O caos da despedida

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Consequentemente, o ambiente é de confronto, com as esquerdas forçando a barra para que esses protestos saiam de controle e acabem fazendo um mártir entre esses estudantes. Desse modo, trata-se da velha aposta no tudo ou nada.

Para Lula, que de modo ambicioso nunca deixou surgir entre suas hostes um herdeiro político, essa seria uma maneira de perder a eleição de um jeito menos patético. No entanto, o fato é que Lula, como outros déspotas que não fizeram herdeiros políticos, envelheceu da pior maneira possível. Assim, acumulou adversários, repetiu erros, mentiu e prometeu um futuro de abundância que parece ter chegado apenas para as pessoas do seu entorno imediato. Por isso, de pai dos pobres, Lula transformou-se no pai da pobreza e das crises. Sua saída de cena não poderia ser feita de outra forma que não em meio ao caos que construiu ao longo de duas décadas.

A despedida de Lula e o cenário pós-primeiro turno reacendem o tom do “nós contra eles”, raiz de toda a polarização política que o país vive desde a chegada do PT ao poder. Numa atitude de quase desespero, o presidente convoca a militância a vir para as ruas para impedir o que chama de retrocesso. O chamamento atendeu logo e de imediato os estudantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que vieram protestar contra as eleições que obrigaram o mandatário a disputar o segundo turno em desvantagem.

A Semeadura da Divisão na Política Nacional

Não há nada de acidental nesse desfecho. A política, como a agricultura, devolve a quem a pratica aquilo que foi semeado. Por conseguinte, Lula semeou, durante anos, a divisão como método de governo. Ao dividir o país entre “nós” e “eles”, entre o povo e as elites, entre os bons e os maus, ele transformou o adversário em inimigo e o debate em trincheira. Ele fez isso quando era conveniente e fez isso quando não era necessário. Agora que a trincheira se volta contra ele, surpreende-se com a hostilidade de metade do eleitorado, como se ela tivesse brotado do nada.

Primeira Colheita: A Crise de Confiança e Escândalos

A primeira colheita é a da desconfiança. O PT chegou ao poder em 2003 prometendo ética na política e entregou, poucos anos depois, o escândalo do Mensalão, seguido do Petrolão, que revelou um esquema de desvio de recursos públicos em escala poucas vezes vista no país. Além disso, entre os escândalos que marcaram a trajetória recente do governo, acrescenta-se o Caso Master, ampliando as controvérsias de gestão.

Posteriormente, Lula acabou condenado, preso e libertado. Teve as condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021 por questões de competência do foro, e não por um julgamento de mérito que o declarasse inocente. Preferiu, porém, tratar a anulação como absolvição moral e o passado como página virada. Entretanto, milhões de brasileiros não a viraram. Quando o escândalo dos descontos indevidos em benefícios do INSS veio à tona, atingindo justamente aposentados e pensionistas, a memória coletiva fez o resto. Assim, a promessa de proteger os mais pobres convivia, mais uma vez, com a sombra da apropriação do dinheiro público.

A gangorra de Lula e Bolsonaro

Segunda Colheita: O Retorno da Realidade Econômica

A segunda colheita é a da economia. Lula voltou ao Planalto vendendo a lembrança dos anos de bonança das commodities, como se a prosperidade do passado fosse um atributo pessoal, e não o produto de um ciclo externo irrepetível. Por outro lado, tratou o equilíbrio das contas públicas como obsessão de rentistas e viu o desconforto do mercado como mera conspiração.

O resultado foi um governo que gastou mais, convenceu menos e conviveu com juros em patamares elevadíssimos, dólar pressionado e alimentos caros na mesa do trabalhador. Desta forma, o brasileiro que ouviu falar de picanha barata e churrasco farto encontrou, no supermercado, uma realidade bem menos generosa. Afinal, prometer abundância e entregar escassez é a forma mais rápida de transformar um líder em personagem de sua própria ironia.

Terceira Colheita: A Solidão Política e a Sucessão

A terceira colheita é a da solidão política. Lula nunca tolerou sombras. Dilma Rousseff, escolhida sem ter feito carreira eleitoral, foi a síntese desse método: um nome de confiança, jamais um rival. Fernando Haddad, em 2018, foi o substituto improvisado de um líder que não aceitava deixar o palco. Nos anos seguintes, quem ousou crescer dentro do partido acabou contido, absorvido ou esquecido.

Como resultado, no momento em que o eleitor pediu renovação, o PT só soube oferecer a mesma figura, aos quase oitenta anos, de volta para mais uma batalha. Consequentemente, quem não prepara a sucessão não pode reclamar quando a sucessão se transforma em disputa selvagem, ou quando o seu fim de carreira se parece mais com um acerto de contas do que com uma despedida.

Quarta Colheita: Credibilidade Externa e Alianças Internacional

A quarta colheita é a da credibilidade externa e dos aliados escolhidos. A diplomacia que se dizia soberana e pragmática mostrou-se, em muitos momentos, fiel a afinidades ideológicas. Observa-se o afago a regimes autoritários na América Latina, a relutância em criticar eleições contestadas e a leniência com ditaduras desde que se declarassem de esquerda.

Portanto, um país que se apresenta ao mundo como defensor da democracia perde autoridade quando seu presidente escolhe a quem cobrar e a quem perdoar. O mesmo vale dentro de casa. Nesse sentido, quem passou anos chamando de golpe qualquer derrota e de fascismo qualquer divergência não tem crédito para pedir serenidade agora.

Quinta Colheita: O Entorno do Poder e o Aparelhamento

A quinta colheita é a do entorno. Em cada governo petista, a promessa de que o Estado serviria aos mais pobres encontrou o obstáculo de uma máquina pública ocupada por aliados, sindicatos e partidos satélites. Estes passaram a tratar cargos e orçamentos como patrimônio. Por causa disso, a distância entre o discurso e a prática ficou evidente.

O líder que dizia governar para quem mais precisa governava, na prática, com quem mais o cercava. O benefício chegou, sim, a muita gente. Contudo, o sentimento que se consolidou na parcela do eleitorado que o abandonou foi o de que a abundância prometida tinha endereço certo, e que esse endereço não era o da periferia que o consagrou.

