O Exército de Brancaleone e a Guerra Depois da Batalha

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O debate sobre o Exército do Lula traz à tona um dilema histórico sobre poder e estratégia nas campanhas. A história militar guarda uma galeria de comandantes que tinham tudo para vencer e perderam. Caio Terêncio Varrão levou cerca de oitenta mil romanos a Canas, em 216 a.C., contra cinquenta mil de Aníbal, e viu o próprio centro ser cercado. Crasso, o homem mais rico de Roma, marchou para o deserto de Carras ignorando conselhos e encontrou os arqueiros partas. Quintílio Varo, mais jurista que soldado, conduziu três legiões por uma floresta germânica sem formação de combate.

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Custer atacou em Little Bighorn um acampamento maior do que imaginava; Moreira César, em Canudos, atacou de frente sem reconhecer o terreno; Percival entregou Singapura com uma guarnição maior que a do invasor, porque os canhões da “fortaleza” apontavam para o mar. Portanto, o traço comum não é a fraqueza, e sim a confusão entre poder e estratégia.

O perigo da ilusão dos números na estratégia

Lao Tse, que não escreveu tratado militar algum, resumiu o problema em poucas linhas. Para ele, não há desgraça maior do que subestimar o inimigo; conhecer os outros é sabedoria, mas conhecer a si mesmo é iluminação; fingir saber é doença; o rígido e o forte são companheiros da morte, o flexível e o suave, da vida; e o bom comandante não é violento nem se deixa tomar pela raiva. De fato, são versões livres, mas o sentido é nítido: o perigo de quem comanda é a certeza de que o número e o entusiasmo bastam.

Por outro lado, há um terceiro texto que vale trazer à mesa, e é uma comédia. Em O Incrível Exército de Brancaleone (1966), de Mario Monicelli, Vittorio Gassman vive um cavaleiro de Norcia que fala num latim pomposo e inventado, comanda um bando de maltrapilhos e persegue um feudo que nunca chega. Brancaleone não é um vilão: é simpático, corajoso e teimoso.

No entanto, o filme ri justamente da distância entre a retórica e os meios. O discurso é épico, a tropa é improvisada, as vitórias são acidentais e cada fracasso é rebatizado de glória. Consequentemente, o que mantém o bando unido não é um plano, é a fé no chefe e a promessa de um prêmio, que no caso atual pode ser um ministério ou uma estatal.

O surgimento do Exército do Lula e seus resultados

É com essas lentes que a análise pode olhar a mobilização do Exército do Lula. O deputado federal André Janones (Rede-MG) criou o grupo em abril de 2026 e se apresentou como “general” da campanha. O projeto ganhou escala depois do primeiro turno. Segundo a imprensa, a mobilização passou de 6 milhões de inscritos em 20 de outubro e chegou perto de 11 milhões.

Além disso, o próprio presidente tratou o deputado como general e, no discurso da vitória na Avenida Paulista, disse que o exército não pode se dispersar. Assim, o resultado pode ser medido como satisfatório, pois, ao menos, serviu de cortina de fumaça para o que viria a seguir com a suspeitíssima e providencial prorrogação das eleições: Lula venceu o segundo turno. Ou, como dizem os estrategistas da esquerda, tomou o pleito, e o canal do Exército do Lula pode ter sido uma peça visível dessa virada, ao menos em termos de propaganda.

Mais do que isso, a vitória no canal do Exército do Lula não representa uma demonstração automática de estratégia sólida. A Al Jazeera registrou que a análise dificilmente estabelece se a mobilização digital realmente entregou votos nas urnas. Afinal, o sucesso de uma campanha possui muitos pais: o contexto econômico, a máquina partidária e os erros do adversário. Aníbal ganhou Canas e perdeu a guerra em Zama. Quem confunde audiência com adesão repete o erro de contar soldados no papel.

De fato, há ainda um dado desconfortável para o próprio articulador. Reportagens apontaram que a votação de Janones para a Câmara caiu mais de 60% em relação a 2022. Portanto, comandar milhões de inscritos no ambiente virtual e convencer eleitores nas urnas não representam a mesma habilidade.

As métricas e a vulnerabilidade das plataformas

Resta a questão das métricas. Inscrever-se em um canal representa um gesto de um toque, o qual não mede convicção, organização nem capacidade de mobilização fora da tela. Sun Tzu ensinava, no capítulo 3 de A Arte da Guerra, que a liderança que conhece o inimigo e a si mesma evita a derrota. Conhecer a si mesmo inclui saber o que os próprios números realmente medem. Por isso, um líder que celebra o tamanho do canal como Varrão celebrava o tamanho das legiões corre o risco de descobrir, na hora decisiva, que multidão e tropa são estruturas diferentes.

O segundo problema reside na vulnerabilidade similar à fortaleza de Singapura. Todo o edifício repousa sobre um canal numa plataforma privada estrangeira e sobre a tolerância da Justiça Eleitoral. Em 11 de outubro, a presidência do Tribunal Superior Eleitoral mandou suspender o canal a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro. Contudo, a corregedoria reverteu a ordem poucas horas depois.

A área técnica do tribunal não encontrou o conteúdo falso apontado na ação. Todavia, registrou riscos para o processo eleitoral na disseminação em massa e na exclusão de mensagens. O próprio Janones reclamou de boicotes da Meta a conteúdos da esquerda. Por conseguinte, um comandante que depende da boa vontade de plataformas e de liminares opera uma linha de suprimentos que não controla.

Note-se ainda que a campanha só registrou o canal formalmente no TSE em 13 de outubro, depois da determinação judicial, ou seja, quando a página já reunia milhões de pessoas. A improvisação funciona apenas enquanto o adversário também improvisa.

Estrutura de comando e a retórica de guerra

A estrutura gira, além disso, em torno de uma só pessoa. Quando a equipe médica internou Janones na UTI em 19 de outubro por conta de uma arritmia cardíaca, o canal seguiu ativo e a Justiça autorizou a campanha a usá-lo. Isso mostra alguma resiliência, mas também revela que o comando permanecia pessoal, sem uma cadeia formal que o substituísse à vista do público.

Napoleão III também comandava e delegava ao mesmo tempo, e acabou cercado em Sedan sem que ninguém soubesse ao certo quem decidia. Em suma, a verdadeira estratégia é aquilo que sobrevive à ausência do general.

O terceiro ponto crítico trata do tom adotado. A liderança que organiza a política como guerra necessita de um inimigo permanente, e Lao Tse lembrava que a guerra é o último recurso, não um método de governo (cap. 31). A linguagem de continências, “batalhas” e convocações gamificadas já virou motivo de piadas nas redes sociais.

A comédia de Monicelli serve de alerta: a retórica grandiosa, quando não encontra organização por trás, vira caricatura. E existe o dia seguinte. Lula pediu que a mobilização continuasse. Afinal, continuar para quê? Um exército sem missão definida ou se dispersa ou se converte em máquina permanente de campanha dentro do governo, que é a forma moderna de não saber parar a tempo (cap. 9). O estrategista se prova na paz, quando precisa transformar tropa em programa de gestão.

Os argumentos da defesa e o teste do Exército do Lula

Há contra-argumentos sérios, e um editorial honesto precisa registrá-los. Os defensores da criação do Exército do Lula lembram que o canal reuniu 500 mil inscritos em 24 horas e passou de dois milhões em poucos dias. Argumentam que a gamificação representa um modelo que analistas julgam capaz de influenciar campanhas futuras e que grupos inspirados nele surgiram na França, na Espanha e na Argentina.

Lembram também que especialistas em direito digital consideraram a suspensão judicial uma medida excessiva. Da mesma forma, ressaltam que os técnicos do TSE não acharam desinformação no período analisado e que Janones prometeu respeitar as decisões judiciais. Argumentam, enfim, que Lula virou o jogo no segundo turno e que, na guerra, quem vence obtém a razão.

Nada disso faz de Janones um Varrão, nem prova que o grupo seja um Exército de Brancaleone. Isso mostra apenas que o desempenho prático do Exército do Lula ainda não passou pelo teste definitivo onde os estrategistas se separam dos entusiastas: a fase que vem depois da batalha.

“A coragem que vive é a da prudência.”

— Lao Tse

Aníbal venceu em Canas e perdeu a guerra. Brancaleone seguiu para a próxima aventura, sempre seguro de que a próxima seria a boa. A lição para o articulador do Exército do Lula e para a sua militância permanece a de Lao Tse sobre a prudência. Espera-se que essa tropa de milhões não termine como um grande bando de entusiastas à espera de um feudo.

O número que ordena e o número que apenas soma

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Segundo o Olivertalk, o número não é apenas quantidade: representa a estrutura do real, a proporção, a relação e a forma. O número qualitativo não apenas mede; ordena. A realidade não seria um amontoado de coisas, mas um conjunto de tensões e harmonias cuja ruptura compromete a ordem, e não somente a estética. Daí a sentença mais dura do texto: quem perde o sentido qualitativo do número perde o critério.

Essa distinção ajuda a compreender a leitura de qualidade dos números da apuração eleitoral. A formulação parece abstrata até que uma noite de votação a transforma em exercício prático. Na noite de domingo, 25 de outubro, o país viu um mesmo número mudar de sentido sem mudar de valor.

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A dinâmica dos dados na apuração das urnas

Inicialmente, os fatos são amplamente conhecidos. Com 0,29% das seções apuradas (1.456 de 499.248), Lula aparecia com 56,70% dos votos válidos, contra 43,30% de Flávio Bolsonaro. Logo depois, às 19h45, com 13,65% das urnas, Flávio assumia a frente. Conforme a cobertura dali em diante, a liderança permaneceu com ele até cerca de 20h20.

Posteriormente, o resultado final registrou 51,79% dos votos válidos para Lula (64.256.232 votos contra 59.826.041). Isso representou uma diferença de 4,43 milhões de votos. Consequentemente, houve a reversão da vantagem de 2,22 milhões que Flávio tivera no primeiro turno. Nesse sentido, o gráfico da apuração, em forma de gangorra, alimentou ansiedade no público. Além disso, gerou suspeitas que ainda não estão suficientemente postas à luz da verdade. Por conseguinte, numa primeira análise, os gráficos insistem em tentar contrariar a percepção geral.

É exatamente aqui que a leitura dos estatísticos se encontra com a tese filosófica. Afinal, o gráfico da apuração não mede a disputa em si; ele mede a ordem em que as urnas chegam. Primeiramente, as seções totalizadas vieram em boa parte do exterior. Em seguida, vieram o Sul e o Sudeste e, finalmente, o Nordeste.

Por um lado, quem olha o placar enxerga apenas quantidade bruta. Por outro lado, quem pergunta o quanto cada seção se desvia do primeiro turno enxerga proporção e estrutura. Foi justamente o que fizeram os modelos estatísticos. De acordo com o analista Frederico Dornellas, os modelos já indicavam Lula perto de 51,8% com menos de 2% das urnas. Da mesma forma, a projeção do jornal Estadão, de 51,4%, ficou a menos de meio ponto do resultado final. Visto que um número parcial é uma fração cujo denominador não se conhece, tratá-lo como veredito é perder o critério, no sentido exato de Mário.

