Na era da midiocracia

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Ilustração: bloghemia.com

 

Não há mais tanta utilidade em tentar antecipar quem ocupará o Palácio do Planalto após 2026, quais partidos formarão maioria no Congresso Nacional ou que grupos tradicionais dominarão os governos estaduais. Parte dos estudos contemporâneos em ciência política, filosofia da tecnologia e sociologia digital passou a discutir a hipótese de que as estruturas clássicas de poder construídas entre os séculos XVIII e XX estejam atravessando um processo gradual de deslocamento histórico. Em lugar da centralidade do Estado nacional, surgem sistemas de influência organizados em torno da informação, dos fluxos digitais e das plataformas tecnológicas globais.

Luciano Floridi, filósofo italiano, professor da Universidade de Oxford e um dos principais teóricos da chamada “filosofia da informação”, utiliza o conceito de hiper-história para descrever sociedades cuja sobrevivência depende integralmente das Tecnologias da Informação e Comunicação. Segundo Floridi, “sociedades hiper-históricas prosperam apenas quando baseadas em TICs e são extremamente vulneráveis a ataques informacionais”. A afirmação aparece em estudos que analisam a transformação da informação em principal eixo de organização econômica, política e cultural do século XXI.

Com o avanço das chamadas TICs, Tecnologias da Informação e Comunicação, altera-se profundamente o funcionamento das relações sociais. Internet, redes sociais, computação em nuvem, inteligência artificial, algoritmos de recomendação e plataformas digitais passaram a mediar não apenas a circulação de dados, mas também relações econômicas, afetivas, profissionais e políticas. A informação tornou-se matéria-prima estratégica.

Empresas como Alphabet, Meta, Amazon, Microsoft e Tencent passaram a concentrar capacidade inédita de coleta, processamento e distribuição de informações em escala planetária. Em alguns casos, o faturamento anual dessas corporações supera o Produto Interno Bruto de diversos países médios. A Alphabet registrou receita superior a US$ 350 bilhões em 2025. A Meta ultrapassou 3 bilhões de usuários ativos mensais em suas plataformas digitais.

Byung-Chul Han, cientista político sul-coreano, passou a utilizar o conceito de “infocracia” para descrever sistemas em que o poder deixa de operar prioritariamente pela coerção física e passa a funcionar pela gestão algorítmica da informação, da atenção e do comportamento. Em uma de suas formulações mais conhecidas, Han afirma que “a informação produz uma nova forma de dominação”. Para o filósofo, o excesso de dados, estímulos e comunicação contínua altera os próprios mecanismos tradicionais da democracia representativa.

Ao mesmo tempo, governos nacionais enfrentam crescente dificuldade para controlar fluxos informacionais transnacionais. Plataformas digitais operam simultaneamente em centenas de países, armazenam dados em servidores distribuídos globalmente e utilizam estruturas jurídicas que frequentemente escapam aos modelos clássicos de regulação estatal. Questões envolvendo privacidade, soberania digital, inteligência artificial e manipulação algorítmica tornaram-se centrais na agenda geopolítica contemporânea.

Estados Unidos e China concentram atualmente os maiores investimentos globais em IA generativa, semicondutores e infraestrutura computacional. Relatório da Stanford University divulgado em 2025 mostrou que investimentos privados globais em inteligência artificial ultrapassaram US$ 180 bilhões em um único ano. A tecnologia tornou-se simultaneamente instrumento econômico, militar e político.

Yuval Noah Harari, historiador israelense, sustenta que “quem controlar os dados controlará o futuro”. A frase sintetiza uma percepção crescente entre pesquisadores de que o domínio informacional tende a se tornar elemento determinante das novas relações de poder global. Nesse cenário, a soberania deixa de depender exclusivamente de território, população e força militar, incorporando capacidade tecnológica e controle de infraestrutura digital.

Parte da literatura acadêmica contemporânea passou a utilizar metáforas biológicas para descrever a crise das estruturas políticas tradicionais. O conceito de “apoptose política”, mencionado em debates recentes sobre teoria do Estado, faz analogia ao processo celular programado de autodestruição. A hipótese sugere que determinadas instituições concebidas para sociedades industriais podem enfrentar esvaziamento gradual de funcionalidade diante da reorganização digital da economia e da vida social.

Esse processo não implica necessariamente desaparecimento imediato dos Estados nacionais, mas aponta para redistribuição de centralidade. Poderes tradicionais, Legislativo, Executivo e Judiciário, passam a compartilhar espaço com plataformas digitais, empresas de tecnologia, sistemas automatizados e redes globais de informação capazes de influenciar mercados, eleições, opinião pública e comportamento coletivo em escala transnacional.

