provocou choque moral duradouro nas sociedades europeias. Intelectuais, juristas e estadistas passaram a discutir a criação de mecanismos permanentes de governança internacional. Jurista britânico James Bryce, defensor da cooperação entre nações, sintetizou esse sentimento ao afirmar que a paz duradoura exigiria algo além de tratados temporários: “instituições estáveis que transformem o direito internacional em prática cotidiana”.

A fragilidade estrutural da Liga tornou-se evidente ainda na década de 1930. Ausência dos Estados Unidos, cujo Senado recusou a adesão ao organismo idealizado por seu próprio presidente, enfraqueceu o sistema desde o início. Capacidade de aplicar sanções ou organizar ações coletivas dependia da disposição política dos governos participantes. Falta de mecanismos executivos robustos transformou o organismo em fórum diplomático sem meios eficazes de coerção.

O crescimento do expansionismo territorial na década seguinte demonstrou os limites desse arranjo institucional. Invasão da Manchúria pelo Japão em 1931, conquista da Etiópia pela Itália em 1935 e sucessivas violações do equilíbrio europeu pela Alemanha nazista evidenciaram a incapacidade da Liga em conter agressões de grandes potências. Colapso do sistema de segurança coletiva abriu caminho para a Segunda Guerra Mundial, conflito que custaria à humanidade mais de 60 milhões de vidas, segundo estimativas de historiadores militares e demográficos.

O trauma moral produzido por essa segunda devastação global estimulou nova tentativa de organizar a paz institucionalmente. Fundação da Organização das Nações Unidas, em 1945, procurou corrigir as fragilidades do experimento anterior. Arquitetura institucional incorporou um princípio político realista: participação direta das grandes potências na tomada de decisões estratégicas. Estrutura central do sistema tornou-se o Conselho de Segurança das Nações Unidas, composto por cinco membros permanentes com poder de veto. A decisão refletia a convicção pragmática de que nenhuma organização internacional sobreviveria sem integrar os países mais poderosos ao processo decisório.

Diplomacia institucionalizada não elimina rivalidades entre nações, mas cria canais permanentes de diálogo que, em momentos de crise extrema, podem evitar que conflitos regionais se transformem em catástrofes globais.

O diplomata brasileiro Oswaldo Aranha, que presidiu a sessão histórica da Assembleia Geral que aprovou a criação do Estado de Israel em 1947, descreveu a missão da nova instituição com formulação frequentemente citada nos estudos de relações internacionais. Segundo ele, “a ONU não foi criada para levar a humanidade ao paraíso, mas para salvá-la do inferno”. Parece que não está funcionando mais.

 

A frase que foi pronunciada:

“Nada me preocupa mais do que a troca forçada da independência pela subsistência.”

Oswaldo Aranha

Oswaldo Aranha presidiu a Segunda Assembleia Geral da ONU. Foto: Nações Unidas

História de Brasília

Pois bem. O mesmo serviço de imprensa anunciava que terça-feira o presidente viajaria para Brasília. O sr. João Goulart, contrariando a previsão, chegou segunda-feira. (Publicada em 16.05.1962)

Fantasmas

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Walter Lippmann. Foto: Los Angeles Times/Wikimedia Commons

Não são poucos os historiadores que concordam com a máxima de que “o povo, em história, é uma porção de ninguém”. No livro The phantom public (O público imaginário), do jornalista Walter Lippmann, publicado em 1925 e que se firmou como uma obra clássica, esse tema volta com força total. No livro, Lippmann afirma que o público, nas democracias de massas, é não só uma ilusão, como é um mito e um fantasma. O motivo, segundo ele, é que o cidadão comum não consegue compreender a complexidade dos eventos políticos, vivendo em um “pseudo-ambiente de narrativas fabricadas”. Da mesma forma, a capacidade do público de vir a intervir diretamente na gestão pública é, para o autor, bastante questionável. “O público vê o governo como um problema técnico-administrativo, não como uma deliberação democrática constante”. Mesmo o eleitor é visto como uma espécie de espectador impotente.