Estrutura estatística e a leitura qualitativa dos números da apuração

A cautela, porém, vale da mesma maneira para os modelos. O próprio Dornellas relata um aspecto relevante. Uma extrapolação ingênua, aplicando ao primeiro turno o desvio das primeiras seções, acertou o destino por pouco. Todavia, errou por completo a trajetória. Em síntese, proporção sem estrutura continua sendo quantidade disfarçada. Portanto, a boa estatística não promete certeza; ela promete intervalo, sendo essa a sua honestidade.

O mesmo raciocínio vale para a escolha do gráfico. A curva percentual da apuração oscila com violência nos primeiros minutos. Como resultado, ela esconde que poucas centenas de milhares de votos separavam os candidatos no início. Além do mais, cada seção nova pesa menos à medida que o total cresce.

Em contrapartida, a comparação entre turnos revela uma proporção de outra natureza. Nesse período, Lula somou 10,38 milhões de votos entre os dois turnos. Enquanto isso, Flávio somou 3,72 milhões. De modo que, segundo cálculo da imprensa, três de cada quatro votos novos foram para o petista. Ou seja, não é a quantidade que explica a virada, mas a relação entre os incrementos.

O papel das pesquisas eleitorais e a margem de erro

Do mesmo modo, as pesquisas ilustram o mesmo problema do outro lado da urna. Na véspera, dez das doze pesquisas davam Flávio numericamente à frente, quase todas por 51% a 49%. Contudo, segundo levantamento publicado pela Genial Investimentos, sete dos nove institutos ficaram fora da margem de erro. Em média, subestimaram Lula em 2,5 pontos.

Além disso, o dado mais instrutivo é a direção variável do erro. Em 2022, as pesquisas subestimaram Jair Bolsonaro em cerca de sete pontos. Já no primeiro turno de 2026, subestimaram Flávio em dois a cinco pontos. Agora, por sua vez, subestimaram Lula. Assim sendo, quem vê nisso conspiração de um campo contra o outro precisa explicar um ponto. Por qual razão o sinal do erro troca de lado?

Diante disso, a hipótese mais sóbria é a de um problema de medida: o comparecimento. A abstenção caiu 1,86 ponto percentual, para 19,22%. Ademais, análises apontam que o eleitor pouco provável acabou comparecendo. Enquanto a pesquisa registra intenção declarada, a urna registra quem efetivamente comparece. Dessa maneira, um “51 a 49” lido como previsão transformou o empate técnico em um “deve vencer” não autorizado pela margem de erro.

Questões jurídicas e a legitimidade do resultado

Por fim, resta o ponto mais delicado, que é o da contestação. Reportagens informam que Flávio Bolsonaro anunciou não reconhecer o resultado e pretender pedir a anulação do pleito. Para tanto, ele questionou a prorrogação da votação, decidida no Supremo a pedido da campanha petista.

Sob a ótica da aritmética, um levantamento aponta 35.521 votos registrados depois das 17h, ou seja, 0,80% da vantagem final de 4.430.191. O número é útil, mas é onde Mário mais ajuda. Afinal, se justiça é relação ordenada e não opinião, tampouco é soma. Por conseguinte, uma quantia pequena não torna regular o irregular. Do mesmo modo, uma margem grande não dispensa o devido processo.

“Se justiça é relação ordenada e não opinião, tampouco é soma.” — Mário Ferreira dos Santos (Filósofo brasileiro)

Em suma, a pergunta sobre se a prorrogação foi legítima é puramente jurídica. Ela pertence à Justiça Eleitoral — cujas diretrizes oficiais podem ser acompanhadas no portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) —, com provas e contraditório. Portanto, quem a levanta exerce um direito legítimo. Em contrapartida, quem a rejeita deve responder com argumentos, não com o tamanho da vitória. Igualmente, a diferença de 3,58 pontos legitima aritmeticamente o vencedor. Entretanto, a legitimidade democrática é também procedimento, e a dúvida não é prova.

Conclusão: a lição para além das urnas

Diante disso, usar qualquer discurso ideológico contra a democracia é crime de grande poder ofensivo e um tiro no próprio pé. A eleição é o regime em que a quantidade decide por decisão constitucional. Ou seja, cada voto vale um, e nenhuma qualidade metafísica substitui a contagem.

Portanto, o que a leitura qualitativa dos números da apuração oferece não é um critério alternativo de vencedor. Em vez disso, ela oferece uma disciplina de leitura. Trata-se de saber qual é o denominador, em que ordem os dados chegam e qual é o intervalo de confiança.

Em suma, dizendo com a metáfora do próprio Olivertalk, a realidade tem proporções. Desse modo, o gráfico só a representa bem quando se respeita a proporção entre o que se vê e o que ainda falta ver. Por essa razão, a lição final de uma adequada leitura qualitativa dos números da apuração é educativa, não eleitoral.

Erro histórico do intelectual e a armadilha do porta-voz ideológico

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É certo que o pensador que abraça uma ideologia e passa a combater todos os divergentes comete um erro histórico do intelectual, pois acerta o alvo central, mas perde o entorno. Afinal, o mundo real é sempre mais diverso do que o ponto escolhido. Consequentemente, perde-se a bússola, a régua e o compasso, isto é, a orientação e a capacidade de traçar o círculo de um mundo inteiro. A imagem final mostra um filósofo dividido e cativo, com um muro no meio do universo, enxergando apenas metade de tudo. Essa observação é menos uma questão de gosto político e mais uma questão de método. Portanto, o que está em causa é a função do pensamento, e não o conteúdo da crença.

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Diagnósticos clássicos sobre o erro histórico do intelectual

Essa intuição possui forte pedigree histórico. Em 1927, Julien Benda publicou “A Traição dos Intelectuais” para denunciar exatamente o fenômeno. Os clérigos, que deveriam servir a valores universais como a verdade, a justiça e a razão, entregavam-se às paixões políticas de classe, de nação e de partido. Para Benda, o intelectual que se faz porta-voz deixa de ser guardião do universal e passa a ser advogado de interesses particulares. Posteriormente, Raymond Aron publicou “O Ópio dos Intelectuais” em 1955, acrescentando um diagnóstico complementar: a fé política dos letrados costuma ser mais dogmática do que a do homem comum, pois dispensa o contato com o custo concreto das decisões.

Exemplos históricos e as faces do erro histórico do intelectual

A história oferece um acervo doloroso de exemplos que ilustram claramente o erro histórico do intelectual. É fundamental notar que eles vêm de todos os lados, indicando que o problema não está na ideologia escolhida, mas no gesto de se tornar seu porta-voz. Martin Heidegger, profundo filósofo do século XX, aderiu ao partido nazista e assumiu o reitorado de Friburgo em 1933. Ezra Pound transmitiu propaganda fascista pelo rádio italiano durante a guerra. Louis-Ferdinand Céline escreveu panfletos antissemitas que mancharam sua obra. Na outra margem, Pablo Neruda compôs odes a Stalin quando o terror já era notório. André Gide viajou à União Soviética em 1936, voltou desiludido e foi tratado como traidor por descrever a realidade. Jean-Paul Sartre relativizou crimes soviéticos e rompeu com Albert Camus quando este recusou a máxima de que o fim justifica os meios.

O padrão se repete com notável regularidade. Primeiro ocorre a escolha do lado, muitas vezes movida por indignação legítima ou amor pela pátria. Em seguida surge a lealdade exigida pela facção, forçando a leitura favorável de fatos incômodos. Por fim, instala-se o silêncio seletivo: o intelectual deixa de ver os erros do próprio campo. Quem cumpre essa trajetória descobre, tarde demais, que cedeu a credibilidade de quem não precisa dizer o que convém.

Contraponto de pensadores fiéis aos valores universais

Há, porém, um erro simétrico que precisa ser evitado. A honestidade intelectual exige reconhecer que não se prega a neutralidade como virtude nem o silêncio como prudência. Émile Zola publicou “J’accuse” em 1898 escolhendo um lado, mas defendeu um homem, Dreyfus, e um princípio de justiça, e não um partido. George Orwell lutou na Guerra Civil Espanhola e denunciou as mentiras da própria esquerda com absoluta lucidez. Václav Havel criticou o regime comunista sem virar propagandista de outra bandeira. A diferença nesses casos reside na direção da lealdade: Zola, Orwell e Havel serviram a valores permanentes, enquanto os outros serviram a organizações.

Efeitos nocivos da militância e o erro histórico do intelectual

O custo não recai apenas sobre quem se alista. A esfera pública, dependente de vozes justas para arbitrar disputas, sofre graves danos. Quando essas vozes se alinham cegamente, o árbitro desaparece. Cada fato ganha uma etiqueta de origem, e o cidadão comum aprende a descontar o que vem do adversário e a absorver sem filtro o que vem do seu grupo.

A confiança social, construída ao longo de séculos, consome-se em poucas décadas de militância partidária. Não por acaso, as sociedades mais polarizadas são exatamente aquelas onde o respeito pelos pensadores e pela imprensa mais se deteriora. Como já discutimos em nossa análise sobre o que as escolas deixaram de ensinar, a perda de referências críticas compromete as novas gerações.

Urgência como inimiga da lucidez no debate público

O muro no meio do universo representa o mecanismo mental que classifica as pessoas antes de ouvi-las. O interlocutor vira representante do inimigo, e o debate transforma-se em guerra de trincheiras. O filósofo militante já não investiga a verdade, mas avalia a utilidade política do argumento.

Seria ingenuidade atribuir esse desvio apenas à vaidade. Na maioria das vezes, o intelectual é movido por uma sinceridade genuína, tornando o erro persistente. Contudo, a urgência converte-se na grande inimiga da lucidez. Ela convence de que matizar é trair e de que a complexidade é um luxo desnecessário.

O papel distorcido de jornalistas e artistas na política

Para o jornalista, o cantor e o ator militantes, o problema agrava-se porque a eles se confia a mediação cultural. Quando o jornalista seleciona fatos por causa da ideologia ou o artista transforma o palco em palanque, ambos reduzem seu alcance à facção. Quem busca informação ou beleza no teatro e no jornal descobre que participa de uma assembleia doutrinária. A arte torna-se panfleto, e a causa perde o poder de convencer quem pensa diferente.

Nos dias atuais, as redes sociais aceleram esse processo. As plataformas premiam a declaração de pertencimento em detrimento da ponderação. O pensador que hesita perde seguidores, enquanto o extremista colhe curtidas imediatas. Resistir a esse incentivo perverso constitui, hoje, uma verdadeira forma silenciosa de coragem.

Conclusão sobre a verdadeira independência do pensador

Convém distinguir o intelectual do cidadão comum. Todo pensador tem o direito de votar, filiar-se e debater com paixão em sua vida privada. O problema surge quando a obra transforma-se em instrumento permanente de uma facção, abandonando o público inteiro.

