Categoria: Íntegra
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Avança pela Europa um processo que já não pode mais ser tratado como mera transformação cultural ou adaptação histórica. O que se observa, em diversas cidades e países, é um tensionamento crescente entre identidade, segurança e coesão social, elementos que, ao longo de séculos, sustentaram aquilo que se convencionou chamar de civilização ocidental. Sob o rótulo de multiculturalismo, consolidou-se uma política que, em nome da inclusão, passou a relativizar valores fundamentais. A ideia de que todas as culturas podem coexistir harmonicamente, independentemente de seus princípios, revelou-se, na prática, um experimento de alto risco. Quando normas, costumes e visões de mundo entram em conflito direto, não é a convivência que prevalece, mas a fragmentação. O filósofo Zygmunt Bauman, ao tratar da modernidade, já apontava para a ambivalência da diversidade administrada. Ao tentar organizar e encaixar diferenças dentro de um sistema, cria-se um paradoxo: quanto mais categorias são criadas para incluir, mais exclusões emergem. A diversidade deixa de ser espontânea e passa a ser dirigida e, nesse processo, transforma-se em instrumento de controle e não de convivência.
No caso europeu, essa engenharia social tem produzido efeitos visíveis. O crescimento de áreas urbanas onde o Estado perde presença, aumento de tensões culturais e dificuldades de integração são temas recorrentes em relatórios e coberturas da imprensa internacional. Países que historicamente construíram suas instituições sobre bases culturais específicas enfrentam agora o desafio de manter coesão em meio a valores frequentemente incompatíveis. A questão central não é rejeitar a diversidade em si, mas reconhecer seus limites. Nenhuma sociedade consegue sustentar-se sem um núcleo mínimo de valores compartilhados. Quando esse núcleo é diluído ou relativizado, o resultado não é pluralismo, mas desagregação.
A referência às tradições greco-romana, cristã e judaica não é um exercício nostálgico, mas o reconhecimento de fundamentos históricos que moldaram conceitos como Estado de Direito, liberdade individual e organização institucional. Ignorar esse legado em nome de um universalismo abstrato pode significar abrir mão das próprias bases que sustentam essas sociedades. Críticas ao modelo multicultural são frequentemente rotuladas e desqualificadas, o que reduz o espaço para discussões legítimas. Esse ambiente dificulta a construção de soluções equilibradas e alimenta polarizações.
Enquanto isso, a percepção de insegurança cresce. Em diversas regiões, cidadãos relatam mudanças no cotidiano, aumento de conflitos e sensação de perda de controle sobre o espaço público. Ainda que esses fenômenos variem de país para país, eles não podem ser simplesmente descartados como percepções infundadas. A ideia de um possível cenário distópico emerge justamente dessa combinação de fatores: fragmentação cultural, enfraquecimento de referências comuns e incapacidade de resposta institucional. Não se trata de afirmar que esse futuro é inevitável, mas de reconhecer que determinados caminhos podem conduzir a ele. Importa destacar que a própria noção de globalização, ao integrar economias e culturas, trouxe benefícios inegáveis. No entanto, quando aplicada de forma descolada das realidades locais, pode gerar efeitos colaterais significativos.
Uniformizar sociedades distintas sob um mesmo modelo é uma tentativa que tende a encontrar resistência e, em alguns casos, produzir instabilidade. Diversidade não pode significar ausência de critérios. Inclusão não pode implicar relativização de valores fundamentais. E políticas públicas não podem ignorar os limites impostos pela realidade social. O desafio do Ocidente, neste momento, é preservar aquilo que lhe deu coesão ao longo do tempo, ao mesmo tempo em que enfrenta mudanças inevitáveis. Isso exige clareza de princípios, firmeza institucional e disposição para reconhecer erros de percurso.
Se há um risco de distopia, ele não reside na diversidade em si, mas na incapacidade de estabelecer limites e diretrizes claras para sua integração. Sociedades que abrem mão de suas referências sem construir alternativas sólidas tendem a enfrentar períodos de instabilidade. O futuro ainda está em aberto. Mas ignorar os sinais de tensão em nome de um ideal abstrato pode ser tão problemático quanto reagir de forma desmedida. Entre esses extremos, há um caminho mais difícil, porém necessário: o de encarar a realidade com lucidez e responsabilidade. Porque, no fim, nenhuma civilização se sustenta apenas por boas intenções. Ela depende, sobretudo, da capacidade de preservar seus fundamentos enquanto enfrenta os desafios do tempo presente.
A frase que foi pronunciada:
“O Mundo não prometeu nada a ninguém.”
Provérbio árabe
Insensibilidade
Uma lojinha pequena, discreta, que ocupa o mesmo lugar a mais de 50 anos. A referencia era uma palmeira imperial. De repente, a árvore não estava mais lá. “O GDF veio, cortou. Disse que já deu o que tinha que dá.” Essa gente que nada tem a ver com a cidade destrói detalhe por detalhe sem respeitar a história da capital. Lastimável!
História de Brasília
Esta é, particularmente, uma notícia de grande repercussão para os pais, que estavam enfrentando uma situação de desespero vendo o exemplo que os professôres estavam dando a seus filhos. (Publicada em 17. 05.1962)
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Com o avanço da violência urbana nas periferias brasileiras e a crescente sensação de insegurança no entorno das escolas públicas veio à tona um debate que vai além da pedagogia: qual modelo de gestão escolar é capaz de garantir não apenas aprendizado, mas também ordem, previsibilidade e ambiente seguro para alunos e professores? Nesse contexto, as chamadas escolas cívico-militares passaram a ocupar espaço central na discussão educacional do Brasil. Implementadas com maior visibilidade a partir de 2019, dentro do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim), essas instituições propõem um modelo híbrido: gestão compartilhada entre educadores e militares da reserva, com foco em disciplina, organização e melhoria do ambiente escolar.
A proposta rapidamente ganhou apoio em comunidades marcadas por problemas recorrentes de indisciplina, evasão e violência. Dados divulgados pelo Ministério da Educação ao longo dos primeiros anos do programa indicaram avanços em indicadores como redução da evasão escolar, diminuição de ocorrências disciplinares e maior assiduidade de alunos e professores. Em algumas unidades, também foram registrados aumentos no desempenho em avaliações internas e externas. Relatórios e reportagens veiculadas por veículos como Folha de S.Paulo, O Globo e Estadão trouxeram casos concretos de escolas que, após a adoção do modelo, apresentaram melhora no clima escolar.