Apesar da visão pessimista, o livro se tornou um pilar da teoria política e, mais incrível, parece descrever a sociedade atual, hiperconectada e, ao mesmo tempo, longe da realidade. De fato, o diagnóstico formulado por Walter Lippmann permanece inquietantemente nos dias atuais. O que parecia um alerta teórico do início do século 20 tornou-se, no século 21, uma descrição empírica do cotidiano político global. A premissa de Lippmann não é que o povo seja irrelevante, mas que sua participação efetiva é mediada por filtros que condensam complexidades em símbolos manejáveis. Em seu tempo, esses filtros eram jornais, líderes partidários e campanhas impressas; hoje, são plataformas digitais, algoritmos e máquinas de comunicação política capazes de segmentar audiências com precisão cirúrgica.

A promessa de hiperconexão ampliou o acesso à informação, mas não eliminou a assimetria cognitiva entre a complexidade dos sistemas políticos e a capacidade individual de compreendê-los em profundidade. Ao contrário, a multiplicação de estímulos e a velocidade da circulação de conteúdos intensificaram o fenômeno que Lippmann descreveu: a opinião pública formada por imagens e slogans.

Essa dinâmica não é neutra. Governos, movimentos e corporações aprenderam a operar no nível simbólico com notável eficácia. O caso da britânica Cambridge Analytica tornou-se emblemático ao revelar o potencial de microssegmentação comportamental no direcionamento de mensagens políticas. A lógica é simples e poderosa: em vez de persuadir um público homogêneo, molda-se a narrativa para perfis psicológicos específicos, reforçando predisposições e atenuando dissonâncias. O cidadão deixa de ser interpelado como participante de uma esfera pública comum e passa a ser tratado como um conjunto de traços comportamentais, suscetível a estímulos personalizados. O resultado é uma opinião pública fragmentada, na qual consensos são mais difíceis, e percepções divergentes coexistem sem diálogo efetivo.

Temos exemplos eloquentes de lideranças que exploram esse terreno simbólico. A comunicação direta por redes sociais, adotada por figuras da política, redefiniu a mediação tradicional da imprensa. Ao falar “sem intermediários”, o líder parece reduzir a distância entre governante e governado. Na prática, porém, estabelece um circuito de mensagens de alto impacto emocional, com forte capacidade de mobilização identitária. A política torna-se espetáculo contínuo, no qual a verificação factual perde espaço para a adesão afetiva. O público, nesse cenário, oscila entre plateia e tropa, reagindo a estímulos que organizam o mundo em narrativas morais simples.

No Brasil, essa lógica encontra terreno fértil em um histórico de desconfiança institucional e desigualdades informacionais. Quando a realidade administrativa, complexa por natureza, é traduzida em enredos de fácil assimilação, a deliberação pública tende a ceder lugar à performance política. O debate sobre políticas públicas passa a ser substituído por disputas de enquadramento: quem define a narrativa, define o campo do possível. A consequência é a redução do cidadão a um papel reativo, convocado a aplaudir ou rejeitar, raramente a deliberar com base em informações completas.

O “fantasma” de Lippmann não é a ausência do povo, mas sua presença esvaziada de agência substantiva. Obras posteriores aprofundaram esse diagnóstico. A tradição crítica que analisa propaganda, fabricação do consenso e economia da atenção converge para a ideia de que a esfera pública é um espaço disputado por atores com capacidades desiguais de produzir visibilidade. Em ambientes digitais, essa disputa é intensificada por métricas de engajamento que privilegiam o conteúdo mais polarizador. A arquitetura das plataformas incentiva a simplificação e a dramatização, reforçando bolhas de percepção. Assim, o pseudo-ambiente não é apenas um subproduto da mediação; ele se torna um ecossistema autônomo, com regras próprias de relevância e circulação.

Governos que dominam essa gramática simbólica conseguem governar também no plano das percepções. Políticas complexas podem ser apresentadas como soluções instantâneas; fracassos podem ser reconfigurados como vitórias narrativas; opositores podem ser reduzidos a caricaturas. O risco, como advertia Lippmann, é que a política deixe de ser um processo de deliberação informada para se tornar um teatro de representações no qual o público participa como espectador mobilizado. Isso não implica fatalismo. Onde a realidade é substituída por imagens convenientes, a cidadania torna-se um simulacro. Recuperar sua densidade é o imperativo que define o futuro das democracias.

