Concepcion Francisco Bozán usou até áudios do tempo técnico do Carioca para entender o Vasco Francisco Bozán, técnico da Universidad Concepción, adversário do Vasco na Libertadores

Técnico da Universidad Concepción conta como usou áudios de Zé Ricardo para decifrar o Vasco

Publicado em Esporte

Aos 31 anos, Francisco Andrés Bozán Santibáñez, o treinador mais jovem do futebol chileno e da Libertadores, tem um trunfo para incomodar o Vasco nesta quarta-feira, no duelo de ida da fase preliminar do torneio continental: os áudios do técnico Zé Ricardo durante o tempo técnico das partidas válidas pelo Campeonato Carioca. Em entrevista por telefone ao blog na tarde desta terça-feira, o comandante da Universidad Concepción contou, muito bem-humorado, que analisou os últimos 15 jogos do Vasco, mas deu atenção especial aos quatro disputados neste ano pelo Estadual.

Francisco Bozán confessa que não sabe português, mas ouviu atentamente cada instrução de Zé Ricardo para o Vasco durante os tempos técnicos, aquela pausa para hidratação durantes as partidas do Carioca. Ele jura que é possível ouvir o que os treinadores dizem. Quando não compreendia alguma palavra, Bozán pedia auxílio para a esposa e até mesmo a amigos e parentes que moram no Brasil. “Não tenho tradutor”, ri.

Esse é apenas um dos recursos usados pelo psicólogo e treinador licenciado pela Uefa para surpreender o adversário brasileiro. No bate-papo a seguir, Bozán nào esconde a preocupação com a saída de Nenê e a nova postura do Vasco. “Zé Ricardo está procurando uma nova forma de jogo”. O chileno também destaca um detalhe na defesa cruzmaltina. “Contra o Flamengo, havia dois zagueiros canhotos. Talvez, seja o único time no mundo que joga assim”, observou o detalhista fã dos técnicos Manuel Pellegrini e Marcelo Bielsa.

 

MPL — Você tem 31 anos. É o técnico mais jovem em atividade no Chile e o caçula da Libertadores…

Francisco Bozán — É verdade, mas essa questão da idade não tem importância. Isso é muito mais midiático, quem gosta de saber disso são jornalistas como você (risos).

 

MPL — Mas você tem idade para jogar no Universidad de Concepción. É mais jovem do que alguns dos seus jogadores…

Francisco Bozán — Costumo dizer que sou um velho garoto. Sou técnico desde os 24 anos, quando comecei, em 2010, no Municipal Hijuelas. Aos 27, assumi o Barnechea e, aos 30, aceitei o desafio de liderar a Universidad de Concepción. O time brigava contra o rebaixamento e conseguimos nos classificar para a fase preliminar da Libertadores.

 

MPL — Qual é o segredo de um técnico tão jovem e promissor?
Francisco Bozán — Ser profissional até o fim. Exijo isso de mim e dos meus jogadores.

 

MPL — A prova disso é a sua formação…

Francisco Bozán — Sou psicólogo. Em 2012, consegui a Uefa Pro Licence (certificado de técnico de futebol). Tenho conhecimento como jogador também. Joguei no Bournemouth, da Inglaterra, e em times pequenos do Chile (Unión San Felipe, Deportes Ñuñoa e Barnechea).

 

MPL — Qual treinador o motivou a ser treinador?

Francisco Bozán — A minha primeira motivação, sempre, é o trabalho. Quanto a treinadores, não um específico. Eu procuro assimilar boas ideias. Admiro muito o Manuel Pellegrini (chileno) e o Marcelo Bielsa (argentino). Gosto de treinadores que se preocupam muito mais com o legado do que com resultados, conquistas.

 

MPL — A possibilidade de ser eliminado pelo Vasco não o assusta?

