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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Crise da saúde pública no Distrito Federal deixou de ser percepção isolada para se tornar um diagnóstico amplamente documentado por pesquisas, órgãos de controle e pela própria experiência cotidiana da população. O que se vê hoje não é um problema pontual ou conjuntural, mas um colapso progressivo de gestão, planejamento e execução de políticas públicas em um dos setores mais sensíveis do Estado.
Levantamentos recentes mostram que a saúde é, de longe, a área mais mal avaliada pela população do DF. Pesquisa do ObservaDF indica níveis persistentes de insatisfação, com críticas concentradas na má qualidade do atendimento, longas filas e escassez de médicos. Os números ajudam a dimensionar o problema. Estima-se que a fila por consultas, exames e procedimentos ultrapasse a marca de 100 mil demandas reprimidas. Em paralelo, há registros de espera que chegam a meses ou até anos para atendimentos especializados, o que, na prática, significa agravamento de doenças, perda de qualidade de vida e, em muitos casos, risco real à vida dos pacientes.
Esse quadro não surge do nada. Ele é resultado direto de uma combinação de fatores estruturais: falhas de planejamento, gestão ineficiente de recursos, déficit de profissionais e problemas logísticos. Relatórios e ações recentes do Ministério Público do Distrito Federal apontam, por exemplo, falta de equipamentos, carência de pessoal e falhas operacionais como entraves concretos ao funcionamento da rede.
A atenção primária, que deveria funcionar como base do sistema de saúde, também apresenta fragilidades. Embora unidades básicas sejam amplamente utilizadas, a dificuldade de acesso a consultas e a baixa cobertura de acompanhamento preventivo revelam um modelo que não consegue atuar de forma eficaz na prevenção o que acaba sobrecarregando hospitais e emergências.
E é justamente nas emergências que o colapso se torna mais visível. Filas extensas, tempo de espera elevado e sobrecarga de profissionais compõem um cenário que já foi descrito como alarmante por entidades da área. Hospitais operam no limite, enquanto pacientes enfrentam jornadas exaustivas em busca de atendimento básico.
Outro aspecto que agrava a crise é a gestão dos recursos. Apesar de orçamentos bilionários destinados à saúde, há relatos recorrentes de ineficiência na execução, incluindo devolução de verbas federais por incapacidade de planejamento e aplicação. Esse tipo de situação revela um paradoxo típico de sistemas mal geridos: faltam serviços, mas sobram recursos mal utilizados.
Além disso, decisões orçamentárias recentes indicam compressão de investimentos na área, com cortes significativos que impactam diretamente a capacidade de atendimento. Em um cenário já fragilizado, a redução de recursos tende a aprofundar ainda mais os gargalos existentes. Quando cidadãos deixam de acreditar na capacidade do Estado de oferecer atendimento digno, abre-se espaço para soluções improvisadas, judicialização da saúde e aumento da desigualdade no acesso aos serviços.
Há ainda um elemento mais grave, frequentemente apontado no debate público: o risco de que estruturas frágeis se tornem suscetíveis a práticas irregulares. Sistemas com baixa transparência, como já apontado em outras ocasiões nesse espaço, falhas de controle e grande volume de recursos são, historicamente, mais vulneráveis a desvios e corrupção. A saúde pública não admite improviso, nem pode ser gerida sob lógica de curto prazo.
Responsabilidade política, nesse contexto, é inevitável. Gestores atuais e passados respondem, em maior ou menor grau, pelas decisões que moldaram o sistema. No entanto, mais importante do que a atribuição de culpas é a construção de soluções efetivas. Essas soluções passam, necessariamente, por alguns pilares já conhecidos: planejamento estratégico, fortalecimento da atenção primária, gestão eficiente de recursos, valorização de profissionais e implementação de mecanismos rigorosos de controle e transparência.
Sem isso, qualquer tentativa de reforma será superficial. O problema não é a falta de diagnóstico ele está amplamente disponível. O problema é a incapacidade de transformar diagnóstico em ação consistente. O Distrito Federal, por sua importância institucional e capacidade orçamentária, deveria ser referência nacional em saúde pública. O fato de ocupar hoje posição de destaque negativo revela o tamanho do desafio. Se nada for feito de forma estrutural, o cenário tende a se agravar. Mais do que uma crise administrativa, o que está em jogo é a dignidade de uma população que depende do sistema para viver. E esse é um ponto que não admite relativizações: quando a saúde falha, falha o próprio Estado.
A frase que foi pronunciada:
“O SUS sofre mais de problemas de gestão do que de concepção.”
Drauzio Varella

História de Brasília
Está marcado para amanhã, o julgamento mais sensacional do Tribunal do Juri de Brasília. Será julgado o delegado João Pelles. (Publicada em 17. 05.1962)
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Ao estabelecer metas para uma década inteira, o PNE não é apenas um documento administrativo é um compromisso com o futuro de milhões de estudantes. Por isso, exige rigor técnico, clareza de objetivos e alinhamento com práticas que já demonstraram resultados em outros contextos. O que se observa, contudo, segundo críticos do modelo recentemente apresentado, é um desalinhamento preocupante com tendências internacionais consolidadas. Países que avançaram significativamente em educação como Finlândia, Coreia do Sul, Canadá e Estônia seguiram caminhos relativamente convergentes: simplificação curricular, foco em conteúdos essenciais, avaliação constante de desempenho e forte responsabilização de gestores e sistemas.
Nesses sistemas, a lógica é direta. Define-se o que é essencial aprender, organiza-se o currículo de forma sequencial e cumulativa, mede-se o resultado com instrumentos comparáveis e, a partir daí, ajustam-se políticas e práticas. Não há espaço para ambiguidade excessiva ou metas difusas. A educação é tratada como política de Estado baseada em evidências, não como campo de experimentação ideológica. Outro ponto central nesses modelos é a valorização da gestão escolar. Diretores e equipes pedagógicas assumem papel decisivo, com autonomia para implementar estratégias, mas também com responsabilidade clara pelos resultados. O desempenho não é abstrato: ele é medido, acompanhado e, quando necessário, corrigido. Além disso, políticas bem-sucedidas costumam incorporar mecanismos de incentivo. Escolas que apresentam bons resultados recebem reconhecimento e apoio para expandir práticas eficazes. Ao mesmo tempo, instituições com desempenho insatisfatório são alvo de intervenções estruturadas, com suporte técnico e metas claras de melhoria.