A verdadeira independência exige dizer a verdade a qualquer poder e preservar o espaço de diálogo entre adversários. Camus resumiu essa postura ao recusar ser vítima ou carrasco. Trata-se de uma posição incômoda, mas indispensável para conservar a bússola, a régua e o compasso diante da complexidade do mundo.

O que as escolas deixaram de ensinar na crise da educação nacional

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Em setembro, a OCDE divulgou os resultados do Pisa 2025. O Brasil marcou 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências, ficando abaixo da média da organização nas três áreas. Ficamos em 71º lugar em matemática, 67º em ciências e 52º em leitura entre os países com resultados comparáveis. Em ciências, apenas cerca de 48% dos nossos estudantes de 15 anos alcançam o nível básico de proficiência. Na média da OCDE, por sua vez, esse número atinge 74%. Além disso, em leitura, apenas 1% dos alunos chega aos níveis mais altos, contra 6% da média dos países ricos. Desse modo, surge inevitavelmente o debate sobre o que as escolas deixaram de ensinar ao longo dos últimos anos.

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Questionamento de fundo sobre os objetivos da educação brasileira

Esses dados já são amplamente conhecidos. A cada nova edição, produzem o mesmo ritual de lamento, promessas e planos governamentais. Contudo, raramente se faz a pergunta de fundo sobre a real aplicação das horas letivas. Se o resultado final permanece tão baixo, talvez o problema não esteja apenas nos recursos investidos, mas nas metas do sistema.

Analisando o impacto econômico, observa-se que esse atraso possui um custo concreto para o país. Em 2022, a OCDE estimou que estudantes de Singapura estavam até cinco anos de escolaridade à frente da média. Consequentemente, jovens que saem da escola sem dominar leitura e matemática chegam ao mercado com sérias limitações intelectuais. Onde o ensino falha, sobra inevitavelmente a dependência individual.

Tese de Bernardin sobre Maquiavel Pedagogo e a engenharia social

Essa reflexão dialoga diretamente com a obra Maquiavel Pedagogo, do engenheiro francês Pascal Bernardin. Publicado em 1995 e traduzido no Brasil em 2013, o livro sustenta uma mudança discreta nos objetivos educacionais. Segundo o autor, organismos internacionais deslocaram o foco da transmissão do conhecimento para a alteração de comportamentos. Assim, a criança deixa de ser alguém a instruir para se tornar matéria a moldar.

Analisando o método, Bernardin destaca o uso de um vocabulário técnico e atraente. Termos como “competências”, “habilidades”, “inovação” e “protagonismo” dificultam a crítica pública. Afinal, quem questiona tais conceitos é rapidamente rotulado como conservador ou ultrapassado.

Conexões teóricas entre Gramsci e a Escola de Frankfurt

Essa transformação educacional dialoga com duas correntes teóricas marcantes. Primeiramente, refere-se ao pensamento de Antonio Gramsci sobre a conquista da hegemonia cultural antes da tomada do poder. Em segundo lugar, conecta-se à Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, que usou a cultura para desconstruir valores sociais.

Nessa perspectiva, o ensino rigoroso de conteúdos perde o protagonismo. Ler com fluência, calcular com precisão e argumentar logicamente passam a ocupar um papel secundário. Prioriza-se, dessa forma, a tarefa de “conscientizar” ideologicamente os estudantes.

Diagnóstico das falhas estruturais e da pedagogia engajada no Brasil

Diversos críticos apontam que o Brasil seguiu rigorosamente essa trajetória ideológica. Citam a obra de Paulo Freire como referência quase exclusiva nas faculdades de pedagogia. Além disso, observam que os cursos de licenciatura priorizam teorias educacionais em detrimento do domínio da matéria a ser lecionada.

Outro ponto levantado envolve o viés militante presente em materiais didáticos e currículos. Há uma clara desconfiança da autoridade do professor, do esforço individual, da repetição e das avaliações externas. Portanto, a estagnação nas avaliações do Pisa passa a ser vista não como um acidente, mas como consequência direta de prioridades equivocadas.

Aumento da desigualdade social provocado pela falta de conteúdo

Importante ressaltar que essa abordagem pedagógica gera profundas injustiças sociais. Famílias de renda mais alta compensam as falhas do ensino público com aulas particulares, colégios seletivos e livros. Em contrapartida, os alunos mais pobres dependem exclusivamente da escola pública.

Dados recentes do Pisa mostram que a distância em matemática entre as notas mais altas e as mais baixas aumentou entre 2022 e 2025. Desse modo, o abandono do conteúdo acadêmico aprofunda a desigualdade em nome de combatê-la. Quem tem alternativas aprende apesar da escola; os desfavorecidos aprendem apenas o que a sala de aula oferece.

Requisitos fundamentais para a reconstrução do ensino de qualidade

Educar consiste em introduzir as novas gerações no patrimônio cultural acumulado pela humanidade. Esse processo exige alfabetização sólida nos anos iniciais, matemática ensinada com rigor e amplo domínio da língua portuguesa. História e ciências devem ser tratadas como saber acadêmico, e não como instrumento de militância política.

Exige-se, da mesma forma, valorização da autoridade intelectual do professor e empenho dos estudantes. Uma instituição que informa e ensina a pensar forma cidadãos livres. Por outro lado, um sistema que conduz o aluno a conclusões preconcebidas gera apenas militantes.

Comparação com modelos internacionais de alto desempenho

Modelos bem-sucedidos em países como a Coreia do Sul demonstraram que reformas reais focam nos meios de ensino. Nesses locais, houve valorização docente, maior tempo de estudo e exigência acadêmica, em vez de experimentos ideológicos.

Sistemas que lideram o Pisa — a exemplo de Singapura, Japão e Estônia — compartilham currículos exigentes e avaliações constantes. Nenhum desses países utiliza o estudante como ferramenta para projetos políticos alheios ao aprendizado real.

Centralidade do método fônico e da alfabetização baseada em evidências

No tocante ao aprendizado inicial, a alfabetização surge como o teste mais claro dessa divisão. Atrasos na leitura nos primeiros anos geram defasagens que acompanham o estudante por toda a vida.

Defensores do ensino estruturado sustentam que a alfabetização explícita e sistemática deve prevalecer sobre teorias construtivistas. A ideia de que a criança é autora espontânea do próprio aprendizado falhou na prática. Afinal, ler é o direito básico de todo estudante.

Transparência e prestação de contas na gestão educacional

Diante do cenário atual, a discussão sobre os rumos da educação exige debate público imediato. Famílias, professores e pesquisadores precisam analisar abertamente currículos, diretrizes e materiais didáticos distribuídos pelo Estado.

Caso a escola esteja cumprindo sua missão de ensinar, os indicadores demonstrarão os avanços. Contudo, se os resultados permanecerem negativos, a sociedade tem o direito de saber a quem esses métodos estão servindo.

Ponto de vista oposto sobre os fatores socioeconômicos do Pisa

Para garantir a honestidade do debate, cumpre apresentar as objeções formuladas pelos críticos dessa tese. Quanto à obra de Bernardin, analistas lembram que o texto analisa reformas europeias e norte-americanas, sem provar causalidade direta com as notas do Pisa.

Argumenta-se também que os resultados brasileiros apresentaram avanços nas últimas duas décadas. Desde 2006, a distância para a média da OCDE caiu em matemática, leitura e ciências. Entretanto, especialistas ponderam que parte dessa aproximação decorreu da queda do desempenho dos países ricos.

Desafios operacionais e variações regionais no desempenho escolar

A maioria dos pesquisadores atribui os baixos resultados a fatores estruturais históricos. Entre eles, destacam-se a desigualdade socioeconômica, a formação deficiente de docentes, a jornada escolar reduzida e a precariedade das instalações. Adicionalmente, pontuam que até mesmo os alunos da rede privada brasileira pontuam abaixo da média da OCDE em matemática.

Por fim, dados regionais dentro do próprio Brasil trazem novos elementos para a reflexão. Sob as mesmas diretrizes curriculares nacionais, o estado do Paraná obteve 423 pontos em matemática no Pisa 2025 e São Paulo alcançou 404 pontos, resultados bem superiores à média nacional. Isso demonstra que a gestão escolar e as práticas pedagógicas adotadas em sala de aula exercem um peso decisivo no aprendizado real.

Os números devastadores das duas guerras mundiais

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Existe um exercício incômodo, mas fundamental: imaginar o mundo atual caso 1914 e 1939 tivessem sido anos normais. A história não permite certezas absolutas sobre cenários não ocorridos. Por isso, qualquer hipótese alternativa representa uma especulação teórica. Contudo, a análise baseada em fatos concretos permite medir a dimensão exata da tragédia humana. Portanto, ao calcularmos os prejuízos das duas guerras mundiais, percebemos que os números desafiam a capacidade de imaginação.

“A humanidade precisa acabar com a guerra, antes que a guerra acabe com a humanidade.”

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Tecnologia sem moral

Inicialmente, a Primeira Guerra Mundial provocou a morte de 9 a 10 milhões de militares. Além disso, o conflito deixou aproximadamente 20 milhões de feridos no campo de batalha. Igualmente, milhões de civis morreram devido à fome, deportações forçadas e epidemias graves. Nesse sentido, o confronto inaugurou a guerra industrial em nível global. Assim, metralhadoras, artilharia pesada e gases venenosos transformaram jovens em estatísticas frias. Consequentemente, uma geração inteira de europeus pereceu nas trincheiras continentais. O continente europeu, que se considerava o centro da civilização, descobriu que a tecnologia sem moral gera barbárie.

Posteriormente, a Segunda Guerra Mundial superou todo esse horror acumulado. Estima-se que entre 70 e 85 milhões de pessoas perderam a vida nesse período. Esse volume representava cerca de 3% da população global da época, sendo a maioria composta por civis. De fato, esse total inclui os 6 milhões de judeus assassinados no Holocausto nazista. Além disso, a contagem abrange os milhões de soviéticos e chineses mortos em combates, cercos e massacres.

“O século XX já nos mostrou, com cerca de 100 milhões de mortos, o que acontece quando esquecemos a diplomacia.”

Eric Hobsbawm

Do mesmo modo, centenas de milhares de vítimas morreram nas explosões atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Ademais, cidades inteiras como Varsóvia, Dresden, Stalingrado e Nanquim viraram ruínas completas. Diante disso, a humanidade desenvolveu pela primeira vez os instrumentos necessários para a própria aniquilação.

Um cenário sem a eclosão da guerra em 1914

Caso o conflito de 1914 não ocorresse, os impérios europeus poderiam ter resistido por mais tempo. Contudo, essas estruturas políticas passariam por transformações graduais indispensáveis. Os impérios Austro-Húngaro, Otomano e Russo enfrentavam severas tensões internas organizacionais. Assim, é plausível imaginar reformas institucionais progressivas em vez do colapso violento registrado na história.

