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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Há uma distopia em construção no Brasil. Ela não chegou de repente, com tanques nas ruas ou decretos autoritários. Chegou silenciosamente, protocolar, embrulhada em resoluções normativas, rubricas orçamentárias e jargões técnicos. Chegou pela via dos tributos que se multiplicam sem correspondência em serviços, pelas emendas parlamentares que sangram o Tesouro para alimentar currais eleitorais, pela corrupção que corrói cada real arrecadado antes mesmo que chegue ao destino declarado e pelo crime organizado que ocupa os espaços abandonados pelo Estado.
O resultado é um país que tributa como nação desenvolvida e entrega como nação falida. Manchetes estampam “O Brasil atingiu em 2025 a maior carga tributária da série histórica: 32,4% do PIB. Nenhum serviço público correspondente foi entregue”. Cada esfera governa os próprios instrumentos de coleta: na União, o Imposto de Renda, a Cofins, o PIS e as contribuições previdenciárias; nos estados, o ICMS, o IPVA e o ITCMD; nos municípios, o ISS, o IPTU e o ITBI. O contribuinte é o mesmo em todos os balcões. O Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) calculou que, em 2024, o trabalhador brasileiro precisou trabalhar até 28 de maio — 149 dias — apenas para quitar suas obrigações com o Estado. Trata-se de quase metade do ano consumida em tributos antes que um único real reste para o indivíduo construir patrimônio, investir, poupar ou simplesmente viver com dignidade.
A carga tributária de 2025 foi de 32,40% do PIB maior da série histórica (Tesouro Nacional). A de 2023, 30,26% do PIB — ou seja, alta de 2,14 pontos percentuais em dois anos. Os dias trabalhados para pagar tributos em 2024 foram 49. A posição no ranking mundial, 14ª maior carga entre os países da OCDE — pior retorno em bem-estar. A perversidade do modelo está, contudo, menos no volume e mais na estrutura. Enquanto os países da OCDE concentram sua arrecadação predominantemente em tributos sobre renda e patrimônio, o que tende a ser mais progressivo, o Brasil arrecada principalmente sobre consumo e folha de pagamento. Em 2025, os impostos sobre bens e serviços representaram 13,78% do PIB.
O que isso significa, na prática, é que o faxineiro e o executivo pagam o mesmo ICMS ao comprar arroz no supermercado. É a regressividade institucionalizada. O chamado Custo Brasil, resultante dessa estrutura que pune produção e consumo, encarece sistematicamente os produtos nacionais e torna as empresas brasileiras não competitivas no mercado global. Cada ponto percentual de carga tributária sobre o consumo é um imposto oculto cobrado na boca do caixa de quem tem menos. Outra constatação nas páginas eletrônicas:”O trabalhador brasileiro é tributado como suíço, mas atendido como cidadão de quinto mundo”. Essa é a essência do pacto perverso que governa o país. A teoria econômica, já há décadas, advertiu sobre os limites da tributação. A Curva de Laffer demonstra que, acima de determinado ponto, o aumento de alíquotas não gera mais receita — ao contrário, destrói a base produtiva, estimula a evasão fiscal, a informalidade e a desindustrialização.
O Brasil cruzou essa fronteira. O mercado informal responde por cerca de 40% do PIB, segundo estimativas do IBGE. A fuga da formalidade não é desonestidade cultural, é resposta racional ao custo insuportável de existir legalmente. A desindustrialização avança há duas décadas. A participação da indústria de transformação no PIB caiu de cerca de 22% nos anos 1980 para menos de 11% no período recente.
Pequenas e médias empresas, espinha dorsal do emprego formal, morrem não pela falta de mercado, mas pela impossibilidade de pagar tributos, salários com encargos e, ainda, competir com importados livres de toda a mesma burocracia. O IPVA cobrado sobre veículos, o IPTU sobre imóveis urbanos, as taxas de licenciamento, as contribuições sindicais compulsórias que sobreviveram à reforma trabalhista, são camadas sobre camadas de extração que não se comunicam com a prestação de serviços públicos. A cobrança existe; a contrapartida, não.
Há no Brasil mais de 90 tributos distintos, entre impostos, taxas, contribuições, contribuições de melhoria e contribuições especiais. Muitos incidem em cascata sobre os mesmos fatos geradores. A bitributação não é acidente: é design. O cidadão paga o ICMS embutido na conta de energia elétrica e, depois, paga o PIS/Cofins sobre o mesmo produto. O empresário paga o IRPJ sobre o lucro e, ao distribuir dividendos, o acionista paga novamente. A complexidade é o produto, não o subproduto.
