CBNFOT300320211635GUEDES 29/03/2021 Crédito: Edu Andrade/Ascom/ME. Paulo Guedes, Ministro da Economia, durante cerimônia do anúncio da assinatura da Medida Provisória para melhoria do ambiente de negócios no Brasil, realizado na manhã de hoje (29), no salão Nobre do Palácio do Planalto, em Brasília

Paulo Guedes muda de comportamento em reuniões com analistas

Publicado em Economia

ROSANA HESSEL

Interlocutores do ministro da Economia, Paulo Guedes, que costuma não respeitar o tempo de fala em seus compromissos e virtuais ou não, contam que, ultimamente, perceberam uma sensível mudança no comportamento do chefe da equipe econômica nas conversas com analistas, passando a ouvir mais.

 

Nos encontros recentes, Guedes tem falado pouco, algo que tem surpreendido os interlocutores já que o ministro tem mania de começar a falar e não parar mais até o término da reunião ou do evento, sem deixar espaço para a fala dos demais participantes, para o diálogo e questionamentos.  Além disso, o discurso de que o Brasil “vai surpreender o mundo” e de que “a economia está se recuperando em V”, que parece um disco riscado e já não empolga mais, segundo eles.

 

Economistas que olham para os indicadores com mais cuidado veem que essa recuperação da economia brasileira não é tão robusta como se vende, especialmente, porque está em uma trajetória desafiadora, com desemprego recorde e inflação persistente no lado dos preços administrados, ou seja, na conta de luz, na gasolina, no diesel, no gás de cozinha — que afetam, principalmente, os mais pobres, e não devem cair tão cedo devido à crise hídrica em curso.

 

Um consenso que está crescendo é de que, na verdade, a economia está se recuperando em K, ou seja, para alguns, principalmente, os mais ricos e agentes do mercado financeiro, os ganhos crescem apesar da pandemia, principalmente, porque a economia global está injetando liquidez no cenário externo, o que ajuda na alta das bolsas. Mas, para o mais pobre e a classe média, a renda está encolhendo e o emprego desaparecendo, e, com isso, aumentando a desigualdade.

 

“O ministro tem ouvido mais e perguntando as nossas impressões sobre a economia. Algo que não ocorria antes”, contou uma fonte do mercado financeiro que considera a teoria do K mais forte do que a do V.

 

 

Sapos e jabutis

 

Aliás, desde a confusão dos contrabandos do Congresso Nacional feitos durante a votação da Medida Provisória da privatização da Eletrobras, MP 1031/2021, que foi aprovada com uma enorme quantidades de jabutis — emendas não relacionadas ao texto — devendo encarecer ainda mais a conta de luz para o consumidor ao obrigar a contratação de usinas térmicas a gás onde não há infraestrutura de gasodutos que deverão ser custeados pelo contribuinte, por exemplo, Guedes tem evitado fazer muitos comentários. Aliás, vem sendo obrigado a aceitado mudanças na agenda econômica que vão na contramão do discurso econômico liberal de austeridade fiscal defendido por ele.

 

Um exemplo recente foi a criação do teto dúplex para aposentados e militares da reserva que acumulam cargo no Executivo, criado por uma portaria da pasta, apesar da justificativa de querer atender uma recomendação da Advocacia-Geral da União (AGU). Alguns ministros da ala militar tiveram reajustes de até 69%, que não faz sentido algum para um governo que defende o fim dos penduricalhos que excedam o teto do funcionalismo público.

 

E, para piorar, Guedes levou outra puxada de tapete com a aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2022 com o aumento de quase três vezes do Fundo Eleitoral do ano que vem, para R$ 5,7 bilhões, com votos favoráveis da base aliada, inclusive, dos filhos do presidente Jair Bolsonaro. O presidente já anunciou reajuste de servidor no ano que vem, que devem custar mais R$ 16 bilhões no Orçamento e quer um Bolsa Família robusto, que não cabe no teto de gastos defendido por Guedes, que será obrigado a anunciar cortes de despesas.

 

Vale lembrar que, quando ele chegou a sugerir, por exemplo, o uso dos recursos do abono salarial para custear o Renda Brasil, programa de inclusão social que foi rejeitado por Bolsonaro, foi mais uma confusão porque o presidente disse que não ia “tirar do pobre para dar ao paupérrimo”. Desde então, nada saiu mais do papel nessa direção e Guedes sequer consegue entregar o programa de inclusão de jovens no mercado de trabalho, que ia sair “nos próximos dias”, há uns dois meses.

 

Sem falar na polêmica proposta de reforma do Imposto de Renda, que vem gerando uma série de críticas, principalmente, de estados e municípios, apesar de a proposta de taxação de dividendos ser vista como uma medida na direção correta por vários economistas, porque vai taxar quem ganha mais por receber por meio fontes hoje isentas, mas o texto ainda precisa de muitos ajustes. Um deles é falta de novas faixas do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) para os grandes salários, que pagam os mesmos 27,5% dos trabalhadores da classe média. Outro é a penalização da Classe C com a limitação em R$ 40 mil anuais de rendimento para o desconto de 20% do IR na Declaração Simplificada.

 

Resta saber se o ministro virou ouvinte para não ter que explicar os sapos que está tendo que engolir para continuar no cargo a qualquer preço, inclusive, parece que esquecendo o que aprendeu na Universidade de Chicago, o berço do liberalismo econômico.