Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
jornalistacircecunha@gmail.com
instagram.com/vistolidoeouvido

Não há mais tanta utilidade em tentar antecipar quem ocupará o Palácio do Planalto após 2026, quais partidos formarão maioria no Congresso Nacional ou que grupos tradicionais dominarão os governos estaduais. Parte dos estudos contemporâneos em ciência política, filosofia da tecnologia e sociologia digital passou a discutir a hipótese de que as estruturas clássicas de poder construídas entre os séculos XVIII e XX estejam atravessando um processo gradual de deslocamento histórico. Em lugar da centralidade do Estado nacional, surgem sistemas de influência organizados em torno da informação, dos fluxos digitais e das plataformas tecnológicas globais.
Luciano Floridi, filósofo italiano, professor da Universidade de Oxford e um dos principais teóricos da chamada “filosofia da informação”, utiliza o conceito de hiper-história para descrever sociedades cuja sobrevivência depende integralmente das Tecnologias da Informação e Comunicação. Segundo Floridi, “sociedades hiper-históricas prosperam apenas quando baseadas em TICs e são extremamente vulneráveis a ataques informacionais”. A afirmação aparece em estudos que analisam a transformação da informação em principal eixo de organização econômica, política e cultural do século XXI.
Com o avanço das chamadas TICs, Tecnologias da Informação e Comunicação, altera-se profundamente o funcionamento das relações sociais. Internet, redes sociais, computação em nuvem, inteligência artificial, algoritmos de recomendação e plataformas digitais passaram a mediar não apenas a circulação de dados, mas também relações econômicas, afetivas, profissionais e políticas. A informação tornou-se matéria-prima estratégica.
Empresas como Alphabet, Meta, Amazon, Microsoft e Tencent passaram a concentrar capacidade inédita de coleta, processamento e distribuição de informações em escala planetária. Em alguns casos, o faturamento anual dessas corporações supera o Produto Interno Bruto de diversos países médios. A Alphabet registrou receita superior a US$ 350 bilhões em 2025. A Meta ultrapassou 3 bilhões de usuários ativos mensais em suas plataformas digitais.
Byung-Chul Han, cientista político sul-coreano, passou a utilizar o conceito de “infocracia” para descrever sistemas em que o poder deixa de operar prioritariamente pela coerção física e passa a funcionar pela gestão algorítmica da informação, da atenção e do comportamento. Em uma de suas formulações mais conhecidas, Han afirma que “a informação produz uma nova forma de dominação”. Para o filósofo, o excesso de dados, estímulos e comunicação contínua altera os próprios mecanismos tradicionais da democracia representativa.
Ao mesmo tempo, governos nacionais enfrentam crescente dificuldade para controlar fluxos informacionais transnacionais. Plataformas digitais operam simultaneamente em centenas de países, armazenam dados em servidores distribuídos globalmente e utilizam estruturas jurídicas que frequentemente escapam aos modelos clássicos de regulação estatal. Questões envolvendo privacidade, soberania digital, inteligência artificial e manipulação algorítmica tornaram-se centrais na agenda geopolítica contemporânea.
Estados Unidos e China concentram atualmente os maiores investimentos globais em IA generativa, semicondutores e infraestrutura computacional. Relatório da Stanford University divulgado em 2025 mostrou que investimentos privados globais em inteligência artificial ultrapassaram US$ 180 bilhões em um único ano. A tecnologia tornou-se simultaneamente instrumento econômico, militar e político.
Yuval Noah Harari, historiador israelense, sustenta que “quem controlar os dados controlará o futuro”. A frase sintetiza uma percepção crescente entre pesquisadores de que o domínio informacional tende a se tornar elemento determinante das novas relações de poder global. Nesse cenário, a soberania deixa de depender exclusivamente de território, população e força militar, incorporando capacidade tecnológica e controle de infraestrutura digital.
Parte da literatura acadêmica contemporânea passou a utilizar metáforas biológicas para descrever a crise das estruturas políticas tradicionais. O conceito de “apoptose política”, mencionado em debates recentes sobre teoria do Estado, faz analogia ao processo celular programado de autodestruição. A hipótese sugere que determinadas instituições concebidas para sociedades industriais podem enfrentar esvaziamento gradual de funcionalidade diante da reorganização digital da economia e da vida social.
Esse processo não implica necessariamente desaparecimento imediato dos Estados nacionais, mas aponta para redistribuição de centralidade. Poderes tradicionais, Legislativo, Executivo e Judiciário, passam a compartilhar espaço com plataformas digitais, empresas de tecnologia, sistemas automatizados e redes globais de informação capazes de influenciar mercados, eleições, opinião pública e comportamento coletivo em escala transnacional.
A frase que foi pronunciada:
“Na midiocracia, também a política se submete à lógica das mídias de massa. O entretenimento determina a mediação de conteúdos políticos e deteriora a racionalidade.”
Byung-Chul Han

História de Brasília
Agora as notícias: o Ministério da Educação autorizou o Tesou a liberar 610 milhões para serem utilizados pela Fundação Educacional. (Publicado em 20.05.1962)





