Férias favorecem consumo de ultraprocessados na infância, alerta especialista

Publicado em Introdução Alimentar, Saúde

Levantamento mostra que 20% dos alimentos consumidos por bebês e crianças pequenas no Brasil é ultraprocessado; especialistas defendem ação conjunta entre famílias, escolas e políticas públicas

O período de férias escolares costuma trazer mudanças na rotina das famílias e, junto com elas, um risco conhecido, mas ainda subestimado: o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados na infância. Dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani) indicam que 20,5% da alimentação de crianças entre seis meses e dois anos no Brasil já é composta por produtos com alta concentração de açúcar, gordura, sódio e aditivos químicos, como biscoitos, doces e farinhas instantâneas.

Especialistas alertam que esse padrão alimentar, quando iniciado tão cedo, impacta a formação do paladar, a relação emocional com a comida e o risco de doenças ao longo da vida, como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares. Nas férias, quando há menos controle de horários e maior oferta de lanches prontos, o cuidado precisa ser redobrado.

Segundo a nutricionista da Sanutrin, Cynthia Howlett, especializada em psiconutrição, o cenário revela um desafio que vai além das escolhas individuais das famílias. “Hoje, a escola passou a ter um papel central na alimentação infantil. As crianças fazem dois lanches e, muitas vezes, também o almoço no ambiente escolar. Isso torna a instituição corresponsável pela formação de hábitos alimentares desde a primeira infância”, afirma.

Estudos científicos associam o consumo precoce e frequente de alimentos ultraprocessados a indícios de maior risco de obesidade e alterações na regulação do apetite em crianças. Pesquisadores também mostram que as propriedades desses produtos podem influenciar o sistema de recompensa cerebral e os mecanismos que regulam fome e saciedade. Estudos observacionais ainda revelam que dietas ricas em ultraprocessados estão associadas a maior gordura corporal e risco de obesidade em crianças.  

Relatórios da UNICEF reforçam ainda que dietas ultraprocessadas tendem a ter baixa qualidade nutricional e contribuir para excesso de peso, doenças crônicas e hábitos alimentares duradouros.

Segundo  a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo frequente desses produtos leva ao aumento da obesidade infantil, problema que já atinge uma em cada três crianças brasileiras, segundo o Ministério da Saúde.

O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, referência do governo federal, é categórico ao recomendar a exclusão total de açúcar e ultraprocessados nessa faixa etária e o incentivo a alimentos in natura ou minimamente processados.

Escola como espaço estratégico de formação alimentar

A mudança no papel das escolas acompanha transformações sociais mais amplas, como jornadas de trabalho mais longas e menos tempo disponível para o preparo das refeições em casa. Se antes a cantina escolar era voltada apenas a pequenos lanches, hoje ela se tornou parte estruturante da rotina alimentar das crianças.

Esse novo contexto impulsionou alterações na gestão da alimentação escolar, com a terceirização do serviço em instituições de médio e grande porte. Empresas especializadas passaram a assumir não apenas a operação das cantinas, mas também a elaboração dos cardápios e ações educativas.

“A modernização não é só tecnológica, como o uso de sistemas digitais para pagamento e controle, mas também pedagógica. A alimentação precisa ser entendida como parte do processo educativo”, explica Cynthia.

Continuidade em casa é necessária

Para além da escola, a especialista reforça que o ambiente doméstico segue sendo determinante. A introdução alimentar saudável depende menos de regras rígidas e mais de experiências positivas com a comida.

Entre as estratégias apontadas por Cynthia estão:
– o exemplo dos adultos à mesa
– a construção de momentos prazerosos em torno da alimentação
– a não imposição ou pressão sobre a criança
– a ampliação do contato com alimentos naturais, feiras e preparações simples

“O vínculo emocional com a comida começa cedo. Quando a alimentação está associada a afeto, memória e cuidado, criamos bases muito mais sólidas para escolhas saudáveis no futuro”, resume Howlett

Cynthia defende que o enfrentamento ao consumo excessivo de ultraprocessados na infância exige políticas públicas, regulação da publicidade infantil e ações integradas entre famílias, escolas e Estado. As férias, nesse sentido, funcionam como um espelho: “escancaram hábitos que já estavam sendo construídos ao longo do ano”, diz a nutricionista.