Na lente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), há o cálculo que apenas as licitações viciadas custam ao país R$ 20 bilhões anuais. Os números mais recentes confirmam a gravidade. Em 2025, a Controladoria-Geral da União (CGU), em articulação com a Polícia Federal, realizou 76 operações especiais — crescimento de 46% em relação a 2024 — identificando R$ 13,6 bilhões em prejuízos potenciais. O valor médio por operação pulou de R$ 5,4 milhões em 2022 para R$ 188,6 milhões em 2025. A escala do crime cresceu na mesma proporção que a capacidade de investigação.
A frase que foi pronunciada:
“O diabo é que a nossa inflação não é de demanda ou de custo. É inflação de chuchu mesmo.”
Mário Henrique Simonsen

História de Brasília
Essa operação traria as seguintes vantagens: entrega a curto prazo de 2.400 apartamentos; canalização, para Brasília, de 50% do custo, ou sejam 5 bilhões de cruzeiros da iniciativa privada. (Publicado em 20/5/1962)
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Poucas inovações produzidas pelo Estado brasileiro alcançaram, em tão pouco tempo, o grau de aceitação popular obtido pelo PIX. Criado pelo Banco Central e lançado oficialmente em novembro de 2020, o sistema de pagamentos instantâneos alterou hábitos de consumo, transformou relações comerciais e modificou profundamente a circulação de recursos dentro da economia nacional. Em menos de cinco anos, tornou-se um dos instrumentos financeiros mais utilizados do planeta, superando modalidades tradicionais de transferência bancária e reduzindo significativamente a dependência do dinheiro em espécie. Muito além de uma ferramenta tecnológica, o PIX representa uma mudança estrutural na forma como pessoas, empresas e governos movimentam recursos. A rapidez das operações, a disponibilidade durante vinte e quatro horas por dia e a eliminação de diversas tarifas bancárias fizeram com que a modalidade se popularizasse entre todas as camadas sociais.
Dados do Banco Central mostram que mais de 170 milhões de pessoas e empresas já possuem chaves cadastradas no sistema. O número de transações supera dezenas de bilhões de operações anuais, movimentando trilhões de reais. Em determinados períodos, o PIX já ultrapassou cartões de débito, boletos bancários, TEDs e DOCs somados em quantidade de operações. O sucesso do sistema não ocorreu por acaso. Durante décadas, transferir dinheiro no Brasil significava enfrentar tarifas elevadas, horários restritos e burocracias diversas. Operações simples muitas vezes exigiam deslocamentos físicos até agências bancárias ou dependiam de sistemas lentos e caros. A chegada do PIX eliminou grande parte dessas barreiras. Pequenos comerciantes talvez tenham sido os maiores beneficiários dessa transformação. Antes obrigados a suportar custos relacionados a maquininhas de cartão, taxas de antecipação de recebíveis e prazos para recebimento de valores, passaram a contar com uma ferramenta de liquidação imediata e custo praticamente inexistente.
Em feiras livres, pequenos mercados, salões de beleza, oficinas mecânicas, vendedores ambulantes e milhares de outros negócios espalhados pelo país, o PIX tornou-se a principal forma de pagamento. Dinheiro que antes demorava dias para chegar ao caixa passou a circular instantaneamente. Essa velocidade possui reflexos importantes sobre a economia. Quanto mais rápido o dinheiro circula, maior tende a ser a atividade econômica. Recursos que permaneciam retidos em processos bancários passaram a ser reinvestidos, consumidos ou utilizados quase imediatamente. Trata-se de um ganho de eficiência raramente observado em sistemas financeiros tradicionais. Outro aspecto relevante foi a inclusão financeira. Milhões de brasileiros que possuíam acesso limitado aos serviços bancários passaram a participar mais intensamente do ambiente digital de pagamentos. O telefone celular transformou-se numa verdadeira carteira eletrônica capaz de realizar operações a qualquer hora e em qualquer lugar.
O fenômeno chamou a atenção internacional. Diversos bancos centrais e instituições financeiras passaram a estudar o modelo brasileiro. Países como Índia, Singapura e outros mercados emergentes já possuem sistemas semelhantes, mas o grau de adesão alcançado pelo PIX colocou o Brasil entre as principais referências globais em pagamentos instantâneos.
Por essa razão, parece improvável imaginar um retrocesso significativo nesse sistema. Quando uma tecnologia alcança tamanho grau de aceitação popular, sua permanência passa a depender muito mais da vontade dos usuários do que das instituições que a cercam. O mercado tende a consolidar aquilo que funciona.
