Categoria: Íntegra
Com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Há uma tendência recorrente de imaginar o Estado como uma entidade abstrata, dotada de existência própria e capaz de funcionar independentemente daqueles que o administram. A imagem, embora conveniente para a compreensão das estruturas políticas modernas, pouco explica sobre a natureza das instituições públicas e tampouco responde à questão que atravessa séculos de reflexão filosófica e política: até que ponto um Estado pode ser melhor do que as pessoas encarregadas de conduzi-lo? A resposta nunca foi simples e talvez resida justamente na percepção de que governos passam, constituições são reformadas, partidos se alternam no poder, mas a confiança da sociedade nas instituições leva décadas para ser construída e pode ser comprometida em poucos anos.
A história da organização política demonstra que a formação do Estado moderno nunca esteve dissociada de preocupações relacionadas à conduta humana. Quando Thomas Hobbes publicou Leviatã, em 1651, descreveu a necessidade de uma autoridade capaz de impedir que os conflitos naturais entre os indivíduos inviabilizassem a convivência social. Poucas décadas depois, John Locke defenderia que essa autoridade somente encontraria legitimidade se fosse exercida para proteger direitos fundamentais, enquanto Jean-Jacques Rousseau acrescentaria que nenhuma organização política poderia se manter estável sem uma permanente correspondência entre o interesse coletivo e a atuação daqueles que exercem o poder. Em comum, essas interpretações revelam que o Estado jamais foi concebido apenas como uma máquina administrativa. Desde sua formulação teórica, ele esteve associado à preservação de valores que permitissem a coexistência entre liberdade, autoridade e segurança.
Ao longo do século XX, o debate adquiriu contornos mais objetivos. O sociólogo alemão Max Weber definiu o Estado como a instituição que detém o monopólio legítimo do uso da força em determinado território, deslocando o foco da discussão para a legitimidade das instituições e para a capacidade de suas estruturas funcionarem segundo regras permanentes, independentemente das mudanças de governo. Essa distinção tornou-se um dos pilares das democracias constitucionais contemporâneas, nas quais o Estado deve permanecer enquanto governos se sucedem em ciclos eleitorais regulares.
Acontece que a própria experiência histórica demonstrou que a existência de instituições sólidas não elimina o papel desempenhado pelas pessoas responsáveis por sua condução. O filósofo italiano Norberto Bobbio observava que a democracia depende muito menos de promessas grandiosas do que da observância cotidiana das regras que garantem publicidade dos atos, alternância de poder, respeito às leis e responsabilidade dos agentes públicos. Em sentido semelhante, Hannah Arendt advertia que o poder político encontra sua legitimidade não na força, mas na confiança depositada pela sociedade nas instituições que o exercem.
Nas últimas décadas, essa percepção deixou de pertencer exclusivamente ao campo da filosofia política e passou a ser objeto de mensuração por organismos internacionais e centros independentes de pesquisa. Indicadores de governança, transparência e confiança institucional tornaram-se parâmetros utilizados para avaliar o funcionamento das democracias, permitindo comparações entre países com diferentes tradições políticas e distintos níveis de desenvolvimento econômico.
No caso do Brasil, o país insere-se nesse contexto internacional de maneira particularmente complexa. A Constituição de 1988 ampliou mecanismos de controle institucional, fortaleceu órgãos independentes de fiscalização, consolidou instrumentos de transparência administrativa e ampliou significativamente o acesso da sociedade às informações públicas. Nas décadas seguintes, iniciativas como a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Lei da Transparência e a Lei de Acesso à Informação contribuíram para modificar padrões históricos de publicidade dos atos administrativos e fiscalização das contas públicas. Ao mesmo tempo, sucessivas pesquisas de opinião continuaram registrando oscilações na confiança dos brasileiros em relação às instituições políticas, fenômeno que acompanha tendências observadas em diversas democracias contemporâneas.
Esse cenário demonstra que a construção da legitimidade institucional não depende exclusivamente da arquitetura jurídica do Estado. Constituições estabelecem princípios, leis disciplinam competências e tribunais asseguram sua aplicação, mas a percepção social acerca das instituições forma-se também a partir da experiência cotidiana dos cidadãos com os serviços públicos, com a previsibilidade das decisões administrativas, com o funcionamento da Justiça e com a capacidade do poder público de responder às demandas coletivas de maneira transparente e eficiente.
Talvez seja essa a principal característica do Estado moderno. Embora concebido como uma estrutura permanente e impessoal, ele permanece inseparável da ação humana. Não possui consciência, vontade ou valores próprios, mas incorpora, por meio das instituições, decisões tomadas diariamente por milhares de pessoas investidas em funções públicas. Em última análise, a solidez de um Estado não pode ser medida apenas pela extensão de seu aparato administrativo ou pela sofisticação de suas leis, mas também pela capacidade de preservar, ao longo do tempo, a credibilidade das instituições perante cidadãos e eleitores.
A frase que foi pronunciada:
“O fascismo deveria ser mais apropriadamente chamado de corporativismo, pois é uma fusão do poder estatal com o poder corporativo.”
Benito Mussolini
História de Brasília
Mas a VASP merece censura noutra parte. Cancelou a linha do Ceará, e fêz uma conexão em Salvador que não funciona nunca. Outro dia um amigo ficou três dias em Salvador sem querer, esperando outro avião, porque o vôo fôra cancelado. (Publicada em 22.05.1962)
Famílias cada vez mais endividadas e os limites das soluções de curto prazo
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Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), 81,6% das famílias brasileiras estavam endividadas em maio de 2026, o maior percentual da série histórica. O endividamento das famílias brasileiras deixou de ser um fenômeno estatístico para se tornar um dos principais desafios econômicos do país. Esses números mostram uma tendência consistente de crescimento do comprometimento da renda das famílias com dívidas, ao mesmo tempo em que a inadimplência permanece elevada. Independentemente da avaliação que se faça sobre as políticas do governo, o quadro exige atenção porque afeta diretamente consumo, investimento e crescimento econômico.
Entre as famílias de menor renda, a inadimplência também apresentou aumento, indicando maior dificuldade para cumprir compromissos financeiros. Esse cenário não surgiu de um único fator. A combinação entre juros elevados, crédito caro, inflação acumulada sobre itens essenciais e baixo crescimento da renda disponível ajuda a explicar a deterioração das finanças domésticas. Economistas têm apontado que o elevado custo do crédito continua sendo um dos principais obstáculos para a recuperação financeira das famílias brasileiras. Foi nesse contexto que o governo federal lançou o programa Novo Desenrola Brasil, destinado à renegociação de dívidas bancárias de famílias com renda de até cinco salários mínimos. O programa prevê descontos que podem chegar a 90%, juros limitados e parcelamento em até 48 meses, com o objetivo declarado de reduzir a inadimplência e reinserir consumidores no mercado de crédito. A proposta tem potencial para beneficiar parte dos inadimplentes. Estudo da Serasa estima que, no cenário mais favorável, cerca de 7,8 milhões de pessoas poderiam deixar a condição de negativadas ao longo da vigência do programa. Entretanto, programas de renegociação costumam enfrentar uma limitação conhecida: tratam principalmente das consequências do endividamento, não necessariamente de suas causas estruturais.