Sexta Colheita: Relação com as Instituições e a Verdade

A sexta colheita é a da relação com as instituições e com a verdade. Lula atacou a imprensa quando a imprensa o incomodou. Além disso, desqualificou o Judiciário quando o Judiciário o condenou e passou a elogiá-lo quando o Judiciário o beneficiou. Tratou a Constituição como escudo nos dias bons e como obstáculo nos dias ruins.

Do mesmo modo, prometeu, em campanha, o que sabia ser difícil cumprir, desmentiu-se em discursos sucessivos e passou a acusar de mentira quem apontava as contradições. Num país em que a confiança nas instituições já estava corroída, a atitude do presidente não ajudou a reconstruí-la. Em vez disso, aprofundou a erosão que ele mesmo dizia combater.

O Apelo às Ruas no Segundo Turno

É nesse ponto que o apelo às ruas, feito depois do primeiro turno, ganha seu verdadeiro sentido. Não se trata de defender a democracia, a qual está funcionando e acaba de impor ao presidente a obrigação de disputar um segundo turno. Trata-se de reagir ao desagrado das urnas com a velha pedagogia da mobilização, na qual a rua serve de pressão sobre quem votou, sobre as instituições e sobre a narrativa do dia seguinte.

Quando um governante responde a um resultado eleitoral convocando militantes para o confronto, ele diz, na prática, que só reconhece a vontade popular quando ela lhe é favorável. Assim sendo, é a mesma lógica do “nós contra eles”, agora em sua versão final.

O Custo Social da Polarização Política

O custo dessa semeadura não foi pago apenas pelo presidente. Foi pago por famílias que deixaram de conversar à mesa, por amigos que se afastaram, por um debate público reduzido a gritos e por uma política em que quase ninguém ouve ninguém. A polarização que Lula alimentou, e que seus adversários também souberam explorar, tornou o país mais áspero e mais difícil de governar, inclusive para ele.

Certamente, um presidente que depende de maioria para aprovar o que promete precisa de pontes. Por outro lado, quem passou anos dinamitando pontes descobre, tarde demais, que governar exige o que o palanque dispensa.

A Defesa dos Apoiadores no Debate Eleitoral

Há, é claro, a defesa que seus apoiadores farão, e ela não deve ser ignorada. Dirão que o governo reduziu a fome, ampliou programas de transferência de renda, reconstruiu políticas públicas desmontadas nos anos anteriores e que o país cresceu e gerou empregos sob sua gestão.

Além disso, dirão que a anulação das condenações foi uma correção de abusos de uma operação que desrespeitou o devido processo legal, e que a polarização é obra de um campo político inteiro, e não apenas de um homem. Dirão ainda que mobilização popular é direito democrático, e não ameaça. São argumentos legítimos e fazem parte do debate. Mas cabe ao eleitor, no segundo turno, pesar essa defesa contra o balanço que este editorial procurou fazer.

O Balanço Final e o Legado da Divisão

O fato permanece: os governantes não escapam de si mesmos. Lula teve, em três mandatos, a oportunidade rara de ser lembrado como o líder que reconciliou o país e preparou o futuro.

Contudo, preferiu o conforto da divisão, a vaidade da indispensabilidade e a ilusão de que bastaria o carisma para sustentar o que as entregas já não sustentavam. A despedida que se desenha, em meio a protestos, desconfiança e ressentimento, é a conta de um longo processo. O país, cansado, seguirá em frente. Resta saber se o ex-metalúrgico que prometeu unir os brasileiros terá a grandeza de reconhecer, ao final, que a cizânia que agora o cerca tem, em boa medida, a sua assinatura.

A frase que foi pronunciada:

“O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta.” Maquiavel

História de Brasília -A Quadra 48 ainda é a grande sem sorte da W-3. Começaram o serviço de urbanização. Deixaram pelo meio, com esgotos e telefones cortados. Consertaram, e diante à poeira. Agora, está sendo preferida pelos ladrões de automóveis. (Publicada em 25.05.1962)

O “Macallão” e o transatlântico Brasil

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CIArce

A cada novo documento tornado público, a crise cresce visivelmente. A Polícia Federal recupera conversas importantes de forma contínua. Além disso, o caso Banco Master parece adquirir dimensões cada vez maiores. O problema deixou de ser apenas a história de uma instituição financeira. Anteriormente, o Banco Central liquidou essa estrutura no mercado. Hoje, o que está vindo à superfície envolve operações bilionárias complexas. Relações entre instituições públicas e privadas estão sob investigação rigorosa. Dirigentes de bancos, empresários e agentes políticos também participam da trama. Ainda não podemos antecipar o desfecho judicial de cada episódio. Porém, já existe material probatório suficiente para compreender a gravidade. Afinal, o caso Banco Master se transformou em uma grave crise financeira e institucional.

VISTO, LIDO E OUVIDO
Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense

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O Apelido de “Maccallão” e a Dimensão do Caso Banco Master

O apelido de “Macallão” funciona como uma imagem jornalística incisiva. Ele faz alusão direta aos conhecidos escândalos do Mensalão e Petrolão. Consequentemente, serve para designar a enorme dimensão política do episódio. Não pretendemos afirmar antecipadamente que todos os envolvidos cometeram crimes. Primeiramente, as investigações federais ainda estão em pleno andamento. Acusações graves devem ser devidamente comprovadas nos autos. Além disso, cabe exclusivamente à Justiça estabelecer as responsabilidades individuais. Contudo, o tamanho dos valores financeiros não pode ser ignorado. A quantidade de instituições e personagens atingidos pelo caso Banco Master impressiona a sociedade.

Os Bilhões Envolvidos nas Operações do BRB

Para ilustrar o cenário, analisemos o relatório da Polícia Federal. Este documento investigativo, tornado público em setembro, trouxe um dado particularmente grave. Segundo a investigação, o BRB transferiu aproximadamente R$ 17 bilhões ao Banco Master. Essa transferência vultosa ocorreu no âmbito da aquisição de carteiras de crédito. Por conseguinte, desse total expressivo, a PF afirma que cerca de R$ 12,2 bilhões corresponderiam a títulos sem lastro. O BRB, por sua vez, contesta a interpretação sobre a sua responsabilidade institucional. A atual administração garante que tomou providências imediatas para proteger o patrimônio. O banco busca, portanto, garantir um eventual ressarcimento dos cofres. Entretanto, os balanços financeiros independentes mostram uma realidade divergente.