Nesse contexto surgem debates envolvendo interesses econômicos distintos. O PIX reduziu receitas obtidas anteriormente por meio de tarifas bancárias, transferências eletrônicas e determinados serviços financeiros tradicionais. Naturalmente, mudanças dessa magnitude alteram estruturas consolidadas há décadas. Instituições financeiras tiveram de adaptar seus modelos de negócios. Algumas passaram a investir em novos produtos digitais. Outras ampliaram serviços complementares. O mercado respondeu com inovação. Afinal, tecnologias que aumentam eficiência costumam deslocar receitas de setores tradicionais para novas áreas da economia.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o sistema financeiro ainda opera fortemente apoiado em cartões, transferências convencionais e estruturas privadas de pagamento. Embora existam iniciativas de pagamentos instantâneos, nenhuma alcançou, até o momento, o grau de universalização observado no Brasil. Especialistas do setor observam que modelos como o PIX pressionam estruturas tradicionais de cobrança. Isso não significa necessariamente oposição institucional ao sistema brasileiro, mas evidencia a existência de interesses econômicos afetados pela mudança tecnológica.
Outro aspecto frequentemente debatido diz respeito à eventual cobrança de tarifas sobre operações realizadas por pessoas físicas. Até o momento, a ampla aceitação do PIX está diretamente associada à simplicidade e ao baixo custo para os usuários. Qualquer alteração significativa nesse equilíbrio poderia encontrar resistência social considerável. A experiência internacional mostra que sistemas financeiros bem-sucedidos costumam crescer justamente quando reduzem atritos para os consumidores.
Em poucos anos, o PIX tornou-se parte integrante da vida econômica nacional. Não se trata apenas de uma ferramenta bancária. Tornou-se infraestrutura básica de funcionamento do comércio, dos serviços e das relações financeiras cotidianas. Quando isso acontece, dificilmente uma inovação desaparece. Ela tende, ao contrário, a se expandir e servir de modelo para outros sistemas ao redor do mundo.
A frase que foi pronunciada:
“O PIX uniu direita e esquerda.”
Dona Dita enquanto cria nova chave

História de Brasília
O ministério da Fazenda elaborou um esquema para o emprego de 400 milhões pela Prefeitura do Distrito Federal. (Publicado em 20.05.1962)
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Em 2016, o Brasil consolidou um triste recorde: atingiu a maior carga tributária bruta de sua história, ultrapassando a barreira dos 36% do Produto Interno Bruto. Em meio a uma das piores recessões das últimas décadas, com desemprego em alta, consumo em queda e empresas fechando as portas, o Estado brasileiro optou por apertar ainda mais os parafusos sobre contribuintes já exauridos.
Nosso país mantém hoje quase cem tributos ativos entre impostos federais, estaduais e municipais, taxas e contribuições de toda ordem. O ICMS, o ISS, o PIS, o COFINS, a CSLL, o IRPJ, o IOF, o IPI, as contribuições previdenciárias e dezenas de outras exações se sobrepõem em camadas que tornam qualquer atividade produtiva um exercício de sobrevivência contábil. Para cada real gerado, mais de um terço é imediatamente absorvido pelo Tesouro, antes mesmo de qualquer despesa operacional. O resultado é o chamado “custo Brasil”: uma combinação de burocracia, insegurança jurídica e tributação confiscatória que coloca o país em desvantagem competitiva frente a qualquer economia minimamente organizada.
Enquanto a média da OCDE situa-se ao redor de 34% do PIB em carga tributária com retorno em serviços de qualidade , o Brasil cobra o mesmo ou mais e entrega serviços públicos notoriamente precários. O economista norte-americano Arthur Laffer demonstrou, com elegante simplicidade, que existe um ponto além do qual o aumento de alíquotas resulta em queda da arrecadação. Abaixo de certo patamar, a tributação incentiva a atividade produtiva e o cumprimento fiscal voluntário. Acima dele, desestimula o investimento, expulsa capitais, estimula a informalidade e reduz a base tributável. O paradoxo é flagrante: ao cobrar mais, o Estado arrecada proporcionalmente menos do que poderia, pois a atividade econômica se contrai, a sonegação cresce e a evasão fiscal legal e ilegal se torna estratégia racional de sobrevivência empresarial.