Se renda, produtividade, emprego e custo do crédito não evoluírem de forma consistente, parte dos consumidores pode voltar a enfrentar dificuldades financeiras após a renegociação. Esse é um ponto frequentemente destacado por especialistas em educação financeira e mercado de crédito, como Gustavo Cerbasi e Reinaldo Domingos.
Merece atenção o comprometimento crescente da renda familiar. Quando parcela significativa do orçamento mensal é destinada ao pagamento de financiamentos, cartões de crédito e empréstimos, sobra menos espaço para consumo, investimento e formação de patrimônio. Esse fenômeno reduz a capacidade de reação da economia diante de novas dificuldades. Outro aspecto relevante diz respeito à confiança. Consumidores excessivamente endividados tendem a adiar compras, reduzir investimentos e aumentar a poupança preventiva sempre que possível. Empresas respondem diminuindo investimentos, o que pode afetar emprego e crescimento econômico.
Nenhuma política pública consegue alterar essa realidade apenas por meio da renegociação de contratos. A recuperação duradoura das finanças familiares depende de fatores mais amplos, como estabilidade econômica, inflação controlada, crescimento da renda, produtividade, ambiente favorável aos investimentos e acesso a crédito em condições sustentáveis. Isso não significa que programas de renegociação sejam inúteis. Eles podem oferecer alívio imediato para milhares de famílias e reduzir parte da pressão sobre consumidores inadimplentes. A questão central é outra: sua eficácia de longo prazo dependerá da evolução das condições econômicas que levaram ao endividamento. O problema é que o debate público tende a transformar políticas econômicas em disputas exclusivamente políticas. Convém, porém, distinguir avaliação técnica de posicionamento partidário.
Ao longo do tempo, acompanhar os beneficiários do Novo Desenrola mostrará mais sobre os efeitos da inadimplência só poderão ser avaliados de forma consistente no futuro. O verdadeiro teste não será o número de contratos renegociados nos próximos meses, mas quantas famílias conseguirão permanecer adimplentes nos anos seguintes. É essa diferença que separa uma solução temporária de uma recuperação financeira sustentável.
A frase que foi pronunciada:
“Não existe uma solução mágica, uma bala de prata que vai resolver tudo.”
Lauro Gonzalez
Convivência
De um lado moradores reclamam do aumento de capivaras nos lagos Norte e Sul. De outro, há quem fique de olho na carne desse animal. O certo é que a reunião realizada no Ministério Público / (Prodema) Programa de Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural, com a presença da promotora de Justiça Luciana Bertini e de representantes do Instituto Brasília Ambiental tranquilizou a população afirmando que não há perigo de febre maculosa.
Curiosidade
Efraim Filho e Rodrigo Pacheco lutaram pela lei que permite a divulgação da 1ª lista de devedores contumazes. Pelo visto ficou de fora o devedor de precatórios.
História de Brasília
Os horários distribuídos pela Ponte Aérea no início da operação não estão valendo nada. Sai o avião que quiserem na hora que desejarem. Para o Rio, mesmo, continua a VASP, com horário, equipamento de primeira, e passagem ida e volta mais barata. (Publicada em 22.05.1962)
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Poucos fenômenos cresceram com tanta velocidade no Brasil quanto às plataformas de apostas esportivas. Em poucos anos, elas deixaram de ocupar espaços discretos na internet para dominar transmissões esportivas, patrocinar clubes, comprar horários na televisão e invadir, de maneira permanente, celulares e redes sociais de milhões de brasileiros.
Durante a Copa do Mundo de Futebol, essa presença tornou-se ainda mais intensa. Praticamente cada intervalo de transmissão, cada vídeo nas redes sociais e cada aplicativo passou a exibir anúncios convidando o público a fazer sua primeira aposta, multiplicar ganhos ou aproveitar “oportunidades imperdíveis”. A estratégia é sofisticada. Utiliza algoritmos capazes de identificar o perfil do usuário, seus hábitos de navegação e seus interesses esportivos. A publicidade deixou de ser apenas uma mensagem genérica e transformou-se em um recado personalizado. O celular, antes instrumento de comunicação e trabalho, passou a funcionar também como uma porta de entrada permanente para um gigantesco cassino virtual instalado no bolso de cada cidadão.
Segundo dados do Banco Central, os brasileiros movimentam dezenas de bilhões de reais por mês em apostas eletrônicas. Em estudo divulgado em 2024, a autoridade monetária estimou que os gastos mensais com apostas variavam entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões, evidenciando a dimensão econômica alcançada pelo setor. Esse volume impressiona não apenas pelo montante financeiro, mas por sua origem. Grande parte desse dinheiro sai diretamente do orçamento das famílias. Recursos que poderiam ser destinados à alimentação, educação, lazer, poupança ou investimento acabam sendo direcionados para plataformas cuja lógica matemática favorece, inevitavelmente, a própria casa de apostas.
A publicidade acompanha essa expansão. Influenciadores digitais, atletas, ex-jogadores, artistas e produtores de conteúdo aparecem diariamente estimulando apostas rápidas, frequentemente associando o jogo à ideia de sucesso financeiro, independência econômica ou enriquecimento fácil. A linguagem é cuidadosamente construída para transformar uma atividade de elevado risco em simples entretenimento. Especialistas em saúde pública têm alertado para o crescimento dos casos de ludopatia, o transtorno relacionado ao jogo compulsivo.
Enquanto pesquisadores brasileiros observam o aumento na procura por tratamento em razão das apostas online, a Organização Mundial da Saúde reconhece os transtornos comportamentais relacionados aos jogos como um problema relevante de saúde mental.
Outro aspecto que desperta preocupação crescente diz respeito à origem dos recursos que circulam nesse mercado. Autoridades brasileiras e organismos internacionais têm alertado para os riscos de utilização das plataformas de apostas em esquemas de lavagem de dinheiro. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o Ministério da Fazenda e a Polícia Federal vêm reforçando mecanismos de fiscalização justamente porque o elevado volume financeiro e a velocidade das transações podem ser explorados por organizações criminosas. Não significa que todas as empresas do setor estejam envolvidas em práticas ilícitas. Significa, porém, que o mercado apresenta vulnerabilidades conhecidas pelas autoridades.