Suspeitas

O episódio também alcançou o próprio mercado de capitais. Reportagens baseadas em mensagens obtidas pela PF apontam que Daniel Vorcaro teria afirmado que buscaria apoio para a permanência de Otto Lobo na presidência da Comissão de Valores Mobiliários. Lobo, por sua vez, negou ter buscado apoio de Vorcaro ou possuir vínculo com ele. Trata-se novamente de informação investigativa que exige apuração, e não de responsabilidade criminal estabelecida.

Triagem

É nesse ambiente que aparece o verdadeiro perigo para a República. Paralelamente não é a investigação que ameaça o país. A investigação é justamente o instrumento que pode impedir que irregularidades permaneçam ocultas. O perigo está na eventual utilização seletiva das investigações, na transformação de escândalos em armas eleitorais e, principalmente, na possibilidade de que a passagem do tempo produza aquilo que os brasileiros já conhecem: a fadiga pública, a perda de interesse e, finalmente, o esquecimento.

Por Que o Caso Banco Master Exige Rigor Público?

A dimensão financeira do episódio é suficientemente vasta e preocupante. Portanto, impede que tratemos o assunto como uma ocorrência empresarial comum. Afinal, um banco público definitivamente não atua como uma empresa qualquer. Seu patrimônio bilionário pertence, em última instância, a toda a sociedade brasileira. Quando uma instituição controlada pelo governo assume riscos extraordinários, o perigo aumenta. A conta potencial desse desastre não desaparece simplesmente do mapa. Consequentemente, pode transformar-se em necessidade urgente de capitalização estatal. Também pode gerar redução de investimentos sociais ou restrição severa de crédito. Em outras palavras, resulta na necessidade de apoio financeiro suportado pelos contribuintes.

Crise do Banco Master e STF na Imprensa Internacional

TCDF

O Tribunal de Contas do Distrito Federal deu um passo crucial. O órgão determinou, em 23 de setembro, um bloqueio patrimonial significativo. Os conselheiros bloquearam até R$ 2,761 bilhões em bens e contas bancárias. A medida atingiu diretamente cinco ex-dirigentes do BRB. Certamente, essa quantia ainda parece pequena diante do rombo total. Nesse sentido, a decisão tem caráter cautelar e provisório no momento. Dessa forma, os envolvidos terão a oportunidade legal de apresentar defesa. O próprio valor da medida demonstra a imensa gravidade do assunto investigado. O órgão de controle trata os negócios entre o BRB e o Master com extremo rigor. Ademais, fosse deixado ao critério da população lesada, o bloqueio seria muito maior. A Justiça deveria alcançar cada nome citado nas investigações preventivamente.

Aceleramento de Operações e Indícios de Irregularidades

Mais preocupante ainda é a sequência temporal apresentada pelos investigadores. Segundo documentos analisados criteriosamente pela PF, o BRB continuou comprando ativos suspeitos. Isso ocorreu mesmo depois de o Banco Central apontar problemas sistêmicos claros. Uma dessas operações alcançou impressionantes R$ 4,05 bilhões. Esse montante circulou entre abril e maio de 2025 (data constante no relatório). A Polícia Federal afirma encontrar fortes indícios de fraudes procedimentais. As cédulas de crédito bancário utilizadas nessas operações possivelmente não existiam na prática.

Prevaricação

É justamente nesse ponto que a situação institucional muda completamente de figura. O episódio deixa de estampar apenas como uma questão de corrupção bancária tradicional. Passa a representar uma violação gravíssima de segurança e governança pública estatal. Os fatos descritos pela investigação encontrando confirmação, exigirão respostas imediatas. Os gestores certamente explicarão o avanço de operações desse tamanho colossal. Como isso ocorreu dentro de uma instituição estatal, superando tantos alertas formais? Também é necessário descobrir quem sabia de tudo nos bastidores do poder. Quando essas autoridades souberam dos fatos e quais providências tomaram efetivamente?

Conexões Políticas e o Impacto no Mercado Financeiro

Outro elemento contundente que amplia o escândalo é a rede de relações interpessoais. A quantidade de conexões revelada nas investigações recentes é assustadora. Documentos tornados públicos pelo STF escancararam diversos contatos de alto nível. Empresários, advogados criminalistas, políticos, ministros e autoridades figuram na longa lista. O próprio ministro responsável por este processo no STF retirou o sigilo judicial. Ele abriu o conteúdo de diversos procedimentos relacionados ao caso Banco Master. Dessa maneira, ampliou radicalmente o acesso e o escrutínio do público interessado.

Master chefe político

O imposto que você paga, paga os escândalos que você vê

A divulgação minuciosa desses materiais possui um significado jurídico importante. Todos os nomes mencionados estão implicados nesse amplo rol de irregularidades. Uma investigação criminal frequentemente reúne dezenas de pessoas do mesmo ecossistema. Elas aparecem como testemunhas, interlocutores, contratantes ou integrantes do círculo íntimo. Até prova cabal em contrário, a maioria desses nomes mantém algum envolvimento factual. Estão ligados a esse processo nebuloso tem urgência em ser elucidado. É necessário separar os fatos para salvar aqueles que não cometeram crimes. Ocupar uma posição pública relevante não blinda ninguém contra investigações legítimas. Relações perigosas devem sofrer apuração rigorosa diante de elementos objetivos. O que mais indigna a população pagadora de impostos é o desvio moral crasso. Muitas autoridades desfrutavam de orgias bancadas pelo dinheiro fácil desviado dos brasileiros.

Lições do Passado e a Busca Urgente por Transparência

A história recente da República brasileira oferece uma advertência dolorosa. O Mensalão, o Petrolão e outros grandes escândalos demonstraram padrões estruturais idênticos. Esquemas envolvendo desvios, empresas de fachada, partidos e agentes públicos transcendem núcleos iniciais. À medida que os investigadores aprofundam as operações táticas, novidades chocantes surgem. Aparecem novos contratos fraudados, intermediários ocultos, relações escusas e perguntas sem resposta. É exatamente por isso que o caso Master exige investigação até as últimas consequências. A Justiça deve agir independentemente da identidade política ou econômica dos investigados. Vivêssemos numa democracia madura, afastaríamos todas essas autoridades cautelarmente. O afastamento duraria até o término completo das apurações policiais.