Esse ciclo medir, avaliar, corrigir constitui a base de sistemas educacionais que evoluem de forma consistente. Ele exige transparência, compromisso com dados e disposição para reconhecer falhas. Diante desse panorama, a crítica ao novo PNE se concentra justamente na ausência ou fragilidade desses elementos. A percepção de que o plano carece de foco, apresenta metas genéricas e não estabelece mecanismos robustos de avaliação e responsabilização levanta dúvidas sobre sua eficácia prática. Outro aspecto apontado é a possível politização das diretrizes. Quando políticas educacionais passam a refletir mais disputas ideológicas do que evidências pedagógicas, o risco é desviar o foco do que realmente importa: o aprendizado dos alunos. Educação, nesse sentido, torna-se meio para fins externos, e não um objetivo em si. Especialistas em políticas públicas frequentemente alertam para esse risco. A educação é uma área particularmente sensível, pois seus resultados são de longo prazo. Decisões tomadas hoje impactam gerações futuras. Por isso, a consistência e a estabilidade das políticas são fundamentais.
No Brasil, histórico de mudanças frequentes e descontinuidade de programas já comprometeu avanços em diferentes momentos. Cada novo plano que ignora experiências anteriores ou desconsidera evidências internacionais contribui para a perpetuação de um ciclo de baixa efetividade. Também chama atenção a questão da descentralização. Sistemas educacionais mais eficientes tendem a combinar diretrizes nacionais com autonomia local. Estados e municípios, mais próximos da realidade das escolas, têm maior capacidade de adaptar políticas às suas necessidades específicas. Quando essa autonomia é limitada ou mal estruturada, perde-se flexibilidade e capacidade de resposta.
Outro ponto crítico é a formação de professores. Nenhum plano educacional terá sucesso sem investir de forma consistente na qualificação docente. Países que avançaram nessa área priorizaram seleção rigorosa, formação contínua e valorização profissional. Sem isso, qualquer diretriz curricular tende a permanecer no papel.
Editorialmente, o debate sobre o PNE não deve ser reduzido a disputas partidárias. Trata-se de uma questão estrutural, que exige compromisso com resultados e disposição para aprender com experiências bem-sucedidas, tanto internas quanto externas. A crítica à falta de foco e à possível ideologização não é, portanto, um exercício retórico, mas um alerta sobre riscos concretos. Um plano educacional que não define prioridades claras, não estabelece métricas consistentes e não responsabiliza seus agentes tende a produzir resultados igualmente difusos.
O país já enfrenta desafios significativos na educação básica, com indicadores que, apesar de avanços pontuais, ainda revelam desigualdades profundas e desempenho aquém do desejável em avaliações internacionais. Diante desse cenário, a margem para erro é limitada. Se há um consenso entre especialistas, é o de que a educação exige seriedade, continuidade e base técnica sólida. Planos amplos, porém pouco precisos, podem até gerar expectativas, mas dificilmente entregam resultados concretos.
O futuro da educação brasileira não será definido por discursos, mas pela capacidade de implementar políticas eficazes, monitorar seus efeitos e corrigir rumos quando necessário. Qualquer plano que se afaste dessa lógica corre o risco de se tornar mais um documento formal extenso, ambicioso e, no fim, pouco transformador. E, nesse campo, o custo da ineficácia não é apenas administrativo. Ele recai diretamente sobre milhões de estudantes que dependem da escola pública como principal instrumento de mobilidade social. Ignorar isso é comprometer não apenas uma política, mas o próprio futuro do país.
A frase que foi pronunciada:
“A parceria tem a missão de contribuir para qualificar o debate público a partir de análises, dados, evidências e reflexões sobre a importância de um PNE robusto, exequível e orientado pela garantia do direito à aprendizagem.”
Priscila Cruz

História de Brasília
Está marcado para amanhã, o julgamento mais sensacional do Tribunal do Juri de Brasília. Será julgado o delegado João Pelles. (Publicada em 17. 05.1962)
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Em 1960, o Brasil assistia a um de seus maiores atos de ousadia histórica: erguer, no coração do país, uma capital inteira praticamente do nada. Brasília surgia sob o signo do concreto, da poeira vermelha e da esperança. Mas não foi apenas o traço de Lucio Costa ou a genialidade de Oscar Niemeyer que deram forma à nova capital. Havia algo invisível, mas profundamente presente, que preenchia os vazios do Planalto Central: a música. Enquanto caminhões levantavam nuvens de terra e os candangos enfrentavam jornadas duras sob o sol do Cerrado, rádios chiavam em barracos improvisados, transmitindo aquilo que, mais do que entretenimento, era consolo, identidade e sonho. A capital nascia do barro, mas também nascia do som. O rádio era o coração pulsante de um país que buscava seu rumo com a construção de uma nova capital.
Antes da televisão dominar os lares, o rádio era soberano. Em 1960, ele não era apenas um meio de comunicação: era companhia, palco e ponte cultural. Programas de auditório, radionovelas, notícias e, sobretudo, música, faziam das ondas do rádio uma espécie de cimento simbólico que unia o país, inclusive aquela nova cidade que ainda nem tinha identidade própria. As listas das músicas mais toca das naquele ano revelam um Brasil musicalmente plural. Entre os grandes sucessos, estavam canções como Banho de lua, de Celly Campello; A noite do meu bem, de Dolores Duran; e Menina moça, de Tito Madi, ao lado de hits internacionais como Put your head on my shoulder, de Paul Anka; e It’s now or never, de Elvis Presley, além de Maysa, Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Cauby Peixoto e por aí ia.
Essa mistura de influências não era casual, era o retrato de um país aberto ao mundo, mas ainda profundamente ligado à própria sensibilidade romântica, melancólica e popular. Em Brasília, onde tudo era provisório, o rádio era permanente. Figuras pioneiras da comunicação local, como Galebi Balfaker e outros radialistas que ajudaram a dar voz à nova capital, transformaram o silêncio do Cerrado em um espaço sonoro vibrante. Eles não apenas transmitiam música, ajudavam a criar uma cultura urbana onde antes havia apenas canteiros de obras.
A vida dos candangos era árdua. Vindos de todas as regiões do Brasil, especialmente do Nordeste, carregavam consigo não só ferramentas, mas também suas referências culturais. Nesse contexto, a música funcionava como refúgio emocional. Luiz Gonzaga, com seu baião, levava o Nordeste para o Planalto Central. Seus acordes de sanfona ecoavam como memória viva de uma terra deixada para trás, amenizando a saudade e reforçando a identidade daqueles trabalhadores. Ao mesmo tempo, boleros interpretados por nomes como Nelson Gonçalves embalavam noites solitárias, enquanto o Trio Irakitan trazia harmonias que misturavam romantismo e sofisticação.
Era um período de efervescência musical sem precedentes. No Brasil, nascia a MPB como conceito, enquanto a bossa nova ganhava o mundo com sua batida suave e sofisticada. Poucos anos depois, surgiria a Jovem Guarda, liderada por Roberto Carlos, que aparecia nas paradas de 1960 com “Brotinho sem juízo”. Paralelamente, o mundo vivia a explosão do rock internacional. Elvis Presley era um fenômeno global e, em breve, os Beatles inaugurariam o movimento que ficaria conhecido como iê-iê-iê, influenciando profundamente a juventude brasileira. Essa convivência de estilos criava uma paisagem sonora rica e diversa. Era como se Brasília, ainda em construção, estivesse sendo em balada por uma trilha sonora igualmente em construção.