Diretores e professores frequentemente relatam maior respeito às regras, redução de conflitos e ambiente mais propício ao ensino. Um dos pontos mais enfatizados por gestores dessas escolas é a previsibilidade. Rotinas mais estruturadas, cumprimento rigoroso de horários e regras claras de convivência contribuem para criar um ambiente onde o processo de aprendizagem encontra menos obstáculos externos. Em contextos marcados por vulnerabilidade social, essa estabilidade pode fazer diferença significativa.
Outro aspecto frequentemente destacado é a participação da comunidade. Em diversas localidades, pais e responsáveis demonstraram apoio à implantação do modelo, associando disciplina a melhores condições de aprendizado. Essa percepção social ajuda a explicar a adesão voluntária de algumas redes estaduais e municipais ao formato.
No entanto, a análise do tema exige cautela e equilíbrio. Especialistas em educação lembram que melhorias observadas em determinadas escolas não podem ser automaticamente generalizadas para todo o sistema. O número de unidades cívico-militares ainda é relativamente pequeno quando comparado ao total de escolas públicas do país, o que limita conclusões mais abrangentes.
Além disso, críticas recorrentes apontam para o risco de confundir disciplina com qualidade pedagógica. A presença de ordem e controle pode melhorar o ambiente, mas não substitui investimentos em formação de professores, currículo, infraestrutura e políticas educacionais de longo prazo. Educação de qualidade depende de múltiplos fatores, e nenhum modelo isolado resolve todas as deficiências estruturais.
Outro ponto levantado por pesquisadores diz respeito ao custo do modelo. A presença de militares da reserva implica despesas adicionais, o que levanta questionamentos sobre a viabilidade de expansão em larga escala. Em um sistema educacional já pressionado por limitações orçamentárias, a alocação eficiente de recursos torna-se questão central.
Também há debate sobre o papel institucional das Forças Armadas e das polícias militares em atividades educacionais. Enquanto defensores argumentam que a participação desses profissionais contribui para a organização e segurança, críticos questionam se essa é a função mais adequada para esses agentes dentro de uma sociedade democrática.
Apesar dessas divergências, um ponto parece consensual: o ambiente escolar importa. Em regiões onde a violência se aproxima das escolas e onde o Estado frequentemente falha em garantir segurança básica, qualquer modelo que consiga restabelecer ordem e previsibilidade tende a ser bem recebido pela população.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que a violência em áreas urbanas periféricas continua sendo um desafio significativo, afetando diretamente a rotina de estudantes. Nesse cenário, a escola não é apenas espaço de aprendizado, mas também de proteção social. Editorialmente, a discussão sobre escolas cívico-militares não deve ser reduzida a uma disputa ideológica. Trata-se de avaliar, com base em evidências, quais práticas efetivamente contribuem para melhorar o ambiente escolar e o desempenho dos alunos. Se a disciplina e a organização trazidas por esse modelo geram resultados positivos em determinados contextos, esses elementos merecem ser considerados.
Por outro lado, é necessário evitar soluções simplistas para problemas complexos. A crise da educação pública brasileira envolve questões estruturais profundas, que vão desde desigualdades socioeconômicas até deficiências históricas de gestão e financiamento. O desafio, portanto, está em identificar o que funciona, adaptar boas práticas e integrá-las a uma política educacional mais ampla. Escolas cívico-militares podem representar uma alternativa em determinados contextos, especialmente onde a desordem compromete o aprendizado. Mas não substituem a necessidade de reformas estruturais no sistema educacional. No fim, a pergunta central permanece: como garantir que milhões de estudantes tenham acesso a uma educação de qualidade, em ambiente seguro e estimulante? Qualquer resposta séria a essa questão exigirá menos rótulos e mais compromisso com resultados concretos. Se a disciplina é parte da solução, ela deve ser incorporada de forma inteligente. Se a segurança é condição básica, ela precisa ser garantida. E se a educação é prioridade, todas as estratégias que comprovadamente contribuam para seu fortalecimento devem ser analisadas com rigor, sem preconceitos, mas também sem ilusões.
A frase que foi pronunciada:
“Todos os líderes mundiais desejam educação de qualidade para seus filhos. Eles precisam pensar nas crianças do resto do mundo como se fossem seus próprios filhos.”
Malala Yousafzai

História de Brasília
Está marcado para amanhã, o julgamento mais sensacional do Tribunal do Juri de Brasília. Será julgado o delegado João Pelles. (Publicada em 17. 05.1962)
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Extensão costeira de mais de 7.400 quilômetros e uma zona econômica exclusiva que avança por centenas de milhas mar adentro deveriam, em tese, garantir ao Brasil uma abundância de pescado acessível à população. No entanto, a realidade que se impõe nos balcões de supermercados e peixarias é outra: peixe caro, muitas vezes inacessível, transformado em item ocasional na mesa de milhões de brasileiros. Episódios como o de uma simples posta de pescada amarela, com pouco mais de 100 gramas, sendo vendida por R$ 89, deixam de ser exceção e passam a simbolizar uma distorção estrutural. Não se trata apenas de um problema pontual de preços, mas de um conjunto de falhas que, somadas, produziram um cenário em que um recurso abundante se torna escasso na prática.
Primeira camada dessa distorção está na própria estrutura da cadeia produtiva do pescado. Ao contrário de países que desenvolveram uma indústria pesqueira robusta, com logística integrada e políticas de incentivo claras, o Brasil ainda opera de forma fragmentada. Grande parte da pesca é artesanal, com baixa produtividade e limitada capacidade de armazenamento e distribuição. Essa característica, por si só, não seria um problema se houvesse infraestrutura adequada para escoamento e conservação. No entanto, deficiência crônica em portos pesqueiros, ausência de cadeias de frio eficientes e custos elevados de transporte encarecem o produto desde a origem. O peixe, altamente perecível, exige rapidez e tecnologia para chegar ao consumidor final com qualidade e cada falha nesse processo se traduz em aumento de preço.
Outro fator relevante é a carga tributária. Embora alimentos básicos tenham, em alguns casos, regimes diferenciados, o sistema tributário brasileiro permanece complexo e oneroso. Custos indiretos acumulam-se ao longo da cadeia, desde o combustível utilizado nas embarcações até a energia necessária para conservação e transporte. No final, o consumidor paga a conta. Também pesa a burocracia regulatória. Licenças ambientais, autorizações de pesca e regras muitas vezes inconsistentes ou sobrepostas criam um ambiente de insegurança para o setor. Evidentemente, a preservação ambiental é essencial, mas a ausência de políticas equilibradas, que conciliem sustentabilidade com produção, acaba desestimulando investimentos e reduzindo a oferta.