Relatórios produzidos por organismos internacionais, como o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), apontam que atividades de apostas e jogos podem ser utilizadas por organizações criminosas para ocultação e circulação de recursos ilícitos quando não existem controles rigorosos de identificação de usuários, rastreamento financeiro e prevenção à lavagem de dinheiro. Esse quadro amplia a responsabilidade do poder público. A discussão deixou de envolver apenas liberdade econômica ou arrecadação tributária. Passou a abranger proteção do consumidor, saúde pública, segurança financeira e combate ao crime organizado.
Também merece atenção a intensidade da publicidade dirigida ao público. Embora a legislação brasileira tenha estabelecido regras para o funcionamento das apostas de quota fixa, cresce o debate sobre a necessidade de limitar campanhas publicitárias, sobretudo aquelas direcionadas a jovens e pessoas vulneráveis. Diversos países europeus já adotaram restrições severas quanto aos horários de exibição, utilização de celebridades e divulgação em eventos esportivos. O Brasil enfrenta agora desafio semelhante.
A facilidade tecnológica transformou qualquer intervalo de poucos minutos em oportunidade comercial. Basta abrir um aplicativo, assistir a um vídeo ou consultar uma rede social para que novos anúncios apareçam oferecendo bônus, apostas gratuitas ou promessas de retorno imediato. Nenhuma sociedade elimina completamente o jogo. Trata-se de uma atividade presente há séculos. O desafio contemporâneo consiste em impedir que a tecnologia transforme uma prática recreativa em mecanismo permanente de captura da renda familiar.
O problema surge quando o espetáculo esportivo passa a funcionar principalmente como plataforma de recrutamento de novos apostadores. Num ambiente digital dominado por algoritmos, publicidade personalizada e comunicação instantânea, a proteção do consumidor exige fiscalização constante, transparência regulatória e educação financeira. Caso contrário, milhões de brasileiros continuarão cercados diariamente por incentivos cuidadosamente desenhados para estimular apostas sucessivas, enquanto parte significativa dos lucros permanecerá concentrada em um mercado cuja expansão ainda desafia a capacidade de supervisão do Estado.
A frase que foi pronunciada:
Um jogador nunca comete o mesmo erro duas vezes. Geralmente são três ou mais vezes.
Terrence “VP Pappy” Murphy

História de Brasília
Na sua superquadra há um caminhão arrecadando agasalhos para as crianças pobres. Não deixe de dar um auxílio, que vai servir demais a quem não tem meios. (Publicada em 22.05.1962)
Terremotos e governos: qual desastre deixa cicatrizes mais profundas?
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Poucas imagens são tão devastadoras quanto a de uma cidade destruída por um terremoto. Em poucos segundos, inocentes morrem, prédios desaparecem, estradas racham, hospitais entram em colapso e os milhares de sobreviventes têm a vida alterada para sempre. Foi exatamente esse cenário que voltou a assombrar a Venezuela após os fortes terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiram o país nesta semana, provocando mortes, centenas de feridos e danos extensos à infraestrutura. Autoridades venezuelanas decretaram estado de emergência diante da magnitude da tragédia. Mas o que causa mais danos a uma nação, uma catástrofe natural ou um governo incapaz, corrupto ou destrutivo? Terremotos matam depressa. Maus governos costumam matar devagar. A natureza é indiferente às ideologias. Quando as placas tectônicas se movem, não perguntam quem está no poder. Não distinguem ricos de pobres, governistas de oposicionistas. Simplesmente liberam forças acumuladas durante séculos. Em poucos minutos, o trabalho de gerações pode ser reduzido a escombros.
Governos ruins operam de forma diferente. Seus efeitos são graduais. Quase imperceptíveis no início. Primeiro surgem pequenos sinais de deterioração institucional. Depois aparecem a inflação, a fuga de capitais, a perda de confiança dos investidores, o enfraquecimento dos serviços públicos, a corrupção crescente e o aumento da pobreza. Quando a população percebe a dimensão do estrago, grande parte do dano já foi produzida. A história oferece inúmeros exemplos. O terremoto de Lisboa, em 1755, destruiu boa parte da capital portuguesa e matou dezenas de milhares de pessoas. Mesmo assim, Portugal conseguiu reconstruir sua principal cidade em poucas décadas. A Alemanha saiu arrasada da Segunda Guerra Mundial. Suas cidades estavam em ruínas. Sua infraestrutura havia desaparecido. Poucos anos depois iniciava uma das mais impressionantes recuperações econômicas da história moderna. O Japão sofreu terremotos, tsunamis e duas bombas atômicas. Ainda assim transformou-se em uma das maiores economias do planeta.
Catástrofes naturais podem destruir patrimônio. Instituições sólidas permitem reconstruí-lo. O problema surge quando o desastre natural encontra um Estado enfraquecido. Nesse caso, o terremoto deixa de ser apenas um fenômeno geológico. Passa a funcionar como um teste brutal da qualidade das instituições nacionais. Hospitais não funcionam; os serviços de emergência não respondem; as estradas não resistem; as construções não obedecem normas técnicas; os recursos destinados à prevenção não chegam ao destino correto. É óbvio que cada uma dessas questões remete menos à geologia e mais à política. Países bem administrados também sofrem terremotos. A diferença é que costumam sofrer menos mortes.
Ano caso da Venezuela a tragédia chega carregando décadas de problemas econômicos, institucionais e sociais. Antes mesmo dos tremores, milhões de venezuelanos haviam deixado o país em uma das maiores crises migratórias da história recente da América Latina. A produção petrolífera caiu drasticamente ao longo dos últimos anos. Serviços públicos enfrentaram dificuldades recorrentes. A infraestrutura envelheceu. Tudo isso amplia a vulnerabilidade diante de qualquer desastre natural. O terremoto não criou esses problemas. Apenas os expôs de forma dramática. Há uma diferença importante entre um fenômeno natural e um fenômeno político. Nenhum cidadão pode impedir um terremoto. Já os erros humanos são, em teoria, evitáveis. Corrupção não é força da natureza. Má gestão não é fenômeno geológico. Desvios de recursos públicos não são inevitáveis.
Aristóteles observava que a finalidade da política é criar condições para uma vida boa em comunidade. Séculos depois, Winston Churchill resumiria o mesmo princípio ao afirmar que o preço da grandeza é a responsabilidade. Governos existem justamente para preparar a sociedade para enfrentar o imprevisível. Ninguém espera que um governante impeça terremotos. Espera-se, porém, que reduza seus efeitos. Por isso talvez seja inútil tentar estabelecer uma competição entre tragédias naturais e tragédias políticas. Cada uma destrói de maneira diferente. Os erros políticos podem destruir durante décadas. O caso venezuelano mostra que as duas formas de desastre podem acabar se encontrando no mesmo lugar. Quando isso ocorre, o resultado costuma ser especialmente cruel para a população comum, que perde duas vezes: primeiro para a natureza, depois para as falhas humanas.
