CBIFOT010620211080bolsa

Mudança de meta fiscal aumenta chances de corte menor na Selic a partir de maio

Publicado em Economia

ROSANA HESSEL

 

A Bolsa de Valores de São Paulo (B3) desabou e perdeu o patamar de 125 mil pontos, nesta terça-feira (16/4), o dólar disparou novamente e chegou a ser negociado a R$ 5,28 durante o pregão de hoje, os juros futuros voltaram a subir e as chances de que o Banco Central pode até reduzir o ritmo de corte de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em maio, aumentaram, de acordo com especialistas ouvidos pelo Blog.

 

Segundo eles, a equipe econômica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está tentando manter o discurso de que a mudança das metas fiscais de 2025 em diante não vai afetar o arcabouço fiscal, aprovado no ano passado pelo Congresso Nacional, mas não convence. E, por isso, eles acreditam cada vez menos no compromisso do governo em perseguir a meta fiscal, porque o governo deve continuar postergando a busca do equilíbrio fiscal para estabilizar o crescimento da dívida pública.

 

Na última reunião do Copom, após reduzir a taxa básica da economia (Selic) em 0,50 ponto percentual, para 10,75% ao ano, o Banco Central sinalizou mais um corte de 0,50 ponto, mas, diante da piora do quadro fiscal e a sinalização de que o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), só deverá adiar o início do ciclo de queda dos juros norte-americanos, podem fazer o Comitê brasileiro puxar o freio de mão mais cedo.

 

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, acredita que o Copom deverá cumprir o sinalizado no último comunicado e reduzirá a Selic em 0,50 ponto percentual, mas não descarta um corte menor. “Aumentou a chance (de reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual), mas não é totalmente certo ainda. Mas a reunião depois de maio vai ser difícil manter o corte em 0,50 ponto. Enquanto o BC se mantém ortodoxo será possível manter essa visão cautelosa”, afirmou.

 

O mau humor do mercado cresceu após a divulgação do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2025, ontem, adiando o superavit primário (economia para o pagamento dos juros da dívida pública) nas contas públicas para 2026.  Além disso, no boletim Focus divulgado, hoje, pelo Banco Central, o mercado elevou de 9% para 9,13% ao ano na mediana da projeção para a Selic no fim do ano. Contudo, os analistas mantiveram as estimativas de deficit primário das contas públicas em 0,70% do PIB, neste ano, e de 0,60%, em 2025.

 

O economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, também demonstrou preocupação com a mudança das metas e falta de receitas para garantir o aumento das despesas orçamentárias no próximo ano.  “Existe parâmetros inconsistentes no PLDO.  A questão do deficit previdenciário que deverá ser maior com o novo salário mínimo preocupa, mas a questão é que, para tapar isso, as receitas de rediscussão de benefícios e a agenda de receita no Congresso ainda são incertas”, frisou.

 

Segundo Velho, o tombo de hoje na Bolsa e as altas do dólar e das projeções para juros futuros mostram que “ninguém do mercado acredita, agora, e, portanto, não há uma âncora fiscal na prática”.  Ele reconheceu ainda que já tem opção precificando recuo de 0,25 ponto percentual na Selic em maio, “mas tem probabilidade minoritária”.

 

De acordo com Bráulio Borges, economista da LCA Consultores e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre),  essa reação dos mercados de câmbio e de juros futuros não é só por conta da piora da questão fiscal doméstica. “Existe uma confluência de fatores negativos vindos de fora, principalmente, essa precificação da política monetária nos Estados Unidos”, explicou. Contudo, ele reconheceu que a desconfiança do mercado cresceu, porque, como o governo Lula mudou a meta fiscal neste ano, nada impedirá que ele fará o mesmo no próximo ano, correndo o risco de encerrar o mandato sem cumprir a promessa de compromisso com o equilíbrio fiscal.

 

“Nada impede que, em abril do ano que vem, quando for enviado ao Congresso o PLDO de 2026, que essas metas sejam revisadas novamente para baixo daqui um ano. E isso começa a entrar na conta dos analistas, dado essa aparente falta de compromisso do governo com as metas fiscais dos próximos anos”, alertou. 

 

Borges lembrou que as apostas de que os juros nos EUA só devem cair no fim do ano estão crescendo. “Acho que é muito fácil de ser observado quando a gente olha o juro longo, o juro de 10 anos atrás de 10 anos nos Estados Unidos, que é uma referência importante, porque afeta câmbio no resto do mundo, o preço de ação, e por aí vai…”, afirmou.  Segundo ele, o juro pago por esses títulos de 10 anos nos Estados Unidos tinha chegado num pico de 5% em meados de 2023, antes de o Fed sinalizar que poderia parar de subir os juros. E, quando ele fez essa sinalização e a inflação cedeu no mundo, a remuneração desse juro de  10 anos nos EUA saiu desses 5% em meados do ano passado para 4%, no fim do ano passado, e no começo deste ano, para 4,60% ao ano agora enquanto aumenta a crise no Oriente Médio.

 

“As duas últimas semanas foram bem intensas em termos de precificação de política monetária nos Estados Unidos. E, somada a isso, está toda a instabilidade adicional trazida pela pelo acirramento do conflito no Oriente Médio, entre Israel e Irã. É óbvio que, por enquanto, nada aconteceu, mas aumenta o risco haver alguma disrupção no mercado de petróleo”, acrescentou o pesquisador do Ibre.