 

A frase que foi pronunciada:

“Eu não troco a justiça pela soberba. Eu não deixo o direito pela força. Eu não esqueço a fraternidade pela tolerância. Eu não substituo a fé pela superstição, a realidade pelo ídolo.”
Rui Barbosa

Foto: academia.org

 

História de Brasília

Dos depoimentos na Comissão de Inquérito da Novacap, a imprensa teve notícia somente do que foi feito pelo deputado Ademar da Costa Carvalho, e isso mesmo porque êle desfruta de imunidade parlamentar. (Publicada em 15/5/1962)

As aulas do professor Delmo Arguelhes

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Imagem: nossofuturoroubado.com

 

Ao longo de séculos, o eurocentrismo não foi apenas uma hegemonia geográfica ou econômica, mas, sobretudo, um eixo civilizacional. Foi na Europa e depois no Ocidente ampliado que se consolidou uma noção específica de indivíduo: portador de razão, consciência moral, dignidade intrínseca e responsabilidade histórica. Esse conceito, herdeiro direto da filosofia grega, do direito romano e da antropologia judaico-cristã, moldou instituições, leis e valores que, com todos os seus erros e contradições, colocaram o indivíduo no centro da vida social.
Hoje, contudo, esse paradigma encontra-se em franco declínio. A decadência do eurocentrismo não ocorre apenas pela ascensão de outras potências ou culturas, mas pela corrosão interna de seus próprios fundamentos. As chamadas agendas globalistas de esquerda, cada vez mais difundidas em organismos internacionais, universidades, meios de comunicação e corporações, têm promovido uma ruptura deliberada com a tradição humanista que sustentou o Ocidente. O indivíduo, outrora sujeito de direitos, passa a ser visto sobretudo como produto de estruturas, categorias identitárias ou relações de poder. A pessoa concreta cede lugar ao tipo abstrato. Alexis de Tocqueville advertia, no século XIX, que “as nações democráticas mostram um gosto natural por ideias gerais e abstratas”, pois estas dispensam o esforço de compreender o particular. Essa tendência, levada ao extremo, abre caminho para sistemas ideológicos que falam em nome da humanidade, mas ignoram o homem real. Quando o discurso político se estrutura apenas em termos de coletivos classe, gênero, raça, grupo, o indivíduo deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser mero instrumento narrativo.
Hannah Arendt, ao analisar as origens do totalitarismo, observou que “o primeiro passo essencial no caminho para a dominação total é matar a pessoa jurídica do homem”. Ainda que as agendas contemporâneas não se apresentem com a brutalidade dos regimes totalitários clássicos, o mecanismo intelectual guarda semelhanças inquietantes. A despersonalização ocorre de forma simbólica: dissolve-se a responsabilidade individual, relativiza-se a liberdade de consciência e redefine-se a verdade como construção política. O sujeito não pensa; ele “replica”. Não escolhe; ele “internaliza”. Nesse contexto, a desconstrução torna-se um valor em si. Tradições são tratadas como opressões herdadas, identidades como ficções perigosas e a história como um inventário de culpas.
Roger Scruton alertava que “uma sociedade que se dedica apenas a desconstruir suas instituições logo descobrirá que não sabe mais como reconstruí-las”. A crítica deixa de ser instrumento de aprimoramento e se converte em prática permanente de demolição cultural. O globalismo ideológico, ao pretender uniformizar valores em escala planetária, paradoxalmente, nega a diversidade que afirma defender. Culturas locais, visões morais distintas e formas históricas de organização social tornam-se obstáculos a serem corrigidos. O indivíduo é reeducado para se ver menos como herdeiro de uma tradição e mais como átomo flutuante, desligado de passado, território e memória. Como escreveu José Ortega y Gasset, “o homem-massa não quer dar razões nem quer estar certo; simplesmente quer impor”.
A nova ortodoxia moral dispensa o convencimento racional e prefere a pressão social. Essa despersonalização também se manifesta na linguagem. Palavras são esvaziadas de seu significado histórico e recodificadas segundo critérios políticos. George Orwell, em tom quase profético, já advertia que “se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento”. Ao controlar os termos do debate, controla-se o horizonte do pensável. O indivíduo perde até mesmo o vocabulário necessário para expressar dissenso. A decadência do eurocentrismo, portanto, não significa apenas a perda de protagonismo de uma civilização, mas o risco de abandono de um legado filosófico que afirmava a singularidade da pessoa humana.
Ao rejeitar esse legado como “obsoleto” ou “opressor”, corre-se o perigo de substituir o humanismo imperfeito por um pós-humanismo administrativo, no qual o indivíduo vale apenas enquanto função estatística ou símbolo político. O paradoxo final é evidente: em nome da libertação, promove-se uma nova forma de tutela; em nome da inclusão, apaga-se a pessoa concreta; em nome do progresso, dissolve-se o sentido. Como escreveu T. S. Eliot, “onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?” A pergunta permanece em aberto.
Se o Ocidente deseja sobreviver não apenas como espaço econômico, mas como civilização, talvez precise reencontrar aquilo que o tornou singular: a convicção de que cada indivíduo importa não por sua utilidade social ou pertencimento identitário, mas por sua dignidade ontológica. Sem isso, o mundo pode até se tornar mais integrado, porém, inevitavelmente, menos humano.
A frase que foi pronunciada:
“ Nós não evoluímos com a tecnologia, apenas somos leões pedindo uma zebra pela internet.”
Edu Casarotto
Eduardo Casaroto. Foto: institutovirtudes.com
História de Brasília
Já que está com esta disposição, poderia também mandar limpar escadas e corredores, e varre-los periodicamente, já que não se pode exigir que isto seja feito todos os dias. (Publicada em 13.05.1962)