Brasília não foi apenas um projeto urbanístico. Foi, acima de tudo, um projeto simbólico: a ideia de um Brasil moderno, integrado e voltado para o futuro. E toda grande narrativa precisa de uma trilha sonora. As músicas que tocavam nas rádios naquele período ajudaram a moldar o imaginário coletivo. Elas davam ritmo ao trabalho, preenchiam o silêncio das noites e alimentavam a esperança de que aquele esforço gigantesco resultaria em algo duradouro. Entre um turno e outro, entre um barraco e outro, entre o concreto fresco e o horizonte infinito, havia sempre uma canção. Às vezes romântica, às vezes dançante, às vezes nostálgica, mas sempre presente. Era sem dúvida um tempo de esperança e muita criação nas áreas artísticas. O Brasil de 1960 vivia um raro momento de otimismo.
Construir Brasília simbolizava a capacidade de realização de um país que acreditava em si mesmo. E a música refletia exatamente isso: criatividade, diversidade e vitalidade. Hoje, ao olhar para a cidade consolidada, com suas avenidas largas e monumentos imponentes, é fácil esquecer que tudo começou com improviso, esforço e sonho. Mas há algo que permanece intocado, inclusive a memória afetiva daquele tempo. A memória tem som, cheiro e gosto. O som das rádios chiando ao fundo. O som de um bolero atravessando a noite. O som de um baião trazendo saudade da terra natal, o som de um país que, entre dificuldades e esperanças, ousou reinventar-se. Brasília foi erguida com um misto de concreto e de música. E, talvez, seja essa trilha invisível feita de vozes, acordes e emoções que melhor explica a grandeza daquele momento histórico que ficou perdido na poeira do tempo há 66 anos no passado.
A frase que foi pronunciada:
“Ao voltar a Brasília e vê-la construída, com tanta vida, gostaria de lembrá-lo que o Brasil não tem vocação para mediocridade…”
Lucio Costa

História de Brasília
Está marcado para amanhã o julgamento mais sensacional do Tribunal do Júri de Brasília. Será julgado o delegado João Pelles. (Publicada em 17/5/1962)
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Há fenômenos econômicos que não precisam de gráficos sofisticados para que sejam percebidos. Basta uma ida ao supermercado, uma visita à padaria da quadra ou mesmo à pequena birosca da rua. É ali, longe das planilhas oficiais e dos discursos cuidadosamente calibrados, que a realidade econômica se revela com maior nitidez e, por vezes, com maior crueza. Entre esses fenômenos, um tem ganhado destaque silencioso: a redução do tamanho dos produtos, prática conhecida internacionalmente como shrinkflation, ou, em bom português, “encolhimento inflacionário”.
À primeira vista, trata-se de um detalhe quase banal: um pacote de biscoito com algumas unidades a menos, um litro de leite que vira 900 ml, um chocolate que perde alguns gramas. Nada que, isoladamente, pareça significativo. No entanto, quando essa prática se torna generalizada, ela passa a representar algo maior , um sintoma de pressões econômicas que não aparecem com a mesma clareza nos indicadores oficiais.
Os índices de inflação, como o IPCA no Brasil, são construídos com base em cestas de produtos e metodologias estatísticas reconhecidas. Não se trata, portanto, de instrumentos arbitrários ou necessariamente manipulados a cada divulgação. Contudo, como toda métrica, eles têm limitações. E uma dessas limitações está justamente na dificuldade de capturar mudanças qualitativas como a redução de quantidade sem uma imediata variação de preço nominal. Em outras palavras: se o preço de um produto permanece o mesmo, mas sua quantidade diminui, o consumidor paga mais por menos, ainda que isso nem sempre se reflita integralmente nos índices no curto prazo.
O resultado é uma percepção difusa, porém persistente, de que “tudo está mais caro”, mesmo quando os números oficiais sugerem uma inflação sob controle.
Essa discrepância entre percepção e estatística não deve ser descartada como mera impressão subjetiva. Ao contrário, ela revela uma tensão importante entre a economia medida e a economia vivida. E é justamente nessa fissura que se instala a desconfiança não apenas em relação aos preços, mas também às instituições responsáveis por medi-los.
Não se trata de afirmar, de forma leviana, que há uma “maquiagem” deliberada e sistemática dos dados por parte do governo. Os institutos de estatística operam com metodologias técnicas, auditáveis e, em geral, alinhadas a padrões internacionais. Ainda assim, governos têm incentivos políticos claros para destacar os aspectos positivos dos indicadores e minimizar aqueles que possam gerar desgaste. A comunicação dos dados, portanto, nem sempre reflete toda a complexidade da realidade econômica. Além disso, há um fator estrutural que contribui para o fenômeno do encolhimento: o comportamento das empresas diante de custos crescentes.
Quando matérias-primas, energia, logística e mão de obra encarecem, os produtores enfrentam um dilema clássico: aumentar preços correndo o risco de perder consumidores ou reduzir custos. A diminuição do tamanho dos produtos surge, então, como uma solução intermediária, menos visível e, muitas vezes, mais aceitável do ponto de vista comercial. Do ponto de vista empresarial, trata-se de uma estratégia racional. Do ponto de vista do consumidor, porém, o efeito é semelhante ao de um aumento de preços com a agravante de ser menos transparente. A embalagem, muitas vezes praticamente idêntica à anterior, sugere continuidade, enquanto o conteúdo revela a mudança. É uma espécie de inflação disfarçada, que exige atenção redobrada para ser percebida. Com o tempo, esse processo pode alterar profundamente a relação de confiança entre consumidores, empresas e governo.
Salários que não acompanham o ritmo dos preços, aumento do endividamento, maior seletividade no consumo todos esses fatores convergem para um cenário em que cada centavo precisa ser melhor administrado. E, nesse contexto, o encolhimento dos produtos funciona como um lembrete constante de que algo não está funcionando como deveria. O desafio, portanto, é duplo. De um lado, é preciso aprimorar as métricas e a comunicação dos indicadores econômicos, de modo a refletir com maior fidelidade a experiência real da população. Isso inclui considerar com mais atenção fenômenos como a redução de quantidade e mudanças na qualidade dos produtos. De outro lado, é necessário enfrentar as causas estruturais da inflação, garantindo estabilidade de preços sem recorrer a soluções artificiais ou narrativas excessivamente otimistas.