Enquanto isso, o país assiste ao crescimento da importação de pescado. Em vez de abastecer o mercado interno com sua própria produção, o Brasil recorre a fornecedores externos para suprir parte da demanda. Esse fenômeno revela uma contradição evidente: um país com vasto litoral que não consegue transformar seu potencial em oferta acessível. Há ainda o problema da concentração na distribuição. Grandes redes varejistas, com poder significativo de negociação, acabam influenciando preços e margens. Em muitos casos, o pequeno produtor ou pescador recebe valores reduzidos por sua produção, enquanto o consumidor final paga preços elevados. A diferença entre esses dois extremos evidencia distorções no funcionamento do mercado.
Ao longo do tempo, o consumo de pescado no Brasil permaneceu relativamente baixo em comparação com outros países costeiros. Essa menor demanda histórica contribuiu para a falta de investimentos estruturais no setor, criando um ciclo em que baixa oferta e alto preço se retroalimentam. Não se pode ignorar, ainda, o impacto do custo do combustível. A atividade pesqueira depende diretamente de embarcações, e o preço do diesel influencia de forma decisiva o custo final do produto. Oscilações nesse insumo afetam toda a cadeia, pressionando ainda mais os preços. Especialistas em economia do setor apontam que países que conseguiram democratizar o acesso ao pescado investiram em três pilares: infraestrutura, política pública consistente e integração de mercado. Sem esses elementos, a abundância natural não se traduz automaticamente em acessibilidade econômica.
No caso brasileiro, ausência de uma estratégia nacional clara para o setor pesqueiro contribuiu para o cenário atual. Políticas públicas, quando existem, tendem a ser fragmentadas, descontinuadas ou insuficientes para enfrentar desafios estruturais. Resultado é um paradoxo difícil de ignorar. Em um país com vastos recursos naturais, o peixe torna-se artigo caro. Em um território cercado por água, o acesso ao alimento que dela provém é limitado. E, em uma economia que busca crescimento, um setor com enorme potencial permanece subexplorado.
É preciso organização, investimento e políticas eficazes para que essa riqueza se converta em benefício real para a população. Enquanto essas questões estruturais não forem enfrentadas, cenas como a de um consumidor diante de um balcão, surpreso com o preço de um alimento que deveria ser comum, continuarão a se repetir. E o mar, imenso e generoso, seguirá distante da mesa da maioria.
A frase que foi pronunciada:
“Se Deus quiser quando eu voltar do mar/ Um peixe bom eu vou trazer.”
Suíte do Pescador – Dorival Caymmi
História de Brasília
O ministro da Fazenda, que estava com viagem marcada para Brasília hoje à tarde, chegará cedo, para organizar um esquema de pagamentos e liberação de verbas. (Publicada em 17. 05.1962)
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Carlos Penna Brescianini lembrou bem. Como é que representantes do governo declaram que nada podem fazer em relação aos problemas causados pelas chuvas se, na antiguidade, sem inteligência artificial, sem computadores e sem eletricidade, aquele povo conseguia drenar as águas das chuvas para enfrentar as inundações?
Como base para a engenharia atual, a tecnologia hidráulica desenvolvida por civilizações antigas revela grau de sofisticação em sistemas de captação e retenção de águas pluviais que estruturava cidades inteiras muito antes da mecanização contemporânea, articulando arquitetura, topografia e conhecimento climático de forma integrada. No território da Roma Antiga, cisternas escavadas no subsolo armazenavam milhares de litros de água coletados por telhados inclinados e pátios internos, garantindo abastecimento durante estiagens prolongadas. Escavações arqueológicas demonstram que esses reservatórios eram impermeabilizados com argamassa especial à base de cal e fragmentos cerâmicos, técnica que assegurava durabilidade secular. Povos da Mesoamérica, na região correspondente ao atual México, construíram os chamados chultuns, cavidades talhadas na rocha calcária para reter água da chuva em áreas sem rios perenes. Engenhosidade semelhante floresceu na Grécia Antiga, onde reservatórios públicos integravam o desenho urbano, reconhecendo a chuva como recurso estratégico, e não como ameaça a ser eliminada.
Em caminho inverso percorre a modernidade brasileira, entretanto, ao longo do século 20, convertendo várzeas em avenidas, retificando cursos d’água e selando o terreno com concreto. Dados consolidados pelo MapBiomas indicam expansão acelerada da mancha urbana nas últimas décadas, acompanhada de expressiva redução de áreas verdes em regiões metropolitanas. Em São Paulo, levantamentos municipais apontam índices de impermeabilização superiores a 70% em diversos distritos, condição que compromete a infiltração natural e intensifica picos de vazão durante tempestades. Relatórios técnicos da prefeitura e análises do Tribunal de Contas do município já advertiram que o sistema de macrodrenagem enfrenta limites estruturais diante da frequência crescente de eventos extremos.
Minas Gerais oferece quadro igualmente revelador. Temporais recentes registraram volumes pluviométricos acima de 200 milímetros em menos de 24 horas em áreas da Região Metropolitana de Belo Horizonte, conforme boletins da Defesa Civil estadual. Deslizamentos e inundações expuseram vulnerabilidades históricas relacionadas à ocupação de encostas e fundos de vale. No Rio de Janeiro, relatórios do Instituto Estadual do Ambiente destacam que relevo acidentado combinado a adensamento populacional e drenagem insuficiente potencializa enxurradas rápidas e destrutivas. Especialistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, órgão federal vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, reiteram que padrões climáticos alterados ampliam a intensidade das precipitações, exigindo revisão dos parâmetros tradicionais de projeto.
Cálculos econômicos reforçam a dimensão do desafio. Estimativas da Confederação Nacional de Municípios apontam que desastres associados a chuvas provocaram prejuízos de bilhões de reais na última década, considerando danos a infraestrutura, moradias e atividades produtivas. Frente a esses números, investimentos preventivos deixam de representar gastos e passam a configurar estratégia fiscal prudente. Simulações conduzidas por pesquisadores da Universidade de São Paulo indicam que a combinação de pavimentos permeáveis, jardins de chuva e recuperação de várzeas reduz, significativamente, o pico de cheia em bacias densamente urbanizadas.
Experiências internacionais corroboram tal diagnóstico. O Programa Sponge City, implementado em diversas cidades da China, estabeleceu metas nacionais de retenção e reaproveitamento de águas pluviais, mobilizando investimentos bilionários e integrando drenagem ao planejamento urbano. Modelos adotados em Roterdã, nos Países Baixos, transformaram praças públicas em bacias temporárias de retenção, conciliando lazer e controle de cheias com eficiência reconhecida internacionalmente, mais ou menos como o governo Ibaneis implantou perto do Iate Clube de Brasília.