Enquanto equipes de resgate procuram sobreviventes entre os escombros e o país tenta medir a extensão dos danos, permanece uma lição que atravessa séculos e continentes. Uma boa escolha no momento do voto frequentemente determina quantos sobreviverão quando a terra voltar a tremer.
A frase que foi pronunciada:
“Precisamos de um terremoto político, não de um terremoto geológico.”
Davan Yahya Khalil
Ninguém pode negar a importância da preservação da memória coletiva, da construção da identidade de um povo, o estímulo ao pensamento crítico, a coesão social, a formação educacional da população. A não ser a autoridade que permite uma obra durar mais de 10 anos para entregar aos contribuintes a sala Villa Lobos, do Teatro Nacional. Essa, autoridade não se preocupa.
História de Brasília
O Setor de Residências Econômicas será um dos mais belos bairros de Brasília. Estão ampliando tôdas as casas, e já começaram o trabalho de urbanização, com o asfaltamento de ruas internas. (Publicada em 22.05.1962)
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Avança pela Europa um processo que já não pode mais ser tratado como mera transformação cultural ou adaptação histórica. O que se observa, em diversas cidades e países, é um tensionamento crescente entre identidade, segurança e coesão social, elementos que, ao longo de séculos, sustentaram aquilo que se convencionou chamar de civilização ocidental. Sob o rótulo de multiculturalismo, consolidou-se uma política que, em nome da inclusão, passou a relativizar valores fundamentais. A ideia de que todas as culturas podem coexistir harmonicamente, independentemente de seus princípios, revelou-se, na prática, um experimento de alto risco. Quando normas, costumes e visões de mundo entram em conflito direto, não é a convivência que prevalece, mas a fragmentação. O filósofo Zygmunt Bauman, ao tratar da modernidade, já apontava para a ambivalência da diversidade administrada. Ao tentar organizar e encaixar diferenças dentro de um sistema, cria-se um paradoxo: quanto mais categorias são criadas para incluir, mais exclusões emergem. A diversidade deixa de ser espontânea e passa a ser dirigida e, nesse processo, transforma-se em instrumento de controle e não de convivência.
No caso europeu, essa engenharia social tem produzido efeitos visíveis. O crescimento de áreas urbanas onde o Estado perde presença, aumento de tensões culturais e dificuldades de integração são temas recorrentes em relatórios e coberturas da imprensa internacional. Países que historicamente construíram suas instituições sobre bases culturais específicas enfrentam agora o desafio de manter coesão em meio a valores frequentemente incompatíveis. A questão central não é rejeitar a diversidade em si, mas reconhecer seus limites. Nenhuma sociedade consegue sustentar-se sem um núcleo mínimo de valores compartilhados. Quando esse núcleo é diluído ou relativizado, o resultado não é pluralismo, mas desagregação.
A referência às tradições greco-romana, cristã e judaica não é um exercício nostálgico, mas o reconhecimento de fundamentos históricos que moldaram conceitos como Estado de Direito, liberdade individual e organização institucional. Ignorar esse legado em nome de um universalismo abstrato pode significar abrir mão das próprias bases que sustentam essas sociedades. Críticas ao modelo multicultural são frequentemente rotuladas e desqualificadas, o que reduz o espaço para discussões legítimas. Esse ambiente dificulta a construção de soluções equilibradas e alimenta polarizações.
Enquanto isso, a percepção de insegurança cresce. Em diversas regiões, cidadãos relatam mudanças no cotidiano, aumento de conflitos e sensação de perda de controle sobre o espaço público. Ainda que esses fenômenos variem de país para país, eles não podem ser simplesmente descartados como percepções infundadas. A ideia de um possível cenário distópico emerge justamente dessa combinação de fatores: fragmentação cultural, enfraquecimento de referências comuns e incapacidade de resposta institucional. Não se trata de afirmar que esse futuro é inevitável, mas de reconhecer que determinados caminhos podem conduzir a ele. Importa destacar que a própria noção de globalização, ao integrar economias e culturas, trouxe benefícios inegáveis. No entanto, quando aplicada de forma descolada das realidades locais, pode gerar efeitos colaterais significativos.
Uniformizar sociedades distintas sob um mesmo modelo é uma tentativa que tende a encontrar resistência e, em alguns casos, produzir instabilidade. Diversidade não pode significar ausência de critérios. Inclusão não pode implicar relativização de valores fundamentais. E políticas públicas não podem ignorar os limites impostos pela realidade social. O desafio do Ocidente, neste momento, é preservar aquilo que lhe deu coesão ao longo do tempo, ao mesmo tempo em que enfrenta mudanças inevitáveis. Isso exige clareza de princípios, firmeza institucional e disposição para reconhecer erros de percurso.
Se há um risco de distopia, ele não reside na diversidade em si, mas na incapacidade de estabelecer limites e diretrizes claras para sua integração. Sociedades que abrem mão de suas referências sem construir alternativas sólidas tendem a enfrentar períodos de instabilidade. O futuro ainda está em aberto. Mas ignorar os sinais de tensão em nome de um ideal abstrato pode ser tão problemático quanto reagir de forma desmedida. Entre esses extremos, há um caminho mais difícil, porém necessário: o de encarar a realidade com lucidez e responsabilidade. Porque, no fim, nenhuma civilização se sustenta apenas por boas intenções. Ela depende, sobretudo, da capacidade de preservar seus fundamentos enquanto enfrenta os desafios do tempo presente.
A frase que foi pronunciada:
“O Mundo não prometeu nada a ninguém.”
Provérbio árabe
Insensibilidade
Uma lojinha pequena, discreta, que ocupa o mesmo lugar a mais de 50 anos. A referencia era uma palmeira imperial. De repente, a árvore não estava mais lá. “O GDF veio, cortou. Disse que já deu o que tinha que dá.” Essa gente que nada tem a ver com a cidade destrói detalhe por detalhe sem respeitar a história da capital. Lastimável!
História de Brasília
Esta é, particularmente, uma notícia de grande repercussão para os pais, que estavam enfrentando uma situação de desespero vendo o exemplo que os professôres estavam dando a seus filhos. (Publicada em 17. 05.1962)
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Com o avanço da violência urbana nas periferias brasileiras e a crescente sensação de insegurança no entorno das escolas públicas veio à tona um debate que vai além da pedagogia: qual modelo de gestão escolar é capaz de garantir não apenas aprendizado, mas também ordem, previsibilidade e ambiente seguro para alunos e professores? Nesse contexto, as chamadas escolas cívico-militares passaram a ocupar espaço central na discussão educacional do Brasil. Implementadas com maior visibilidade a partir de 2019, dentro do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim), essas instituições propõem um modelo híbrido: gestão compartilhada entre educadores e militares da reserva, com foco em disciplina, organização e melhoria do ambiente escolar.
