Números não mentem, mas também não dizem a verdade

Publicado em Íntegra
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A revisão do PIB pelo IBGE entrou no centro do debate econômico nacional. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística confirmou que prepara uma atualização do Sistema de Contas Nacionais. Essa mudança alterará o ano-base de 2010 para 2021. Entre os pontos mais discutidos dessa atualização está a possibilidade de passar a estimar a economia informal e ilícita. O instituto pretende medir o valor gerado por atividades como o tráfico de drogas, o contrabando e as apostas esportivas online, as chamadas bets.

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Combate

A notícia, compreensivelmente, provocou espanto na sociedade. Críticos mencionam a ocorrência de maquiagem estatística. Fala-se em uma economia que cresce no papel enquanto o país enfrenta violência e insegurança. Além disso, questiona-se o fato de o Estado contabilizar como riqueza aquilo que deveria combater. A militância política rapidamente passou a manipular esses números.

Títere

É uma imagem forte, e há nela um fundo de verdade que merece atenção. Contudo, a imagem completa é mais complexa do que as manchetes sugerem. Por essa razão, vale a pena separar a mudança técnica legítima dos sintomas preocupantes do país.

O padrão internacional na revisão do PIB pelo IBGE

Na revisão do PIB pelo IBGE segue estritamente o Sistema de Contas Nacionais das Nações Unidas (SNA). Esse manual internacional orienta como as nações devem medir o tamanho de suas economias. Desde 2014, países como Itália, Reino Unido e Espanha passaram a incluir estimativas de tráfico de drogas, prostituição e contrabando em seus cálculos. Posteriormente, esse movimento se estendeu a todos os 27 países da União Europeia.

Como critério técnico, o que é utilizado internacionalmente, baseia-se no conceito de transação voluntária. Quando duas partes negociam livremente um bem ou serviço, ainda que ilegal, considera-se que há produção econômica mensurável. Por essa razão, entram no cálculo o tráfico e as apostas online. Nessas atividades, comprador e vendedor concordam com a troca comercial.

Por outro lado, ficam de fora crimes como roubo, furto e extorsão. Essas ações representam apenas transferências forçadas de patrimônio, sem geração de riqueza nova. O caso da corrupção segue em aberto. Embora envolva duas partes em acordo, a corrupção não gera produção, apenas desvia recursos já existentes.

Transparência técnica e checagem de fatos

Agências de checagem, como a Aos Fatos, classificaram como enganosas as publicações que atribuem a mudança a uma decisão governamental deliberada para inflar índices. Trata-se de um processo estritamente técnico. O trabalho é conduzido por servidores de carreira do IBGE e alinhado a padrões internacionais adotados por democracias consolidadas.

Vejam que a inclusão dessas atividades no cálculo não significa legalização, reconhecimento moral ou validação política do crime organizado. Significa, apenas, uma tentativa de que a estatística oficial capture uma fatia da economia que movimenta bilhões de reais e impacta diretamente o orçamento das famílias.

No espelho das estatísticas, economia ilegal

Ainda assim, seria ingênuo tratar o episódio como mera curiosidade metodológica. Existe um aspecto profundamente perturbador quando a estatística oficial precisa reservar espaço contábil para o tráfico de drogas.

O fato de a metodologia ser correta não elimina o desconforto social. O agronegócio, a indústria automobilística e o comércio de entorpecentes figuram lado a lado na mesma tabela econômica. Essa convivência reflete o tamanho real que o mercado ilícito atingiu no país. O Estado brasileiro simplesmente não sabia, ou não queria, medir essa dimensão.

Impacto das apostas esportivas no orçamento familiar

No caso das apostas online, as bets, é ainda mais revelador. Trata-se de uma atividade legalizada e regulamentada que se espalhou rapidamente entre as famílias de menor renda.

Um estudo da Universidade de São Paulo (USP), divulgado em setembro, estimou o impacto financeiro do setor. As apostas online reduziram o consumo das famílias brasileiras entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões em 2025. Esse montante equivale a aproximadamente 1% do PIB nacional.

  • Alimentação: Redução direta no orçamento doméstico diário.
  • Moradia: Desvio de recursos destinados a bens essenciais.
  • Transferência de renda: Migração de capitais do consumidor para operadoras, muitas delas sediadas no exterior.

Contabilizar esse fluxo dentro do PIB apenas descreve a realidade de forma técnica. No entanto, a mesma realidade revela uma regulamentação que acabou retirando renda das classes mais vulneráveis.

O papel da transparência e os riscos da instrumentalização políticas

É legítimo que o cidadão desconfie de dados maquiados perto de períodos eleitorais. Por essa razão, a revisão do PIB pelo IBGE exige transparência radical do instituto. A metodologia de estimativa para atividades ilícitas é indireta e sujeita a margens de erro. O IBGE precisa explicar com clareza pedagógica a origem dos dados para evitar pânico ou distorção partidária.

Diferença entre medição estatística e narcoestado

Classificar o Brasil como um narcoestado devido a uma atualização contábil é uma leitura imprecisa. Um narcoestado caracteriza-se pela captura sistemática das estruturas de poder público pelo crime organizado. Isso ocorre em áreas específicas dominadas por facções, mas não define a totalidade do Estado brasileiro.

Vejam que a mudança estatística expõe a dimensão econômica do problema de segurança pública. O tráfico de drogas movimenta somas comparáveis a grandes setores da economia formal. Essa constatação representa uma realidade crua, e não uma manipulação de dados.

O perigo do uso político das estatísticas do PIB

O verdadeiro risco reside na exploração política desses resultados. O novo PIB não pode ser exibido em discursos como prova de sucesso econômico sem as devidas ressalvas técnicas. Caso contrário, o país substituirá a invisibilidade da economia ilícita pela instrumentalização política de um indicador inflado.

Nenhuma revisão contábil substitui políticas de segurança pública, investimentos sociais ou o combate efetivo ao crime organizado. A controvérsia sobre tráfico e bets revela a expansão do mercado informal e a perda de poder de compra do trabalhador.

A metodologia do IBGE permanece tecnicamente correta e alinhada às normas mundiais. O desconforto gerado pela mudança é real e precisa ser tratado com maturidade. O país deve encarar os números como um retrato analítico da sociedade para enfrentar os problemas estruturais com clareza e responsabilidade.

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