Parece que a pressão fiscal excessiva não apenas destrói riqueza; ela destrói a própria base sobre a qual a arrecadação futura deveria se sustentar. Multinacionais relocam suas operações para países vizinhos Uruguai, Chile, Colômbia onde a carga é significativamente menor e a previsibilidade jurídica, maior. Empresas nacionais de médio porte, incapazes de arcar com a estrutura de compliance tributário exigida, optam por migrar parcelas de sua produção para o exterior ou simplesmente encerrar atividades. A indústria brasileira, que chegou a representar 32% do PIB nos anos 1980, viu sua participação encolher para menos de 12% em 2016. Parte dessa desindustrialização deve-se à tributação em cascata que onera cada elo da cadeia produtiva, tornando o produto nacional não competitivo mesmo dentro do próprio mercado interno.
Desse modo o Brasil fabrica cada vez menos e importa cada vez mais— para depois tributar as importações também, num ciclo kafkiano de ineficiência. Os números de falências e recuperações judiciais em 2016 atingiram patamares alarmantes. O Serasa Experian registrou crescimento expressivo nos pedidos de recuperação judicial no período, com micro e pequenas empresas respondendo pela esmagadora maioria dos casos. Para esses negócios, a carga tributária não é abstração econômica é causa direta de encerramento.
Um estabelecimento que não consegue repassar ao preço final o custo do Simples, do INSS patronal e das guias municipais, simplesmente fecha. O desemprego resultante alimenta o círculo vicioso: menos trabalhadores formais significam menor arrecadação previdenciária, o que pressiona o governo a elevar alíquotas sobre os contribuintes remanescentes, que por sua vez reduzem ainda mais a contratação. É a dinâmica predatória de um sistema fiscal que se alimenta de sua própria destruição.
Um sistema que pune o trabalho, o investimento e a produção enquanto preserva privilégios de grupos específicos não pode ser chamado de justo. A simplificação do modelo, a exoneração da folha de pagamentos, a eliminação de tributos cumulativos e a adoção de uma estrutura de IVA moderno como fizeram dezenas de países com sucesso é o que esperam os pagadores de impostos. Enquanto o Estado brasileiro não compreender que tributar em excesso não é sinônimo de responsabilidade fiscal, mas sim de miopia estratégica, continuaremos a produzir recordes que ninguém deseja celebrar. O fardo que carregamos é pesado demais.
A frase que foi pronunciada:
“Se a história pudesse nos ensinar alguma coisa, seria que a propriedade privada está intrinsecamente ligada à civilização.”
Ludwig von Mises

Ao vento
No Plano Piloto, falta policiamento. Motocicletas disputam calçadas com pedestres, brigas de moradores de rua assustam, disputas no trânsito correm sem fiscalização.
História de Brasília
Como sempre, o st. Afonso Almiro viajou para o Rio no mesmo dia, mas nessa oportunidade, prestou um relevante serviço ao Distrito Federal, e, particularmente, às Fundações da Prefeitura do Distrito Federal. (Publicado em 20.05.1962)
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Dados divulgados pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda apontam que o mercado regulado de apostas online movimentou aproximadamente R$ 17,4 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025. Estimativas apresentadas pelo Banco Central (BC) durante debates no Senado Federal indicam que o fluxo mensal de recursos destinados às apostas pode variar entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou durante audiência pública, que “há preocupação institucional com os impactos das apostas sobre o endividamento das famílias brasileiras”. O tema passou a integrar discussões sobre estabilidade financeira, crédito ao consumidor e comportamento de consumo.
Levantamento realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo estimou que o avanço das apostas online pode provocar impacto superior a R$ 100 bilhões anuais sobre o varejo nacional, em razão da transferência de parte da renda das famílias para plataformas digitais de apostas. O estudo apontou redução do consumo em segmentos ligados à alimentação, vestuário, eletrodomésticos e serviços.
A relação entre apostas digitais e vulnerabilidade financeira também passou a mobilizar instituições bancárias e empresas do setor privado. Relatórios corporativos divulgados por Itaú Unibanco, XP Inc., Assaí Atacadista e Tok&Stok identificaram aumento da inadimplência familiar associado ao crescimento das apostas on-line. Parte das análises observou migração de recursos antes destinados à poupança, ao consumo doméstico e aos investimentos para plataformas digitais de jogos.
Segundo levantamento do SPC Brasil e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, aproximadamente 39 milhões de brasileiros realizaram apostas online nos últimos doze meses. A pesquisa mostrou ainda que 46% dos apostadores declararam já ter reduzido gastos cotidianos para manter atividades de apostas. Entre os entrevistados, parcela significativa relatou comprometimento de orçamento familiar, atraso de contas e aumento do uso de crédito pessoal.
O tema também alcançou a área da saúde pública. Estudos conduzidos pela Fundação Oswaldo Cruz e por universidades federais passaram a analisar crescimento de sintomas relacionados à ansiedade, compulsão, depressão e dependência comportamental associados ao uso intensivo de plataformas de apostas digitais. O psiquiatra Valentim Gentil afirmou, em seminário sobre saúde mental e jogos, que “o transtorno do jogo compulsivo apresenta dinâmica semelhante à dependência química em muitos pacientes”.
