Mau humor toma conta do mercado. Dólar dispara e Bolsa cai

Publicado em Economia

ROSANA HESSEL

O mau humor voltou aos mercados nesta terça-feira (06/07). O dólar disparou quase 2%, encostando em R$ 5,20 e fazendo o real liderar o ranking de desvalorização entre as moedas emergentes. Enquanto isso, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) cai mais de 1%, com queda generalizada em praticamente todas as ações, refletindo o aumento das incertezas das percepções tanto internas quanto externas.

 

“O que está acontecendo foi o aumento de casos de maior casos da variantes Delta (do novo coronavírus), indicando que ela reduz a eficácia da vacina da Pfizer. O aumento de casos na Europa e nos Estados Unidos com a expectativa de que haverá necessidade de começar uma nova vacinação de todo mundo por conta das variantes, em vez de uma reabertura mais ampla, poderá ser um problema nas regiões onde havia começado a ter um controle maior na quantidade de casos”, destacou Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos.

 

O analista lembrou que, como ontem foi um dia de liquidez menor nos mercados por conta do feriado nos Estados Unidos, “o sentimento negativo ganhou mais força com os dados das variantes da pandemia da covid-19 combinados com os de recuo na atividade de serviços nos EUA”, apesar de a expectativa de crescimento mais forte na maior economia do planeta ainda continuar no radar. No mercado externo, as bolsas europeias e as dos Estados Unidos operam no vermelho.

 

De acordo com o economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito, o real é a moeda que mais perde valor hoje contra o dólar entre as principais divisas emergentes e “os juros sobem na esteira da piora da percepção nos mercados”.  Para ele, não dá para atribuir a culpa apenas para o mercado externo e ao aumento das preocupações com a variante Delta. “Mesmo essa explicação nos parece frágil, mas, na falta de melhores razões, o mercado começa a especular seus temores”, afirmou.

 

Na avaliação de Perfeito, a lista de possíveis problemas é extensa se colocada na ponta do lápis e “os possíveis vilões” vão de temores inflacionários, como crise hídrica e alta de combustíveis, até possíveis desdobramentos da CPI da covid-19,  “que aparentemente está próxima demais de queimar as pontes entre o Palácio do Planalto e o Centrão uma vez que grandes nomes da aliança política do presidente, inclusive os militares, estão envolvidos no imbróglio dos últimos dias”.

 

Cruz também reconheceu que fatores internos na área política também contribuíram para essa alta mais forte no dólar frente ao real, inclusive, a questão dos áudios que vazaram com a ex-cunhada do presidente Jair Bolsonaro denunciando esquema criminoso de peculato praticado em família, as famosas rachadinhas, também afetou o humor dos operadores. “O cenário político esta desgastado por conta CPI da covid e dos áudios que saíram”, disse. Segundo ele, em termos de fluxo, estão ocorrendo ajustes nas carteiras de investidores estrangeiros.

 

“Estes temores são antes a ausência de boas notícias, afinal ninguém imagina uma piora significativa da crise política, mas a persistência de um viés negativo lá fora pode galvanizar às más impressões. Ainda é cedo para dizer isso, mas sabemos onde olhar para ver se os ventos mudaram: o dólar”, afirmou Perfeito. Ele contou que mantém em R$ 5,30 a previsão para o dólar no fim do ano e em 6,5% a previsão a taxa básica de juros (Selic) ao fim de 2021.

 

Na B3, pouquíssimas ações são negociadas com alta nos preços no início desta tarde. Petrorio e Azul lideram as quedas e apenas quatro ações registravam valorização.