DF sem herdeiros políticos

Publicado em ÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Charge do Cazo

 

Brasília foi concebida como símbolo de um Brasil novo, racional e capaz de planejar seu próprio destino. Sete décadas após sua fundação, a capital da República assiste, perplexa, ao esfacelamento daquele ideal diante de uma crise que é, ao mesmo tempo, financeira, política e moral. A emancipação representativa do Distrito Federal, vendida à população como conquista democrática, revelou, com o tempo, sua face mais sombria: a de um arranjo que servia, antes de tudo, às lideranças locais e ao poder do capital.

Nesse contexto, a democracia tornou-se fachada. O que se instalou nos corredores do Buriti foi uma gestão que misturou interesses públicos e privados com uma naturalidade que deveria nos alarmar há muito. Hoje, o desfecho do caso Banco Master tem o poder de arrastar para a vala comum boa parte das lideranças políticas do DF e todos aqueles que assinaram, sem qualquer escrúpulo aparente, a documentação que atrelava o futuro do BRB, banco público, patrimônio do cidadão brasiliense às peripécias financeiras do grupo de Vorcaro.

Assinaturas que comprometeram o dinheiro público não podem ficar impunes. A responsabilidade dolosa precisa ter endereço certo. Não é possível ignorar o risco, já evidente, de que manobras nas altas cúpulas do poder transformem todo o caso Master num labirinto jurídico inconcluso. Seria uma tragédia anunciada: mais um mega escândalo do sistema financeiro nacional engolido pelo aparelho do Estado que deveria combatê-lo.

Vale lembrar, que o sistema financeiro brasileiro é um ser extraordinariamente resiliente, sobretudo, na sua capacidade de prosperar independentemente de quem governa. Entra governo, sai governo: os lucros astronômicos permanecem. E quando a conta chega, ela é invariavelmente depositada no colo da população. Não é incomum ouvir, nos meios políticos e financeiros, a defesa de que crises do porte do caso Master exigem uma nova reforma do sistema financeiro nacional. É possível que algum iluminado, ali à frente, se convença disso. Mas a história nos ensina a desconfiar: reformas gestadas no seio das mesmas elites que produziram o problema raramente mudam o essencial.

As próximas eleições para o governo do Distrito Federal se aproximam marcadas por um elemento inédito: a possibilidade real de que nomes centrais da política local sejam, neste momento, alvos de investigações sobre sua cumplicidade no caso Master. O espectro da responsabilização paira sobre o campo político como nunca antes. Nenhum nome consolidado ocupa, com conforto, o espaço de favorito. Os partidos que controlam o Buriti e a Câmara Legislativa do DF carregam o peso de explicações que ainda não deram. E a oposição, fragmentada e sem liderança clara, tem dificuldade de transformar o escândalo em projeto. O campo político do DF enfrenta sua maior crise de legitimidade desde a fundação.

Há uma lição que este e tantos outros escândalos tentam, sem sucesso, ensinar às instituições brasileiras: os estragos causados por más gestões políticas e financeiras não podem, em hipótese alguma, ser debitados nas costas da população. A conta deve ser cobrada exclusivamente de quem agiu dolosamente. Mas tudo indica, mais uma vez, que será o cidadão comum a arcar com as consequências. Seja por meio da deterioração dos serviços públicos que deveriam ser financiados pelo BRB, seja pelo custo oculto de uma crise de credibilidade que afasta investimentos e encarece o crédito para quem mais precisa.

Diante desse quadro, é preciso ir além dos diagnósticos já conhecidos. Surge a tese de que o acesso direto de políticos aos recursos públicos precisa ser estruturalmente vedado. Não se trata de ceticismo antipolítica, mas de realismo institucional: dadas as características demonstradas por nossas lideranças ao longo de décadas, controles mais rígidos, acesso de informações de emendas pelos contribuintes para acompanhamento de todo o trâmite, auditoria independente e separação efetiva entre o político e o financeiro não são luxo são condição de sobrevivência das instituições democráticas.

Brasília merece mais do que os gestores que tem tido. Merece mais do que um sistema financeiro capturado por interesses privados. Merece mais do que eleições decididas pela amnésia coletiva ou pela ausência de alternativas. O caso Master não é apenas um escândalo bancário. É um espelho. E o que ele reflete é desconfortável demais para ser ignorado nas urnas. O cidadão brasiliense terá, nas próximas eleições, uma oportunidade rara: a de exigir responsabilidade antes, e não apenas lamentar a ausência dela depois. Primeiro, passa a capital a limpo. Depois pensar em eleições. É o futuro da população que está em jogo e isso é o que mais importa.

 

A frase que foi pronunciada:
“Obrigar um homem a subsidiar com seus impostos a propagação de ideias nas quais ele não acredita e que abomina é pecaminoso e tirânico.”
Thomas Jefferson

Foto: Rembrandt Peale – Thomas Jefferson – Google Art Project.jpg

 

História de Brasília
O Rotary Club de Brasília realizou um grande trabalho de colaboração aos planos do presidente da Republica. Endereçou ao sr. João Goulart, por intermédio de seu porta voz deputado Milton Reis uma série de sugestões em benefício de Brasília.
Sugeriu colocar à venda, pela Novacap, os terrenos para a edificação dos 50 blocos residenciais previstos na ultima concorrência, para construção, financiada, pela Iniciativa Privada. (Publicado em 20.05.1962)

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