
O debate sobre o Exército do Lula traz à tona um dilema histórico sobre poder e estratégia nas campanhas. A história militar guarda uma galeria de comandantes que tinham tudo para vencer e perderam. Caio Terêncio Varrão levou cerca de oitenta mil romanos a Canas, em 216 a.C., contra cinquenta mil de Aníbal, e viu o próprio centro ser cercado. Crasso, o homem mais rico de Roma, marchou para o deserto de Carras ignorando conselhos e encontrou os arqueiros partas. Quintílio Varo, mais jurista que soldado, conduziu três legiões por uma floresta germânica sem formação de combate.
VISTO, LIDO E OUVIDO
Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
jornalistacircecunha@gmail.com
instagram.com/vistolidoeouvido
facebook.com/vistolidoeouvido
Custer atacou em Little Bighorn um acampamento maior do que imaginava; Moreira César, em Canudos, atacou de frente sem reconhecer o terreno; Percival entregou Singapura com uma guarnição maior que a do invasor, porque os canhões da “fortaleza” apontavam para o mar. Portanto, o traço comum não é a fraqueza, e sim a confusão entre poder e estratégia.
O perigo da ilusão dos números na estratégia
Lao Tse, que não escreveu tratado militar algum, resumiu o problema em poucas linhas. Para ele, não há desgraça maior do que subestimar o inimigo; conhecer os outros é sabedoria, mas conhecer a si mesmo é iluminação; fingir saber é doença; o rígido e o forte são companheiros da morte, o flexível e o suave, da vida; e o bom comandante não é violento nem se deixa tomar pela raiva. De fato, são versões livres, mas o sentido é nítido: o perigo de quem comanda é a certeza de que o número e o entusiasmo bastam.
Por outro lado, há um terceiro texto que vale trazer à mesa, e é uma comédia. Em O Incrível Exército de Brancaleone (1966), de Mario Monicelli, Vittorio Gassman vive um cavaleiro de Norcia que fala num latim pomposo e inventado, comanda um bando de maltrapilhos e persegue um feudo que nunca chega. Brancaleone não é um vilão: é simpático, corajoso e teimoso.
No entanto, o filme ri justamente da distância entre a retórica e os meios. O discurso é épico, a tropa é improvisada, as vitórias são acidentais e cada fracasso é rebatizado de glória. Consequentemente, o que mantém o bando unido não é um plano, é a fé no chefe e a promessa de um prêmio, que no caso atual pode ser um ministério ou uma estatal.
O surgimento do Exército do Lula e seus resultados
É com essas lentes que a análise pode olhar a mobilização do Exército do Lula. O deputado federal André Janones (Rede-MG) criou o grupo em abril de 2026 e se apresentou como “general” da campanha. O projeto ganhou escala depois do primeiro turno. Segundo a imprensa, a mobilização passou de 6 milhões de inscritos em 20 de outubro e chegou perto de 11 milhões.
Além disso, o próprio presidente tratou o deputado como general e, no discurso da vitória na Avenida Paulista, disse que o exército não pode se dispersar. Assim, o resultado pode ser medido como satisfatório, pois, ao menos, serviu de cortina de fumaça para o que viria a seguir com a suspeitíssima e providencial prorrogação das eleições: Lula venceu o segundo turno. Ou, como dizem os estrategistas da esquerda, tomou o pleito, e o canal do Exército do Lula pode ter sido uma peça visível dessa virada, ao menos em termos de propaganda.
Mais do que isso, a vitória no canal do Exército do Lula não representa uma demonstração automática de estratégia sólida. A Al Jazeera registrou que a análise dificilmente estabelece se a mobilização digital realmente entregou votos nas urnas. Afinal, o sucesso de uma campanha possui muitos pais: o contexto econômico, a máquina partidária e os erros do adversário. Aníbal ganhou Canas e perdeu a guerra em Zama. Quem confunde audiência com adesão repete o erro de contar soldados no papel.
De fato, há ainda um dado desconfortável para o próprio articulador. Reportagens apontaram que a votação de Janones para a Câmara caiu mais de 60% em relação a 2022. Portanto, comandar milhões de inscritos no ambiente virtual e convencer eleitores nas urnas não representam a mesma habilidade.