Além dos efeitos econômicos e psicológicos, autoridades passaram a discutir possíveis vulnerabilidades regulatórias do setor. O Ministério Público Federal analisa mecanismos jurídicos relacionados à atuação de empresas autorizadas a operar apostas online no Brasil. Paralelamente, o Ministério da Fazenda iniciou processos de revisão cadastral, fiscalização tributária e adequação das plataformas às novas regras de licenciamento.
O crescimento do setor coincidiu com a intensificação da publicidade de apostas esportivas em transmissões esportivas, redes sociais e plataformas digitais. Clubes de futebol, influenciadores e emissoras de televisão passaram a firmar contratos milionários com empresas de apostas. Em resposta ao avanço dessa publicidade, projetos legislativos apresentados no Congresso Nacional discutem restrições à propaganda direcionada a menores de idade e consumidores vulneráveis.
Outro ponto observado pelas autoridades financeiras envolve a utilização de recursos provenientes de programas sociais em apostas digitais. Estudos apresentados ao Senado indicaram movimentação relevante de valores oriundos de contas associadas ao programa Bolsa Família em plataformas de apostas. Técnicos do governo passaram a discutir mecanismos de bloqueio e controle para evitar utilização indevida desses benefícios.
Especialistas em segurança pública também passaram a analisar o setor sob a perspectiva da lavagem de dinheiro e da atuação de organizações criminosas. Relatórios internacionais produzidos pelo Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI) apontam que plataformas digitais de apostas podem ser utilizadas em operações de ocultação patrimonial, especialmente quando associadas a pagamentos instantâneos, criptomoedas e operações transnacionais.
O Brasil tornou-se um dos maiores mercados globais de apostas online em volume de usuários e movimentação financeira. O crescimento acelerado ocorreu em paralelo à consolidação de um ecossistema digital que reúne publicidade massiva, crédito facilitado, pagamentos instantâneos e acesso contínuo por dispositivos móveis. O debate atual envolve não apenas arrecadação tributária e regulação econômica, mas também impactos sociais, financeiros e institucionais associados à expansão desse novo mercado digital.
A frase que foi pronunciada:
“Há duas ocasiões na vida em que uma pessoa não deve jogar: quando não tiver posses para isso – e quando tiver.”
Mark Twain

História de Brasília
Quanto às quadras do Setor Comercial Residencial, é preciso que o povo veja a numeração, para saber que é correspondente à da superquadra que fica logo atrás. (Publicada em 18.05.1962)
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Em 2024, o Brasil registrou o índice de Gini de 0,82, um número que não é apenas uma estatística fria, mas um veredito moral sobre as escolhas que fizemos como nação. Numa resposta rápida, esse índice mostra, em uma escala de 0 a 1, uma avaliação da desigualdade dentro de uma distribuição, quase sempre referente à renda ou riqueza de uma população. Gini é um conceito importante na Economia. O “zero” é a igualdade perfeita e o “um” é a desigualdade máxima.
Empatados com a Rússia em meio a uma guerra e situados entre as 56 nações mais desiguais do planeta, carregamos uma distinção que nenhum governo deveria aceitar com normalidade. O que torna esse dado ainda mais perturbador é o fato de que, nas últimas duas décadas, o país foi governado por forças que se autoproclamaram, incansavelmente, defensoras dos mais pobres. A pergunta que não se pode mais adiar é simples e devastadora: se o Estado governa para os desvalidos, por que a desigualdade não para de crescer?
Há um paradoxo que corrói a credibilidade do discurso público brasileiro há gerações: quanto mais o Estado se proclama redentor dos pobres, mais concentrada se torna a renda. Não é acidente. Não é azar histórico. É o resultado previsível de um modelo em que o aparato público cresceu não para redistribuir riqueza, mas para redistribuir poder e, com ele, privilégios. Marcadas, nas últimas décadas, por governos que ergueram sua identidade sobre o vocabulário da justiça social: transferência de renda, inclusão produtiva, combate à fome, ampliação de direitos.
Não se nega que programas como o Bolsa Família tenham impedido cenários ainda mais graves. O que se questiona, com dados e rigor, é a narrativa de que tais iniciativas, diante do custo do Estado brasileiro, representam uma política genuína de redução de desigualdade ou apenas um anestésico para uma ferida que o próprio governo faz sangrar.