O que dizem os astros

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Ilustração: andreassibarreto.com

Desde a Antiguidade, o ser humano ergue os olhos ao céu em busca de sentido. Não apenas para medir o tempo, orientar colheitas ou navegar mares, mas para decifrar, nos movimentos silenciosos dos astros, algum reflexo do seu próprio destino. Parece que o que as estrelas mostram é um período de rupturas, revoluções e transformações profundas. Um tempo em que estruturas antigas ruiriam para dar lugar a algo novo, ainda indefinido.

Para além de se crer ou não nas estrelas, é inegável que, desde então, o mundo parece ter entrado numa fase de instabilidade contínua, quase febril. A economia global tornou-se mais concentrada e, paradoxalmente, mais frágil. Crises financeiras se sucedem em intervalos cada vez menores, como se o sistema estivesse permanentemente à beira de um colapso anunciado. Estados nacionais perdem soberania diante de organismos supranacionais, fundos de investimento e corporações que operam acima das fronteiras, das leis locais e, muitas vezes, da própria vontade popular.

Nesse cenário, emerge o discurso do globalismo, apresentado como solução técnica e inevitável para problemas planetários, mas percebido por amplas parcelas da população como um projeto político que dilui identidades, relativiza tradições e redefine valores sem consulta democrática efetiva.

É nesse caldo que florescem as chamadas agendas globais, entre elas a Agenda 2030, envolta em linguagem tecnocrática, metas abstratas e conceitos amplos o suficiente para acomodar múltiplas interpretações. Para seus defensores, trata-se de um esforço racional de coordenação internacional; para seus críticos, um conjunto de diretrizes que, sob o pretexto de sustentabilidade e inclusão, impõe modelos culturais, econômicos e sociais alheios às realidades locais.

A tensão entre esses dois olhares é um dos motores da polarização que hoje atravessa quase todas as sociedades ocidentais. Nas ruas, essa fratura se manifesta de forma ruidosa. Movimentos identitários e novas formas de ativismo moral ocupam espaços públicos, universidades, empresas e meios de comunicação, reivindicando não apenas direitos, mas a reinterpretação integral da história, da linguagem e até da biologia.

Em reação, surgem grupos igualmente radicalizados, que veem nessas pautas uma ameaça direta à civilização ocidental, à liberdade de expressão e à continuidade cultural. O diálogo cede lugar ao confronto simbólico; o dissenso, à rotulação moral. A política deixa de ser o campo da negociação possível e passa a operar na lógica do “nós contra eles”.

A Europa talvez seja o palco mais visível dessa encruzilhada histórica. Berço de Estados-nação, tradições seculares e identidades bem definidas, o continente enfrenta hoje dilemas que tocam o seu próprio núcleo civilizacional. O multiculturalismo, vendido por décadas como ideal de convivência harmoniosa, revela fissuras profundas quando culturas com valores incompatíveis passam a coexistir sem mecanismos claros de integração. O resultado, em muitos casos, não é a síntese cultural, mas a fragmentação social, a formação de guetos e o aumento de tensões étnicas, religiosas e políticas.