Projeção conservadora para adaptar parcialmente metrópole como São Paulo, tornando permeáveis cerca de 300 quilômetros quadrados ao longo de duas décadas, alcançaria valores próximos de R$ 60 bilhões, equivalentes a, aproximadamente, 3 bilhões anuais, percentual modesto ante a orçamento municipal superior a 90 bilhões por ano. Engenheira hidróloga, Maria do Carmo Barros afirmou em seminário promovido pela Universidade Federal de Minas Gerais que “cada real aplicado em prevenção hídrica economiza múltiplos em reconstrução e assistência emergencial”, frase que traduz racionalidade econômica frequentemente eclipsada por prioridades de curto prazo.
A frase que foi pronunciada:
“A administração pública não é apenas sobre regras, mas sobre resultados.”
James Q. Wilson

História de Brasília
Continua Hipólito José da Costa na primeira edição do Correio Braziliense de 1808: O indivíduo que abrange o bem geral d’uma sociedade, vem a ser o membro mais distincto della; as luzes que elle espalha, tiraõ das trevas ou da illuzaõ aquelles que a ignorancia preciptou no labyrintho da apathia, da inepcia e do engano. (Publicada em 26/2/1962)
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Existe um fenômeno profundamente arraigado em nossa cultura que, mais do que um simples hábito danoso, deveria ser objeto de estudo sistemático e tema de uma espécie de terapia coletiva, conduzida com firmeza e objetividade, antes que essa compulsão venha a comprometer de maneira irreversível os laços que nos mantêm como nação. Trata-se da propensão nacional, quase inata, em depredar todo e qualquer bem público que se coloque ao alcance de nossas mãos, como se a destruição do que é comum fosse um gesto natural, inevitável, e por vezes até justificável.
Cidades de todo o país, reflexos imperfeitos de nossa identidade, carregam as marcas dessa mania niilista, dessa psicose urbana que transforma ruas, praças e monumentos em ruínas precoces. O cenário agrava-se à medida que nos afastamos dos grandes centros, onde a presença do poder público se dissolve até se tornar mera lembrança, permitindo que a sanha destruidora encontre campo fértil para manifestar-se sem pudor. É nesse vácuo de vigilância que desaparecem estátuas, bancos de praça, tampas de bueiro, luminárias, chafarizes, ou mesmo jazigos inteiros, a lista é infinita, um inventário melancólico daquilo que se constrói com recursos coletivos e se perde na voragem de uma multidão que parece agir em concerto.
Essa compulsão pela ruína não poupa sequer os instrumentos da vida cotidiana: ônibus, trens, estações de metrô, abrigos de parada, rodoviárias, banheiros públicos, placas de orientação, nada escapa ao olhar corrosivo de uma sociedade que confunde vandalismo com catarse. É como se estivéssemos diante de uma guerra sem inimigos definidos, em que o adversário invisível somos nós mesmos. Hannah Arendt, em sua análise sobre a banalidade do mal, lembrava que os maiores desastres sociais não provêm de monstros excepcionais, mas de comportamentos cotidianos, aceitos sem questionamento. O vandalismo que corrompe o espaço urbano parece ecoar esse mesmo espírito: não se trata de gestos isolados, mas de uma corrosão silenciosa e repetida, que, somada, dá forma a uma paisagem em permanente estado de ruína.
Talvez essa psicose coletiva encontre raízes no ambiente social em que estamos mergulhados. Afinal, um país em que mais de 60 mil pessoas perdem a vida anualmente em atos de violência, índice que supera as baixas de muitos conflitos armados no mundo contemporâneo, não poderia deixar de refletir, também no espaço físico de suas cidades, essa cultura da agressão, da ruptura e da ausência de limites.
Como bem observou o antropólogo Roberto DaMatta, “a violência no Brasil é o avesso da cidadania”; e onde não há cidadania, o espaço comum converte-se em território de disputa, sem regras, onde destruir o que é de todos equivale a afirmar uma espécie de poder efêmero sobre o caos.
Diante desse quadro, duas medidas se apresentam como urgentes e inadiáveis. A primeira é a educação de base, incumbindo-se as escolas não apenas da alfabetização formal, mas da formação de cidadãos conscientes de que o patrimônio coletivo é extensão de si próprios. O sociólogo Émile Durkheim já advertia que a educação é, acima de tudo, “a socialização metódica das novas gerações”. Não se trata, portanto, de mero adestramento para o trabalho, mas de um processo civilizador, em que se aprende, antes de tudo, a respeitar os limites, as normas e os símbolos que nos constituem como sociedade. Ensinar uma criança a zelar por um banco de praça ou por um mural histórico é talvez tão fundamental quanto ensiná-la a decifrar as letras de um alfabeto: sem o senso de pertencimento, todo conhecimento técnico será frágil, sujeito a desmoronar diante da primeira frustração.
A segunda medida, complementar à primeira, é a punição exemplar dos que se dedicam a alimentar esse círculo vicioso da degradação. Não se trata aqui de cultivar um punitivismo cego, mas de aplicar com rigor aquilo que Norberto Bobbio definia como “a sanção necessária à preservação do pacto social”. É preciso que o vândalo, ao ser flagrado em sua ação destrutiva, saiba que a consequência virá rápida, proporcional e inevitável, seja no ressarcimento financeiro, seja na restrição temporária da liberdade. Sem isso, a impunidade continuará a operar como convite aberto para que a insanidade coletiva prossiga seu trabalho de dissolução.
A psicologia urbana já demonstrou que ambientes degradados geram, por si mesmos, mais degradação. No Brasil, esse círculo vicioso está mais do que evidente: cidades mal iluminadas, sujas e deterioradas não apenas fomentam o crime, mas produzem um estado psicológico coletivo de medo e hostilidade, em que até mesmo o estrangeiro enxerga em nossas ruas mais um campo de batalha do que um espaço de convivência. Não é por acaso que a imagem de nossas cidades como feias, violentas e ameaçadoras ecoa nos relatos de turistas e nos relatórios de organismos internacionais, prejudicando também a economia.
