O século das incertezas

Publicado em ÍNTEGRA

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Foto: reprodução da internet

 

Crises políticas recorrentes, economias pressionadas por endividamento estrutural, fraturas sociais profundas e, sobretudo, a aceleração dos impactos ambientais e climáticos criaram um cenário global volátil, imprevisível e propenso a deslocamentos humanos em larga escala. O século XXI se inaugura sob o signo da instabilidade. As grandes ondas migratórias contemporâneas não são um fenômeno isolado, mas o sintoma visível de um mundo que entrou em um labirinto perigoso, sem mapas confiáveis para a saída.

É natural, sob tais condições, que populações inteiras deixem para trás regiões devastadas por guerras, colapsos institucionais, fome, degradação ambiental ou regimes autoritários, dirigindo-se a países onde os indicadores de desenvolvimento humano são mais elevados e onde ainda subsistem estruturas de ordem, prosperidade e previsibilidade. O problema central, porém, não está no impulso humano de buscar melhores condições de vida, impulso esse que acompanha a própria história da civilização, mas na forma, escala e instrumentalização política dessas migrações no contexto atual.

Convém reconhecer que a humanidade é a espécie que mais profundamente alterou o planeta. A expansão ilimitada do consumo, a exploração predatória de recursos naturais e a persistência de modelos econômicos concebidos para um mundo que já não existe colocam em xeque a sustentabilidade do próprio modo de vida moderno. O planeta dá sinais claros de esgotamento, enquanto as elites políticas globais parecem incapazes ou desinteressadas em promover mudanças estruturais reais. Nesse vácuo de responsabilidade, as migrações em massa tornam-se não apenas consequência, mas também ferramenta de gestão de crises que os próprios Estados falharam em prevenir. É nesse ponto que o debate deixa de ser humanitário e passa a ser civilizacional.

Países como os Estados Unidos, formados, historicamente, por sucessivas ondas migratórias, prosperaram não apenas porque receberam estrangeiros, mas porque esses estrangeiros aderiram voluntária ou compulsoriamente a um ethos comum: trabalho duro, respeito às leis, valorização da liberdade individual, da propriedade privada e da responsabilidade pessoal. A assimilação cultural, ainda que imperfeita, foi a cola invisível que permitiu transformar diversidade em força produtiva. O que se observa, entretanto, nas últimas décadas, tanto nos Estados Unidos quanto em diversas nações europeias, é uma ruptura deliberada com esse modelo. Sob a retórica sedutora do multiculturalismo irrestrito e do globalismo moralizante, políticas públicas passaram a tratar a integração não como dever recíproco, mas como imposição unilateral às sociedades receptoras. A cultura anfitriã, seus costumes, suas leis e seus valores passaram a ser vistos como obstáculos a serem relativizados quando não desconstruídos em nome de uma convivência abstrata que ignora assimetrias culturais profundas. Nesse novo paradigma, o imigrante deixa de ser agente de construção e passa, muitas vezes, a ser reduzido a instrumento político: massa de manobra eleitoral, justificativa para expansão do Estado assistencial, ou escudo retórico contra qualquer crítica legítima às consequências sociais da imigração desordenada.

Questionar esse modelo tornou-se tabu. Qualquer ponderação sobre limites, critérios ou compatibilidade cultural é rapidamente rotulada como intolerância, o que empobrece o debate e paralisa soluções racionais. A experiência europeia recente evidencia os riscos dessa negação da realidade. A formação de enclaves culturais fechados, a recusa ativa de valores seculares básicos, o aumento de tensões sociais e a emergência de conflitos identitários não são fruto da imigração em si, mas da ausência de exigência de integração. Quando grupos passam a se organizar em oposição explícita às leis e costumes do país que os acolheu, instala-se um conflito silencioso de soberania: quem define as normas de convivência? O Estado democrático ou comunidades paralelas regidas por códigos próprios? A prosperidade das sociedades livres está intrinsecamente ligada a pilares bem definidos: liberdade individual, livre iniciativa, respeito ao Estado de Direito, igualdade perante a lei, propriedade privada e uma herança cultural que, no Ocidente, se estrutura sobre fundamentos greco-romanos, judaico-cristãos e iluministas. Esses valores não são neutros nem universais por default; foram conquistados ao longo de séculos de conflitos, erros e amadurecimento institucional. Fragilizá-los em nome de uma tolerância acrítica é abrir mão do que sustenta a própria civilização liberal. Ignorar que existem choques culturais reais, especialmente quando migrações ocorrem em escala massiva e sem filtros é uma forma de irresponsabilidade política.

Que fique claro. Não se trata de demonizar povos ou religiões, mas de reconhecer que a convivência pacífica exige mais do que boas intenções: exige regras claras, limites definidos e a primazia inequívoca das leis do país receptor. Ao abdicar dessa clareza, o mundo ocidental flerta com um futuro distópico, marcado não pela diversidade harmoniosa, mas pela fragmentação social, pelo avanço de extremismos e pela erosão gradual das liberdades que tornaram essas sociedades destinos desejáveis. A história demonstra que civilizações raramente caem por invasão externa direta; elas se desintegram quando perdem confiança em si mesmas, quando relativizam seus próprios fundamentos e quando trocam prudência por culpa moral.

 

 

A frase que foi pronunciada:

“Na minha opinião existem dois tipos de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar.”

Érico Veríssimo

Érico Veríssimo. Foto: Acervo literário/IMS/Divulgação/JC

 

História de Brasília

Há quase um mês não há aula no curso médio de Brasília. Os estudantes serão os prejudicados, e as autoridades não se interessam por uma solução. Enquanto isto, os pais apreensivos vêem seus filhos sem ensinamentos, e os professores sem querer sair das casas invadidas. (Publicada em 15.05.1962)

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