Eleições

O calendário político do nosso país não poderia ser mais delicado atualmente. O Brasil encontra-se às vésperas de uma importante eleição geral mobilizadora. Em circunstâncias ideais, este seria o momento perfeito para discutir programas administrativos. Debateríamos soluções para a economia, segurança pública, saúde e educação de qualidade. Em vez disso, o país chega à disputa eleitoral visivelmente sobrecarregado. Carregamos uma sucessão interminável de investigações de imensa repercussão nacional. Algumas delas continuam inconclusas, sorvendo o precioso dinheiro público diariamente.

Banco Master e STF: O Templo Profanado pela Crise Institucional

Agir agora

Às vésperas de uma eleição, essa investigação não pode ser usada como combustível de campanha nem enterrada sob a avalanche de propaganda eleitoral. Deve permanecer onde sempre deveria ter estado: sob a luz dos documentos, dos órgãos de controle, da Polícia Federal, do Ministério Público, do Banco Central e da Justiça. Sem absolvições antecipadas, condenações não fundamentadas e proteção e blindagens política.

O Transatlântico Brasil Não Pode Navegar às Cegas

O Brasil definitivamente não pode esquecer mais um escândalo bilionário. Fraudes comprovadas pelos peritos daí para a frente a Justiça deve identificar e punir os responsáveis. Encontrando falhas de governança, os auditores e gestores administrativos responderão por isso. Caso determinados episódios não configurem crime, a Justiça estabelecerá essa inocência claramente. O que prejudica o interesse público é a manutenção do estado de suspeita perene. Uma nuvem gigantesca de dúvidas sobre instituições financeiras fundamentais destrói a economia nacional.

Muita calma nessa hora

O BRB, inserido nesse contexto altamente desafiador, exige proteção institucional absoluta. O banco representa um patrimônio histórico e valioso de todos os brasilienses. Não podemos confundir a instituição com os atos de seus antigos dirigentes investigados. A própria administração atual garante a tomada de medidas preventivas rigorosas. Os gestores buscam separar a instituição das práticas atribuídas à diretoria afastada. Essa distinção jurídica e administrativa revela-se absolutamente fundamental neste momento crítico. Punir responsáveis criminais não significa, de forma alguma, punir o banco público. Uma República verdadeiramente séria jamais opera sob o conceito de culpa coletiva.

Pela credibilidade

A economia brasileira já sofre com dívida alta e juros asfixiantes diariamente. Enfrentamos problemas fiscais complexos e enorme desconfiança crônica em relação ao Estado. Uma crise envolvendo instituições financeiras estratégicas acrescenta um ingrediente extremamente perigoso. Ela provoca a imediata e nociva perda de confiança sistêmica no mercado. Confiança é, sem dúvida, um ativo institucional invisível e inestimável. Um banco possui prédios imponentes, sistemas modernos e bilhões em capitalização. Porém, se o mercado perde a crença na qualidade dos ativos, tudo desmorona velozmente. O edifício financeiro estremece até as fundações.

Manto da invisibilidade

O país recusa a invenção de mais um grande escândalo passageiro. Não aceitaremos um caso que estampa manchetes e depois desaparece nos arquivos poeirentos. A sociedade civil começa brilhantemente a desvendar os bastidores dessa trama financeira. É fundamental descobrir os ganhadores, os perdedores, os autorizadores e os omissos. A população exige rastrear minuciosamente todo o caminho percorrido pelo dinheiro suado.

Agora é enfrentar

O transatlântico nacional ainda navega bravamente em águas turbulentas e imprevisíveis. Mas, diante das cifras bilionárias e das conexões reveladas, o alerta soa forte. Ignorar a realidade agora seria uma atitude criminosamente irresponsável. Fica impossível fingir que não há água entrando no casco da nossa economia.

A frase que foi pronunciada:

“A atuação do Poder Judiciário deve pautar-se pelo estrito respeito às garantias constitucionais, exigindo-se fundamentação idônea, concreta e contemporânea para a imposição de qualquer medida restritiva de direitos.”

Ministro André Mendonça e o óbvio esquecido por alguns colegas

História de Brasília

A Câmara dos Deputados perdeu 75 minutos discutindo o projeto revogando a proibição contra lutas de galos. Pois bem. Depois disso, em 45 minutos aprovou 17 outros projetos, muitos dos quais de grande importância. ( Publicada em 26.05.1962)

Crise do BRB tem solução

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Há crises que surgem de um acidente. Outras são resultado de uma sucessão de decisões que, durante algum tempo, parecem perfeitamente administráveis, até o momento em que deixam de ser. O caso do Banco de Brasília, o BRB, começa a assumir essa segunda dimensão. Essa é uma crise que alcança o sistema financeiro, o patrimônio público, a administração do Distrito Federal e, inevitavelmente, a política. É preciso, antes de tudo, separar os fatos das especulações. O BRB continua funcionando. Não houve liquidação. Agências, contas, empréstimos e demais operações bancárias seguem em atividade. O banco continua sendo uma instituição relevante no sistema financeiro nacional e, sobretudo, para o Distrito Federal. Não há razão, portanto, para transformar uma investigação em sentença antecipada ou uma crise de governança em anúncio automático de falência. Mas tampouco há razão para fingir que nada de extraordinário está acontecendo. O simples fato de demonstrações financeiras terem sido retardadas enquanto se realizam auditorias e investigações já mostra a gravidade do momento.

Bancos vivem de confiança.

Confiança dos depositantes, dos investidores, dos parceiros comerciais, dos órgãos reguladores e, principalmente, da sociedade que, no caso do BRB, é também representada pelo controlador da instituição: o Governo do Distrito Federal. Quando um banco estatal ou controlado pelo poder público entra numa crise envolvendo operações bilionárias, a pergunta deixa de interessar apenas aos acionistas. A população tem o direito de saber quanto foi investido, quais critérios foram utilizados, quem autorizou as operações, quais controles funcionaram e quais falharam e, sobretudo, quem responderá por eventuais prejuízos. É nesse ponto que o caso Banco Master assume importância central. As operações envolvendo aquisição e negociação de carteiras de crédito passaram a ser objeto de investigações e auditorias.