Sem o desgaste militar, a Revolução Russa de 1917 talvez não acontecesse daquela maneira específica. Afinal, as perdas no conflito desestabilizaram criticamente o regime do czar. Portanto, sem esse evento, a União Soviética não surgiria no cenário europeu. Consequentemente, a Guerra Fria perderia seu principal ponto de origem geopolítica.

Ademais, o Tratado de Versalhes jamais existiria para humilhar a Alemanha com sanções financeiras pesadas. Muitos historiadores apontam esse acordo como o gerador do ressentimento alemão. Igualmente, o tratado impulsionou a hiperinflação de 1923 e desestabilizou a República de Weimar. Por fim, esse cenário facilitou a ascensão de Adolf Hitler ao poder continental. Deste modo, compreende-se que a Segunda Guerra nasceu diretamente dos desdobramentos do primeiro conflito. Logo, evitar a primeira grande guerra significaria, muito provavelmente, evitar ambas as tragédias.

O que o planeta teria preservado sem os conflitos de 1939

Por outro lado, vale analisar tudo o que a humanidade teria preservado sem o confronto. Dezenas de milhões de vidas teriam sido salvas nos territórios atingidos. Consequentemente, a sociedade manteria as famílias que nunca puderam nascer nas décadas seguintes. Além disso, preservaríamos cientistas, artistas, professores e trabalhadores que não puderam produzir suas obras. Desta forma, a perda demográfica representa um futuro inteiro subtraído da civilização.

Albert Einstein

Quantas descobertas médicas, livros e invenções valiosas desapareceram juntamente com os mortos? Por exemplo, a perseguição sistemática a intelectuais judeus como Albert Einstein e Sigmund Freud alterou a ciência. Esse exílio forçado empobreceu drasticamente a vida cultural e científica da Europa Central. Até aquele momento, a região liderava o pensamento acadêmico e tecnológico mundial.

Paralelamente, deve-se considerar o imenso capital material consumido pelas batalhas. Entre 1914 e 1945, as economias da Europa e da Ásia queimaram recursos colossais na destruição. Por conseguinte, os valores gastos em armas poderiam financiar escolas, hospitais, ferrovias e pesquisas científicas. Mais tarde, a reconstrução do pós-guerra exigiu bilhões de dólares através do Plano Marshall. Tais investimentos serviram apenas para devolver ao continente a infraestrutura que ele já possuía antes. Portanto, um mundo sem os conflitos partiria de um patamar econômico muito mais elevado.

Os avanços tecnológicos das duas guerras mundiais e seus limites

Certos analistas argumentam que os confrontos aceleraram o desenvolvimento tecnológico global. De fato, o radar, a penicilina em massa e os motores a jato nasceram nesse período. Do mesmo modo, os computadores primordiais e a energia nuclear avançaram sob a pressão militar. No entanto, esse raciocínio histórico revela-se profundamente enganoso.

O fato de a guerra concentrar recursos não prova a impossibilidade desses avanços na paz. Ao contrário, indica apenas que as nações mobilizam recursos prioritariamente sob ameaça de destruição. Essa escolha representa uma tragédia social, jamais uma necessidade inevitável. Por exemplo, Alexander Fleming descobriu a penicilina em 1928, durante um período de paz. Da mesma forma, os estudos de física nuclear já avançavam nos laboratórios europeus antes das bombas. Portanto, a ciência alcançaria essas descobertas com um custo humano incomensuravelmente menor.

O novo mapa geopolítico gerado pelas duas guerras mundiais

Ademais, os confrontos redefiniram a ordem política global de formas que sentimos ainda hoje. O enfraquecimento das potências coloniais europeias acelerou a descolonização na África e na Ásia. Embora o fim do colonialismo fosse justo, a transição ocorreu de forma conturbada e apressada. Consequentemente, a divisão criou fronteiras artificiais que geram conflitos armados até os dias atuais.

Além disso, a divisão do território alemão e a corrida armamentista derivam desse período histórico. Da mesma maneira, a fundação do Estado de Israel ocorreu em meio ao trauma do Holocausto. Esse evento reorganizou a geopolítica e gerou desdobramentos duradouros no Oriente Médio. Inclusive, o arsenal nuclear existente hoje sobre a Terra permanece como herança direta dessa era.

Simultaneamente, o Brasil também sofreu os impactos dessas grandes conflagrações internacionais. O governo brasileiro enviou cerca de 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira para a Itália. Infelizmente, centenas desses combatentes nacionais não retornaram vivos ao país.

Por outro lado, o conflito trouxe transformações na estrutura econômica brasileira. A construção da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda resultou de acordos com os Aliados. Contudo, o Brasil permaneceu distante do epicentro da destruição física europeia. Por essa razão, cabe ao nosso povo preservar a memória histórica com responsabilidade cívica.

A lição histórica que o cenário alternativo nos deixa

Nenhum exercício de imaginação histórica recuperará as vidas perdidas nesses confrontos. Do mesmo modo, seria ingênuo crer que um mundo sem guerras estaria livre de desigualdades. Afinal, rivalidades imperiais, nacionalismos e tensões sociais já existiam antes do ano de 1914. Esses fatores poderiam encontrar outros canais de expressão, com desfechos mais ou menos graves.

No entanto, a análise contrafactual demonstra claramente que a catástrofe global não era inevitável. Ao contrário, o desastre resultou de decisões humanas, alianças rígidas, orgulho e omissão ante o extremismo. Portanto, aquilo que determinados líderes decidiram no passado poderia ter sido decidido de outra forma.

Em suma, essa é a verdadeira lição que devemos carregar para o presente. Atualmente, assistimos ao retorno de conflitos armados na Europa e ao aumento dos discursos de ódio. Diante disso, relembrar o custo das duas guerras mundiais torna-se um dever cívico fundamental. A paz não representa o estado natural e espontâneo das sociedades humanas. Ela constitui uma construção frágil que exige diplomacia, preservação da memória e vigilância constante. O século XX demonstrou com clareza o preço de esquecermos essa premissa.

O impacto psicológico das ideologias políticas na sociedade

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Não é de hoje que sabemos como as ideologias políticas estão ligadas diretamente ao nosso inconsciente coletivo. Há, de fato, elementos muito além da lógica e da razão que orientam nossas escolhas cotidianas. Nossos traumas individuais e coletivos não desaparecem com o tempo. A fome, a guerra, a ditadura, a humilhação e a perda transformam-se em medos e lealdades. Esses sentimentos atravessam gerações e aparecem na urna ou na mesa de jantar. A pergunta que se impõe é incômoda. Afinal, estamos agindo de forma consciente ou apenas repetindo padrões herdados do passado? Ademais, podemos nos libertar dessa influência inconsciente ou estamos presos numa espécie de matrix preestabelecida?

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As ideologias políticas têm o poder de moldar pensamentos e comportamentos. Além disso, muitas vezes elas fazem isso de modo extremamente sutil. Elas alimentam crenças e esculpem em nós uma identidade rígida. Consequentemente, essa identidade funciona como uma programação para agir de uma forma ou de outra.

“O indivíduo, ao se fundir a um grupo, entrega ao líder e à bandeira o lugar de seu ideal de eu, e passa a sentir, pensar e odiar em coro.”

— Sigmund Freud, médico neurologista e fundador da psicanálise, em Psicologia das Massas e Análise do Eu.

Da mesma forma, em O Mal-Estar na Civilização, Freud descreveu o “narcisismo das pequenas diferenças”. Quanto mais próximos somos de alguém, mais necessitamos de um inimigo que confirme quem somos. Portanto, a polarização contemporânea é, em boa medida, a encenação pública desse mecanismo psíquico.

A projeção da sombra e as ideologias políticas contemporâneas

Carl Jung acrescentou a essa leitura a noção de sombra. Aquilo que não suportamos reconhecer em nós mesmos não deixa de existir. Por exemplo, a agressividade, a inveja, a covardia e o desejo de poder continuam ativos. Assim, esses sentimentos são projetados diretamente no outro. O adversário passa a carregar o que há de pior em nós. Por conseguinte, combatê-lo torna-se uma forma de nunca olhar para dentro.

“O maior risco das sociedades modernas não é uma ideologia específica, mas a perda da capacidade de cada pessoa de se perceber como indivíduo.”

— Carl Gustav Jung, psiquiatra e fundador da psicologia analítica, em Presente e Futuro.

Os complexos funcionam como pequenas personalidades autônomas. Quando um debate nos faz ferver, raramente é a discussão presente que fala. Pelo contrário, trata-se de uma ferida antiga que foi tocada. Em O Eu e o Inconsciente, Jung alertava para o perigo da mentalidade de massa. Nesse estado, o indivíduo se dissolve em slogans e abdica da própria responsabilidade moral.

A individuação como resposta às amarras das ideologias políticas

É aqui que o processo de individuação se torna politicamente relevante. Individuar-se não significa isolar-se nem tornar-se apolítico. Trata-se, contudo, de tornar-se consciente dos próprios conteúdos inconscientes. Desse modo, integramos esses conteúdos para que eles deixem de nos governar às cegas.

Jung acreditava que a religião era parte essencial desse processo. Trata-se da função psíquica que nos liga ao sentido e ao transcendente. Quando essa dimensão simbólica é negada, ela não desaparece simplesmente. Em vez disso, ela migra diretamente para a política. Assim, partidos, líderes e causas passam a ocupar o lugar do sagrado. Daí surge o caráter fanático de tantas disputas atuais. De certa forma, a individuação permite ao ser humano se libertar das amarras e da hipnose proporcionada pelas ideologias políticas. Afinal, ela devolve aos símbolos o seu lugar interior e retira das figuras públicas um peso excessivo.

O método da psicanálise diante da polarização

A psicanálise oferece o método adequado para essa travessia. Em análise, aprendemos a suspeitar da própria certeza. Igualmente, aprendemos a perguntar de onde vem a intensidade de uma reação e a que história ela pertence. Esse gesto, aparentemente pequeno, é profundamente subversivo. Quem consegue dizer “sinto raiva, e preciso entender o que ela quer me dizer” já não é inteiramente capturado por ela.

“Onde estava o Id, deve advir o Eu.”

— Sigmund Freud, sobre a tomada de consciência no processo analítico.

A atenção flutuante do analista e a associação livre do paciente ajudam nesse processo. Além disso, a interpretação dos sonhos e a elaboração do luto transformam a repetição em memória. Trazido ao campo prático, isso significa que onde havia reflexo condicionado pode haver decisão consciente.

O respeito às diferenças nas escolhas e ideologias políticas

A recompensa dessa abertura mental é o respeito real às diferenças. Quem reconhece a própria sombra deixa de precisar de um bode expiatório. Do mesmo modo, quem conhece os próprios complexos desconfia do prazer de odiar. Quem integrou o medo já não o terceiriza a um salvador. Passa-se, então, a enxergar no outro um ser humano com feridas e esperanças parecidas com as nossas.