 

A frase que foi pronunciada:
“Na midiocracia, também a política se submete à lógica das mídias de massa. O entretenimento determina a mediação de conteúdos políticos e deteriora a racionalidade.”
Byung-Chul Han

O filósofo Byung-Chul Han. Foto: Massimiliano Minocri (EL PAÍS)

 

História de Brasília
Agora as notícias: o Ministério da Educação autorizou o Tesou a liberar 610 milhões para serem utilizados pela Fundação Educacional. (Publicado em 20.05.1962)

Apoptose política

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VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)

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Charge do Cazo

 

Não tenham tanta pressa em saber quem será o próximo presidente do nosso país ou o governo deste ou doutro estado da Federação. Muito menos que bancada virá com mais força dentro do Congresso. Talvez nenhuma dessas forças, amparadas por modelos políticos desenhados nos séculos passados, terão maior protagonismo num futuro próximo. Isso, caso estejamos mesmo indo na direção do que os pesquisadores denominam de hiper-história, com uma nova filosofia da natureza, uma nova antropologia filosófica ou uma nova filosofia da política. Junto com esse novo tempo que desponta, virá sobretudo uma nova filosofia da informação e, com ela, novos atores da política.

Quando essas mudanças acontecerem, nem mesmo o Estado terá papel principal na vida das pessoas, justamente porque ele corre o risco de perder também o poder informacional sobre os diversos grupos de cidadãos. O que se acredita é que, talvez, estejamos prestes a assistir ao advento das tecnologias de informação e comunicação (TIC) — ou seja, um conjunto diversificado de práticas, saberes e ferramentas, ligadas diretamente ao consumo e à transmissão de informação, todas elas desenvolvidas a partir da revolução, como a internet e as redes sociais. Vamos, de fato, ao encontro da sociedade da informação, com todas as mudanças de paradigmas que isso representa. A forma como consumimos agora essa massa de informação sem precedentes mudou em relação ao passado, e isso determinará mudanças, quer queiram ou não os políticos do passado.

O que de mais extraordinário pode acontecer com essas mudanças é que o Estado, como o conhecemos até aqui, está vivendo o que podem ser seus últimos momentos. Estamos imersos no que os cientistas políticos chamam de apoptose política. Ou seja, instituições de porte global estão assumindo o protagonismo da informação. Todo esse processo é ainda potencializado pelas chamadas inteligências artificiais (IAs). Não é por outra razão que as maiores potências do planeta estão numa corrida alucinada para o desenvolvimento de novas e poderosas IAs. De fato, a informação neste século 21 vai se constituindo, cada vez mais, numa referência de riqueza ou numa espécie de capital, capaz de determinar não apenas trocas, mas até mesmo soberanias.

Toda essa nova revolução parece ir contra o modelo padrão de Estado, justamente porque as próprias fronteiras parecem ter perdido o sentido em abrigar a soberania. O que valerá daqui para frente será a infocracia. Antes que isso possa acontecer, porém, poderemos assistir a múltiplas tensões no campo da geopolítica. Assim como nas células, que são programadas para deixar de existir num dado momento, a apoptose política (a apoptose é um processo de morte celular programada, que é fundamental para o desenvolvimento e a manutenção dos seres vivos) está sendo gerida com o intuito de acabar não só com o Estado, mas de substituir a democracia por uma sociedade da informação extraterritorial.

A infocracia irá acabar com o sentido das soberanias e das fronteiras. Nesse mundo que se anuncia, o poder passa para as mãos de empresas de informação, que passarão a determinar quem tem ou não o poder de fato. Nesse novo ambiente, o Estado passará de protagonista a figurante, uma vez que passa a perder sua centralidade. Poderes como o Legislativo, fazendo leis, o Judiciário, aplicando-as, e o Executivo, pondo o Estado para rodar, por total incapacidade de deter a informação e usá-la como querem, perderão progressivamente sua importância.

O que as seguidas crises políticas vividas pelo Brasil ao longo desses últimos séculos apontam é que há no horizonte um conjunto de mudanças a decretar o declínio, ou mesmo a eliminação de figuras do mundo político. Com eles, terá fim também um conjunto de ideologias, de movimentos políticos, com os partidos perdendo relevância, ou mesmo deixando de existir. Essa apoptose política virá ainda favorecida pela falta de apoio popular, por mudanças no seio da sociedade e por diversos outros fatores de ordem econômica.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“Nosso desejo é o da nação: que este plenário não abrigue outra Assembleia Nacional Constituinte. Porque, antes da Constituinte, a ditadura já teria trancado as portas desta Casa. Autoridades, constituintes, senhoras e senhores, a sociedade sempre acaba vencendo, mesmo ante a inércia ou antagonismo do Estado.”
Ulysses Guimarães

Foto: agenciabrasil.ebc.com.br

 

Haja paciência
Pacientes do Hospital do Paranoá pedem socorro. São horas de espera tanto para crianças quanto para adultos. Um deputado distrital poderia fazer a experiência de se passar por um paciente normal para sentir o drama. Certamente, alguma coisa iria mudar.

Foto: blogdoguilhermepontes.com.br

 

Referência
Enquanto isso, o Hospital de Apoio de Brasília recebe equipe técnica da Finlândia que veio conhecer a triagem neonatal. O hospital é referência internacional.

Hospital de Apoio de Brasília. Foto: Karinne Viana/Agência Saúde-DF

 

História de Brasília

O primeiro-ministro reuniu-se com os líderes de todos os partidos para estudar diversos assuntos e ficou resolvido inclusive, combater o empreguismo. (Publicada em 29/4/1962)