As métricas e a vulnerabilidade das plataformas
Resta a questão das métricas. Inscrever-se em um canal representa um gesto de um toque, o qual não mede convicção, organização nem capacidade de mobilização fora da tela. Sun Tzu ensinava, no capítulo 3 de A Arte da Guerra, que a liderança que conhece o inimigo e a si mesma evita a derrota. Conhecer a si mesmo inclui saber o que os próprios números realmente medem. Por isso, um líder que celebra o tamanho do canal como Varrão celebrava o tamanho das legiões corre o risco de descobrir, na hora decisiva, que multidão e tropa são estruturas diferentes.
O segundo problema reside na vulnerabilidade similar à fortaleza de Singapura. Todo o edifício repousa sobre um canal numa plataforma privada estrangeira e sobre a tolerância da Justiça Eleitoral. Em 11 de outubro, a presidência do Tribunal Superior Eleitoral mandou suspender o canal a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro. Contudo, a corregedoria reverteu a ordem poucas horas depois.
A área técnica do tribunal não encontrou o conteúdo falso apontado na ação. Todavia, registrou riscos para o processo eleitoral na disseminação em massa e na exclusão de mensagens. O próprio Janones reclamou de boicotes da Meta a conteúdos da esquerda. Por conseguinte, um comandante que depende da boa vontade de plataformas e de liminares opera uma linha de suprimentos que não controla.
Note-se ainda que a campanha só registrou o canal formalmente no TSE em 13 de outubro, depois da determinação judicial, ou seja, quando a página já reunia milhões de pessoas. A improvisação funciona apenas enquanto o adversário também improvisa.
Estrutura de comando e a retórica de guerra
A estrutura gira, além disso, em torno de uma só pessoa. Quando a equipe médica internou Janones na UTI em 19 de outubro por conta de uma arritmia cardíaca, o canal seguiu ativo e a Justiça autorizou a campanha a usá-lo. Isso mostra alguma resiliência, mas também revela que o comando permanecia pessoal, sem uma cadeia formal que o substituísse à vista do público.
Napoleão III também comandava e delegava ao mesmo tempo, e acabou cercado em Sedan sem que ninguém soubesse ao certo quem decidia. Em suma, a verdadeira estratégia é aquilo que sobrevive à ausência do general.
O terceiro ponto crítico trata do tom adotado. A liderança que organiza a política como guerra necessita de um inimigo permanente, e Lao Tse lembrava que a guerra é o último recurso, não um método de governo (cap. 31). A linguagem de continências, “batalhas” e convocações gamificadas já virou motivo de piadas nas redes sociais.
A comédia de Monicelli serve de alerta: a retórica grandiosa, quando não encontra organização por trás, vira caricatura. E existe o dia seguinte. Lula pediu que a mobilização continuasse. Afinal, continuar para quê? Um exército sem missão definida ou se dispersa ou se converte em máquina permanente de campanha dentro do governo, que é a forma moderna de não saber parar a tempo (cap. 9). O estrategista se prova na paz, quando precisa transformar tropa em programa de gestão.
Os argumentos da defesa e o teste do Exército do Lula
Há contra-argumentos sérios, e um editorial honesto precisa registrá-los. Os defensores da criação do Exército do Lula lembram que o canal reuniu 500 mil inscritos em 24 horas e passou de dois milhões em poucos dias. Argumentam que a gamificação representa um modelo que analistas julgam capaz de influenciar campanhas futuras e que grupos inspirados nele surgiram na França, na Espanha e na Argentina.
Lembram também que especialistas em direito digital consideraram a suspensão judicial uma medida excessiva. Da mesma forma, ressaltam que os técnicos do TSE não acharam desinformação no período analisado e que Janones prometeu respeitar as decisões judiciais. Argumentam, enfim, que Lula virou o jogo no segundo turno e que, na guerra, quem vence obtém a razão.
Nada disso faz de Janones um Varrão, nem prova que o grupo seja um Exército de Brancaleone. Isso mostra apenas que o desempenho prático do Exército do Lula ainda não passou pelo teste definitivo onde os estrategistas se separam dos entusiastas: a fase que vem depois da batalha.
“A coragem que vive é a da prudência.”
— Lao Tse
Aníbal venceu em Canas e perdeu a guerra. Brancaleone seguiu para a próxima aventura, sempre seguro de que a próxima seria a boa. A lição para o articulador do Exército do Lula e para a sua militância permanece a de Lao Tse sobre a prudência. Espera-se que essa tropa de milhões não termine como um grande bando de entusiastas à espera de um feudo.