Isso não elimina o conflito, que é inerente à democracia. Elimina, contudo, a sua versão mais tóxica. Trata-se daquela em que a divergência de ideias é vivida como ameaça à própria existência. É dessa maturidade que nasce a harmonia possível numa sociedade plural. Essa harmonia não surge da uniformidade de opiniões, mas da capacidade de sustentar a tensão sem destruir o outro.

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| PASSO A PASSO PARA A LIBERTAÇÃO DAS MANIPULAÇÕES IDEOLÓGICAS          |
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| 1. Análise pessoal para examinar convicções e origens afetivas.         |
| 2. Autoconhecimento através de sonhos, escrita e contato com a arte.   |
| 3. Reflexão prévia sobre o que a indignação revela sobre nós mesmos.    |
| 4. Escuta ativa do adversário sem preparar respostas defensivas.        |
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Como praticar a libertação consciente no dia a dia

Mas como se dá, na prática, essa libertação? Em primeiro lugar, ela ocorre pela análise pessoal. Ela oferece um espaço seguro para examinar as origens afetivas de nossas convicções. Em segundo lugar, ocorre por práticas de autoconhecimento valorizadas pela tradição junguiana. Entre elas estão o registro dos sonhos, a imaginação ativa, a escrita simbólica e o contato com a arte.

Em terceiro lugar, dá-se pelo hábito de perguntar o que a indignação revela sobre nós antes de acusar o outro. Há ainda um exercício simples e raramente praticado: escutar um adversário sem preparar a resposta. Trata-se de ouvir com a curiosidade de quem tenta compreender de qual medo aquela posição foi feita. Quem faz isso descobre que muitos desacordos políticos são desacordos sobre o que cada grupo teme perder.

Esse movimento tem uma dimensão coletiva que não deve ser subestimada. Povos que viveram violência política carregam memórias não elaboradas. Por conseguinte, o que não é elaborado tende a ser repetido. Sociedades também precisam de seus processos de luto e memória. Cada indivíduo que se torna mais consciente contribui para que a história seja contada com menos idealização. Assim, as gerações seguintes herdam menos ressentimento.

O papel do ambiente digital na reprodução de ideologias políticas

O ambiente digital agrava consideravelmente esse problema. Os algoritmos premiam a indignação e aproximam apenas quem pensa igual. Além disso, eles expõem cada pessoa a estímulos desenhados para ativar medo e raiva. Em termos junguianos, trata-se de uma máquina de produzir projeções. A sombra de cada grupo é continuamente exibida no outro. Consequentemente, o complexo é acionado antes que a reflexão possa intervir.

Reconhecer esse mecanismo é o primeiro passo de liberdade. Quem percebe que o impulso de atacar nasce de um afeto ganha um intervalo vital. Nesse pequeno espaço entre o estímulo e a resposta, a consciência finalmente pode agir.

A ética do diálogo frente às ideologias políticas

Esta travessia também pede uma ética rigorosa do diálogo.

“O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas transformam-se.”

— Carl Gustav Jung, psicólogo e ensaísta.

Dialogar de verdade é aceitar o risco de ser alterado pelo outro. Isso só é possível para quem não depende da vitória para se sentir inteiro. A polarização prospera onde a identidade é frágil e precisa de inimigos. Por outro lado, o diálogo prospera onde a identidade é sólida para tolerar a dúvida. A educação e a formação política ganhariam muito se incorporassem esse aprendizado emocional aos seus conteúdos.

Há ainda um conceito junguiano essencial: a função transcendente. Quando duas posições opostas são mantidas em tensão consciente, a psique produz um terceiro elemento. Trata-se de um símbolo novo que reconcilia o que parecia irreconciliável. Politicamente, isso equivale a reconhecer que cada polo guarda uma verdade parcial. Seja o cuidado com a ordem, seja o anseio por mudança, ambas são necessidades legítimas. Quem suporta essa tensão deixa de ver o debate como guerra. Não se trata de relativismo, mas de saber que nenhuma ideologia esgota a complexidade da vida.

Autoconhecimento e cidadania ativa

Convém, no entanto, evitar um otimismo ingênuo. A libertação do inconsciente não é um estado definitivo que se conserva para sempre. Jung falava de um processo que dura a vida inteira e jamais se completa. O próprio inconsciente continuará a produzir complexos e atração coletiva. Tampouco se trata de um privilégio individual dissociado das condições concretas. Pobreza, violência e desinformação também moldam escolhas. Portanto, nenhuma psicologia dispensa instituições justas.

A individuação não substitui a política; ela apenas qualifica quem a pratica. Um cidadão consciente continuará tendo posições e valores. Ele sustentará suas ideias por convicção e não por compulsão. Assim, poderá revê-las sem sentir que perde a si mesmo. Os insights que possibilitam a libertação são dados pelo desenvolvimento da mente. Nenhum poder se sustenta apenas pela força. Ele depende da adesão emocional de quem o obedece e de medos manipulados.

“A paz social começa, silenciosamente, na paz que cada um constrói com as próprias sombras.”

— Síntese da Psicologia Analítica sobre a Vida Pública.

Uma população que aprende a reconhecer essas engrenagens torna-se bem menos manipulável. Por isso, o trabalho interior é também um ato cívico relevante. Cada pessoa que atravessa a própria sombra reduz a quantidade de ódio disponível para mobilização. É possível ao indivíduo se libertar das polarizações, entendendo libertação como o fim da servidão inconsciente. A psicologia analítica não promete uma sociedade sem conflitos. Ela propõe algo mais realista: pessoas capazes de olhar para dentro antes de apontar para fora. Num tempo em que tudo nos convida ao ódio, o gesto mais radical é parar e perguntar quem em nós está falando.

Extremismo e Segurança Pública: As Lições do Colapso Europeu para o Brasil

cIArce
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O avanço do extremismo e a segurança pública vulnerável tornaram-se desafios globais urgentes. O termo Intifada, de origem árabe, significa “agitar” ou “sacudir”. Ele marcou os levantes palestinos entre 1987 e 2005. No entanto, o fenômeno não se limita mais a Israel. Hoje, ele se espalha pelo mundo como uma praga.

Paris e outras cidades francesas enfrentam esses levantes de forma frequente. Além disso, a Europa vê esse pesadelo se repetir em metrópoles como Milão, Bruxelas e Londres. Os principais protagonistas desses atos são, na maioria, filhos de imigrantes muçulmanos.

Por essa razão, arruaças exibem bandeiras palestinas e do Hamas. Tais grupos reúnem os autoproclamados novos revolucionários árabes do século XXI. Contudo, esses rebeldes dispõem de planejamento e dinheiro abundantes. O financiamento vem de fundações como a de Soros, da Irmandade Muçulmana e de partidos de esquerda.

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As Conexões Financeiras e o Alerta Histórico

A fusão entre esquerdas globais e movimentos muçulmanos promete desestabilizar o planeta. Além disso, somam-se recursos do terrorismo, do narcotráfico e do crime organizado. Essa união constrói uma superestrutura focada em aniquilar a cultura ocidental.

Portanto, toda civilização que desmorona deixa um rastro de avisos ignorados. Ninguém perde a segurança e a autoridade das leis de um dia para o outro. Pelo contrário, essa perda ocorre aos poucos. Ela avança por concessões pequenas, silêncios convenientes e autoridades covardes.

A Europa vive exatamente esse processo de erosão institucional. Enquanto isso, o Brasil observa tudo de camarote com sua insensatez habitual, como se a história fosse um espetáculo alheio.

A Crise na Europa: O Extremismo e a Segurança Pública em Risco

Precisamos olhar os fatos sem anestesia. Desde os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, a ameaça terrorista contra judeus cresceu. Consequentemente, relatórios do International Centre for Counter-Terrorism (ICCT) confirmam um aumento nos ataques antissemitas na Europa após o início da guerra no Irã, em fevereiro de 2026.

Por exemplo, em outubro de 2025, um agressor atropelou e esfaqueou pessoas diante de uma sinagoga em Manchester. O ataque deixou dois mortos. Da mesma forma, dois meses depois, um atentado jihadista na praia de Bondi, na Austrália, matou 15 pessoas e feriu 40 durante o Hanucá.

Esses fatos não são abstrações estatísticas. Trata-se de famílias reais que foram acender velas e voltaram em caixões. O número de crimes de ódio permanece elevado. Na Holanda, os 867 casos registrados em 2025 ficaram próximos dos recordes de 2023 e 2024. Quando o ódio vira rotina, o Estado falha e perde o monopólio da ordem.

A Falência das Autoridades na Proteção dos Cidadãos

Certamente, o problema central não é a fé religiosa. Milhões de muçulmanos vivem na Europa e no Brasil de forma honesta. Eles trabalham, criam seus filhos e respeitam as leis. Inclusive, eles costumam ser as primeiras vítimas do fanatismo.

O verdadeiro problema é a ideologia extrema. Ela transforma tragédias políticas distantes em licença para depredar e matar. Sobretudo, o problema é a omissão de governos covardes. Por medo de perder votos ou sofrer acusações de intolerância, o Estado tolerou o intolerável.

Durante anos, a Europa tratou a falha na integração sociocultural apenas como tese acadêmica. Como resultado, bairros inteiros ficaram sem emprego, escola ou presença policial. Assim, o ressentimento fermentou nesses locais.

Quando a violência explodiu, os governantes hesitaram entre a negação e o pânico. Ou seja, confundiu-se tolerância com omissão. O poder público permitiu que radicais celebrassem massacres em vias públicas sob o pretexto da liberdade de expressão. Todavia, a liberdade protege a divergência; ela jamais deve proteger a apologia ao assassinato.

“A lição é simples e brutal: o Estado que não impõe a lei com igualdade acaba substituído por quem a imponha à força.”

O Impacto no Brasil: Crime Organizado e Segurança Pública

O Brasil costuma se acomodar no mito do povo cordial. Contudo, essa ilusão nos cega para uma realidade perigosa. Nós já enfrentamos nossa própria versão do problema: o poder paralelo desafiando as instituições.

Na Europa, a ameaça surge do extremismo que importa guerras estrangeiras. No Brasil, contudo, o risco vem do crime organizado refinado. As facções brasileiras agora vestem terno, abrem fintechs e compram usinas.

A Operação Carbono Oculto revelou o tamanho desse abismo financeiro. O capital ilícito do Primeiro Comando da Capital (PCC) comprou distribuidoras, transportadoras e postos de combustível. Estima-se que o esquema sonegou R$ 7,67 bilhões em tributos.

Portanto, não estamos lidando com criminalidade comum de rua. Pelo contrário, trata-se de uma estrutura econômica que corrompe o mercado e desafia a soberania nacional.

O Confronto Direto Contra o Estado Brasileiro

A audácia dos criminosos atingiu níveis alarmantes. O assassinato do ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes exemplifica essa escalada. As investigações apontam o PCC como mandante do crime em retaliação ao seu histórico de combate à facção. Esse ato demonstra que o crime organizado ensaia o confronto direto contra o Estado.