Transparência é palavra-chave nesse processo. Consumidores têm o direito de saber exatamente o que estão comprando em quantidade, qualidade e preço. Empresas, por sua vez, devem ser claras em suas práticas, evitando estratégias que possam ser interpretadas como enganosas. E o governo precisa comunicar a realidade econômica com honestidade, reconhecendo avanços, mas também limitações. No fim das contas, a economia não se resume a índices. Ela se manifesta na mesa do café da manhã, no carrinho de supermercado, na conta do mês. Quando esses espaços começam a contar uma história diferente daquela apresentada nos relatórios oficiais, é sinal de que há um descompasso a ser corrigido.
Se nada for feito, corre-se o risco de avançar para um cenário em que a percepção de perda se torne dominante e, com ela, a sensação de que tudo está diminuindo: os produtos, o poder de compra e, em última instância, a confiança no futuro. E essa, mais do que qualquer índice, é a medida mais sensível e mais difícil de recuperar de uma economia.
A frase que foi pronunciada:
“Reviva o boicote!”
Leda Assumpção, contra preços abusivos
História de Brasília
A fiscalização da Prefeitura foi informada das irregularidades de inumeros taxis de Brasília e solicitou uma “batida” do Serviço de Trânsito. Os resultados foram os mais desanimadores: mais de sessenta carros de praça estavam com taximetros viciados e foram recolhidos ao depósito. (Publicada em 17. 05.1962)
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Num país em que a economia se apresenta frequentemente como um exercício de abstração, mediado por gráficos, relatórios e projeções, talvez fosse o caso de deslocar o eixo da análise para um território menos teórico e mais concreto, ainda que menos prestigiado: o cotidiano das donas de casa e dos responsáveis pela administração doméstica. Afinal, poucos observadores acompanham com tamanha precisão a variação dos preços dos alimentos quanto aqueles que, diariamente, percorrem corredores de supermercados e feiras livres em busca de equilíbrio entre renda limitada e necessidades inadiáveis.
Essa observação empírica, construída à margem das fórmulas tradicionais, revela uma dinâmica que nem sempre coincide com os indicadores oficiais. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a inflação acumulada dos alimentos no domicílio apresenta variações que, embora relevantes, parecem insuficientes para traduzir a percepção social de encarecimento contínuo. Já entidades do setor, como a Associação Brasileira de Supermercados, apontam aumentos significativamente mais expressivos em itens essenciais: o café torrado com elevação próxima de 40% em períodos recentes, o óleo de soja acumulando reajustes em torno de 30%, a carne bovina variando em patamares semelhantes e o leite longa vida registrando altas próximas de 20%. São números que, isoladamente, poderiam ser relativizados, mas que, em conjunto, compõem um quadro inequívoco de pressão sobre o consumo básico.
O impacto desses aumentos torna-se ainda mais evidente quando se observa o comportamento da cesta básica nas capitais brasileiras. Levantamentos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos indicam que, em 16 das 17 capitais analisadas, houve elevação no custo médio dos itens essenciais ao longo do último período, com variações que, em alguns casos, ultrapassam dois dígitos anuais. Esse movimento não apenas reduz o poder de compra, mas altera qualitativamente o padrão alimentar, induzindo substituições, simplificações e, em situações mais críticas, restrições.
A erosão do poder aquisitivo não é fenômeno recente. Desde a introdução do real, em 1994, estima-se que a moeda brasileira tenha perdido parcela significativa de seu poder de compra ao longo das décadas, ainda que estabilizações pontuais tenham ocorrido. Mais relevante, contudo, é a defasagem entre o salário mínimo vigente e o chamado salário mínimo necessário, calculado pelo DIEESE. Dados recentes apontam que, para sustentar uma família de quatro pessoas com dignidade, seria necessário um rendimento superior a cinco vezes o salário mínimo oficial, superando a marca de sete mil reais mensais. Essa discrepância não se manifesta apenas em estatísticas, mas no cotidiano de milhões de trabalhadores que destinam parcela crescente de sua renda à alimentação.
Não por acaso, estimativas indicam que o brasileiro médio pode comprometer mais de 50% de seus rendimentos apenas com despesas alimentares básicas, sendo necessário, em alguns casos, mais de 100 horas de trabalho mensal para adquirir uma cesta básica. Trata-se de um indicador silencioso, mas eloquente, da deterioração das condições materiais de vida, sobretudo entre as camadas mais vulneráveis.
Diante desse cenário, multiplicam-se estratégias de adaptação que escapam às medições convencionais. A procura por produtos em “xepa”, o consumo de itens próximos ao vencimento, a redução do tamanho das embalagens — prática conhecida como “shrinkflation” — e a fragmentação de produtos tradicionalmente vendidos em cortes maiores tornam-se mecanismos cotidianos de sobrevivência econômica. São ajustes discretos, mas reveladores de uma economia que se reorganiza não pela expansão da renda, mas pela compressão do consumo.
A história, nesse aspecto, oferece paralelos inquietantes. Ao longo dos séculos, movimentos sociais e rupturas institucionais raramente foram impulsionados por formulações ideológicas complexas, mas sim por fatores elementares relacionados à subsistência. O aumento no preço dos alimentos, a escassez e a percepção de injustiça distributiva figuram entre os gatilhos mais recorrentes de instabilidade. A fome, ou mesmo a sua iminência, permanece como um dos mais potentes agentes de transformação social.
Nesse contexto, a experiência das donas de casa — frequentemente relegada ao plano doméstico e invisível — adquire dimensão analítica. Não se trata apenas de percepção subjetiva, mas de leitura contínua de um sistema que se expressa, de forma mais transparente, nas prateleiras do que nos relatórios. A economia, nesse nível, deixa de ser abstração para se tornar prática cotidiana, marcada por escolhas difíceis e renúncias silenciosas.
Talvez resida aí uma das principais contradições do debate contemporâneo: enquanto a linguagem econômica se sofistica, incorporando modelos e métricas cada vez mais complexos, a realidade que pretende explicar se impõe de maneira direta, quase rudimentar. Entre números oficiais e preços efetivos, entre projeções e experiência concreta, estabelece-se uma distância que não pode ser ignorada sem custo.
Perguntar às donas de casa, portanto, não é um gesto de simplificação, mas de reconhecimento. É admitir que, antes de qualquer teoria, existe uma prática que resiste, observa e traduz, diariamente, os movimentos de uma economia que, para muitos, já deixou de ser promessa para se tornar obstáculo.
A frase que foi pronunciada:
“A inflação é a maior inimiga de todas as pessoas e das nossas esperanças de crescimento econômico. Ela está na raiz dos problemas.”