Mas há uma dimensão ainda mais profunda e incômoda: o vandalismo não é apenas fruto de uma massa anônima e descontrolada, mas um reflexo do comportamento das elites políticas e administrativas. Quando os exemplos de cima reiteram, ano após ano, a negligência, a apropriação indevida e o desrespeito ao bem público, não surpreende que a população internalize o mesmo padrão, transformando-o em ação direta contra o espaço coletivo. Gustave Le Bon já advertia que “as massas nunca têm sede de verdade; elas se afastam das evidências que não lhes agradam, preferindo deificar o erro, caso este as seduza”.
Em última análise, o vandalismo contra o bem público não é apenas uma questão de segurança ou de urbanismo: é o sintoma de uma doença coletiva que exige tanto médicos quanto juízes, tanto professores quanto líderes exemplares.
A frase que foi pronunciada:
“A propriedade pode ser destruída e o dinheiro pode perder seu poder de compra; mas caráter, saúde, conhecimento e bom senso sempre serão exigidos em todas as condições.”
Roger Babson

História de Brasília:
Movimento justo, mas desorganizado, o dos funcionários da Novacap. Foram reivindicar aumento, mas a falta de um líder fêz com que a massa que ia participar de um movimento sério, fizesse rir aos que serviam como espectadores. (Publicada em 10.05.1962)
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Leszek Kołakowski, filósofo polonês que conheceu por dentro e por fora a experiência do socialismo real, deixou um alerta que soa mais atual do que nunca: a abolição do mercado não é apenas um atentado contra a economia, mas contra a própria liberdade humana. Quando o Estado assume o monopólio da produção, inevitavelmente se apropria também da informação, da cultura e da comunicação. O resultado histórico foi sempre o mesmo: ineficiência, racionamento e repressão. Uma “sociedade gulag”.
Hoje, no Brasil e no mundo, assistimos a uma versão sofisticada desse processo. Não há, como no passado, uma declaração explícita contra o mercado ou uma coletivização forçada. Ao contrário, partidos de esquerda falam em “livre mercado” e em “livre pensar”. Mas o discurso não resiste à prática. O que se observa é um gradual cerco à liberdade de escolha econômica e à autonomia da palavra.
No campo econômico, a intervenção estatal cresce sob múltiplas formas: subsídios bilionários a setores amigos do governo, empresas estatais ineficientes mantidas a qualquer custo, tributação sufocante sobre o empreendedor e o trabalhador, além de regulações que criam um labirinto quase intransponível para quem deseja investir.
A retórica da “justiça social” serve de biombo para o aumento da dependência da sociedade em relação ao Estado, com programas de transferência de renda que se transformam em instrumentos de poder político. Elena Ayala resume bem em seu Instagram, onde mostra aos brasileiros a realidade do comunismo em Cuba. O lado que os turistas não veem. A única igualdade que existe por lá é a pobreza. “Quando você recebe tudo de graça do governo é sinal que está perto de perder a sua liberdade.” No campo das ideias, o risco é ainda maior. A liberdade de expressão base de qualquer democracia vem sendo relativizada sob a bandeira do combate à “desinformação”. Termos vagos e elásticos abrem caminho para censura oficializada por agências reguladoras e, mais grave ainda, por parcerias entre governos e Big Techs.
A comunicação digital, que deveria ampliar vozes, é cada vez mais submetida a filtros ideológicos. O pluralismo, essência do livre pensar, vai cedendo espaço a uma uniformização ditada de cima para baixo. É nesse ponto que a advertência de Kołakowski ressurge com força. Ele dizia que sem mercado não há apenas perda de bens materiais, mas também de bens intelectuais. A sociedade passa a viver de racionamentos — não apenas de produtos, mas de ideias.
O novo gulag não tem arame farpado nem torres de vigia, mas hashtags, algoritmos e tribunais de exceção. O medo de perder espaço, reputação ou sustento já funciona como mecanismo disciplinador mais eficiente que a polícia política de outrora. Ao insistirem em um modelo que finge preservar o livre mercado e o livre pensar, mas que na prática submete ambos ao crivo do Estado e de suas alianças, as esquerdas modernas repetem os erros que Kołakowski denunciou.
Não se trata de imaginar tanques nas ruas ou coletivização forçada; trata-se de enxergar como a liberdade pode morrer lentamente, sob discursos sedutores de inclusão, democracia e justiça. Cabe à sociedade, à imprensa e às instituições compreender que a lição do século XX ainda não foi aprendida. A história mostrou que a supressão gradual da liberdade econômica e de expressão nunca termina bem. O Brasil e o mundo precisam decidir se querem viver em uma democracia aberta ou em uma versão digitalizada e branda do velho gulag.
Observem o que disse o filósofo sobre a revolução do proletariado, previsto pelo próprio Marx: “O mais importante, é que a teoria marxiana previu a inevitabilidade da revolução proletária. Revolução que nunca ocorreu em lugar nenhum. A revolução bolchevique na Rússia não guarda relação nenhuma com as profecias de Marx. Não teve como força motriz o conflito entre o proletariado industrial e o capital, mas, sim, a pressão de bordões sem nenhum conteúdo socialista, muito menos marxista, como: paz e terra para os camponeses. Bordões esses que, é desnecessário dizer, posteriormente redundariam em seu oposto. O que talvez mais se aproxime de uma revolução da classe trabalhadora, no século XX, foram os eventos de 1980/1981 na Polónia – movimento revolucionário dos trabalhadores industriais (muito fortemente apoiado pela intelligentsia) contra os seus exploradores, quer dizer, o Estado. E este caso solitário de revolução da classe trabalhadora (se pode, por isso mesmo, ser tido como tal) foi dirigido contra um estado socialista, sob a égide do sinal da cruz e com a bênção do Papa João Paulo II.”
A China moderna parece hoje o exemplo vivo de que as teorias marxistas que pregavam a destruição do livre mercado e do capitalismo estavam erradas. A China hoje empreende um modelo próprio de capitalismo de Estado, que explica muito sobre o desenvolvimento econômico daquele país. A China comunista, por sua vez é aquela baseada em princípios políticos fortemente atrelados ao Partido, onde não há possibilidade alguma de divergência. Mesmo atrelada a dogmas do PCC, a China anteviu que não poderia sair da situação de miséria e fome se não fizesse concessões diversas ao sistema capitalista, gerador de riqueza e não de panfletos vazios.
A frase que foi pronunciada:
“A abolição do mercado significa não apenas que os consumidores — ou seja, todos os membros da sociedade — são privados de praticamente todas as opções de consumo e de toda a influência sobre a produção; significa também que a informação e a comunicação são monopolizadas pelo Estado, visto que também necessitam de uma vasta base material para operar.”