A gravidade da situação internacionalizou o debate. Em maio de 2026, a Casa Branca designou o Comando Vermelho (CV) e o PCC como organizações terroristas estrangeiras.

Especialistas e políticos discutem os riscos desta medida para a soberania nacional. O próprio chanceler honorário Celso Amorim apontou preocupações com a classificação externa. No entanto, o simples fato de a discussão atingir esse nível expõe o veredicto de décadas de omissão estatal. Deixamos o problema crescer a ponto de potências estrangeiras planejarem intervenções.

O Niilismo de Gabinete e a Omisão Estatal

Alguns analistas chamam as manifestações violentas de niilismo das ruas. Contudo, o niilismo mais perigoso nasce nos gabinetes governamentais.

É o niilismo de quem trata o combate ao crime como “criminalização da pobreza”. É a postura de quem perdoa a violência política sob o pretexto de “compreender o contexto”. Trata-se da hesitação de autoridades que renunciaram ao seu dever constitucional.

Diretrizes Fundamentais para Preservar a Segurança Pública

Se o Brasil deseja evitar o colapso de cidades como Paris, Londres e Bruxelas, precisará adotar medidas firmes:

  1. Aplicação igualitária da lei: Quem depreda, ameaça ou apoia o terrorismo deve responder por seus atos. A seletividade punitiva destrói a credibilidade da Justiça.
  2. Presença estatal em áreas vulneráveis: O Estado precisa retomar territórios dominados por facções. Isso exige policiais treinados, inteligência financeira, presídios de segurança máxima e rapidez judicial.
  3. Fiscalização do fluxo financeiro: O crime moderno atua no sistema financeiro. Fintechs de fachada e empresas-laranja funcionam como fuzis econômicos. Quem controla o dinheiro domina a guerra.
  4. Limites claros para a tolerância: Um país democrático acolhe a diversidade, mas não pode tolerar quem prega a destruição do próximo. Importar conflitos internacionais para o espaço público brasileiro é uma atitude irresponsável.

Conclusão: O Momento de Agir é Agora

A Europa não ruiu de um dia para o outro. Ela foi cedendo aos poucos. Por fim, os europeus perceberam que o preço de ceder era muito maior do que o de resistir.

Felizmente, o Brasil ainda tem tempo para agir, embora o prazo seja curto. Nosso país possui instituições fortes, uma sociedade pacífica e uma valiosa tradição de convivência inter-religiosa.

No entanto, essas qualidades não se mantêm por inércia. Elas exigem coragem, vontade política e leis aplicadas com firmeza. Entender a liberdade como licença para o caos resulta na perda da própria liberdade. O fogo que queima distante pode chegar à nossa porta. Resta saber se seremos a geração que agiu ou a que preferiu mudar de canal.

❓ Pergunta aos leitores

Você acredita que as autoridades brasileiras estão aplicando a lei de forma rigorosa contra o avanço do crime organizado e do extremismo? Deixe seu comentário abaixo!

França é o Brasil de amanhã na alerta sobre a expansão do Estado

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A expansão do Estado, o peso dos impostos e a concentração de poder econômico nas mãos da burocracia são problemas globais. Diante desse cenário, surge o alerta de que a França é o Brasil de amanhã caso escolhas econômicas equivocadas persistam. Afinal, uma das maiores economias do planeta oferece ao nosso país uma advertência urgente. Com efeito, até nações ricas enfrentam ciclos de endividamento, crescimento medíocre e conflitos sociais quando o poder público gasta mais do que arrecada de forma sustentável.

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Paralelos econômicos entre o modelo francês e o cenário brasileiro

Certamente, ninguém afirma que os dois países sejam idênticos ou caminhem para o mesmo resultado exato. Pelo contrário, trata-se de reconhecer que determinadas escolhas econômicas produzem consequências semelhantes, independentemente da história ou geografia. Portanto, quando governos prometem mais do que podem entregar e aumentam despesas sem prioridades, a conta recai diretamente sobre o contribuinte.

Analisando os indicadores recentes, a dimensão do problema francês fica evidente. Com efeito, projeções da Comissão Europeia indicam que a dívida pública francesa pode alcançar 118,1% em 2026 e 120,2% em 2027. Além disso, o déficit público deve permanecer em 5,1% do PIB em 2026, podendo atingir 5,7% no ano seguinte. Paralelamente, projeções de crescimento econômico de apenas 0,8% no mesmo período revelam a enorme dificuldade de conciliar um Estado gigante com uma economia estagnada.

Peso das despesas públicas na sustentabilidade financeira

Relatórios da Comissão Europeia mostram que os gastos governamentais franceses atingiram 57,2% do PIB em 2025. Esse patamar supera consideravelmente a média dos países da União Europeia. Desse modo, manter uma estrutura desse porte exige arrecadação pesada, endividamento contínuo ou uma combinação perigosa de ambos.

Serviços públicos são indispensáveis para qualquer sociedade desenvolvida. Todavia, a grande questão reside na capacidade de financiá-los sem comprometer o futuro econômico. Por conseguinte, o acúmulo de dívidas reduz a margem de manobra dos governantes e transfere o custo das decisões atuais para as próximas gerações.

Alertas internacionais sobre o avanço do endividamento público

Observando o cenário brasileiro, fica claro que não podemos nos iludir com nossa dimensão continental. Estruturas tributárias complexas, necessidades sociais imensas e baixa produtividade marcam a realidade nacional. Consequentemente, reproduzir os erros de economias maduras significa desperdiçar a oportunidade de aprender com a experiência alheia.

Diferenças institucionais e de renda por habitante entre Brasil e França existem e são expressivas. Apesar disso, a expansão permanente das despesas sem estratégia clara de crescimento gera travamentos inevitáveis. Assim, mais cedo ou mais tarde, a realidade força os governos a escolher entre cortar gastos, elevar impostos ou emitir mais dívida.

Tentação do aumento de impostos no debate fiscal

Historicamente, o debate fiscal no Brasil trata a arrecadação como se pudesse crescer indefinidamente. Diante de cada crise, surgem propostas para criar contribuições, aumentar alíquotas e expandir bases de incidência. Por outro lado, raramente a classe política demonstra a mesma coragem para cortar privilégios, avaliar programas ou eliminar despesas ineficientes.

Efeitos concretos desse desequilíbrio afetam o setor produtivo diariamente. Por exemplo, empresas adiam investimentos necessários, empreendedores lutam para sobreviver e famílias perdem poder de compra. Ademais, a tributação excessiva destrói a capacidade de poupança e limita a geração espontânea de riquezas.

Círculo vicioso do baixo crescimento econômico

Travamentos na produtividade mantêm a renda limitada e expandem as demandas sociais por socorro estatal. Como resposta, o governo eleva a pressão por mais impostos, alimentando um círculo vicioso. Portanto, superar essa armadilha exige a retirada parcial do Estado de atividades próprias da iniciativa privada e a melhoria do gasto público.

Com efeito, promessas irrealistas feitas por políticas de esquerda frequentemente comprometem a saúde das finanças públicas mundialmente. Desse modo, esse modelo gera dependência e enfraquece as bases da prosperidade sustentável.

União da Poupança e direcionamento do capital privado

Debates recentes na Europa examinam também a relação entre poupança privada e financiamento estatal. Em março de 2025, a Comissão Europeia apresentou a iniciativa União da Poupança e dos Investimentos. O objetivo oficial busca aproximar os cerca de 10 trilhões de euros parados em depósitos bancários dos mercados de capitais e das empresas.

Oferecer instrumentos para o cidadão investir voluntariamente difere radicalmente de impor direcionamentos compulsórios. A primeira opção estimula a concorrência e fortalece a formação de patrimônio. Em contrapartida, qualquer grau de coerção estatal compromete a liberdade econômica e transfere riscos indevidos ao poupador.

Fronteiras entre incentivo voluntário e coerção estatal

Propostas europeias em sua forma oficial não preveem o confisco da poupança dos cidadãos. É fundamental fazer essa distinção para manter a precisão das críticas com base em documentos públicos.

Contudo, monitorar tentativas futuras de transformar a poupança privada em instrumento obrigatório de financiamento político permanece essencial. Portanto, a linha entre incentivo econômico e imposição governamental precisa continuar claramente definida.

Avanço das moedas digitais e o projeto Drex no Brasil

Acompanhar esse cenário exige atenção redobrada do Brasil quanto ao desenvolvimento de infraestruturas financeiras digitais. O Banco Central vem testando gradualmente a adoção do Drex, moeda digital associada a plataformas de ativos financeiros. A autoridade monetária destaca a busca por eficiência, segurança e integração de serviços.

Tecnologias de digitalização podem reduzir custos operacionais e acelerar transações complexas. No entanto, os riscos principais não residem no software, mas nas regras jurídicas que disciplinarão seu uso.

Garantias fundamentais e limites ao poder de vigilância

Sistemas digitais avançados exigem proteção rigorosa da privacidade, transparência e limites legally claros à atuação do Estado. Sem essas salvaguardas, ferramentas criadas para gerar eficiência podem se transformar em mecanismos de vigilância ou restrição financeira.

Atualmente, não existem provas de que as regras do Drex autorizem confiscos automáticos ou controle arbitrário de despesas. Todavia, debater os limites da tecnologia antes de sua implementação em larga escala representa uma medida de prudência institucional.

Correção de rumos e proteção da liberdade econômica

O leitor não deve interpretar os alertas do exemplo francês como profecias de desastre inevitável, mas como um convite à responsabilidade fiscal. Dívidas fora de controle não surgem da noite para o dia; resultam de sucessivas decisões que os governantes justificam como exceções.

Defender a liberdade econômica exige mais do que discursos genéricos contra a burocracia. Requer contas públicas transparentes, avaliação rigorosa de programas, segurança jurídica e respeito à propriedade privada.

Lições urgentes para a sustentabilidade da economia brasileira

Recursos são escassos em qualquer regime político, e a prosperidade depende de produzir mais do que se consome ao longo do tempo. Consequentemente, ignorar essa realidade limita as condições materiais que sustentam até as políticas sociais mais bem intencionadas.

O momento adequado para corrigir incentivos, estabelecer limites e proteger o patrimônio dos cidadãos é agora, antes que a escassez de opções imponha escolhas dolorosas. Caso o governo nada faça para melhorar a qualidade do gasto e estimular a produtividade, o Brasil enfrentará custos cada vez mais altos pela inércia.

Neoenergia e o limite de paciência dos consumidores

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A prestação de um serviço público essencial exige avaliação rigorosa. Portanto, não podemos avaliá-la apenas pelo número de consumidores atendidos. Tampouco basta analisar o volume de investimentos anunciado ou os resultados financeiros da concessionária. A medida mais importante de sua eficiência está naquilo que chega diariamente à casa do cidadão. Ou seja, energia disponível, faturamento correto, atendimento resolutivo e respeito aos direitos de quem paga a conta.

