Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Reuniões anuais do Fórum Econômico Mundial em Davos costumam funcionar como termômetro das grandes correntes de pensamento que atravessam a economia e a política internacional. Na edição realizada em janeiro de 2026, porém, o encontro revelou algo mais profundo do que debates sobre crescimento, tecnologia ou clima. O que se viu foi um confronto explícito entre duas visões distintas de organização do mundo: de um lado a perspectiva globalista, baseada na integração econômica e na governança internacional ampliada; de outro, o retorno vigoroso do soberanismo político e de uma leitura mais pragmática das relações internacionais.
Esse embate não surgiu de forma repentina. Ao longo da última década, crises sucessivas abalaram a confiança no modelo de globalização que se consolidou após o fim da Guerra Fria. A crise financeira internacional de 2008, os efeitos sociais da desindustrialização em várias economias ocidentais, a pandemia e os conflitos geopolíticos recentes contribuíram para fortalecer correntes políticas que defendem maior autonomia nacional nas decisões econômicas e estratégicas. Nesse contexto, lideranças políticas que defendem agendas mais voltadas ao interesse nacional passaram a ganhar espaço no debate global. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tornou-se um dos principais símbolos dessa corrente ao defender políticas comerciais protecionistas, controle migratório mais rígido e revisão de acordos multilaterais considerados prejudiciais à economia norte-americana. Seu discurso encontrou eco em diferentes regiões do mundo, alimentando uma onda política que passou a questionar abertamente o consenso globalista predominante em fóruns internacionais.
Na América Latina, o presidente argentino, Javier Milei, também tem sido uma das vozes mais críticas em relação a modelos internacionais de governança econômica. Em diversos pronunciamentos, Milei denunciou aquilo que chama de “burocracia global” e criticou políticas que, segundo sua visão, ampliam a intervenção estatal e reduzem a autonomia das nações. Seu discurso ganhou destaque internacional justamente por confrontar algumas das ideias mais presentes nos debates promovidos em Davos. Na Europa, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, representa outra vertente desse movimento. Meloni tem defendido publicamente políticas de fortalecimento das fronteiras nacionais e de revisão da política migratória europeia, argumentando que a União Europeia precisa equilibrar valores humanitários com a capacidade real de absorção econômica e social de novos fluxos populacionais. A questão migratória tornou-se, de fato, um dos temas mais sensíveis do debate europeu contemporâneo. Dados da Eurostat indicam que milhões de imigrantes chegaram ao continente ao longo da última década, pressionando sistemas de assistência social, políticas habitacionais e mercados de trabalho em vários países.
Enquanto defensores da integração global argumentam que a imigração pode compensar o envelhecimento demográfico europeu, críticos apontam dificuldades de integração cultural e desafios de segurança em determinadas regiões. Ao mesmo tempo, agenda ambiental e energética também esteve no centro das discussões em Davos. Propostas ligadas à transição energética, descarbonização da economia e investimentos em tecnologias verdes continuam sendo defendidas por organizações internacionais e por parte significativa da liderança política europeia.
Entretanto, opositores dessa agenda argumentam que determinadas políticas ambientais podem gerar custos econômicos elevados, especialmente em setores industriais tradicionais. Em alguns países europeus, protestos de agricultores e trabalhadores industriais têm expressado preocupações sobre o impacto de regulações ambientais mais rigorosas sobre competitividade e emprego. Essa divergência ilustra o núcleo do debate atual.
De um lado, defensores da governança global sustentam que problemas como mudança climática, migração e segurança digital exigem soluções multilaterais coordenadas. De outro, líderes e movimentos soberanistas argumentam que decisões fundamentais devem permanecer sob controle direto das nações, que seriam as verdadeiras responsáveis perante seus cidadãos.
A edição de 2026 do encontro em Davos tornou visível essa fratura intelectual e política. Propostas apresentadas no fórum enfatizaram cooperação internacional, investimentos sustentáveis e integração econômica ampliada. Paralelamente, discursos e posicionamentos de vários líderes políticos refletiram crescente eticismo em relação a projetos que possam reduzir a autonomia decisória dos Estados nacionais.
Europa aparece como um dos principais cenários dessa tensão. O continente enfrenta simultaneamente desafios demográficos, pressão migratória, competição econômica global e necessidade de adaptação energética. Nesse ambiente complexo, diferentes correntes políticas disputam interpretações sobre qual caminho seguir. Alguns defendem aprofundar a integração e fortalecer instituições multilaterais. Outros argumentam que a recuperação da capacidade decisória nacional representa condição necessária para preservar estabilidade econômica e coesão social.
A frase que foi pronunciada:
A globalização desenfreada beneficiou alguns, mas foi uma catástrofe para a maioria.
Marine Le Pen

História de Brasília
O comércio de Brasília está apavorado com o número de publicações que tem saido ultimamente. Quando sai uma publicidade local no Correio Braziliense, os nossos dêsses jornais” atiram-se contra os comerciantes, e, às vezes, ameaçam até chantagem. Denunciem, e nós publicaremos. (Publicada em 16.05.1962)