Leszek Kołakowski, Modernidade em Prova Infinita

História de Brasília
A indústria dos cinco cruzeiros nos trocos dos TCB está se propalando demais. Apesar disto, a empresa não se manifesta informando que tem à disposição dos trocadores, todo o troco necessário. Dá assim, uma ideia de que o assunto não é tratado naquela companhia. (Publicada em 09.05.1962)
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Alarmante é o estudo apresentado pela Cambridge University Press mostrando que 61,6 milhões de brasileiros, ou algo como 26% da população, vivem sob regras impostas por facções criminosas espalhadas por todo o país. São cidadãos que, por ausência do Estado, estão colocados sob o jugo da chamada governança criminal, que, com leis e punições próprias, controlam imensos territórios.
Mostra ainda, o estudo, que a vida comunitária nesses locais está sujeita a estreitas regras impostas por essas organizações, afetando do acesso a serviços públicos a até mesmo as eleições, onde, sob grande pressão, essas comunidades acabam votando em candidatos ligados aos criminosos e aos seus projetos.
Dinheiro para esse país controlado pelo crime não falta. Apenas em 2024, as organizações criminosas movimentaram mais de R$ 150 bilhões em recursos vindos de uma multiplicidade de fontes ilegais que, depois, são branqueadas por empresas de fachadas, também espalhadas por todo o país. A área de compra e venda e distribuição de petróleo e derivados tem sido a predileta desses grupos, por serem produtos onde a falsificação e a sonegação são mais facilitadas. O fato é que o crime organizado não depende do governo para se estabelecer e crescer. Tem renda própria, maior que muitos municípios juntos.
Seu poderio tem crescido e se expandido enormemente nos últimos anos. As forças de segurança, com recursos econômicos cada vez mais minguados, conhecem bem o poderio de fogo desses criminosos, cada vez mais bem armados e treinados em táticas de guerra.
São, de fato, organizações com atuação sofisticada e que chegam a operar até de dentro da própria máquina do Estado. Levantamento feito pela Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) mostra que o Brasil tem, aproximadamente, 100 grandes e pequenas organizações criminosas. Entre 2022 e 2024, facções do crime foram identificadas dentro de 1.760 pavilhões prisionais por todo o país. É um mundo à parte, ou submundo paralelo, ao qual os brasileiros fingem não conhecer por medo e as autoridades, por questões diversas, fazem questão de deixar em paz.
Algumas entidades que estudam esse caso escabroso chegam a afirmar que hoje quase um terço da população brasileira se encontra direta ou indiretamente subjugada por organizações criminosas de toda a espécie. Os Estados Unidos, por exemplo, já manifestaram diversas vezes sua preocupação com a expansão das facções brasileiras, especialmente pela conexão dessas organizações com cartéis internacionais e com redes de lavagem de dinheiro que atravessam fronteiras. O Comando Vermelho e o PCC são frequentemente citados em relatórios do Departamento de Estado e da DEA (Drug Enforcement Administration), devido ao envolvimento não só no tráfico de drogas, mas também no fornecimento de armas e na articulação de redes ilícitas que chegam a países vizinhos.
Nesse ponto, surge a tênue linha que separa o crime organizado dos grupos classificados como terroristas. Ao controlar territórios, impor regras, financiar campanhas políticas e transnacionalizar suas operações, essas facções já não atuam apenas como máfias locais, mas assumem características de organizações insurgentes. O risco, apontado por especialistas, é de que a América Latina se torne um grande corredor de instabilidade, onde o narcotráfico e o crime organizado se transformem em ameaças diretas à segurança nacional de vários países.
Não se trata mais de uma guerra localizada nas periferias brasileiras, mas de uma expansão continental. Países vizinhos, como Paraguai, Bolívia e Colômbia, sofrem com a presença desses grupos, seja pela penetração financeira, seja pela utilização de seus territórios como rotas de tráfico. Em consequência, cresce a possibilidade de cooperação internacional em operações de inteligência e segurança, com os EUA exercendo um papel central.
O que o estudo revela, portanto, é que o Brasil corre o risco de se tornar um epicentro do crime organizado transnacional, com ramificações que fragilizam democracias inteiras. Se nada for feito em termos de coordenação internacional, políticas públicas efetivas e fortalecimento do Estado, a tendência é de que essas organizações não apenas se consolidem, mas avancem para um patamar ainda mais perigoso, assumindo funções tipicamente políticas e desestabilizando o continente como um todo.
A frase que foi pronunciada:
“Nossa geração não lamenta tanto os crimes dos perversos quanto o estarrecedor silêncio dos bondosos!”
Martin Luther King

História de Brasília
Entrando ou saindo de uma superquadra, ponha seu carro em segunda. Respeite o pedestre que está atravessando na faixa de segurança. Êle tem direito, mesmo que não haja guarda orientando o tráfego. (Publicada em 8/5/1962)
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Com a aprovação pelo Congresso do projeto de lei que flexibiliza o licenciamento ambiental, a delicada questão do meio ambiente no Brasil ganha novos e perigosos elementos, podendo colocar o Brasil, mais uma vez, sob os olhares do mundo civilizado e, com isso, gerar mais empecilhos à aceitação dos produtos nacionais nos mercados externos, sobretudo, naqueles países da Europa que exigem certificado de que esses alimentos são produzidos sem ameaças ao ecossistema.
Para a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, a aprovação dessa flexibilização “decepou a legislação sobre o assunto no Brasil”. Para ela, essas novas permissões não vieram para aperfeiçoar as leis que levem a ganhos ambientais. Os deputados simplesmente ignoraram as propostas de alterações feitas pela ministra, preferindo atender a bancadas dos ruralistas e a interesses do próprio governo, como são os casos dos ministros da Agricultura, Portos e Aeroportos e o ministro dos Transportes. O próprio governo preferiu não apresentar defesa dos pontos de vista da sua ministra, esquivando-se de uma posição em favor da defesa do meio ambiente.
Marina, como em outras oportunidades, ficou sem apoio do próprio governo que faz parte. A ministra é hoje, literalmente, uma voz solitária a clamar no deserto contra o avanço de um progresso que não olha ao redor, passando por cima de florestas e animais. Mas, devido à grande celeuma causada, é possível que essa aprovação vá também ser encaminhada à apreciação do Supremo Tribunal Federal. Há pouco menos de quatro meses para a realização da COP30, conferência de clima da ONU em Belém, essa flexibilização ou liberação geral surge quase como um deboche. Meses atrás, a ministra já se viu abandonada na questão da exploração de petróleo na Margem Equatorial, onde os riscos ambientais são imensos. A liberação de projetos estratégicos, como define o governo, parece ser o caminho escolhido pelos políticos em detrimento da defesa do nosso bioma.