Ronald Reagan

História de Brasília
Para uma situação como esta, é necessário que uma represália forte dê um ensinamento aos desonestos, reprimindo os abusos para sempre, de uma vez. (Publicada em 17. 05.1962)
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Avança pela Europa um processo que já não pode mais ser tratado como mera transformação cultural ou adaptação histórica. O que se observa, em diversas cidades e países, é um tensionamento crescente entre identidade, segurança e coesão social, elementos que, ao longo de séculos, sustentaram aquilo que se convencionou chamar de civilização ocidental. Sob o rótulo de multiculturalismo, consolidou-se uma política que, em nome da inclusão, passou a relativizar valores fundamentais. A ideia de que todas as culturas podem coexistir harmonicamente, independentemente de seus princípios, revelou-se, na prática, um experimento de alto risco. Quando normas, costumes e visões de mundo entram em conflito direto, não é a convivência que prevalece, mas a fragmentação. O filósofo Zygmunt Bauman, ao tratar da modernidade, já apontava para a ambivalência da diversidade administrada. Ao tentar organizar e encaixar diferenças dentro de um sistema, cria-se um paradoxo: quanto mais categorias são criadas para incluir, mais exclusões emergem. A diversidade deixa de ser espontânea e passa a ser dirigida e, nesse processo, transforma-se em instrumento de controle e não de convivência.
No caso europeu, essa engenharia social tem produzido efeitos visíveis. O crescimento de áreas urbanas onde o Estado perde presença, aumento de tensões culturais e dificuldades de integração são temas recorrentes em relatórios e coberturas da imprensa internacional. Países que historicamente construíram suas instituições sobre bases culturais específicas enfrentam agora o desafio de manter coesão em meio a valores frequentemente incompatíveis. A questão central não é rejeitar a diversidade em si, mas reconhecer seus limites. Nenhuma sociedade consegue sustentar-se sem um núcleo mínimo de valores compartilhados. Quando esse núcleo é diluído ou relativizado, o resultado não é pluralismo, mas desagregação.
A referência às tradições greco-romana, cristã e judaica não é um exercício nostálgico, mas o reconhecimento de fundamentos históricos que moldaram conceitos como Estado de Direito, liberdade individual e organização institucional. Ignorar esse legado em nome de um universalismo abstrato pode significar abrir mão das próprias bases que sustentam essas sociedades. Críticas ao modelo multicultural são frequentemente rotuladas e desqualificadas, o que reduz o espaço para discussões legítimas. Esse ambiente dificulta a construção de soluções equilibradas e alimenta polarizações.
Enquanto isso, a percepção de insegurança cresce. Em diversas regiões, cidadãos relatam mudanças no cotidiano, aumento de conflitos e sensação de perda de controle sobre o espaço público. Ainda que esses fenômenos variem de país para país, eles não podem ser simplesmente descartados como percepções infundadas. A ideia de um possível cenário distópico emerge justamente dessa combinação de fatores: fragmentação cultural, enfraquecimento de referências comuns e incapacidade de resposta institucional. Não se trata de afirmar que esse futuro é inevitável, mas de reconhecer que determinados caminhos podem conduzir a ele. Importa destacar que a própria noção de globalização, ao integrar economias e culturas, trouxe benefícios inegáveis. No entanto, quando aplicada de forma descolada das realidades locais, pode gerar efeitos colaterais significativos.
Uniformizar sociedades distintas sob um mesmo modelo é uma tentativa que tende a encontrar resistência e, em alguns casos, produzir instabilidade. Diversidade não pode significar ausência de critérios. Inclusão não pode implicar relativização de valores fundamentais. E políticas públicas não podem ignorar os limites impostos pela realidade social. O desafio do Ocidente, neste momento, é preservar aquilo que lhe deu coesão ao longo do tempo, ao mesmo tempo em que enfrenta mudanças inevitáveis. Isso exige clareza de princípios, firmeza institucional e disposição para reconhecer erros de percurso.
Se há um risco de distopia, ele não reside na diversidade em si, mas na incapacidade de estabelecer limites e diretrizes claras para sua integração. Sociedades que abrem mão de suas referências sem construir alternativas sólidas tendem a enfrentar períodos de instabilidade. O futuro ainda está em aberto. Mas ignorar os sinais de tensão em nome de um ideal abstrato pode ser tão problemático quanto reagir de forma desmedida. Entre esses extremos, há um caminho mais difícil, porém necessário: o de encarar a realidade com lucidez e responsabilidade. Porque, no fim, nenhuma civilização se sustenta apenas por boas intenções. Ela depende, sobretudo, da capacidade de preservar seus fundamentos enquanto enfrenta os desafios do tempo presente.
A frase que foi pronunciada:
“O Mundo não prometeu nada a ninguém.”
Provérbio árabe
Insensibilidade
Uma lojinha pequena, discreta, que ocupa o mesmo lugar a mais de 50 anos. A referencia era uma palmeira imperial. De repente, a árvore não estava mais lá. “O GDF veio, cortou. Disse que já deu o que tinha que dá.” Essa gente que nada tem a ver com a cidade destrói detalhe por detalhe sem respeitar a história da capital. Lastimável!
História de Brasília
Esta é, particularmente, uma notícia de grande repercussão para os pais, que estavam enfrentando uma situação de desespero vendo o exemplo que os professôres estavam dando a seus filhos. (Publicada em 17. 05.1962)
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Relatórios e declarações recentes envolvendo a Transparência Internacional e a atuação de parlamentares no Senado Federal reacendem um dos temas mais sensíveis da vida pública brasileira: a relação entre instituições do Estado e a criminalidade organizada. Trata-se de um debate que exige, acima de tudo, cautela, rigor analítico e responsabilidade na interpretação dos fatos. Segundo avaliação divulgada pela Transparência Internacional, há sinais preocupantes de fragilidade institucional que poderiam favorecer a chamada “captura do Estado”, conceito utilizado na ciência política para descrever situações em que interesses privados ou ilícitos passam a influenciar decisões públicas de maneira indevida. A entidade, conhecida por seus relatórios globais sobre corrupção, frequentemente utiliza indicadores e análises comparativas para apontar riscos sistêmicos, e não necessariamente para afirmar conclusões definitivas sobre casos específicos.
A menção à “captura do Estado” carrega peso conceitual significativo. Trata-se de um fenômeno estudado em diversos países, especialmente aqueles com instituições mais frágeis ou em processo de consolidação. No entanto, sua aplicação exige critérios claros e evidências consistentes. Generalizações amplas podem gerar efeitos colaterais indesejados, como a deslegitimação indiscriminada de instituições que continuam desempenhando funções essenciais.
Outro aspecto relevante é o impacto desse tipo de debate sobre a confiança pública. Quando a sociedade passa a perceber que instituições estão comprometidas, o risco não é apenas político, mas também social e econômico. Os investimentos são afetados, a governabilidade se fragiliza e o próprio tecido democrático pode sofrer erosão. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que o sistema institucional brasileiro dispõe de mecanismos de freios e contrapesos. A atuação de tribunais, órgãos de controle, imprensa e sociedade civil constitui uma rede que, embora imperfeita, tem capacidade de investigar, expor e, em muitos casos, corrigir desvios.