Na mesma pauta: BRB e a Caixa de Pandora. Respingos nas eleições

Os prejuízos efetivamente sofridos

Entre uma ponta e outra existe um longo caminho: avaliação dos ativos, verificação de garantias, recuperação de créditos, ações judiciais e eventual responsabilização de administradores ou terceiros. Por isso, afirmar hoje que o BRB perdeu integralmente determinados valores seria precipitado. O próprio movimento da instituição demonstra que a situação exige providências excepcionais. Acionistas autorizaram medidas contra antigos administradores relacionados às operações investigadas, enquanto auditorias independentes procuram estabelecer responsabilidades e dimensionar os impactos patrimoniais. Quando uma instituição chega ao ponto de preparar ações contra integrantes de sua própria administração anterior, é evidente que estamos além de uma simples divergência burocrática. A tentativa de estruturar uma operação financeira de bilhões de reais para reforçar a posição do banco demonstra que o assunto não pode ser tratado com frases tranquilizadoras de campanha eleitoral.

As perguntas que ficam

A dependência de decisões judiciais, negociações institucionais e eventuais operações de socorro não é um cenário confortável para qualquer banco, muito menos para uma instituição cuja imagem está diretamente associada ao governo local. A pergunta inevitável é: como se chegou a esse ponto? Não basta procurar culpados depois que a crise aparece. É preciso examinar o sistema de decisões que permitiu a realização das operações agora questionadas. Quem analisou os riscos? Quais comitês participaram? Quais pareceres foram produzidos? Houve alertas internos? O conselho de administração foi informado de todos os detalhes? Os mecanismos de compliance funcionaram? Houve divergências técnicas que foram ignoradas? São perguntas que precisam ser respondidas com documentos, e não com discursos.

Relacionada: O preço das consciências que governam o Brasil

Um banco importante para os brasilienses

O Distrito Federal possui uma relação particular com o BRB. O banco carrega a marca de Brasília e tem participação direta do poder público em sua estrutura de controle. Isso significa que qualquer problema relevante ultrapassa os limites de uma empresa e alcança a responsabilidade dos administradores públicos. Não existe patrimônio público abstrato. Todo recurso pertence, em última instância, à sociedade. Se houve operações mal avaliadas, prejuízos devem ser identificados.

No furacão da política

O processo eleitoral não pode substituir a investigação técnica. Nem eleição inocenta ninguém, nem eleição condena alguém. Responsabilidades administrativas, civis e criminais precisam ser determinadas pelos órgãos competentes, com provas e respeito ao devido processo legal. Ao mesmo tempo, a população tem todo o direito de transformar a maneira como uma crise foi conduzida em elemento de julgamento político. Governantes são eleitos para administrar. Administradores públicos respondem pelas decisões tomadas sob sua gestão. Essa é uma regra elementar da democracia. O caso BRB, portanto, não desaparecerá simplesmente porque uma nova campanha eleitoral começou. Pelo contrário. Quanto maior a demora na divulgação de informações claras e auditadas, maior será o espaço ocupado por versões, boatos e especulações.

A frase que foi pronunciada:

“Cadê os bilhões do BRB?”

Eric Gustavo

História de Brasília

As pessoas que procuram a Coletoria Federal de Brasília reclamam que há poucos funcionários para o trabalho. A averbação de contratos ou recibos é feita rapidamente, mas às vêzes, os funcionários ficam presos a leituras de longos contratos, em prejuízo do funcionamento mais rápido do serviço. (Publicada em 25.05.1961)

O preço das consciências que governam o Brasil

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Foto: Reprodução/Arquivo pessoal e Bruna Vieira/TV Globo

 

Repetia o filósofo de Mondubim: “quem se vende por dinheiro não merece o que recebe.” Em 18 de novembro de 2025, quando a Polícia Federal deteve o banqueiro Daniel Vorcaro no Aeroporto Internacional de Guarulhos a poucas horas de embarcar em um jato particular rumo a Dubai, esse ditado deixou de ser apenas sabedoria popular para se tornar o epitáfio moral de uma geração inteira de dirigentes que, em tese, deveriam guardar o interesse público. O escândalo do Banco Master é a fotografia em alta definição de um país capturado. As investigações da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal a pedido do Ministério Público Federal, já percorreram sete fases operacionais até maio de 2026. O que cada fase revelou foi progressivamente mais perturbador: uma rede de influência que atravessa o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e os governos estaduais da direita à esquerda, sem distinção partidária.

Como observou a Gazeta do Povo, poucos episódios recentes da vida política nacional conseguiram atingir tanta gente influente ao mesmo tempo, e de grupos políticos tão diferentes. Documentos enviados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado expuseram, em números frios e devastadores, o tamanho do que foi comprado. Entre 2022 e 2025, o Banco Master realizou repasses que somam dezenas de milhões de reais a escritórios de advocacia e consultorias vinculadas a figuras de alto escalão.

Todos os citados alegam que os pagamentos correspondem a serviços técnicos, consultorias econômicas ou trabalhos jurídicos formalizados com nota fiscal. Mas o que os números dizem é que o Banco Master, investigado por fraudes cujos créditos “nunca existiram na origem”, segundo o Banco Central, construiu sistematicamente uma rede de proteção milionária dentro das mais altas esferas do poder. O caso é mais grave do que parece à primeira leitura. Não se trata de um banqueiro que corrompeu alguns funcionários de segundo escalão. Daniel Vorcaro construiu uma teia de relações que atravessa governos Lula, Temer e Bolsonaro simultaneamente, o que significa que o problema não é ideológico. É sistêmico.

A CPI do Crime Organizado confirmou ainda o financiamento de R$ 61 milhões de um valor acordado de R$ 134 milhões para o filme “Dark Horse”, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, negociado diretamente com o senador Flávio Bolsonaro (PL). Um banco que deveria estar sob rígida supervisão regulatória patrocinava a propaganda política de candidatos à presidência da República. No campo regulatório, o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, segundo apuração do Sindicato dos Bancários, tinha conhecimento dos problemas de liquidez do Banco Master ao longo de 2024, mas evitou intervir em momentos decisivos. O Banco de Brasília (BRB), sob o governador Ibaneis Rocha, adquiriu mais de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito do Master operação classificada pelo governador como “segura e estratégica”. Trabalhadores de bancos já enfrentam demissões decorrentes da liquidação que se segue.