O Gini de 0,82, vale lembrar, não mede apenas a diferença entre ricos e pobres em termos de renda anual. Ele captura a distância abissal entre aqueles que acessam o Estado como fonte de proteção e renda garantida e servidores estáveis, aposentados precoces, pensionistas privilegiados e aqueles que financiam esse sistema sem jamais dele se beneficiar proporcionalmente. O índice, nesse sentido, é um espelho do Estado, não apesar dele.
Segundo dados do Tesouro Nacional, o peso dos tributos sobre o PIB supera consistentemente os 33%, patamar comparável ao de nações escandinavas mas sem nenhuma das contrapartidas em qualidade de serviços públicos que justificariam tal extração. A pergunta que todo cidadão deveria fazer ao assinar a declaração de imposto de renda é: onde foi parar esse dinheiro?
Gasto público desordenado alimenta a inflação crônica que corrói o poder de compra das camadas mais vulneráveis. A inflação não é um imposto sobre os ricos, é um imposto regressivo que devora o salário do trabalhador informal, a aposentadoria mínima da dona de casa e a poupança inexistente do jovem da periferia. Quando o governo gasta além do que arrecada, a conta não vai para o Ministério da Fazenda. Vai para a feira do sábado de quem ganha um salário mínimo.
Há um mecanismo ainda mais perverso que o simples desperdício: a captura do Estado por grupos de interesse organizados em torno do poder político. Em economias onde as regras são feitas pelos mesmos que se beneficiam delas, a desigualdade não é uma falha do sistema, é o sistema funcionando exatamente como planejado.
Ao longo de décadas de alternância entre projetos que, no fundo, compartilhavam o mesmo amor pela expansão do Estado, um ecossistema brasileiro mantém a proximidade com o poder público e esse é o principal fator de sucesso econômico. Não o mérito, não a inovação, não o risco empreendedor, mas a capacidade de capturar contratos, subsídios, isenções e proteções tarifárias que o Estado distribui a seus favoritos.
O capitalismo de compadres, como o chamam os economistas, não é o capitalismo: é o seu oposto, travestido de mercado. Os grandes conglomerados que se beneficiaram de décadas de financiamentos subsidiados do BNDES, de desonerações setoriais e de proteções alfandegárias, não competiram no mercado, jogaram no campo inclinado montado pelo Estado. O resultado foi a criação de oligopólios disfarçados de campeões nacionais, acumulação de capital às custas do erário e concentração de renda que nenhum programa social conseguiria reverter.
Para cada real distribuído em transferências, outro e muitas vezes mais foi entregue disfarçado de política industrial. Quando o Estado escolhe vencedores, ele inevitavelmente cria perdedores. E os perdedores no Brasil não são as grandes empresas que sobreviveram sem subsídio: são o microempreendedor esmagado pela burocracia, o trabalhador informal que não tem acesso ao crédito, o jovem de escola pública que concorre em condições desiguais com o filho de quem soube negociar com o poder.
A desigualdade brasileira tem endereço. E muitas vezes esse endereço fica em Brasília. Nenhum investimento social reduz desigualdade de forma mais duradoura do que uma educação pública de qualidade universal. É o único mecanismo capaz de romper o ciclo intergeracional da pobreza, de garantir que o filho do agricultor do semiárido tenha as mesmas chances cognitivas e profissionais que o filho do advogado de Higienópolis.
A frase que foi pronunciada:
“A quem recorrer?”
Dona Dita pensando nas notícias desanimadoras
História de Brasília
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Há datas que dividem a história. 14 de maio de 2026 pode ser uma delas. Nesta quinta-feira, enquanto a grande mídia europeia permaneceu em silêncio ensurdecedor, ocupada com escândalos de celebridades e boletins climáticos, o Banco Central Europeu (BCE) consolidou mais um passo decisivo rumo à implantação do euro digital: encerrou o prazo oficial para que prestadores de serviços de pagamento de todo o continente manifestem interesse em participar do projeto-piloto da nova moeda.
De Frankfurt, a máquina tecnocrática que governa o dinheiro de 350 milhões de europeus avança silenciosamente. E o silêncio, neste caso, não é inocente. O euro digital é apresentado ao público como uma inovação benigna: mais rapidez, mais segurança, mais inclusão financeira. O BCE repete como mantra que a nova moeda “preservará a liberdade de escolha e a privacidade dos europeus”. Mas há uma diferença fundamental entre o que os tecnocratas prometem e o que a arquitetura do sistema permite. E é exatamente nessa diferença que reside o perigo.