No Distrito Federal, a escalada das reclamações contra a empresa coloca em evidência um problema grave. Esse quadro vem acompanhado de questionamentos do Ministério Público e de cobranças dos órgãos de defesa do consumidor. Dessa forma, a situação ultrapassa os limites de uma simples divergência comercial. Afinal, até que ponto a população pode continuar submetida a um serviço cuja qualidade sofre contestações crescentes?

VISTO, LIDO E OUVIDO Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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O aumento das reclamações e o caso Neoenergia e a paciência dos consumidores

Os números divulgados pelo Procon-DF são suficientemente expressivos para exigir explicações imediatas. Entre janeiro e junho de 2026, o órgão registrou 521 reclamações contra a concessionária, ante 276 no mesmo período de 2025. Esse salto representou um aumento de aproximadamente 88,8%. Além disso, até o início de setembro, o total alcançou 731 registros. Esse número superou em 25,6% as 582 reclamações contabilizadas durante todo o ano anterior.

Portanto, não se trata de uma variação estatística irrelevante. Pelo contrário, os dados revelam uma deterioração que merece investigação, transparência e providências concretas. A reportagem do portal Metrópoles publicou esses dados em 7 de outubro de 2026, com informações oficiais atribuídas ao órgão de defesa do consumidor.

Ação civil pública do Ministério Público (MPDFT)

Mais contundente ainda é o quadro apresentado pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). Em 22 de julho de 2026, a Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor ajuizou ação civil pública contra a empresa. O órgão requereu R$ 86 milhões por danos morais coletivos. Um inquérito civil instaurado em fevereiro antecedeu essa iniciativa judicial. O processo teve motivação nas reclamações de consumidores de diferentes localidades do DF.

Entre os problemas relatados estão interrupções sucessivas no fornecimento e demora no restabelecimento da energia. Além disso, os moradores relataram danos a eletrodomésticos, prejuízos à produção agrícola e dificuldades para solucionar demandas administrativas. Por conseguinte, o Ministério Público sustenta que as ocorrências revelam falhas persistentes e sistêmicas. Cabe ressaltar que o valor solicitado constitui um pedido judicial, não uma condenação definitiva.

Problemas comerciais e a plataforma Consumidor.gov.br

A gravidade da situação aumenta quando se observa a abrangência das queixas. Segundo o MPDFT, os problemas identificados não se restringem à continuidade do fornecimento. As falhas atingem também o sistema comercial da concessionária. Moradores relatam dificuldades para emitir segundas vias de contas, cobranças duplicadas, faturas zeradas e falhas no atendimento ao cliente.

Na plataforma Consumidor.gov.br, as reclamações contra a empresa passaram de 1.049, em 2024, para 2.078, em 2025. Além disso, até maio de 2026, os registros já haviam alcançado 2.183 ocorrências. Ou seja, o número ultrapassou todo o total do ano anterior em poucos meses. Embora as plataformas e os critérios de registro sejam diferentes, os números reforçam uma urgência evidente. As autoridades precisam examinar a qualidade do atendimento e a capacidade da empresa de resolver os problemas apresentados.

Direitos do consumidor e a polêmica das faturas no DF

O peso da burocracia sobre o cidadão

O consumidor não pode transformar-se em fiscal permanente da concessionária. Quem recebe uma conta de energia tem o direito de presumir a precisão dos serviços. O cidadão espera que o valor cobrado corresponda ao consumo efetivo. Espera também que os equipamentos de medição funcionem corretamente. Além disso, exige que a empresa corrija eventuais erros sem exigir uma peregrinação exaustiva. Essa saga costuma envolver centrais telefônicas, aplicativos, protocolos e repartições públicas.

A necessidade de recorrer repetidamente a diferentes canais para obter solução representa um custo invisível. Esse processo consome tempo, dinheiro e tranquilidade do morador. Portanto, esse peso não aparece na fatura mensal, mas impacta diretamente a vida cotidiana das famílias.

“A necessidade de recorrer repetidamente a diferentes canais para obter uma solução representa um custo de tempo, dinheiro e tranquilidade que não aparece na fatura.” — Análise sobre direitos do consumidor no DF

As contas de luz de setembro de 2026 e o fator climático

A controvérsia sobre o aumento das contas de luz em setembro de 2026 ilustra essa dificuldade. Moradores relataram valores muito superiores aos esperados, mesmo sem mudanças significativas em seus hábitos de consumo. A distribuidora atribuiu a elevação, entre outros fatores, ao calor intenso e ao uso mais frequente de aparelhos de climatização. A empresa informou um aumento médio de 14% no consumo de energia no Distrito Federal no período.

Por sua vez, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) reconheceu o crescimento das reclamações relacionadas à variação do consumo. O órgão regulador registrou um aumento preliminar próximo de 7% em relação ao mês anterior.

Transparência e a fiscalização da Neoenergia e a paciência dos consumidores

A necessidade de respostas individualizadas

É necessário, portanto, distinguir duas questões fundamentais sobre o tema. Uma conta mais alta não comprova, por si só, erro de medição ou cobrança indevida. Afinal, temperaturas elevadas, ciclos de leitura mais longos, alterações no consumo e incidência de tributos podem explicar parte da variação.

Entretanto, essas possibilidades tampouco autorizam a concessionária a tratar toda contestação como consequência natural do clima. A resposta adequada exige demonstrativos compreensíveis, histórico de consumo detalhado e verificação técnica dos medidores quando cabível. Exige também a apuração individualizada de cada divergência. Afinal, a transparência não é um favor concedido ao cliente, mas uma obrigação inerente à prestação de um serviço público essencial.

A atuação do Ministério Público e as tentativas de negociação

A própria atuação do MPDFT demonstra que o problema ultrapassou a esfera das reclamações isoladas. De acordo com o órgão, promotores realizaram reuniões com a diretoria da empresa. Houve inclusive a tentativa de formalizar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).

Contudo, a Promotoria considerou a contraproposta apresentada insatisfatória. Por essa razão, a instituição decidiu recorrer diretamente à Justiça. Essa medida não substitui a necessidade de apuração judicial. No entanto, o gesto evidencia que os instrumentos de negociação administrativa não produziram o resultado esperado pelas autoridades.

O papel dos órgãos reguladores e do governo local

A responsabilidade fiscalizatória da Aneel

Diante desse quadro crítico, a responsabilidade da Aneel também precisa passar por exame rigoroso. A agência reguladora dispõe de instrumentos legais para fiscalizar indicadores de qualidade. O órgão pode acompanhar reclamações, apurar descumprimentos e aplicar as medidas previstas nas normas do setor elétrico.

Portanto, não basta apenas registrar queixas e recomendar que o consumidor procure novamente a distribuidora. É indispensável demonstrar quais providências concretas a agência adotou. A sociedade precisa saber quais metas a empresa descumpriu, quais sanções eventualmente se justificam e quais resultados as ações alcançaram. A fiscalização deve manter proporção com a gravidade das evidências. Além disso, deve ser transparente para permitir o controle público.

O posicionamento do Governo do Distrito Federal

A discussão envolve ainda o Governo do Distrito Federal, o Procon-DF e os representantes políticos da população. A governadora Celina Leão declarou, em entrevista à Rádio Metrópoles em agosto de 2026, que o governo poderia rever a concessão caso a prestação do serviço não melhorasse.

Contudo, declarações dessa natureza somente terão significado real se vierem acompanhadas de medidas verificáveis. O governo precisa estabelecer prazos definidos e realizar a cobrança efetiva dos compromissos contratuais. A população não precisa de promessas formuladas em meio à insatisfação pública. O cidadão exige resultados claros que possam ser medidos no dia a dia.

Respostas concretas e soluções para o setor elétrico

Qualidade do serviço versus modelo de concessão

Também seria precipitado concluir que toda falha decorre exclusivamente da condição privada da concessionária. Tampouco a simples substituição do operador resolveria automaticamente os problemas operacionais. O princípio que deve prevalecer é a capacidade de prestar um serviço adequado, contínuo, seguro e eficiente, conforme as obrigações legais e contratuais.

A concessão não transfere à empresa apenas o direito de explorar economicamente uma atividade. Pelo contrário, impõe responsabilidades proporcionais à relevância social do serviço. A energia elétrica possui caráter indispensável para residências, hospitais, estabelecimentos comerciais, escolas e atividades produtivas.

Medidas indispensáveis para recuperar a confiança

O caminho para recuperar a confiança da sociedade começa pela publicação periódica de indicadores transparentes. A empresa deve divulgar dados sobre interrupção no fornecimento, duração das ocorrências e reincidência de falhas por região administrativa. Precisa também informar o tempo de atendimento, erros de faturamento e ressarcimentos por danos elétricos.

É igualmente necessário esclarecer quantas reclamações a distribuidora resolveu, quantas permanecem pendentes e quantas voltaram a ocorrer com o mesmo consumidor. A divulgação desses dados permitiria avaliar a conduta da concessionária. Dessa forma, a população saberia se a empresa está corrigindo as causas dos problemas ou apenas encerrando protocolos sem eliminar suas origens.

Conclusão: a energia elétrica como bem fundamental

Energia elétrica não é um privilégio, muito menos uma mercadoria cujo fornecimento possa sofrer tratamento indiferente. O consumidor brasiliense cumpre sua parte ao pagar as faturas pontualmente. Em contrapartida, ele depende da concessionária para manter atividades elementares de sua vida. Portanto, o cidadão tem o direito pleno de exigir continuidade, segurança, cobrança correta e atendimento digno.

A multiplicação das reclamações, os questionamentos do Ministério Público e as dificuldades relatadas pelos usuários compõem um cenário que exige respostas objetivas. Se houver falhas comprovadas, a empresa deverá corrigi-las, e os responsáveis estarão sujeitos às consequências previstas em lei. Por outro lado, se houver cobrança correta e aumento efetivo de consumo, a empresa deverá demonstrá-lo com total clareza. O que a sociedade não admite é a normalização do conflito permanente entre a concessionária e os consumidores.

A empresa precisa demonstrar, por resultados concretos, que está à altura da responsabilidade que assumiu. À Aneel cabe fiscalizar com rigor; ao Procon-DF, defender os consumidores; ao Ministério Público, buscar a proteção dos direitos coletivos; e ao governo local, acompanhar o cumprimento das obrigações da concessão. Por fim, à população cabe exigir que cada instituição exerça suas atribuições. A conta de luz já pesa excessivamente no orçamento. Não pode pesar também sobre o cidadão o custo da ineficiência, da falta de transparência e da ausência de soluções.

A conta alta que chega em janeiro de 2027

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Os desafios econômicos do Brasil em 2027 mostram-se extremamente complexos. O segundo turno de 25 de outubro opõe duas visões de país. Contudo, essa disputa coloca o vencedor diante de um mesmo problema fiscal. O Brasil chega a 2027 com inflação acima da meta. Além disso, os juros seguem entre os mais altos do mundo. A dívida pública mantém trajetória ascendente. Por conseguinte, existe um espaço político muito estreito para corrigir esses desequilíbrios.