No mesmo contexto, declarações atribuídas ao senador Alessandro Vieira, no âmbito de uma CPI, acrescentam uma dimensão política e institucional ao debate. Relatórios parlamentares, por sua natureza, são instrumentos de investigação política, com valor relevante, mas que não substituem o devido processo legal conduzido pelas instâncias judiciais competentes. Pedidos de indiciamento, portanto, devem ser compreendidos como parte de um processo, e não como veredictos conclusivos. Esse conjunto de elementos relatórios de organizações internacionais, investigações parlamentares e cobertura midiática contribui para formar uma percepção pública de risco institucional. No entanto, é fundamental distinguir entre percepção, indício e comprovação.
Em democracias consolidadas, acusações graves contra autoridades exigem provas robustas, respeito ao contraditório e decisões fundamentadas no sistema de justiça. Por outro lado, ignorar alertas dessa natureza também não é uma opção responsável. O Brasil já enfrentou, em diferentes momentos de sua história recente, escândalos de corrupção que envolveram agentes públicos e privados em larga escala. Investigações conduzidas por órgãos como o Ministério Público, a Polícia Federal e o próprio Judiciário revelaram esquemas complexos que afetaram a confiança nas instituições. Nesse sentido, o alerta sobre possíveis vulnerabilidades institucionais deve ser entendido como um chamado à vigilância e ao fortalecimento dos mecanismos de controle. Transparência, accountability e independência dos poderes são pilares para evitar que estruturas estatais sejam utilizadas de forma indevida.
A cobertura da imprensa, por sua vez, desempenha papel central nesse processo. Veículos de comunicação têm noticiado tanto os alertas de organizações internacionais quanto as disputas políticas internas, contribuindo para ampliar o debate público. No entanto, a responsabilidade jornalística exige que essas informações sejam apresentadas com contexto, evitando conclusões precipitadas. O momento exige equilíbrio. De um lado, não se pode minimizar alertas sobre possíveis riscos de infiltração criminosa ou de captura institucional. De outro, é igualmente importante evitar narrativas que transformem suspeitas em certezas sem o devido respaldo factual.
A democracia se sustenta justamente na capacidade de lidar com crises por meio de instituições. Quando essas instituições são questionadas, a resposta não deve ser o descrédito generalizado, mas o fortalecimento dos mecanismos de investigação, transparência e responsabilização. O desafio, portanto, não está apenas em identificar eventuais problemas, mas em enfrentá-los dentro das regras do Estado de Direito. Isso implica respeitar processos, garantir ampla defesa e assegurar que decisões sejam baseadas em evidências. Se há riscos, eles devem ser tratados com seriedade. Se há acusações, devem ser investigadas com rigor. E se há dúvidas, devem ser esclarecidas com transparência.
Fora desse caminho, o debate corre o risco de se transformar em terreno de incerteza permanente, onde a confiança pública se deteriora sem que soluções concretas sejam construídas. No fim, a solidez de uma nação não se mede pela ausência de crises, mas pela forma como elas são enfrentadas. E é justamente nesse ponto que se define se os alertas servirão como instrumento de fortalecimento institucional ou como elemento de desestabilização.
A frase que foi pronunciada:
“A CPI do Crime Organizado não tem lado, não tem preferência institucional e não tem compromisso com órgãos, governos ou figuras públicas. Nosso compromisso é com a verdade, com os fatos e com o interesse da população brasileira.”
Senador Fabiano Contarato

História de Brasília
Outra solução também dada pelo presidente foi sobre o caso dos professores. Hoje haverá aula no ensino médio, e os professôres já deixaram as casas do BNDE, invadidas na madrugada de 21 de abril. (Publicada em 17. 05.1962)
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Com o avanço da violência urbana nas periferias brasileiras e a crescente sensação de insegurança no entorno das escolas públicas veio à tona um debate que vai além da pedagogia: qual modelo de gestão escolar é capaz de garantir não apenas aprendizado, mas também ordem, previsibilidade e ambiente seguro para alunos e professores? Nesse contexto, as chamadas escolas cívico-militares passaram a ocupar espaço central na discussão educacional do Brasil. Implementadas com maior visibilidade a partir de 2019, dentro do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim), essas instituições propõem um modelo híbrido: gestão compartilhada entre educadores e militares da reserva, com foco em disciplina, organização e melhoria do ambiente escolar.
A proposta rapidamente ganhou apoio em comunidades marcadas por problemas recorrentes de indisciplina, evasão e violência. Dados divulgados pelo Ministério da Educação ao longo dos primeiros anos do programa indicaram avanços em indicadores como redução da evasão escolar, diminuição de ocorrências disciplinares e maior assiduidade de alunos e professores. Em algumas unidades, também foram registrados aumentos no desempenho em avaliações internas e externas. Relatórios e reportagens veiculadas por veículos como Folha de S.Paulo, O Globo e Estadão trouxeram casos concretos de escolas que, após a adoção do modelo, apresentaram melhora no clima escolar.
Diretores e professores frequentemente relatam maior respeito às regras, redução de conflitos e ambiente mais propício ao ensino. Um dos pontos mais enfatizados por gestores dessas escolas é a previsibilidade. Rotinas mais estruturadas, cumprimento rigoroso de horários e regras claras de convivência contribuem para criar um ambiente onde o processo de aprendizagem encontra menos obstáculos externos. Em contextos marcados por vulnerabilidade social, essa estabilidade pode fazer diferença significativa.
Outro aspecto frequentemente destacado é a participação da comunidade. Em diversas localidades, pais e responsáveis demonstraram apoio à implantação do modelo, associando disciplina a melhores condições de aprendizado. Essa percepção social ajuda a explicar a adesão voluntária de algumas redes estaduais e municipais ao formato.
No entanto, a análise do tema exige cautela e equilíbrio. Especialistas em educação lembram que melhorias observadas em determinadas escolas não podem ser automaticamente generalizadas para todo o sistema. O número de unidades cívico-militares ainda é relativamente pequeno quando comparado ao total de escolas públicas do país, o que limita conclusões mais abrangentes.
Além disso, críticas recorrentes apontam para o risco de confundir disciplina com qualidade pedagógica. A presença de ordem e controle pode melhorar o ambiente, mas não substitui investimentos em formação de professores, currículo, infraestrutura e políticas educacionais de longo prazo. Educação de qualidade depende de múltiplos fatores, e nenhum modelo isolado resolve todas as deficiências estruturais.
Outro ponto levantado por pesquisadores diz respeito ao custo do modelo. A presença de militares da reserva implica despesas adicionais, o que levanta questionamentos sobre a viabilidade de expansão em larga escala. Em um sistema educacional já pressionado por limitações orçamentárias, a alocação eficiente de recursos torna-se questão central.