Diferente do dinheiro em papel ou mesmo dos saldos bancários digitais convencionais, que circulam entre bancos privados e possuem certa opacidade operacional, o euro digital será emitido diretamente pelo BCE e poderá, em tese, ser rastreado transação por transação, programado para expirar, bloqueado por decreto e condicionado ao cumprimento de critérios definidos por uma burocracia supranacional sem mandato eleitoral. Trata-se de uma capacidade técnica inerente à Moeda Digital de Banco Central (CBDC, na sigla em inglês), reconhecida pelos próprios documentos internos das instituições que a desenvolvem.
Mas o que significa, concretamente, “respeitar padrões de privacidade” quando a infraestrutura técnica permite monitoramento total? Significa, na prática, que o Estado só exercerá o controle quando quiser e quem decide quando quer é o próprio Estado. A promessa de privacidade de um sistema programável é, por natureza, revogável. Não é uma garantia: é uma concessão temporária.
Os grandes escritores do século XX foram profetas inadvertidos. George Orwell, em 1984 (1949), imaginou um regime no qual o controle não se exercia apenas pela força bruta, mas pela manipulação do que as pessoas podiam pensar, dizer e crucialmente possuir. O protagonista Winston Smith vive num mundo onde até a memória é confiscável. A novidade do nosso tempo é que o confisco pode ocorrer sem prisões, sem policiais na porta: basta um algoritmo que bloqueie sua carteira digital.
Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo (1932), foi ainda mais perturbador: seu pesadelo não era o terror explícito, mas a domesticação alegre. Os cidadãos do Estado Mundial não eram torturados, eram seduzidos. O controle funcionava porque as pessoas o queriam. Substitua o “soma” de Huxley pela conveniência do pagamento por aproximação e pelo cashback do aplicativo do banco central, e você terá uma atualização perfeita do romance para o século XXI.
Ayn Rand, em Atlas Shrugged (1957), obra que a Academia raramente perdoa por seu rigor intransigente, descreveu, com precisão cirúrgica, o mecanismo pelo qual Estados em colapso se apropriam da produção privada através de regulações progressivamente sufocantes. “Quando o dinheiro deixa de ser o veículo de trocas entre homens e se torna o instrumento para controlar os homens”, adverte um personagem, “prepare-se para uma sociedade de ladrões e escravos.” “Não são os tiranos que destroem os países livres. São os cidadãos que trocam liberdade por segurança ,e terminam sem nenhuma das duas.”
Philip K. Dick, em A Scanner Darkly (1977), e Margaret Atwood, em O Conto da Aia (1985), exploram variações do mesmo tema: sociedades onde o monitoramento total se disfarça de proteção.
O Estado que vê tudo justifica a vigilância pela ameaça de terrorismo, lavagem de dinheiro, evasão fiscal, pandemia, crise climática. Sempre haverá uma crise suficientemente grave para justificar mais um passo rumo ao controle absoluto. O euro digital nasce precisamente nesse caldo cultural: um continente assustado com desinformação, colapso bancário, criptomoedas “selvagens” e dependência do dólar americano. O medo é o melhor arquiteto da servidão voluntária.
Não por acaso, a China lidera o mundo na implementação de CBDCs com seu yuan digital (e-CNY), um sistema já integrado ao chamado “crédito social” em algumas regiões. A arquitetura do euro digital, claro, é apresentada como radicalmente diferente. Mas arquiteturas mudam quando os governos mudam. O código pode ser reescrito. As leis podem ser alteradas. O que não se reconstrói facilmente é a infraestrutura do controle, uma vez erguida.
Analistas independentes e economistas heterodoxos vêm apontando aquilo que os relatórios oficiais do BCE evitam nomear diretamente: a implantação massiva do euro digital representa, em essência, uma transferência histórica de poder dos cidadãos para a instituição emissora.
A frase que foi pronunciada:
“Você pode evitar a realidade, mas não pode evitar as consequências de evitá-la.”
Ayn Rand

História de Brasília
Um jornal que não me lembro qual foi, publicou uma nota da inspeção das autoridades aos blocos da Asa Norte, e uma foto que mostrava o sr. Pery, presidente do IAPC, dizia na legenda que era o representante da Capua & Capua… (Publicada em 18.05.1962)
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Dados disponíveis nas bases do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam, com precisão desconfortável, o diagnóstico de que o Brasil atravessa uma longa e silenciosa estagnação relativa a uma espécie de declínio de gerações que não aparece nos discursos de posse, mas assombra as projeções de cada fórum econômico global.