A proposta rapidamente ganhou apoio em comunidades marcadas por problemas recorrentes de indisciplina, evasão e violência. Dados divulgados pelo Ministério da Educação ao longo dos primeiros anos do programa indicaram avanços em indicadores como redução da evasão escolar, diminuição de ocorrências disciplinares e maior assiduidade de alunos e professores. Em algumas unidades, também foram registrados aumentos no desempenho em avaliações internas e externas. Relatórios e reportagens veiculadas por veículos como Folha de S.Paulo, O Globo e Estadão trouxeram casos concretos de escolas que, após a adoção do modelo, apresentaram melhora no clima escolar.
Diretores e professores frequentemente relatam maior respeito às regras, redução de conflitos e ambiente mais propício ao ensino. Um dos pontos mais enfatizados por gestores dessas escolas é a previsibilidade. Rotinas mais estruturadas, cumprimento rigoroso de horários e regras claras de convivência contribuem para criar um ambiente onde o processo de aprendizagem encontra menos obstáculos externos. Em contextos marcados por vulnerabilidade social, essa estabilidade pode fazer diferença significativa.
Outro aspecto frequentemente destacado é a participação da comunidade. Em diversas localidades, pais e responsáveis demonstraram apoio à implantação do modelo, associando disciplina a melhores condições de aprendizado. Essa percepção social ajuda a explicar a adesão voluntária de algumas redes estaduais e municipais ao formato.
No entanto, a análise do tema exige cautela e equilíbrio. Especialistas em educação lembram que melhorias observadas em determinadas escolas não podem ser automaticamente generalizadas para todo o sistema. O número de unidades cívico-militares ainda é relativamente pequeno quando comparado ao total de escolas públicas do país, o que limita conclusões mais abrangentes.
Além disso, críticas recorrentes apontam para o risco de confundir disciplina com qualidade pedagógica. A presença de ordem e controle pode melhorar o ambiente, mas não substitui investimentos em formação de professores, currículo, infraestrutura e políticas educacionais de longo prazo. Educação de qualidade depende de múltiplos fatores, e nenhum modelo isolado resolve todas as deficiências estruturais.
Outro ponto levantado por pesquisadores diz respeito ao custo do modelo. A presença de militares da reserva implica despesas adicionais, o que levanta questionamentos sobre a viabilidade de expansão em larga escala. Em um sistema educacional já pressionado por limitações orçamentárias, a alocação eficiente de recursos torna-se questão central.
Também há debate sobre o papel institucional das Forças Armadas e das polícias militares em atividades educacionais. Enquanto defensores argumentam que a participação desses profissionais contribui para a organização e segurança, críticos questionam se essa é a função mais adequada para esses agentes dentro de uma sociedade democrática.
Apesar dessas divergências, um ponto parece consensual: o ambiente escolar importa. Em regiões onde a violência se aproxima das escolas e onde o Estado frequentemente falha em garantir segurança básica, qualquer modelo que consiga restabelecer ordem e previsibilidade tende a ser bem recebido pela população.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que a violência em áreas urbanas periféricas continua sendo um desafio significativo, afetando diretamente a rotina de estudantes. Nesse cenário, a escola não é apenas espaço de aprendizado, mas também de proteção social. Editorialmente, a discussão sobre escolas cívico-militares não deve ser reduzida a uma disputa ideológica. Trata-se de avaliar, com base em evidências, quais práticas efetivamente contribuem para melhorar o ambiente escolar e o desempenho dos alunos. Se a disciplina e a organização trazidas por esse modelo geram resultados positivos em determinados contextos, esses elementos merecem ser considerados.
Por outro lado, é necessário evitar soluções simplistas para problemas complexos. A crise da educação pública brasileira envolve questões estruturais profundas, que vão desde desigualdades socioeconômicas até deficiências históricas de gestão e financiamento. O desafio, portanto, está em identificar o que funciona, adaptar boas práticas e integrá-las a uma política educacional mais ampla. Escolas cívico-militares podem representar uma alternativa em determinados contextos, especialmente onde a desordem compromete o aprendizado. Mas não substituem a necessidade de reformas estruturais no sistema educacional. No fim, a pergunta central permanece: como garantir que milhões de estudantes tenham acesso a uma educação de qualidade, em ambiente seguro e estimulante? Qualquer resposta séria a essa questão exigirá menos rótulos e mais compromisso com resultados concretos. Se a disciplina é parte da solução, ela deve ser incorporada de forma inteligente. Se a segurança é condição básica, ela precisa ser garantida. E se a educação é prioridade, todas as estratégias que comprovadamente contribuam para seu fortalecimento devem ser analisadas com rigor, sem preconceitos, mas também sem ilusões.
A frase que foi pronunciada:
“Todos os líderes mundiais desejam educação de qualidade para seus filhos. Eles precisam pensar nas crianças do resto do mundo como se fossem seus próprios filhos.”
Malala Yousafzai

História de Brasília
Está marcado para amanhã, o julgamento mais sensacional do Tribunal do Juri de Brasília. Será julgado o delegado João Pelles. (Publicada em 17. 05.1962)
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Extensão costeira de mais de 7.400 quilômetros e uma zona econômica exclusiva que avança por centenas de milhas mar adentro deveriam, em tese, garantir ao Brasil uma abundância de pescado acessível à população. No entanto, a realidade que se impõe nos balcões de supermercados e peixarias é outra: peixe caro, muitas vezes inacessível, transformado em item ocasional na mesa de milhões de brasileiros. Episódios como o de uma simples posta de pescada amarela, com pouco mais de 100 gramas, sendo vendida por R$ 89, deixam de ser exceção e passam a simbolizar uma distorção estrutural. Não se trata apenas de um problema pontual de preços, mas de um conjunto de falhas que, somadas, produziram um cenário em que um recurso abundante se torna escasso na prática.
Primeira camada dessa distorção está na própria estrutura da cadeia produtiva do pescado. Ao contrário de países que desenvolveram uma indústria pesqueira robusta, com logística integrada e políticas de incentivo claras, o Brasil ainda opera de forma fragmentada. Grande parte da pesca é artesanal, com baixa produtividade e limitada capacidade de armazenamento e distribuição. Essa característica, por si só, não seria um problema se houvesse infraestrutura adequada para escoamento e conservação. No entanto, deficiência crônica em portos pesqueiros, ausência de cadeias de frio eficientes e custos elevados de transporte encarecem o produto desde a origem. O peixe, altamente perecível, exige rapidez e tecnologia para chegar ao consumidor final com qualidade e cada falha nesse processo se traduz em aumento de preço.