Também há debate sobre o papel institucional das Forças Armadas e das polícias militares em atividades educacionais. Enquanto defensores argumentam que a participação desses profissionais contribui para a organização e segurança, críticos questionam se essa é a função mais adequada para esses agentes dentro de uma sociedade democrática.
Apesar dessas divergências, um ponto parece consensual: o ambiente escolar importa. Em regiões onde a violência se aproxima das escolas e onde o Estado frequentemente falha em garantir segurança básica, qualquer modelo que consiga restabelecer ordem e previsibilidade tende a ser bem recebido pela população.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que a violência em áreas urbanas periféricas continua sendo um desafio significativo, afetando diretamente a rotina de estudantes. Nesse cenário, a escola não é apenas espaço de aprendizado, mas também de proteção social. Editorialmente, a discussão sobre escolas cívico-militares não deve ser reduzida a uma disputa ideológica. Trata-se de avaliar, com base em evidências, quais práticas efetivamente contribuem para melhorar o ambiente escolar e o desempenho dos alunos. Se a disciplina e a organização trazidas por esse modelo geram resultados positivos em determinados contextos, esses elementos merecem ser considerados.
Por outro lado, é necessário evitar soluções simplistas para problemas complexos. A crise da educação pública brasileira envolve questões estruturais profundas, que vão desde desigualdades socioeconômicas até deficiências históricas de gestão e financiamento. O desafio, portanto, está em identificar o que funciona, adaptar boas práticas e integrá-las a uma política educacional mais ampla. Escolas cívico-militares podem representar uma alternativa em determinados contextos, especialmente onde a desordem compromete o aprendizado. Mas não substituem a necessidade de reformas estruturais no sistema educacional. No fim, a pergunta central permanece: como garantir que milhões de estudantes tenham acesso a uma educação de qualidade, em ambiente seguro e estimulante? Qualquer resposta séria a essa questão exigirá menos rótulos e mais compromisso com resultados concretos. Se a disciplina é parte da solução, ela deve ser incorporada de forma inteligente. Se a segurança é condição básica, ela precisa ser garantida. E se a educação é prioridade, todas as estratégias que comprovadamente contribuam para seu fortalecimento devem ser analisadas com rigor, sem preconceitos, mas também sem ilusões.
A frase que foi pronunciada:
“Todos os líderes mundiais desejam educação de qualidade para seus filhos. Eles precisam pensar nas crianças do resto do mundo como se fossem seus próprios filhos.”
Malala Yousafzai

História de Brasília
Está marcado para amanhã, o julgamento mais sensacional do Tribunal do Juri de Brasília. Será julgado o delegado João Pelles. (Publicada em 17. 05.1962)
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Há, nas engrenagens mais discretas do poder, um movimento recorrente que raramente se anuncia de forma explícita, mas que se revela naquilo que deixa de ser dito, no que se oculta sob a justificativa da cautela administrativa, naquilo que se posterga sob o argumento da proteção institucional. Em regimes que se pretendem democráticos, onde a transparência não deveria ser apenas um adorno retórico, mas o próprio alicerce da legitimidade, o avanço do sigilo prolongado sobre informações de interesse público não pode ser tratado como expediente ordinário, mas como sintoma.
Os dados disponíveis, ainda que fragmentados, indicam um cenário que merece exame atento. Em um único ano, milhares de pedidos de acesso à informação foram submetidos a restrições prolongadas, muitos deles sob a justificativa genérica de proteção de dados pessoais. Em paralelo, estima-se que o volume de documentos sob algum tipo de restrição ultrapasse a casa dos milhões, abrangendo desde registros administrativos até informações relacionadas à execução orçamentária. Ainda que o ordenamento jurídico preveja salvaguardas legítimas para situações específicas, a ampliação desse mecanismo como prática recorrente desloca o eixo da exceção para a regra.
A Lei de Acesso à Informação foi concebida como instrumento de fortalecimento institucional e de ampliação do controle social, e baseia-se no princípio de que o sigilo deve ser sempre residual. Quando, no entanto, observa-se a manutenção de índices de negativa semelhantes entre diferentes administrações, independentemente de discursos de campanha que prometiam inflexão, o que se impõe não é apenas a crítica circunstancial, mas a constatação de uma cultura administrativa que resiste à abertura.
No campo orçamentário, a opacidade ganha contornos ainda mais sensíveis. Estimativas apontam que, em anos recentes, dezenas de bilhões de reais foram alocados por meio de instrumentos cuja rastreabilidade permanece limitada, dificultando a identificação precisa de autoria e critérios de distribuição. Em determinados casos, municípios com população inferior a cinco mil habitantes figuram entre os destinatários de repasses milionários, o que, por si só, não configura irregularidade, mas exige, no mínimo, transparência proporcional à magnitude dos recursos envolvidos.
Em 2024, por exemplo, o volume total de emendas parlamentares ultrapassou R$ 20 bilhões, número que evidencia a centralidade desse mecanismo na dinâmica fiscal contemporânea. A questão, portanto, não reside exclusivamente nos valores, mas na arquitetura que os sustenta. A ausência de critérios amplamente publicizados e a dificuldade de acesso a informações detalhadas fragilizam o controle social e ampliam a margem para distorções. Em democracias consolidadas, mecanismos de transparência ativa, publicação em tempo real, detalhamento de beneficiários e justificativas técnicas são considerados parâmetros mínimos. Quando tais práticas não se consolidam de forma sistemática, abre-se espaço para uma zona cinzenta em que a legalidade formal convive com a opacidade prática.
Há ainda um elemento temporal que agrava esse quadro. A imposição de sigilos extensos, que podem alcançar décadas, desloca a possibilidade de escrutínio para um futuro em que, não raramente, os responsáveis já não estarão mais sujeitos a qualquer tipo de responsabilização. Nesse intervalo, a informação perde sua potência fiscalizadora e se converte em registro histórico, incapaz de produzir efeitos concretos no presente. A máxima, segundo a qual a justiça tardia se aproxima da negação da própria justiça, deixa de ser apenas um aforismo e passa a descrever uma dinâmica institucional observável.
Não se trata, contudo, de um fenômeno isolado ou restrito a uma única gestão. A recorrência desse padrão ao longo do tempo sugere a existência de uma lógica mais profunda, na qual a transparência é frequentemente invocada como princípio, mas administrada como contingência. O discurso público reafirma sua centralidade, enquanto a prática cotidiana a submete a filtros, exceções e condicionantes que, pouco a pouco, redefinem seus limites.
Nesse contexto, o cidadão, formalmente titular daquilo que se convencionou chamar de coisa pública, vê-se diante de um paradoxo. Financia, por meio de tributos, a máquina estatal, mas encontra obstáculos crescentes para compreender sua operação em detalhes.