Francisco Bozán — Sim, há três cobranças: a minha, a da instituição e a do país. A nossa seleção vive um excelente momento, é bicampeã da Copa América, mas o futebol chileno não faz uma bom papel na Libertadores há muito tempo. Temos uma dívida com nosso povo.

 

MPL — O que você sabe sobre o Vasco?

Francisco Bozán — Muito. Analisei os últimos 15 jogos, e com mais detalhes os útlimos quatro (Bangu, Volta Redonda, Cabofriense e Flamengo). É um bom adversário. Pikachu e Henrique atuam praticamente como pontas. Wagner e Paulinho têm muita qualidade. Precisamos encontrar uma maneira de passar por Desábato e Welington, que são dois excelentes marcadores. Mas a saída do Nenê mexeu muito com o time.

 

MPL — Quem você espera que o substitua?

Francisco Bozán — Pelo que estudei, o Evander. Mas Nenê é uma grande perda. Ele era um camisa 10 clássico, habilidoso, brasileiro, diferente. Evander é jovem, veloz, muda a dinâmica de jogo, mas não tem a experiência do Nenê, que facilitava o jogo do André Ríos, referência do ataque.

 

MPL — O que mais chama a atençào no Vasco?

Francisco Bozán — A defesa joga com dois zagueiros canhotos. Acho que é o único time no mundo que faz isso. isso dificulta bastante para o adversário. Normalmente, a defesa é formada por um zagueiro destro e outro canhoto. Acho incrível. Contra o Flamengo, atuaram Erazo e Ricardo. Eu acho que o Paulão pode ser uma surpresa.

 

MPL — A defesa é a maior virtude do Vasco?

Francisco Bozán — Zé Ricardo tem um time muito discplinado taticamente, mas a maior dificuldade que nós teremos é o Martin Silva. É um goleiro que não se complica, não comete erros, tem 34 anos, uma experiência grande. Goleiro da seleção do Uruguai, vai à Copa do Mundo.

 

MPL — E o que sabe sobre Zé Ricardo?
Francisco Bozán — Muito. Como disse, tenho a gravação dos últimos 15 jogos. Como o Campeonato Carioca tem tempo técnico (para hidratação), fiquei atento ao áudio do que ele diz ao time nas paradas técnicas. Deu para perceber o que ele quer que do time.

 

MPL — É fácil compreender o que ele diz em português?

Francisco Bozán — Sim, é fácil compreender o português brasileiro. É diferente do de Portugal. Quando não entendo, peço ajuda para a minha esposa, que fala um pouco português, e a alguns amigos e parentes que temos aí no Brasil (risos). O time de Zé Ricardo é muito organizado.

 

MPL — Qual será a proposta de jogo da Universidad de Concepción?
Francisco Bozán — Gosto de tomar a iniciativa do jogo. Não temos o perfil de nos defender. Nós sabemos que é importante um bom resultado na nossa casa. A pressão em São Januário será grande, os torcedores do Vasco são muito apaixonados. Não sabemos nos defender. Vamos atacar.

 

MPL — Você é um dos poucos técnicos chilenos na primeira divisão do país. Por que?

Francisco Bozán — São nove argentinos, seis chilenos e um espanhol. A Argentina vende muito melhor os seus produtos do que os treinadores chilenos ou de outros países. Mas não é só isso. Eles são muito bons. Marcelo Bielsa e Jorge Sampaoli deixaram legado aqui.

 

MPL — Você admira algum treinador brasileiro?

Francisco Bozán — Sou muito admirador da Seleção de 1970. Aquilo é encantador. Acho impressionante o trabalho de Mário (Jorge Lobo) Zagallo. Havia vários camisas 10 jogando junto sem problema de espaço. Gostava muito também da Seleção de 1998 e da maneira que Luiz Felipe Scolari organizou o time de 2002. Hoje, admiro muito o Tite. Com ele, o Brasil tem organização e tenta resgatar o drible, o toque de bola, algo que se perdeu com o tempo.