O primeiro turno antecipou esse cenário de divisão. Flávio Bolsonaro (PL) somou 47,03% dos votos válidos. Por outro lado, Lula (PT) alcançou 45,16%. Portanto, o eleitorado mostrou-se dividido quase ao meio. Essa divisão antecipa um governo sem folga de capital político, independentemente do resultado. Se o eleito for de direita, o mercado esperará ajuste e reformas. No entanto, o eleitor exigirá a manutenção dos benefícios. Conciliar essas duas expectativas será o desafio central.

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O cálculo fiscal e os desafios econômicos do Brasil em 2027

O governo federal opera com déficit primário projetado em torno de 0,5% do PIB em 2026. Esse dado consta nos relatórios oficiais do Boletim Focus do Banco Central. Paralelamente, a dívida líquida do setor público deve passar de cerca de 70% do PIB neste ano para aproximadamente 79% em 2029. Além disso, a dívida bruta caminha para a casa dos 90%. Vale lembrar que essa é a métrica observada pelas agências de risco.

O arcabouço fiscal em vigor limita o crescimento real da despesa. Contudo, a norma depende de arrecadação crescente para ser cumprida. Dessa forma, boa parte do mercado duvida do alcance das metas dos próximos anos sem receitas extraordinárias. O novo presidente herda, portanto, uma decisão incômoda. Ele precisará perseguir o equilíbrio por meio de cortes politicamente custosos. Caso contrário, aceitará a deterioração e pagará o preço em prêmio de risco.

Juros altos e o peso da dívida pública

Esse movimento marcou o quinto corte consecutivo. A taxa Selic caiu para 13,75% ao ano em setembro. Apesar disso, a taxa permanece em patamar fortemente restritivo. Por conseguinte, o resultado nominal tem déficit próximo de 8,5% do PIB. É exatamente aí que a dívida cresce, pois o cálculo inclui os juros.

Cada ponto percentual de juros a mais encarece o serviço da dívida em dezenas de bilhões de reais por ano. A queda dos juros é o maior alívio fiscal disponível. No entanto, essa redução não se decreta por canetada. Ela depende de credibilidade no mercado. Se um governo sinalizar frouxidão nas contas, ele verá o efeito oposto. Nesse caso, a curva futura se afastará do desejado.

Inflação e a autonomia do Banco Central

As projeções para o IPCA de 2026 estão em torno de 5%. Esse valor fica acima do teto de tolerância da meta de 3%. Além disso, o Banco Central projeta inflação acima do centro da meta no horizonte relevante.

Um presidente eleito será tentado a pressionar por cortes mais rápidos de juros. Afinal, qualquer governante busca destravar o crescimento econômico. O respeito à autonomia da autoridade monetária será um teste de maturidade. Esse teste ocorrerá mesmo quando as decisões atrapalharem o calendário político. Afinal, interferir na instituição garante dólar mais caro e inflação mais persistente. Para um governo de direita, esse teste é ainda mais simbólico, pois ele se apresenta como fiador da ortodoxia.

Como superar os gargalos orçamentários nos desafios econômicos do Brasil em 2027

Orçamento rígido e promessas generosas

A maior parte da despesa federal é obrigatória. Esse grupo inclui Previdência, benefícios assistenciais, pessoal e pisos constitucionais de saúde e educação. Além disso, existe a vinculação do salário mínimo a diversos gastos. Somam-se a isso as emendas parlamentares impositivas. Essas emendas reduziram a margem de manobra do Executivo.

Há também a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Essa medida já está em vigor e é popular demais para ser revertida. Contudo, sua compensação depende de tributação mínima sobre rendas mais altas. Prometer redução de impostos, manutenção de programas sociais e ajuste fiscal ao mesmo tempo é aritmeticamente inviável. Portanto, o eleito terá de escolher o que será sacrificado. A conta do eleitor, em geral, chega muito depressa.

Governabilidade e o papel do Congresso Nacional

Qualquer agenda econômica passa necessariamente pelo Legislativo. O Congresso eleito em outubro tende a ser fragmentado e protagonista do Orçamento. Um presidente de direita poderá contar com uma bancada afinada em pautas liberais. Essas pautas incluem privatizações e desburocratização. No entanto, o apoio do Centrão costuma ter preço em cargos e emendas.

A tensão política é bastante conhecida no Brasília. A base que ajuda a aprovar reformas é a mesma que pressiona por gastos. Sem uma coalizão sólida, as reformas administrativa e previdenciária dificilmente avançam. Afinal, essas são as matérias mais difíceis no Parlamento.

Crescimento medíocre e produtividade estagnada

O mercado projeta expansão do PIB em torno de 1,9% em 2026. Esse ritmo esconde um problema estrutural do país. O crescimento potencial brasileiro é baixo, o mercado de trabalho está aquecido e a produtividade avança pouco. Com o desemprego em patamares reduzidos, qualquer estímulo de demanda converte-se em inflação. Ou seja, o estímulo não vira produção real.

A saída exige obrigatoriamente ganhos de oferta. Isso significa investimento em infraestrutura, melhora do ambiente de negócios e segurança jurídica para concessões. Além disso, exige qualificação da mão de obra. No entanto, essa é uma agenda de longo prazo que não rende dividendos eleitorais em quatro anos.

O cenário internacional e a estrutura fiscal de 2027

Reformas em transição e o impacto tributário

A reforma tributária sobre o consumo já foi aprovada. Porém, sua implementação se estenderá por anos. Esse processo trará regulamentações, conflitos federativos e riscos de aumento da complexidade. O próximo presidente terá de conduzir essa transição sem desfigurá-la.

Além disso, ele precisará enfrentar o que ficou de fora da proposta original. Isso inclui a tributação da renda e do patrimônio, além da reforma administrativa. Também exige a revisão de subsídios e renúncias fiscais. Afinal, esses benefícios consomem parcela relevante da arrecadação e raramente sofrem cortes.

Cenário externo, câmbio e geopolítica

O dólar projetado perto de R$ 5,20 depende de fatores externos e internos. Ele reflete a percepção de risco fiscal e o ciclo de juros americano. Além disso, as tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos afetam as projeções. A disputa tecnológica entre Washington e Pequim também gera impactos. Paralelamente, a dependência do agronegócio em relação à China exige uma diplomacia comercial pragmática.

Afinidade ideológica com Washington não garante concessões automáticas. Inclusive, um alinhamento automático pode custar mercados valiosos. A ratificação do acordo Mercosul-União Europeia e a reputação ambiental do país também pesam bastante. Especialmente após a COP30, esses fatores definirão o acesso a mercados e capital.

Famílias endividadas e o crédito caro

O crédito caro e o comprometimento da renda com dívidas reduzem o consumo. Por conseguinte, esses fatores aumentam a taxa de inadimplência. Medidas de renegociação parecem tentadoras para qualquer governo. Contudo, se forem mal desenhadas, elas estimulam novo endividamento e pressionam bancos públicos. Trata-se de um problema complexo que combina economia, política social e risco fiscal.

Previdência, estatais e as escolhas do novo governante

Previdência, indexação e gastos sociais

A pressão demográfica atua de forma lenta, porém implacável. O envelhecimento da população eleva despesas com aposentadorias e com o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Além disso, a regra de reajuste do salário mínimo transmite cada aumento a toda a folha de benefícios.

A reforma de 2019 comprou tempo, mas não resolveu o problema estrutural. Por isso, discutir a desindexação de benefícios ou rever pisos constitucionais é um tabu em ano eleitoral. Um presidente de direita precisará dizer com franqueza onde pretende cortar. Ele precisará agir sem atingir os mais pobres, que formam parte de sua base eleitoral. Programas como o Bolsa Família dificilmente serão desmontados. Portanto, a questão central é definir quem os financiará e com qual critério.

Estatais, preços administrados e investimentos

A política de preços de combustíveis e energia é fonte recorrente de atrito. O mesmo ocorre com a governança da Petrobras e o papel dos bancos públicos. Privatizar pode reduzir a pressão fiscal e atrair capital estrangeiro. No entanto, processos mal conduzidos geram contestação judicial e perda de valor.

Ao mesmo tempo, o investimento público encontra-se comprimido pelo custeio. Por essa razão, a infraestrutura depende de concessões e parcerias com o setor privado. Todavia, essas parcerias só aparecem quando há previsibilidade regulatória. A direita costuma prometer destravar o investimento privado. Para cumpri-la, ela precisará oferecer regras estáveis e respeitá-las no longo prazo

Dilemas do mandato e o que esperar de 2027

O dilema próprio da direita no poder

Um governo de direita enfrenta uma contradição que a campanha raramente admite. O discurso de redução de impostos colide com a necessidade de manter programas populares. Além disso, enfrenta o apetite do Centrão por recursos e a rigidez dos gastos obrigatórios.

Há também o risco de buscar resultados por atalhos. Esses atalhos incluem renúncias fiscais, créditos subsidiados ou pressão sobre estatais. Tais medidas desmontariam a credibilidade conquistada com o mercado. Por fim, existe a dimensão política. O capital eleitoral de um líder polarizador pode dificultar acordos no Congresso. Isso ocorre no momento em que as reformas exigem ampla interlocução.

Confiança, classificação de risco e fluxo de capital

O Brasil segue abaixo do grau de investimento na maioria das agências de risco. Por isso, o custo de financiamento do Tesouro reflete essa percepção negativa. Os primeiros sinais do presidente eleito serão lidos em tempo real pelos investidores. Essa leitura começará pela escolha da equipe econômica.

Nomes respeitados e um desenho fiscal crível podem reduzir o prêmio de risco. Por outro lado, ruídos ou interferências em instituições técnicas produzem o efeito inverso. A janela entre a eleição e a posse é o período em que a incerteza cobra seu preço no câmbio e nos juros futuros.

Custo de vida e poder de compra da população

Por trás dos indicadores agregados está o orçamento doméstico. Alimentos, aluguéis, serviços e tarifas pesam mais para quem ganha menos. Por conseguinte, o eleitor cobra do governo aquilo que sente no supermercado. Ele não julga o governo pelos relatórios do Banco Central.

Políticas de contenção de preços por meio de tabelamentos ou controle artificial aliviam apenas no curto prazo. Contudo, elas cobram uma conta alta no médio prazo. Essa conta vem na forma de déficits maiores ou represamento de tarifas. O presidente que resistir a esse atalho enfrentará impopularidade antes de colher resultados. Trata-se de um custo que poucos governantes aceitam pagar.

O que esperar do futuro econômico do país

O próximo presidente não terá lua de mel com o eleitorado. A janela de legitimidade, de poucos meses, deverá ser usada com extrema clareza. Ele precisará anunciar a âncora fiscal, definir a relação com o Banco Central e apresentar um calendário de reformas.

Um governo de direita que honre a responsabilidade fiscal poderá colher queda de juros e valorização do real. Contudo, se ceder à tentação de gastar para agradar o eleitor, repetirá erros históricos. Em ambos os casos, o país já não tem margem para adiar suas escolhas.