No Supremo Tribunal Federal (STF), a relatoria do caso oscilou entre sombras e luz. Sob o ministro Dias Toffoli, as investigações foram cercadas de sigilo e os materiais apreendidos na Operação Compliance Zero foram lacrados — o que, na prática, paralisou análises cruciais. A mudança para a relatoria do ministro André Mendonça reabriu o caminho da PF, que voltou a poder ouvir suspeitos e testemunhas. Mas o dano à credibilidade institucional já estava feito.

A narrativa mais perigosa que pode emergir deste escândalo é a de que ele pertence a “um lado” da política. Não pertence. Os dados da Receita Federal atingem petistas, tucanos, peessedebistas, bolsonaristas e unionistas com a mesma impiedade. Quando o dinheiro é suficientemente grande e quinhentos milhões de reais são suficientemente grandes , ele não escolhe partido, só escolhe poder. E é exatamente por isso que o caso Master é um terremoto: ele mostra que a compra de influência no Brasil não é exceção. É o método.

O que o Brasil recebe, quando seus representantes são comprados, é devastador: recebe um Estado aparelhado para servir a quem paga, e não a quem vota. Recebe reguladores que fecham os olhos. Recebe legisladores que apresentam emendas sob encomenda. Recebe ministros com contratos de seus cônjuges dependentes dos investigados. Recebe, em suma, a República .

Daniel Vorcaro está preso numa cela de 7 metros quadrados na Penitenciária Federal de Brasília. Uma eventual delação premiada, como se discute nos bastidores judiciais, pode ser o maior terremoto político desde a Lava-Jato. A diferença é que desta vez os atingidos estão em todos os andares do poder simultaneamente. O Brasil precisa, urgentemente, de respostas à altura do tamanho do escândalo. Ou o preço a pagar, mais uma vez, será cobrado do cidadão do bem, que conhece e respeita os dizeres do filósofo de Mondubim.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Quando os homens são puros, as leis são desnecessárias; quando são corruptos, as leis são inúteis.”

Benjamin Disraeli

Benjamin Disraeli. © Georgios Kollidas/Fotolia

 

História de Brasília
Os supermercados até hoje não entraram em funcionamento, representando sério prejuízo para a população que superlota os dois estabelecimentos (unicos) provocando o excesso de gente e dificuldades para abastecimento. (Publicada em 22.05.1962)

DF sem herdeiros políticos

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Charge do Cazo

 

Brasília foi concebida como símbolo de um Brasil novo, racional e capaz de planejar seu próprio destino. Sete décadas após sua fundação, a capital da República assiste, perplexa, ao esfacelamento daquele ideal diante de uma crise que é, ao mesmo tempo, financeira, política e moral. A emancipação representativa do Distrito Federal, vendida à população como conquista democrática, revelou, com o tempo, sua face mais sombria: a de um arranjo que servia, antes de tudo, às lideranças locais e ao poder do capital.

Nesse contexto, a democracia tornou-se fachada. O que se instalou nos corredores do Buriti foi uma gestão que misturou interesses públicos e privados com uma naturalidade que deveria nos alarmar há muito. Hoje, o desfecho do caso Banco Master tem o poder de arrastar para a vala comum boa parte das lideranças políticas do DF e todos aqueles que assinaram, sem qualquer escrúpulo aparente, a documentação que atrelava o futuro do BRB, banco público, patrimônio do cidadão brasiliense às peripécias financeiras do grupo de Vorcaro.

Assinaturas que comprometeram o dinheiro público não podem ficar impunes. A responsabilidade dolosa precisa ter endereço certo. Não é possível ignorar o risco, já evidente, de que manobras nas altas cúpulas do poder transformem todo o caso Master num labirinto jurídico inconcluso. Seria uma tragédia anunciada: mais um mega escândalo do sistema financeiro nacional engolido pelo aparelho do Estado que deveria combatê-lo.

Vale lembrar, que o sistema financeiro brasileiro é um ser extraordinariamente resiliente, sobretudo, na sua capacidade de prosperar independentemente de quem governa. Entra governo, sai governo: os lucros astronômicos permanecem. E quando a conta chega, ela é invariavelmente depositada no colo da população. Não é incomum ouvir, nos meios políticos e financeiros, a defesa de que crises do porte do caso Master exigem uma nova reforma do sistema financeiro nacional. É possível que algum iluminado, ali à frente, se convença disso. Mas a história nos ensina a desconfiar: reformas gestadas no seio das mesmas elites que produziram o problema raramente mudam o essencial.

As próximas eleições para o governo do Distrito Federal se aproximam marcadas por um elemento inédito: a possibilidade real de que nomes centrais da política local sejam, neste momento, alvos de investigações sobre sua cumplicidade no caso Master. O espectro da responsabilização paira sobre o campo político como nunca antes. Nenhum nome consolidado ocupa, com conforto, o espaço de favorito. Os partidos que controlam o Buriti e a Câmara Legislativa do DF carregam o peso de explicações que ainda não deram. E a oposição, fragmentada e sem liderança clara, tem dificuldade de transformar o escândalo em projeto. O campo político do DF enfrenta sua maior crise de legitimidade desde a fundação.

Há uma lição que este e tantos outros escândalos tentam, sem sucesso, ensinar às instituições brasileiras: os estragos causados por más gestões políticas e financeiras não podem, em hipótese alguma, ser debitados nas costas da população. A conta deve ser cobrada exclusivamente de quem agiu dolosamente. Mas tudo indica, mais uma vez, que será o cidadão comum a arcar com as consequências. Seja por meio da deterioração dos serviços públicos que deveriam ser financiados pelo BRB, seja pelo custo oculto de uma crise de credibilidade que afasta investimentos e encarece o crédito para quem mais precisa.