Outro fator relevante é a carga tributária. Embora alimentos básicos tenham, em alguns casos, regimes diferenciados, o sistema tributário brasileiro permanece complexo e oneroso. Custos indiretos acumulam-se ao longo da cadeia, desde o combustível utilizado nas embarcações até a energia necessária para conservação e transporte. No final, o consumidor paga a conta. Também pesa a burocracia regulatória. Licenças ambientais, autorizações de pesca e regras muitas vezes inconsistentes ou sobrepostas criam um ambiente de insegurança para o setor. Evidentemente, a preservação ambiental é essencial, mas a ausência de políticas equilibradas, que conciliem sustentabilidade com produção, acaba desestimulando investimentos e reduzindo a oferta.
Enquanto isso, o país assiste ao crescimento da importação de pescado. Em vez de abastecer o mercado interno com sua própria produção, o Brasil recorre a fornecedores externos para suprir parte da demanda. Esse fenômeno revela uma contradição evidente: um país com vasto litoral que não consegue transformar seu potencial em oferta acessível. Há ainda o problema da concentração na distribuição. Grandes redes varejistas, com poder significativo de negociação, acabam influenciando preços e margens. Em muitos casos, o pequeno produtor ou pescador recebe valores reduzidos por sua produção, enquanto o consumidor final paga preços elevados. A diferença entre esses dois extremos evidencia distorções no funcionamento do mercado.
Ao longo do tempo, o consumo de pescado no Brasil permaneceu relativamente baixo em comparação com outros países costeiros. Essa menor demanda histórica contribuiu para a falta de investimentos estruturais no setor, criando um ciclo em que baixa oferta e alto preço se retroalimentam. Não se pode ignorar, ainda, o impacto do custo do combustível. A atividade pesqueira depende diretamente de embarcações, e o preço do diesel influencia de forma decisiva o custo final do produto. Oscilações nesse insumo afetam toda a cadeia, pressionando ainda mais os preços. Especialistas em economia do setor apontam que países que conseguiram democratizar o acesso ao pescado investiram em três pilares: infraestrutura, política pública consistente e integração de mercado. Sem esses elementos, a abundância natural não se traduz automaticamente em acessibilidade econômica.
No caso brasileiro, ausência de uma estratégia nacional clara para o setor pesqueiro contribuiu para o cenário atual. Políticas públicas, quando existem, tendem a ser fragmentadas, descontinuadas ou insuficientes para enfrentar desafios estruturais. Resultado é um paradoxo difícil de ignorar. Em um país com vastos recursos naturais, o peixe torna-se artigo caro. Em um território cercado por água, o acesso ao alimento que dela provém é limitado. E, em uma economia que busca crescimento, um setor com enorme potencial permanece subexplorado.
É preciso organização, investimento e políticas eficazes para que essa riqueza se converta em benefício real para a população. Enquanto essas questões estruturais não forem enfrentadas, cenas como a de um consumidor diante de um balcão, surpreso com o preço de um alimento que deveria ser comum, continuarão a se repetir. E o mar, imenso e generoso, seguirá distante da mesa da maioria.
A frase que foi pronunciada:
“Se Deus quiser quando eu voltar do mar/ Um peixe bom eu vou trazer.”
Suíte do Pescador – Dorival Caymmi
História de Brasília
O ministro da Fazenda, que estava com viagem marcada para Brasília hoje à tarde, chegará cedo, para organizar um esquema de pagamentos e liberação de verbas. (Publicada em 17. 05.1962)
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Carlos Penna Brescianini lembrou bem. Como é que representantes do governo declaram que nada podem fazer em relação aos problemas causados pelas chuvas se, na antiguidade, sem inteligência artificial, sem computadores e sem eletricidade, aquele povo conseguia drenar as águas das chuvas para enfrentar as inundações?
Como base para a engenharia atual, a tecnologia hidráulica desenvolvida por civilizações antigas revela grau de sofisticação em sistemas de captação e retenção de águas pluviais que estruturava cidades inteiras muito antes da mecanização contemporânea, articulando arquitetura, topografia e conhecimento climático de forma integrada. No território da Roma Antiga, cisternas escavadas no subsolo armazenavam milhares de litros de água coletados por telhados inclinados e pátios internos, garantindo abastecimento durante estiagens prolongadas. Escavações arqueológicas demonstram que esses reservatórios eram impermeabilizados com argamassa especial à base de cal e fragmentos cerâmicos, técnica que assegurava durabilidade secular. Povos da Mesoamérica, na região correspondente ao atual México, construíram os chamados chultuns, cavidades talhadas na rocha calcária para reter água da chuva em áreas sem rios perenes. Engenhosidade semelhante floresceu na Grécia Antiga, onde reservatórios públicos integravam o desenho urbano, reconhecendo a chuva como recurso estratégico, e não como ameaça a ser eliminada.
Em caminho inverso percorre a modernidade brasileira, entretanto, ao longo do século 20, convertendo várzeas em avenidas, retificando cursos d’água e selando o terreno com concreto. Dados consolidados pelo MapBiomas indicam expansão acelerada da mancha urbana nas últimas décadas, acompanhada de expressiva redução de áreas verdes em regiões metropolitanas. Em São Paulo, levantamentos municipais apontam índices de impermeabilização superiores a 70% em diversos distritos, condição que compromete a infiltração natural e intensifica picos de vazão durante tempestades. Relatórios técnicos da prefeitura e análises do Tribunal de Contas do município já advertiram que o sistema de macrodrenagem enfrenta limites estruturais diante da frequência crescente de eventos extremos.
Minas Gerais oferece quadro igualmente revelador. Temporais recentes registraram volumes pluviométricos acima de 200 milímetros em menos de 24 horas em áreas da Região Metropolitana de Belo Horizonte, conforme boletins da Defesa Civil estadual. Deslizamentos e inundações expuseram vulnerabilidades históricas relacionadas à ocupação de encostas e fundos de vale. No Rio de Janeiro, relatórios do Instituto Estadual do Ambiente destacam que relevo acidentado combinado a adensamento populacional e drenagem insuficiente potencializa enxurradas rápidas e destrutivas. Especialistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, órgão federal vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, reiteram que padrões climáticos alterados ampliam a intensidade das precipitações, exigindo revisão dos parâmetros tradicionais de projeto.
Cálculos econômicos reforçam a dimensão do desafio. Estimativas da Confederação Nacional de Municípios apontam que desastres associados a chuvas provocaram prejuízos de bilhões de reais na última década, considerando danos a infraestrutura, moradias e atividades produtivas. Frente a esses números, investimentos preventivos deixam de representar gastos e passam a configurar estratégia fiscal prudente. Simulações conduzidas por pesquisadores da Universidade de São Paulo indicam que a combinação de pavimentos permeáveis, jardins de chuva e recuperação de várzeas reduz, significativamente, o pico de cheia em bacias densamente urbanizadas.