Os sinais de desprestígio de Marina Silva não são novos, mas se tornaram mais evidentes nas últimas semanas. No episódio da flexibilização do licenciamento, ela foi completamente ignorada pelo Congresso e deixada de lado pelo próprio Palácio do Planalto. Nenhum ministro relevante, tampouco o presidente, saiu em sua defesa. Pelo contrário, setores do governo, como os ministérios da Agricultura (Carlos Fávaro), Transportes (Renan Filho) e Portos e Aeroportos (Silvio Costa Filho), atuaram ativamente em prol da aprovação do projeto, revelando uma escolha clara: entre desenvolvimento imediato e sustentabilidade, optou-se pelo primeiro. Esse desprezo já havia se mostrado antes, como no caso da tentativa de exploração de petróleo na Margem Equatorial. Mesmo diante de pareceres técnicos e científicos apontando os enormes riscos ecológicos de perfuração naquela área sensível, a pressão política e econômica falou mais alto. Marina, mais uma vez, ficou sozinha, como se sua presença no governo servisse mais a fins simbólicos do que operacionais. É o que se poderia chamar de “ambientalismo decorativo”.
O paradoxo é evidente: faltando menos de quatro meses para a realização da COP30, em Belém do Pará, o governo brasileiro se vê promovendo medidas que esvaziam completamente seu discurso ambiental no plano internacional. A conferência é uma das maiores vitrines diplomáticas do país, uma chance de mostrar liderança e comprometimento com as metas de descarbonização, conservação de biomas e justiça climática. No entanto, a liberação desmedida de obras classificadas como “estratégicas”, sem o devido rigor ambiental, enfraquece qualquer tentativa de credibilidade externa. Para países europeus que exigem rastreabilidade e responsabilidade ecológica na cadeia produtiva de alimentos como Alemanha, França e Holanda, a nova legislação brasileira é um sinal vermelho. Já há movimentos no Parlamento Europeu que discutem barreiras técnicas para produtos oriundos de países que desrespeitam princípios básicos de sustentabilidade. O Brasil, que já teve sua carne e soja embargadas por questões ambientais, pode voltar à lista de vilões do clima se continuar nessa direção.
A entrada da China como ator dominante na exploração mineral brasileira é outro ponto que expõe a fraqueza do Estado na defesa do meio ambiente. Diversas empresas chinesas, principalmente ligadas ao setor de mineração, têm intensificado sua atuação na Amazônia e no Cerrado, abrindo crateras e deixando rastros de destruição. Em estados como Pará, Maranhão e Mato Grosso, comunidades indígenas e quilombolas denunciam a atuação predatória de mineradoras que, com aval ou omissão do Estado brasileiro, atuam sem qualquer compromisso com a regeneração ambiental ou o bem-estar social. A busca por lítio, nióbio, ouro e terras raras, transforma o subsolo brasileiro em um novo “eldorado” para interesses estrangeiros, reproduzindo uma lógica colonial: extrai-se tudo, o lucro vai embora, e o que resta é a contaminação de rios, aumento de conflitos sociais e destruição irreversível da biodiversidade. Em nome do crescimento e da “soberania energética”, entrega-se o território ao saque legalizado.
O caso Marina Silva simboliza a crise da razão ambiental no Brasil. Enquanto os olhos internacionais voltam-se para nós com desconfiança, o governo se mostra incapaz de articular uma política ambiental coesa. Preferiu calar sua ministra em vez de ouvir a voz da prudência. Preferiu agradar aliados do agronegócio, do petróleo e da mineração a buscar equilíbrio entre progresso e preservação. Se o Brasil seguir nesse caminho, corre o risco de chegar à COP30 não como anfitrião de uma agenda verde, mas como réu no tribunal da história ambiental mundial. E Marina, por mais combativa que seja, não poderá evitar isso sozinha.
A frase que foi pronunciada:
“O patrimônio natural é a base da nossa economia.”
Marina Silva

História de Brasília
A indústria nacional deve ter mais zelo na apresentação de suas publicações. No catálogo da Volkwagen brasileira há um clichê de cabeça para baixo. (Publicada em 06.05.1962)
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Dentre as despesas primárias do governo, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é o que mais pesa no Orçamento da União. A conta chega perto de R$ 1 trilhão em pagamentos de benefícios previdenciários. Trata-se de um problema de enormes proporções, pois, a cada ano que passa, o déficit nesse instituto aumenta numa progressão muito acima de quaisquer planejamentos. Hoje, o número de dependentes desse sistema já se aproxima dos 35 milhões de segurados. A perspectiva não foi equacionada de maneira minimamente satisfatória ao longo de todos esses anos. A maior preocupação, expressa pelos governos que vêm e vão a cada quatro anos, é de que a quebradeira geral ocorra somente na gestão seguinte. Lembrando que esse dinheiro não é dado, foi tirado dos trabalhadores ao longo dos anos de labuta.
Com isso, vai-se empurrando com a barriga um problema que é de toda a sociedade civil. Por volta de uma década atrás, havia uma relação de cinco contribuintes para cada beneficiário, seja pensionista ou aposentado. Hoje, essa relação caiu para algo em torno de 1.7, o que significa que menos de dois trabalhadores contribuem para o sistema. Além de uma queda acentuada da natalidade em nosso país e de um maior prolongamento na expectativa de vida dos brasileiros, o aumento real do salário mínimo acima da inflação tem pressionando o déficit no INSS, criando o que muitos experts nessa questão chamam de uma bomba armada prestes a explodir.
As previsões dizem que, nas próximas duas décadas, todo o sistema irá ruir, caso não sejam adotadas medidas sérias a tempo. Analistas confessam que esse é um problema sem solução à vista e que a única saída, do tipo emergencial, seria fazer ajustes nas regras de benefícios previdenciários, elevando os valores das contribuições para o sistema. Mesmo assim, essa seria uma medida capaz de prolongar a agonia do sistema, não uma solução.
O déficit total do sistema, somando benefícios do setor privado, público, militar e pensionistas chegou a R$ 410 bilhões em 2024. Para os ministros do Tribunal de Contas da União, que observam de perto essa questão, é preciso que, antes de qualquer reforma no INSS, sejam adotadas, de modo emergencial, medidas visando coibir as costumeiras fraudes nesse sistema.