Diante desse quadro, é preciso ir além dos diagnósticos já conhecidos. Surge a tese de que o acesso direto de políticos aos recursos públicos precisa ser estruturalmente vedado. Não se trata de ceticismo antipolítica, mas de realismo institucional: dadas as características demonstradas por nossas lideranças ao longo de décadas, controles mais rígidos, acesso de informações de emendas pelos contribuintes para acompanhamento de todo o trâmite, auditoria independente e separação efetiva entre o político e o financeiro não são luxo são condição de sobrevivência das instituições democráticas.

Brasília merece mais do que os gestores que tem tido. Merece mais do que um sistema financeiro capturado por interesses privados. Merece mais do que eleições decididas pela amnésia coletiva ou pela ausência de alternativas. O caso Master não é apenas um escândalo bancário. É um espelho. E o que ele reflete é desconfortável demais para ser ignorado nas urnas. O cidadão brasiliense terá, nas próximas eleições, uma oportunidade rara: a de exigir responsabilidade antes, e não apenas lamentar a ausência dela depois. Primeiro, passa a capital a limpo. Depois pensar em eleições. É o futuro da população que está em jogo e isso é o que mais importa.

 

A frase que foi pronunciada:
“Obrigar um homem a subsidiar com seus impostos a propagação de ideias nas quais ele não acredita e que abomina é pecaminoso e tirânico.”
Thomas Jefferson

Foto: Rembrandt Peale – Thomas Jefferson – Google Art Project.jpg

 

História de Brasília
O Rotary Club de Brasília realizou um grande trabalho de colaboração aos planos do presidente da Republica. Endereçou ao sr. João Goulart, por intermédio de seu porta voz deputado Milton Reis uma série de sugestões em benefício de Brasília.
Sugeriu colocar à venda, pela Novacap, os terrenos para a edificação dos 50 blocos residenciais previstos na ultima concorrência, para construção, financiada, pela Iniciativa Privada. (Publicado em 20.05.1962)

BRB e a caixa de pandora. Respingos nas eleições.

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Foto: Divulgação/ENB

 

À medida que se aproxima o calendário eleitoral no Distrito Federal, um fator extrínseco à disputa política tradicional começa a ganhar peso e pode influenciar decisivamente o ambiente das urnas: a confiança ou a falta dela nas instituições locais. E, nesse contexto, a situação do Banco de Brasília (BRB) emerge como um elemento sensível, capaz de afetar não apenas a percepção econômica, mas também o humor político do eleitorado. Instituições financeiras públicas carregam uma dupla responsabilidade. De um lado, operam dentro das regras de mercado; de outro, representam o Estado e, portanto, o interesse coletivo. Quando surgem questionamentos sobre gestão, exposição a riscos ou decisões estratégicas controversas, o impacto ultrapassa o balanço contábil e atinge diretamente a confiança da sociedade.

Nos últimos anos, a imprensa local e nacional tem acompanhado de perto os movimentos do BRB, especialmente sua estratégia de expansão, aquisição de ativos e parcerias. Reportagens têm destacado tanto o crescimento da instituição em determinados períodos quanto preocupações relacionadas à qualidade de ativos, exposição a riscos e necessidade de ajustes na carteira. Como ocorre com qualquer banco, decisões desse porte envolvem riscos calculados mas, quando os resultados passam a ser questionados, a cobrança pública se intensifica. Balanços financeiros divulgados indicam que o banco passou por fases distintas, com momentos de expansão relevante e, posteriormente, necessidade de revisão de estratégias.

Ainda que a análise de responsabilidades deva ser feita com base em dados concretos e processos formais, a percepção popular tende a associar resultados negativos à condução política. Outro aspecto que amplia a sensibilidade do tema é o potencial impacto sobre a população. Embora o sistema financeiro brasileiro possua mecanismos de proteção, como o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), qualquer instabilidade em um banco público gera apreensão. A ideia de que prejuízos possam, direta ou indiretamente, recair sobre os contribuintes alimenta um sentimento de insegurança. A cobertura da imprensa tem enfatizado justamente esse ponto: a necessidade de transparência. Em situações que envolvem recursos públicos e instituições estratégicas, a clareza das informações não é apenas desejável é essencial. Quanto mais opaco o cenário, maior o espaço para especulação, desconfiança e desgaste institucional. Esse ambiente de incerteza pode, sim, transbordar para o campo eleitoral. Quando temas relevantes permanecem sem esclarecimento adequado, o debate político tende a ser contaminado por ressentimentos, suspeitas e narrativas conflitantes. No entanto, é preciso cautela ao interpretar esse cenário.

A ideia de que eleições ocorreriam “sob vingança” ou “sem paz” é uma projeção possível, mas não inevitável. Democracias convivem com crises e, ainda assim, mantêm processos eleitorais regulares. O que define a qualidade desse processo é justamente a capacidade das instituições de oferecer respostas claras e dentro da legalidade. Nesse sentido, o papel dos órgãos de controle como tribunais de contas, Ministério Público e instâncias reguladoras torna-se central. São essas instituições que têm a responsabilidade de apurar eventuais irregularidades, avaliar a consistência das decisões tomadas e, quando necessário, responsabilizar agentes públicos ou privados. Sem esse trabalho técnico, o debate público corre o risco de se apoiar mais em percepções do que em fatos.

A classe política local também não escapa desse escrutínio. Em sistemas democráticos, decisões estratégicas envolvendo instituições públicas são, em maior ou menor grau, compartilhadas entre diferentes atores. Isso não significa atribuir culpa indistinta, mas reconhecer que governança é um processo coletivo, que exige vigilância constante. Para o eleitor, o cenário se apresenta como um teste de maturidade institucional. Diante de informações complexas e, por vezes, incompletas, será necessário separar análise técnica de discurso político.

Quanto mais cedo e de forma mais clara forem apresentados os dados, explicações e eventuais correções de rumo, menor será o impacto sobre o ambiente político. Se há dúvidas, elas precisam ser respondidas. Se há problemas, precisam ser corrigidos. E se há responsabilidades, devem ser apuradas dentro do devido processo legal. O Distrito Federal possui estrutura institucional suficiente para enfrentar esse tipo de desafio. O que está em jogo não é apenas o futuro de uma instituição financeira, mas a credibilidade de um sistema que depende, acima de tudo, da confiança de seus cidadãos. E é justamente essa confiança que definirá se o processo eleitoral transcorrerá sob tensão ou sob a normalidade democrática que se espera de uma capital que abriga o centro do poder nacional.