Experiências internacionais corroboram tal diagnóstico. O Programa Sponge City, implementado em diversas cidades da China, estabeleceu metas nacionais de retenção e reaproveitamento de águas pluviais, mobilizando investimentos bilionários e integrando drenagem ao planejamento urbano. Modelos adotados em Roterdã, nos Países Baixos, transformaram praças públicas em bacias temporárias de retenção, conciliando lazer e controle de cheias com eficiência reconhecida internacionalmente, mais ou menos como o governo Ibaneis implantou perto do Iate Clube de Brasília.
Projeção conservadora para adaptar parcialmente metrópole como São Paulo, tornando permeáveis cerca de 300 quilômetros quadrados ao longo de duas décadas, alcançaria valores próximos de R$ 60 bilhões, equivalentes a, aproximadamente, 3 bilhões anuais, percentual modesto ante a orçamento municipal superior a 90 bilhões por ano. Engenheira hidróloga, Maria do Carmo Barros afirmou em seminário promovido pela Universidade Federal de Minas Gerais que “cada real aplicado em prevenção hídrica economiza múltiplos em reconstrução e assistência emergencial”, frase que traduz racionalidade econômica frequentemente eclipsada por prioridades de curto prazo.
A frase que foi pronunciada:
“A administração pública não é apenas sobre regras, mas sobre resultados.”
James Q. Wilson

História de Brasília
Continua Hipólito José da Costa na primeira edição do Correio Braziliense de 1808: O indivíduo que abrange o bem geral d’uma sociedade, vem a ser o membro mais distincto della; as luzes que elle espalha, tiraõ das trevas ou da illuzaõ aquelles que a ignorancia preciptou no labyrintho da apathia, da inepcia e do engano. (Publicada em 26/2/1962)
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Existe um fenômeno profundamente arraigado em nossa cultura que, mais do que um simples hábito danoso, deveria ser objeto de estudo sistemático e tema de uma espécie de terapia coletiva, conduzida com firmeza e objetividade, antes que essa compulsão venha a comprometer de maneira irreversível os laços que nos mantêm como nação. Trata-se da propensão nacional, quase inata, em depredar todo e qualquer bem público que se coloque ao alcance de nossas mãos, como se a destruição do que é comum fosse um gesto natural, inevitável, e por vezes até justificável.
Cidades de todo o país, reflexos imperfeitos de nossa identidade, carregam as marcas dessa mania niilista, dessa psicose urbana que transforma ruas, praças e monumentos em ruínas precoces. O cenário agrava-se à medida que nos afastamos dos grandes centros, onde a presença do poder público se dissolve até se tornar mera lembrança, permitindo que a sanha destruidora encontre campo fértil para manifestar-se sem pudor. É nesse vácuo de vigilância que desaparecem estátuas, bancos de praça, tampas de bueiro, luminárias, chafarizes, ou mesmo jazigos inteiros, a lista é infinita, um inventário melancólico daquilo que se constrói com recursos coletivos e se perde na voragem de uma multidão que parece agir em concerto.
Essa compulsão pela ruína não poupa sequer os instrumentos da vida cotidiana: ônibus, trens, estações de metrô, abrigos de parada, rodoviárias, banheiros públicos, placas de orientação, nada escapa ao olhar corrosivo de uma sociedade que confunde vandalismo com catarse. É como se estivéssemos diante de uma guerra sem inimigos definidos, em que o adversário invisível somos nós mesmos. Hannah Arendt, em sua análise sobre a banalidade do mal, lembrava que os maiores desastres sociais não provêm de monstros excepcionais, mas de comportamentos cotidianos, aceitos sem questionamento. O vandalismo que corrompe o espaço urbano parece ecoar esse mesmo espírito: não se trata de gestos isolados, mas de uma corrosão silenciosa e repetida, que, somada, dá forma a uma paisagem em permanente estado de ruína.
Talvez essa psicose coletiva encontre raízes no ambiente social em que estamos mergulhados. Afinal, um país em que mais de 60 mil pessoas perdem a vida anualmente em atos de violência, índice que supera as baixas de muitos conflitos armados no mundo contemporâneo, não poderia deixar de refletir, também no espaço físico de suas cidades, essa cultura da agressão, da ruptura e da ausência de limites.
Como bem observou o antropólogo Roberto DaMatta, “a violência no Brasil é o avesso da cidadania”; e onde não há cidadania, o espaço comum converte-se em território de disputa, sem regras, onde destruir o que é de todos equivale a afirmar uma espécie de poder efêmero sobre o caos.
Diante desse quadro, duas medidas se apresentam como urgentes e inadiáveis. A primeira é a educação de base, incumbindo-se as escolas não apenas da alfabetização formal, mas da formação de cidadãos conscientes de que o patrimônio coletivo é extensão de si próprios. O sociólogo Émile Durkheim já advertia que a educação é, acima de tudo, “a socialização metódica das novas gerações”. Não se trata, portanto, de mero adestramento para o trabalho, mas de um processo civilizador, em que se aprende, antes de tudo, a respeitar os limites, as normas e os símbolos que nos constituem como sociedade. Ensinar uma criança a zelar por um banco de praça ou por um mural histórico é talvez tão fundamental quanto ensiná-la a decifrar as letras de um alfabeto: sem o senso de pertencimento, todo conhecimento técnico será frágil, sujeito a desmoronar diante da primeira frustração.
A segunda medida, complementar à primeira, é a punição exemplar dos que se dedicam a alimentar esse círculo vicioso da degradação. Não se trata aqui de cultivar um punitivismo cego, mas de aplicar com rigor aquilo que Norberto Bobbio definia como “a sanção necessária à preservação do pacto social”. É preciso que o vândalo, ao ser flagrado em sua ação destrutiva, saiba que a consequência virá rápida, proporcional e inevitável, seja no ressarcimento financeiro, seja na restrição temporária da liberdade. Sem isso, a impunidade continuará a operar como convite aberto para que a insanidade coletiva prossiga seu trabalho de dissolução.
A psicologia urbana já demonstrou que ambientes degradados geram, por si mesmos, mais degradação. No Brasil, esse círculo vicioso está mais do que evidente: cidades mal iluminadas, sujas e deterioradas não apenas fomentam o crime, mas produzem um estado psicológico coletivo de medo e hostilidade, em que até mesmo o estrangeiro enxerga em nossas ruas mais um campo de batalha do que um espaço de convivência. Não é por acaso que a imagem de nossas cidades como feias, violentas e ameaçadoras ecoa nos relatos de turistas e nos relatórios de organismos internacionais, prejudicando também a economia.
Mas há uma dimensão ainda mais profunda e incômoda: o vandalismo não é apenas fruto de uma massa anônima e descontrolada, mas um reflexo do comportamento das elites políticas e administrativas. Quando os exemplos de cima reiteram, ano após ano, a negligência, a apropriação indevida e o desrespeito ao bem público, não surpreende que a população internalize o mesmo padrão, transformando-o em ação direta contra o espaço coletivo. Gustave Le Bon já advertia que “as massas nunca têm sede de verdade; elas se afastam das evidências que não lhes agradam, preferindo deificar o erro, caso este as seduza”.