Fraude no INSS já é velha conhecida dos brasileiros. Não passa governo algum sem que escândalos de fraudes no INSS venham à tona, mostrando a forma criativa como esse sistema é ludibriado. Os números sempre são superlativos, na casa do bilhões de reais. A despeito da incorporação de todo o aparato tecnológico ao sistema, eliminando interferências humanas, sempre ocorrem casos de fraudes.
O escândalo da vez agora e como sempre, de grande proporção, vem sendo divulgado por parte da imprensa e dá conta de que R$ 6,3 bilhões foram desviados de aposentados e pensionistas por meio de descontos que eram, ou ainda são, debitados nas contas dos aposentados todos os meses para associações do tipo “Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e idosos (Sindnapi)”, entidade que os segurados não conhecem e sequer deram permissão para esse desconto.
Quem aparece dessa vez, como centro das investigações é, além do presidente do instituto, Alessandro Stefanutto, o irmão do presidente da república, chamado de Frei Chico, que vem a ser o atual dirigente do tal Sindnapi. Stefanutto é ligado ao eterno presidente do PDT, o ministro da Previdência, Carlos Lupi. Lembrando que Lupi já foi demitido do governo Dilma por acusação de corrupção. Os pensionistas, que temem por mais esse rombo na previdência, sabem que o dinheiro desviado jamais irá retornar aos cofres da instituição e se mostram surpresos com detalhes de mais esse desfalque. Os criminosos dessas vez agiram com maior audácia, talvez incentivados pelos inúmeros casos de corrupção sem solução ou punição. Como a adesão dos pensionistas era impossível, os bandidos falsificaram as assinaturas de milhões de beneficiários, dando a impressão de que tudo corria como manda a lei. Como dizem os cientistas e pesquisadores: achar que repetindo-se as mesmas experiências com os mesmos produtos e nas mesmas condições alguém irá obter um resultado diferente, é loucura… ou inocência.
A frase que foi pronunciada:
“Coincidência ou não, basta você se aposentar para começar receber telefonemas de golpes ou consignados.”
Dona Dita sobre a Lei de Proteção de Dados

História de Brasília
Amanhã estaremos na TV-Brasília comentando o desenrolar do inquérito na Novacap e a situação da Merenda Escolar, que tem uma campanha nacional, mas quem dá mesmo a merenda são os pais. (Publicada em 29.04.1962)
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Dados fornecidos pelo Núcleo da Violência da Universidade de São Paulo (USP), em conjunto com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indicam que, a cada duas horas, aproximadamente, uma mulher é morta de forma violenta em nosso país. No mapa mundial, esse número passa para uma mulher morta a cada 10 minutos, segundo a UNWoman. O grau de violência que tem, nas mulheres, de todas as idades e das mais variadas camadas sociais, seu principal alvo, demonstra, de forma cabal, que existe em nossa população uma patologia e uma anomalia de tal proporção que não seria exagerado considerar que a sociedade brasileira parece rumar para sua própria desintegração.
Observem que esse é um dado verídico que apresenta apenas aqueles casos que culminaram com a morte, de forma absolutamente criminosa, de mulheres. Se formos levar em conta também as denúncias feitas formalmente por mulheres que foram vítimas de violência doméstica, de ameaças e de assédios sexuais, de estupros e mesmo assédios morais praticados nos locais de trabalho, os registros não deixariam dúvidas de que ser mulher nesse país é uma missão que envolve altíssimos riscos.
O que mais chama a atenção nesses dados é que esse tipo de crime vem aumentando a uma taxa de quase 10% ao ano, isso, de acordo apenas com as estatísticas oficiais. Ocorre que esse tipo de violência, quando praticada por pessoa da família, não chega, sequer, a ser denunciada às autoridades. Daí que muitos acreditam que os dados reais, relativos às práticas de violência contra as brasileiras, são estarrecedores. De tão recorrentes e bárbaros, foi preciso o estabelecimento de um novo tipo de crime, no caso, o feminicídio, como forma de conter essa escalada de violência.
Infelizmente, a criação de delegacias especiais para o atendimento de mulheres e mesmo o advento de Leis como a Maria da Penha e a inclusão do feminicídio como crime hediondo, com endurecimento severo nas penas, não tiveram o condão de abrandar os registros de violência praticada contra as mulheres no Brasil.
Além da violência física e moral, as mulheres são vítimas também de uma outra forma de crime, aceita por muitos como fatos de menor importância, mas que demonstra um certo comportamento misógino enraizado em nossa cultura a séculos. As discriminações no ambiente de trabalho, com as diferenças salarias entre homens e mulheres e as oportunidades diferentes de crescimento dentro da profissão, evidenciam essas injustiças, mesmo em pleno século XXI.
Um outro caso de flagrante discriminação contra as mulheres ocorre durante todas as eleições. Para burlar a lei eleitoral que obriga uma cota mínima de 30% de mulheres na lista de candidatos ao Legislativo, muitos partidos passaram a adotar a estratégia de candidaturas do tipo laranja, na qual mulheres são inscritas, não realizam campanhas e devolvem o dinheiro do fundo eleitoral e partidário diretamente para os caciques desses partidos, que dão a destinação que bem querem a esses recursos públicos. Com isso, a representação feminina no Congresso e nas Assembleias Legislativas permanecem desiguais, em torno de 30%, isso para um país onde, em cada dez habitantes, 5 são do sexo feminino.
Esse fato não é apenas um desrespeito e um crime praticado contra as mulheres, mas um grave delito contra a própria democracia representativa e o futuro do país.
A frase que foi pronunciada:
“Leolinda, Bertha e Almerinda pavimentaram o caminho pra que Celina Guimarães, a primeira eleitora; Eunice Michiles, a primeira senadora; Alzira Soriano, a primeira prefeita; e tantas outras que vieram depois participassem efetivamente da política brasileira. Cada movimento delas foi essencial pra que o direito ao voto se tornasse uma realidade na política do país.”
Do Instagran TSEJUS

Decepção
Satisfeita com a visita de familiares que moram por toda parte do mundo, Gisele Alvarenga resolveu ciceronear os genros e noras para conhecer Brasília. Começou pelo Palácio da Alvorada, onde todos podiam chegar perto do vasto gramado, ver as aves criadas por ali. Não é mais assim. Tudo impossível de se aproximar. Até a Catedral estava fechada. Itamaraty nem pensar. Torre digital? Viagem perdida. Apesar do aumento de turistas, a capital da República não tem sido uma boa anfitriã.

História de Brasília
As chuvas desta madrugada danificaram , em parte, o jardim do trevo da Igrejinha. A tela colocada sôbre a grama, entretanto, evitou maior desastre. (Publicada em 27.04.1962)