A persistência desse modelo não apenas compromete a eficiência do controle social, mas também alimenta um ambiente de desconfiança difusa. Onde a informação não circula com clareza, proliferam hipóteses, suspeitas e narrativas concorrentes, nem sempre ancoradas em evidências verificáveis. O resultado é um desgaste silencioso da própria ideia de legitimidade, que deixa de se apoiar exclusivamente nos processos formais e passa a depender, cada vez mais, da percepção pública de integridade.
Ao final, a questão que se impõe não é apenas jurídica ou administrativa, mas essencialmente política, no sentido mais amplo do termo. Trata-se de definir se a transparência será tratada como princípio estruturante ou como recurso circunstancial, acionado conforme a conveniência do momento. Em uma democracia que se pretende madura, essa escolha não deveria ser objeto de hesitação. Afinal, quando o silêncio se torna política, o que se compromete não é apenas o acesso à informação, mas a própria qualidade do regime que dela depende.
A frase que foi pronunciada:
“A ausência de corrupção é assegurada pela transparência.”
Liz Truss

História de Brasília
Para uma situação como esta, é necessário que uma represália forte dê um ensinamento aos desonestos, reprimindo os abusos para sempre, de uma vez. (Publicada em 17/5/1962)
Petrobras, soberania e o debate sobre o papel do Estado na energia
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Discussão sobre o papel da Petrobras volta e meia retorna ao centro do debate público brasileiro, sempre cercada por paixões, memórias históricas e disputas ideológicas. Criada em 1953, no contexto do nacionalismo econômico de Getúlio Vargas, a empresa nasceu sob o lema da soberania energética. Décadas depois, a pergunta que se impõe é outra: qual é, hoje, a função efetiva da Petrobras para o país e a que custo ela opera?
Ao longo de sua trajetória, a Petrobras consolidou-se como uma das maiores empresas de energia do mundo, com atuação relevante na exploração em águas profundas e no desenvolvimento tecnológico do pré-sal. Dados amplamente divulgados mostram que a companhia responde por parcela significativa da produção nacional de petróleo e gás, além de contribuir de forma relevante para a arrecadação de tributos e dividendos pagos ao Tesouro.
No entanto, esse histórico de conquistas convive com episódios que abalaram profundamente sua credibilidade. O escândalo conhecido como “petrolão”, investigado no âmbito da Operação Lava-Jato, revelou um esquema bilionário de corrupção envolvendo contratos da estatal, empreiteiras e agentes políticos. Estimativas divulgadas à época apontaram desvios que chegaram a dezenas de bilhões de reais, afetando diretamente a saúde financeira da empresa e a confiança dos investidores.
Esse episódio tornou-se um marco no debate sobre governança em empresas estatais. A utilização de estruturas públicas para fins políticos ou partidários não apenas compromete a eficiência econômica, mas também impõe custos à sociedade. Em última instância, prejuízos decorrentes de má gestão ou corrupção tendem a ser absorvidos direta ou indiretamente pelos cidadãos. Outro ponto frequentemente levantado diz respeito aos preços dos combustíveis.
Embora a formação de preços envolva fatores internacionais como cotação do petróleo e variação cambial, consumidores brasileiros frequentemente percebem o impacto direto no bolso, com gasolina e diesel figurando entre os itens de maior peso no orçamento das famílias e na estrutura de custos das empresas. É importante reconhecer que o Brasil opera em um mercado global de energia. Mesmo com produção relevante, o país ainda depende de importações de derivados, especialmente diesel, o que limita a autonomia plena na definição de preços. Ainda assim, decisões de política de preços adotadas ao longo do tempo, ora mais alinhadas ao mercado internacional, ora mais intervencionistas, contribuíram para um ambiente de incerteza.
A crítica de que a Petrobras atende mais a interesses políticos do que à população é recorrente em determinados segmentos do debate público. Por outro lado, defensores da estatal argumentam que sua existência permite ao país manter controle estratégico sobre recursos energéticos, além de garantir investimentos de longo prazo em exploração e tecnologia que poderiam não ocorrer sob lógica puramente privada. Experiências internacionais mostram que não há modelo único. Países adotam diferentes arranjos, desde empresas estatais fortes até mercados completamente privatizados. O desempenho de cada modelo depende, em grande medida, da qualidade da governança, da regulação e do ambiente institucional.
No caso brasileiro, a discussão sobre privatização da Petrobras envolve múltiplas dimensões. De um lado, há o argumento de que a transferência para o setor privado poderia aumentar eficiência, reduzir interferências políticas e estimular concorrência. De outro, há preocupações relacionadas à perda de controle sobre um setor considerado estratégico e aos impactos sociais e econômicos dessa mudança.
Além da questão da propriedade, o debate contemporâneo sobre energia inclui um elemento adicional: a transição para fontes alternativas. Em um cenário global marcado por preocupações ambientais e avanços tecnológicos, investimentos em energias renováveis como solar, eólica e biocombustíveis ganham cada vez mais relevância. O Brasil, nesse aspecto, possui vantagens comparativas importantes, especialmente na produção de energia limpa. A diversificação da matriz energética pode reduzir dependência de combustíveis fósseis e mitigar impactos de volatilidade internacional. No entanto, essa transição exige planejamento, investimentos e políticas públicas consistentes.
Editorialmente, o debate sobre a Petrobras não deve ser reduzido a uma dicotomia simplista entre estatal e privado. A questão central envolve governança, transparência e eficiência. Uma empresa pública pode cumprir papel relevante, desde que opere sob regras claras, com mecanismos robustos de controle e proteção contra interferências indevidas. Por outro lado, a mera mudança de controle acionário não garante, por si só, melhoria de desempenho. Sem regulação adequada e ambiente competitivo, problemas podem persistir sob outra forma. A experiência recente demonstra que o custo de falhas institucionais é elevado. Escândalos de corrupção, decisões políticas mal calibradas e falta de previsibilidade geram impactos que se estendem por toda a economia.
A pergunta essencial permanece: como garantir que os recursos energéticos do país sejam utilizados de forma eficiente, transparente e em benefício da sociedade? Se o passado oferece lições, o futuro exige pragmatismo.
A frase que foi pronunciada:
“Nunca vi tanto dinheiro na vida.”
Rodrigo Janot, então procurador-geral da República, em entrevista coletiva sobre a Lava Jato

História de Brasília
A fiscalização da Prefeitura foi informada das irregularidades de inumeros taxis de Brasília e solicitou uma “batida” do Serviço de Trânsito. Os resultados foram os mais desanimadores: mais de sessenta carros de praça estavam com taximetros viciados e foram recolhidos ao depósito. (Publicada em 17. 05.1962)