Não surpreende, portanto, que alguns analistas falem, ainda que metaforicamente, em uma “nova cruzada”. Não uma guerra de exércitos formais, mas um conflito difuso, cultural e simbólico, entre visões de mundo inconciliáveis. De um lado, um Ocidente que parece envergonhado de si mesmo, disposto a desconstruir seus próprios fundamentos; de outro, forças externas e internas que não compartilham dessa autocrítica e avançam com convicções sólidas, muitas vezes inegociáveis.

No campo de batalha não são apenas territórios, mas escolas, tribunais, mídias e consciências. É nesse ponto que a antiga máxima hermética ressurge com força provocadora: “assim como é embaixo, é em cima”. A frase sugere uma correspondência entre o macrocosmo e o microcosmo, entre o céu e a terra, entre as ordens superiores e a realidade concreta. Lida literalmente, remete à ideia de que os movimentos dos astros influenciam os destinos humanos. Lida simbolicamente, talvez diga algo ainda mais inquietante: o caos que percebemos nas instituições, na política e nas relações sociais pode ser o reflexo ampliado do caos interior de uma civilização que perdeu seus referenciais.

Vivemos uma era de informação abundante e sabedoria escassa. Nunca se produziu tanto conhecimento técnico, nunca se falou tanto em progresso, direitos e inovação. Ainda assim, nunca foi tão difícil responder a perguntas básicas: o que é o bem comum? O que é a verdade? O que significa ser humano? A dissolução dessas respostas cria um vazio que é rapidamente preenchido por ideologias totalizantes, promessas de salvação secular e narrativas que dividem o mundo entre iluminados e retrógrados, vítimas e opressores.

Parece que o que mostram as estrelas passa da desconstrução acelerada sem a construção de algo sólido em seu lugar. É a história que nos ensina que períodos assim são férteis tanto para avanços extraordinários quanto para colapsos civilizacionais. Nada está determinado, seja pelos astros ou pelas agendas humanas. O futuro continuará a ser escrito, não no céu, mas nas escolhas concretas feitas aqui embaixo.

Antes de buscar, no firmamento, a causa de nossos dilemas, talvez seja necessário encarar o espelho da própria civilização e perguntar se ainda sabemos quem somos, o que defendemos e até onde estamos dispostos a ir para preservar aquilo que chamamos de humano.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“Os movimentos populares anunciaram uma nova era na política de Taiwan.”

Ko Wen-je

Ko Wen-je. Fotografia: Ann Wang/Reuters

 

História de Brasília

O IAPC iniciou o serviço de dedetização dos seus blocos nas superquadras 106, 306 e Asa Norte. (Publicada em 13.05.1962)

Autismo e as políticas públicas

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Imagem: reprodução da internet

 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de uma em cada 100 crianças no mundo está no espectro do autismo, estimativa publicada em 2023 e tratada como base internacional para o planejamento de políticas de saúde. Repetição sistemática de narrativas não testáveis, mesmo diante de evidências robustas, produz um ambiente institucional, no qual famílias permanecem desorientadas, profissionais vêem-se presos entre sua formação técnica e as pressões de conselhos corporativos, e políticas públicas tornam-se opacas a ponto de negar, à população, o direito elementar de saber quais intervenções apresentam resultados verificáveis. Afirma o IBGE que 63% das famílias brasileiras, que buscam tratamento contínuo para transtornos do neurodesenvolvimento, dependem exclusivamente do SUS, segundo dado divulgado na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2022, o que evidencia a gravidade das escolhas políticas que rejeitam critérios científicos na formulação de diretrizes terapêuticas.

A Unesco apresentou, em relatórios de 2022, indicadores de crescimento global de episódios de censura ou intimidação de pesquisadores ligados a temas sensíveis, com aumento de 28% em uma década, o que ajuda a compreender que a crise não é isolada, mas parte de um fenômeno internacional de desconfiança ativa contra o conhecimento especializado. Reatualizam-se práticas autoritárias que deveriam ter sido superadas desde o Iluminismo, quando a crítica ao absolutismo inaugurou a percepção de que a verdade não nasce do poder, mas da verificação contínua.

