A vingança de Clarice

Publicado em Crônicas
Crédito: Reprodução da Internet. Clarice Lispector: sensibilidade social insuspeitada.

 

 

Severino Francisco

 

No fim da década de 1970, entrei em uma livraria, comecei a folhear um livro, aleatoriamente, e tive de fechar para respirar, sufocado pela beleza e verdade perturbadoras. Era A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Naquele instante, fui fulminado pela certeza: Clarice era melhor do que Katherine Mansfield e Virgínia Woolf.

 

A recente biografia escrita por Benjamim Moser confirmou a minha intuição juvenil. Ele afirma que Clarice escreveu a mais importante autobiografia espiritual do século 20. Ela sofreu, durante muito tempo, com o preconceito de ser alienada. Existe uma famosa foto em que Clarice aparece ao lado de Oscar Niemeyer e Glauce Rocha na famosa passeata dos 100 mil naquele turbulento 1968 de revoluções por minuto.

 

Na década de 1970, o humorista Henfil colocou Clarice no temido Cemitério do Caboco Mamadô, reservado aos bajuladores ou aos alienados do regime militar. Clarice ficou ofendidíssima. Nos tempos de estudante de direito, ela escreveu um projeto utópico e inviável para reformar as penitenciárias.

 

Depois, Henfil pediu desculpas pela injustiça, mas Clarice permaneceu humilhada e ofendida pela acusação. E continuou se defendendo em vários trechos de crônicas. Como alienada? Eu tomo conta do mundo, dizia. Ficou com a ofensa engasgada, no entanto, deu o troco em alto estilo, no estilo Clarice Lispector, em A hora da estrela, ao narrar a história de Macabea, uma nordestina retirante, ignorante e miserável, emigrada para o Rio de Janeiro, com uma insciência que beira a santidade.

 

Essa é a matéria do excelente ensaio O engajamento poético em Clarice Lispector, da brasiliense Joseana Paganine, jornalista, crítica literária e historiadora da arte. Na verdade, o livro tem como origem uma tese de doutorado em literatura na UnB. Mas Joseana domina o tema e escreve tão bem, com tanta fluência, naturalidade, elegância e clareza, que o ensaio pode ser apreciado por qualquer leitor mortal.

 

Joseana mostra que Clarice embaralhou o jogo do engajamento político, da sensibilidade social e da poesia. Clarice brinca com todas essas questões por meio de um humor muito singular. Além de alienada, ela também era tachada de escrever “femininamente.” Por isso, resolveu colocar Rodrigo S.M. na condição de primeiro homem narrador de sua ficção.

 

Macabéa não domina a linguagem e, na situação marginal dela, Rodrigo entrevê a própria situação do escritor em uma sociedade de mercado. Na tentativa de contornar a afasia que define o ser social de Macabéa, Rodrigo S. M. se vê diante do silêncio que envolve sua própria linguagem. O silêncio social da nordestina se transformará, então, na linguagem do silêncio de Rodrigo S. M., comenta Joseana: “Escrever é escrever-se.”

 

Rodrigo começa a escrever sobre Macabéa animado pelo sentimento de culpa. Mas, no decorrer da tarefa, confessa: “Sim, estou apaixonado por Macabéa, a minha querida Maca, apaixonado pela sua feiura e anonimato total, pois ela não é para ninguém”. Somente tocado pelo amor, ele consegue a conexão espiritual para revelar a intimidade de Macabéa.

 

E é dessa maneira que se fundem o existencial, o político, o social e o poético em um profundo humanismo. Tudo isso é animado pelo sopro de poesia que anima a obra de Clarice, segundo Joseana. Clarice brindou aos que a tachavam de “alienada” com uma vingança muito delicada. Ela sempre desdenhou as interpretações do mundo acadêmico sobre a sua obra. Mas acho que Clarice apreciaria muito o olhar sensível, inteligente e elegante de Joseana.

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