Em última análise, o vandalismo contra o bem público não é apenas uma questão de segurança ou de urbanismo: é o sintoma de uma doença coletiva que exige tanto médicos quanto juízes, tanto professores quanto líderes exemplares.
A frase que foi pronunciada:
“A propriedade pode ser destruída e o dinheiro pode perder seu poder de compra; mas caráter, saúde, conhecimento e bom senso sempre serão exigidos em todas as condições.”
Roger Babson

História de Brasília:
Movimento justo, mas desorganizado, o dos funcionários da Novacap. Foram reivindicar aumento, mas a falta de um líder fêz com que a massa que ia participar de um movimento sério, fizesse rir aos que serviam como espectadores. (Publicada em 10.05.1962)
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Leszek Kołakowski, filósofo polonês que conheceu por dentro e por fora a experiência do socialismo real, deixou um alerta que soa mais atual do que nunca: a abolição do mercado não é apenas um atentado contra a economia, mas contra a própria liberdade humana. Quando o Estado assume o monopólio da produção, inevitavelmente se apropria também da informação, da cultura e da comunicação. O resultado histórico foi sempre o mesmo: ineficiência, racionamento e repressão. Uma “sociedade gulag”.
Hoje, no Brasil e no mundo, assistimos a uma versão sofisticada desse processo. Não há, como no passado, uma declaração explícita contra o mercado ou uma coletivização forçada. Ao contrário, partidos de esquerda falam em “livre mercado” e em “livre pensar”. Mas o discurso não resiste à prática. O que se observa é um gradual cerco à liberdade de escolha econômica e à autonomia da palavra.
No campo econômico, a intervenção estatal cresce sob múltiplas formas: subsídios bilionários a setores amigos do governo, empresas estatais ineficientes mantidas a qualquer custo, tributação sufocante sobre o empreendedor e o trabalhador, além de regulações que criam um labirinto quase intransponível para quem deseja investir.
A retórica da “justiça social” serve de biombo para o aumento da dependência da sociedade em relação ao Estado, com programas de transferência de renda que se transformam em instrumentos de poder político. Elena Ayala resume bem em seu Instagram, onde mostra aos brasileiros a realidade do comunismo em Cuba. O lado que os turistas não veem. A única igualdade que existe por lá é a pobreza. “Quando você recebe tudo de graça do governo é sinal que está perto de perder a sua liberdade.” No campo das ideias, o risco é ainda maior. A liberdade de expressão base de qualquer democracia vem sendo relativizada sob a bandeira do combate à “desinformação”. Termos vagos e elásticos abrem caminho para censura oficializada por agências reguladoras e, mais grave ainda, por parcerias entre governos e Big Techs.
A comunicação digital, que deveria ampliar vozes, é cada vez mais submetida a filtros ideológicos. O pluralismo, essência do livre pensar, vai cedendo espaço a uma uniformização ditada de cima para baixo. É nesse ponto que a advertência de Kołakowski ressurge com força. Ele dizia que sem mercado não há apenas perda de bens materiais, mas também de bens intelectuais. A sociedade passa a viver de racionamentos — não apenas de produtos, mas de ideias.
O novo gulag não tem arame farpado nem torres de vigia, mas hashtags, algoritmos e tribunais de exceção. O medo de perder espaço, reputação ou sustento já funciona como mecanismo disciplinador mais eficiente que a polícia política de outrora. Ao insistirem em um modelo que finge preservar o livre mercado e o livre pensar, mas que na prática submete ambos ao crivo do Estado e de suas alianças, as esquerdas modernas repetem os erros que Kołakowski denunciou.
Não se trata de imaginar tanques nas ruas ou coletivização forçada; trata-se de enxergar como a liberdade pode morrer lentamente, sob discursos sedutores de inclusão, democracia e justiça. Cabe à sociedade, à imprensa e às instituições compreender que a lição do século XX ainda não foi aprendida. A história mostrou que a supressão gradual da liberdade econômica e de expressão nunca termina bem. O Brasil e o mundo precisam decidir se querem viver em uma democracia aberta ou em uma versão digitalizada e branda do velho gulag.
Observem o que disse o filósofo sobre a revolução do proletariado, previsto pelo próprio Marx: “O mais importante, é que a teoria marxiana previu a inevitabilidade da revolução proletária. Revolução que nunca ocorreu em lugar nenhum. A revolução bolchevique na Rússia não guarda relação nenhuma com as profecias de Marx. Não teve como força motriz o conflito entre o proletariado industrial e o capital, mas, sim, a pressão de bordões sem nenhum conteúdo socialista, muito menos marxista, como: paz e terra para os camponeses. Bordões esses que, é desnecessário dizer, posteriormente redundariam em seu oposto. O que talvez mais se aproxime de uma revolução da classe trabalhadora, no século XX, foram os eventos de 1980/1981 na Polónia – movimento revolucionário dos trabalhadores industriais (muito fortemente apoiado pela intelligentsia) contra os seus exploradores, quer dizer, o Estado. E este caso solitário de revolução da classe trabalhadora (se pode, por isso mesmo, ser tido como tal) foi dirigido contra um estado socialista, sob a égide do sinal da cruz e com a bênção do Papa João Paulo II.”
A China moderna parece hoje o exemplo vivo de que as teorias marxistas que pregavam a destruição do livre mercado e do capitalismo estavam erradas. A China hoje empreende um modelo próprio de capitalismo de Estado, que explica muito sobre o desenvolvimento econômico daquele país. A China comunista, por sua vez é aquela baseada em princípios políticos fortemente atrelados ao Partido, onde não há possibilidade alguma de divergência. Mesmo atrelada a dogmas do PCC, a China anteviu que não poderia sair da situação de miséria e fome se não fizesse concessões diversas ao sistema capitalista, gerador de riqueza e não de panfletos vazios.
A frase que foi pronunciada:
“A abolição do mercado significa não apenas que os consumidores — ou seja, todos os membros da sociedade — são privados de praticamente todas as opções de consumo e de toda a influência sobre a produção; significa também que a informação e a comunicação são monopolizadas pelo Estado, visto que também necessitam de uma vasta base material para operar.”
Leszek Kołakowski, Modernidade em Prova Infinita

História de Brasília
A indústria dos cinco cruzeiros nos trocos dos TCB está se propalando demais. Apesar disto, a empresa não se manifesta informando que tem à disposição dos trocadores, todo o troco necessário. Dá assim, uma ideia de que o assunto não é tratado naquela companhia. (Publicada em 09.05.1962)







