Glauber Rocha no Correio Braziliense

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Crédito: Arquivo CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Cineasta Glauber Rocha na antiga redação do Correio Braziliense.
Crédito: Arquivo CB/D.A Press. Glauber Rocha na antiga redação do Correio Braziliense.

 

 

Trechos antológicos de Glauber no Correio

“Brasília é a cidade mais bonita do mundo e a grande Verdade Vos Ilumina”.

 

“Krysto não mora na Cruz Kristo mora no eu kózmiko Krysto é livre. Ave Moisés e a palavra está com o Pai.”

 

“A Cultura Brazileyra está com câncer. Toritoma maligno. Carcinoma embriogênico. Melonema Pulverizantyz. Metástase: os efeitos destrutivos possuíram órgãos, membros e almas dos artistas, dos burocratas que se ocupam de produzir, realizar e distribuir cultura no Brazyl”.

 

“Se Cristo é o Deus do Terceiro Mundo, identificado com o homem, ele não poderá ser manobrado por partidos e sim pelo povo. Teologia não é ciência. Teologia é magia. Deus é brasileiro”.

 

“A televisão está contaminada pelos enlatados promocionais do FBI e da CIA (órgãos de segurança yanks). As telenovelas veiculam problemas falsos, com roupas falsas e falas falsas. Nossas rádios transmitem 90% de música yank ou ‘multyz’ com o objetivo de SURDAR o povo. Ninguém pode ter tempo livre para pensar”

 

 

 

Crédito: Arquivo CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Jornalista e cineasta Glauber Rocha na antiga redação do Correio Braziliense.
Crédito: Arquivo CB/D.A Press.  Glauber Rocha na antiga redação do Correio Braziliense.

 

“Como precisa de gente, de ruídos, de extravagâncias, para medir melhor a sua solidão, Glauber Rocha fez da redação do Correio Braziliense o seu laboratório de pânico”.

Oliveira Bastos, na capa do Correio, em 1977

 

Cineasta baiano teve presença marcante em Brasília quando trabalhou na redação do jornal

Severino Francisco

No início de abril de 1977, Glauber Rocha desembarcou em Brasília. Ele vinha a convite de dois amigos, os jornalistas Oliveira Bastos (editor-chefe) e Fernando Lemos (editor-executivo) do Correio Braziliense. Chegou mais dilacerado do que nunca para morar na cidade e para iniciar uma fecunda colaboração com o jornal, que se estendeu até 1979.

 

Na semana anterior, a sua irmã, atriz e musa, Anecy Rocha, morrera em circunstância absurda, ao cair de um elevador enguiçado, no prédio em que morava, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Desesperado, Glauber entrou em clima de paranoia. Antes da tragédia com a irmã, Glauber havia comprado uma enorme briga com a esquerda, depois de retornar ao Brasil, após cinco anos de exílio. Declarou apoio ao projeto de redemocratização proposto pelos generais Ernesto Geisel, presidente da República, e Golbery do Couto e Silva, Chefe da Casa Civil.

 

Crédito: Arquivo CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Jornalista e cineasta Glauber Rocha na antiga redação do Correio Braziliense.
Crédito: Arquivo CB/D.A Press. Brasil.  Glauber Rocha metralhava na máquina com dois dedos.

A esquerda caiu de pau, acusando Glauber de ser traidor, direitista, entreguista e louco. Glauber, que era dramático e épico pela própria natureza, comprou e briga e provocou: “Só existe uma diferença entre eu e um louco. É que eu não sou louco. A esquerda é de direita”. Mas o fato é que ele ficou muito abalado com a violência da polêmica.

Em texto incisivo, estampado na capa, em 7 de abril de 1977, Oliveira Bastos anunciava a colaboração de Glauber com o Correio: “Ele não se esconde: se abafa, se reprime. E para não explodir, para não enlouquecer, cria, inventa, planeja, formula, associa. Numa palavra: multiplica-se, que é a forma de sua implosão interior. Como precisa de gente, de ruídos, de extravagâncias, para medir melhor a sua solidão, Glauber Rocha fez da redação do Correio Braziliense o seu laboratório de pânico”.

 

Glauber chegou em péssimo estado físico e psicológico. No entanto, ao apoio dos amigos e o espaço de liberdade para escrever o que lhe desse na veneta o reanimaram. Logo, ele imaginava revoluções por minuto: “Ela percebeu mais cedo e com espírito mais livre do que todo mundo que o melhor caminho era deixar que os próprios militares abrissem o regime autoritário e não pela luta armada”, comentou Fernando Lemos, em entrevista ao Correio em 2011.

 

 

 

Crédito: Arquivo CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Cineasta Glauber Rocha.
Crédito: Arquivo CB/D.A Press. Glauber Rocha na redação do Correio

Glauber fazia comícios delirantes na redação e, depois, permanecia em silêncio. A atual colunista de gastronomia, Liana Sabo, era repórter de política e se e lembra de nunca viu alguém metralhar em uma máquina de escrever tão rápido, usando apenas um dedo de cada mão. “Depois que ele escrevia os artigos, os revisores ficavam enlouquecidos para encontrar Glauber, pois ele substituía algumas letras por y, z e k”, conta Liana.

Crédito: Arquivo CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Jornalista e cineasta Glauber Rocha na antiga redação do Correio Braziliense.
Crédito: Arquivo CB/D.A Press. Brasil. Glauber Rocha na antiga redação do Correio Braziliense.

 

O cineasta baiano afirmou que no Correio experimentou uma outra dimensão da liberdade de imprensa, pois podia escrever um artigo sobre política em linguagem tropicalista: “Glauber era o jornalista 007, com licença para atirar”, costumava brincar Fernando Lemos: “Ele dizia que a passagem pelo Correio havia sido tão boa que o ajudou a realizar A Idade da Terra. Glauber adorava Brasília, ficava louco com a sensação de infinito dos horizontes amplos e, embora fizesse algumas críticas a Niemeyer, gostava muito da Catedral, do Palácio da Alvorada e do Congresso Nacional”.

Céu azulado com nuvens brancas sobre a Esplanada dos Ministérios.
Crédito: Antonio Cunha/CB/D.A Press. Esplanada dos Ministérios

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