Disputa contemporânea, em torno das terapias e diagnósticos, revela que o que está em jogo ultrapassa a legitimidade dessa ou daquela escola e alcança a própria integridade do método científico. Dependência de liberdade investigativa, replicabilidade e transparência transforma-se em alvo de ataques quando governos, universidades ou conselhos profissionais permitem que pressões corporativas reescrevam resultados, silenciem estudos e reduzam a confiança da sociedade nas instituições que deveriam protegê-la. Publicado em 2021, na revista Nature, estudo revela que 34% dos cientistas entrevistados relataram ter sofrido tentativas de interferência política ou institucional em suas pesquisas, índice que se tornou ainda mais preocupante em áreas que envolvem saúde pública.

A infiltração de interesses organizados em espaços decisórios enfraquece o processo científico e compromete a credibilidade das políticas estatais, especialmente quando essas políticas afetam populações vulneráveis que não têm meios próprios para avaliar disputas técnicas.

Também mensurada por relatórios do Conselho Nacional de Saúde, em 2023, a desinformação em saúde, que figura entre os 10 principais fatores que atrapalham a adesão a tratamentos baseados em evidências no Brasil, prejudicando, inclusive, programas de atenção ao neurodesenvolvimento na primeira infância.

Chegou o momento de se acender um alerta definitivo sobre a erosão da capacidade social de distinguir entre fato e interpretação. Se a verdade científica passa a ser definida por grupos de pressão, e não por dados, percorre-se o mesmo trajeto que levou regimes do passado a moldar artificialmente a realidade, segundo suas convicções, condenando gerações a erros evitáveis.

No relatório da Ciência e Sociedade da União Europeia, publicado em 2022, a confiança pública na ciência diminui cerca de 15% sempre que autoridades governamentais intervêm politicamente em resultados de pesquisa, queda que se reproduz em diferentes países e se aprofunda quando a interferência recai sobre temas sensíveis como saúde mental e educação especial. A história registra, repetidas vezes, que a substituição do escrutínio científico por agendas ideológicas inviabiliza políticas públicas eficazes e corrói a racionalidade coletiva.

Para a restauração do lugar da ciência em sociedades democráticas será necessária a defesa intransigente da liberdade investigativa e da recusa categórica de qualquer forma de censura. Países que mantêm estruturas de governança baseadas em protocolos transparentes de avaliação de evidências apresentam impactos positivos diretos no desempenho de políticas de saúde, educação e inclusão, com índices até 40% superiores aos de países que ignoram critérios técnicos, é o que diz o estudo do Fórum Global Científico da OCDE, publicado em 2021. A garantia de que políticas públicas de saúde mental sejam guiadas por dados, e não por simpatias partidárias, constitui a única forma de assegurar, às famílias que enfrentam desafios reais, como o autismo, condições adequadas para tomar decisões responsáveis e informadas sobre o cuidado de seus filhos. Negligência diante desse compromisso equivale a um retrocesso civilizatório que compromete o presente e o futuro.

A responsabilidade da imprensa, das universidades e dos gestores públicos, nesse cenário, inclui denunciar todo movimento que busque restringir pesquisas, pressionar especialistas ou manipular resultados. Segundo à Federação Mundial de Jornalistas de Ciência, relatórios de 2023 indicaram aumento de 19 por cento nos casos de assédio direcionado a comunicadores que divulgam estudos sensíveis, o que demonstra que o problema não se limita aos laboratórios, mas afeta todo o ecossistema de produção e circulação do conhecimento. A defesa da transparência absoluta e da autonomia científica constitui o único antídoto contra a regressão intelectual que ameaça converter o século 21 em um período marcado pela subordinação do conhecimento aos interesses de grupos organizados.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Nem tudo que importa pode ser contado, e nem tudo que pode ser contado importa.”
Einstein

Albert Einsten. Foto: Arthur Sasse/Nate D Sanders Auctions/Reprodução

História de Brasília
As deficiências no atendimento do público nem sempre são de origem administrativa. Veja-se que a cidade cresceu demais, há apenas um hospital, quando deveria haver mais de três, e leve-se em conta que gente de todos os municípios mineiros ou goianos busca o HDB como tábua de salvação. (Publicada em 12/5/1962)