 

 

A frase que foi pronunciada:
“Novo crime hediondo: desviar dinheiro do trabalhador, como quem subtrai não apenas cifras, mas tempo de vida convertido em esforço, expectativa e dignidade, erodindo silenciosamente o pacto social que sustenta a confiança nas instituições e naturalizando a ideia perversa de que o sacrifício coletivo pode ser apropriado por poucos sem consequência proporcional.”

É o que fala o coração dos honestos

Charge do Cazo

 

História de Brasília
Os cariocas estão chamando o anexo do Congresso de sanduíche de vento. (Publicada em 17/5/1962)

Aqui não!

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Charge do Cazo

 

A crise envolvendo o Banco Regional de Brasília ganhou dimensão política e fiscal após reportagens apontarem exposição relevante da instituição a ativos de alto risco vinculados ao chamado “Caso Banco Master”. Cobertura de veículos como Metrópoles, Correio Braziliense e Valor Econômico tem destacado a complexidade contábil do episódio, incluindo operações estruturadas e aquisição de papéis cuja precificação e lastro passaram a ser questionados por analistas de mercado. Em paralelo, circulam estimativas preliminares de perdas potenciais que poderiam alcançar cifras bilionárias, elevando a preocupação com impactos sistêmicos. Responsabilidade institucional recai, em última instância, sobre o controlador do banco, o Governo do Distrito Federal, chefiado por Ibaneis Rocha.

Em bancos públicos, governança e gestão de risco não constituem apenas temas técnicos; representam compromisso direto com o erário. Caso operações com títulos de baixa liquidez e ativos depreciados sejam confirmadas como fonte de perdas expressivas, eventual necessidade de capitalização poderá pressionar as contas locais e, por consequência, o contribuinte brasiliense. Relatórios públicos e notas oficiais mencionadas pela imprensa indicam que parte da estratégia recente incluiu reestruturação de carteira e venda de ativos para reforço de caixa. Tal movimento, descrito por analistas como venda acelerada ou “desalavancagem forçada”, costuma ocorrer quando instituições buscam recompor indicadores de capital. A literatura financeira aponta que liquidações em ambiente adverso frequentemente se dão com desconto relevante, cristalizando perdas que, em cenários de normalidade, poderiam ser administradas ao longo do tempo. Preocupação adicional surge quando ativos estratégicos entram no radar de alienação.

Matérias veiculadas localmente mencionam a possibilidade de colocação à venda de áreas de propriedade do banco, entre elas, terras na região da Serra do Paranoazinho, área sensível por sua relevância ambiental e por integrar a bacia que abastece o Lago Paranoá. Especialistas em recursos hídricos alertam que territórios de recarga aquífera possuem valor ecológico superior ao meramente imobiliário, devendo qualquer negociação observar critérios técnicos rigorosos e transparência plena.

Comparações com episódios anteriores do sistema financeiro brasileiro reforçam a importância de resposta institucional tempestiva. Durante a crise bancária dos anos 1990, programas de saneamento como o PROER envolveram injeção de recursos públicos para evitar colapsos sistêmicos. A diferença fundamental reside no fato de que, à época, tratava-se de estabilização macroeconômica nacional. No caso atual, discute-se instituição regional cujo controlador é o governo distrital, o que concentra impacto potencial sobre orçamento local.

Dados do Banco Central mostram que indicadores de capitalização e provisão constituem principais amortecedores contra perdas inesperadas. Caso carteira de ativos apresente deterioração relevante, exigências regulatórias podem demandar reforço de capital. Em bancos públicos, tal reforço frequentemente decorre de aporte do ente controlador. Traduzido em termos fiscais, significa que recursos originalmente destinados a políticas públicas podem ser redirecionados para estabilização financeira.

Cobertura jornalística também registra questionamentos de parlamentares distritais quanto à extensão da exposição do BRB a operações estruturadas associadas ao Banco Master. Demandas por instalação de comissões de investigação e auditorias independentes refletem a compreensão de que transparência constitui elemento central para preservar confiança. O mercado reage não apenas a números, mas à qualidade das informações disponibilizadas. Venda apressada de ativos, quando percebida como tentativa de cobrir rombo contábil, tende a ampliar desconfiança.

Analistas financeiros observam que liquidação sob pressão reduz poder de barganha e pode comprometer patrimônio estratégico construído ao longo de décadas. Em banco público, patrimônio não pertence a acionistas privados dispersos, mas à coletividade representada pelo ente federativo. A transparência informativa cumpre papel preventivo, pois amplia escrutínio e incentiva correções tempestivas.

Risco maior reside na socialização de prejuízos. Se perdas se confirmarem em escala elevada, alternativas clássicas incluem capitalização pelo governo, redução de dividendos futuros ao Tesouro distrital ou reorganização societária. Cada uma dessas opções possui implicações orçamentárias. Em última instância, o custo pode refletir-se em menor capacidade de investimento público ou aumento indireto da carga tributária local. Contexto exige serenidade analítica.

A presunção de irregularidade não substitui auditoria técnica, assim como boatos não podem guiar decisões de política pública. Instituições financeiras públicas operam sob dever reforçado de governança justamente porque administram poupança e patrimônio de natureza coletiva. A conclusão aponta para necessidade de três medidas centrais: divulgação integral e tempestiva da exposição do banco, auditoria independente com publicidade de resultados e avaliação criteriosa de qualquer alienação de ativos sensíveis, especialmente aqueles com impacto ambiental e hídrico. A confiança, no sistema financeiro, constitui ativo intangível de maior valor. Preservá-la requer luz plena sobre operações, responsabilidades claramente delimitadas e compromisso inequívoco com interesse público.

 

 

Frase que foi pronunciada:

“Quem pariu o pato que o embale”

Dona Dita e a população de Brasília se recusando a pagar as dívidas do governo

A sede do Banco Master em São Paulo — Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O Globo

 

História de Brasília

O IAPC abriu inscrição para financiamento da Casa Própria. Enorme multidão acorreu à Delegacia e não pôde fazer outra coisa senão escrever o nome num livro, porque não haviam chegados os formulários. (Publicada em 16.05.1962)