Em 2024, o PIB per capita brasileiro ficou em aproximadamente US$ 10.255 em valores correntes, o equivalente a 76% da média mundial, segundo o Trading Economics, e US$ 3.634 a menos do que a estimativa global do FMI para 2025, fixada em US$ 14.450. O Brasil ocupa hoje a 79ª posição no ranking global de renda per capita, atrás não apenas das economias desenvolvidas, mas de Chile, Argentina e México na América Latina. O retrato histórico é ainda mais severo. Em 1980, o PIB per capita brasileiro equivalia a cerca de 20% do norte-americano. Em 2024, havia recuado para 14,4%, segundo levantamento da Gazeta do Povo com base em dados históricos do FMI.
No mesmo período, a Coreia do Sul, que, em 1980, era mais pobre que o Brasil, com apenas 13,6% da renda americana, atingiu 55,8% da renda per capita dos EUA. Na escala do ranking global, os números são igualmente eloquentes: em 1980, o Brasil estava entre os 50 países com maior PIB per capita. Em 1990, havia caído para a 60ª posição; em 2000, para a 67ª; e em 2020, chegou à 85ª. As projeções do FMI apontavam para a 90ª posição em 2026. O Brasil não cai por acidente cai por estrutura. O quadro abaixo mostra com clareza o que está acontecendo com o país.
O fenômeno que o Brasil vivencia tem nome técnico: armadilha da renda média. Trata-se da dificuldade crônica que países de renda intermediária enfrentam para avançar ao estágio das economias desenvolvidas. O Relatório de Desenvolvimento Global 2024 do Banco Mundial é explícito ao alertar que, se as tendências atuais persistirem, Brasil e México poderão se distanciar ainda mais dos Estados Unidos até o final do século. Entre 2000 e 2010, enquanto o PIB mundial cresceu 46,7%, o Brasil avançou 43,5%: já ficávamos atrás. Nos anos seguintes, a recessão de 2014–2016, três anos de baixo crescimento e uma nova contração em 2020 aprofundaram o fosso. A China, nesse mesmo intervalo, multiplicou sua renda per capita em 500%. Segundo a coordenadora do boletim macroeconômico do FGV IBRE, Silvia Mattos, a “mediocridade brasileira” decorre do fracasso histórico em gerar ganhos de produtividade sustentados.
Nos estágios iniciais do desenvolvimento, economias crescem pela acumulação de capital infraestrutura, indústria, ativos físicos. Nos estágios mais avançados, o motor é a inovação. O Brasil jamais fez a transição completa. A isso se somam: baixa poupança doméstica, fragilidade institucional com o Estado capturado por grupos de interesse — e uma carga tributária que desencoraja investimento produtivo sem gerar serviços públicos de qualidade proporcional. O resultado é uma economia que cresce, mas não suficientemente; que distribui, mas insuficientemente; que reforma, mas lentamente.
“Se o crescimento da renda for de 2,3% ao ano, a média histórica brasileira entre 1956 e 2026, o Brasil levaria décadas para dobrar sua renda per capita e alcançar o patamar das economias avançadas. Com os ritmos atuais, ainda mais.” Isso de acordo com Análise do Projeto Colabora, com base em dados do FMI (WEO 2024). A distância em relação ao mundo rico seria, por si só, alarmante. Mas ela é agravada internamente por uma desigualdade que não cede de forma consistente.
Em 2025, o índice de Gini brasileiro subiu de 0,504 para 0,511, segundo dados da PNAD Contínua do IBGE divulgados nesta semana. Após o piso histórico atingido em 2024, resultado de mercado de trabalho aquecido e transferências de renda, a concentração voltou a crescer, puxada pelos rendimentos financeiros e imobiliários dos estratos mais ricos. Os números são brutais em sua concretude: em 2025, os 10% mais pobres do Brasil viveram com R$ 268 mensais em média, o equivalente a R$ 8,93 por dia. Os 10% mais ricos receberam R$ 9.117 mensais: 34 vezes mais. O 1% no topo da pirâmide alcançou renda média de R$ 24.973, com crescimento de 9,9% em relação a 2024, impulsionado pelos juros elevados que remuneram aplicações financeiras concentradas nas mãos da elite.
Isso significa que, mesmo quando o Brasil cresce, o crescimento não se distribui de forma a reduzir a distância em relação ao mundo. O brasileiro médio fica relativamente mais pobre no cenário global porque os ganhos se concentram no topo, e o topo, ainda que mais rico em termos absolutos, não é suficientemente produtivo para puxar o país na competição global por renda e inovação. Em 2025, os 10% mais ricos ganharam 13,8 vezes mais do que os 40% com menores rendimentos. Essa proporção não é um acidente distributivo: é um retrato do modelo de desenvolvimento que o Brasil escolheu ou, mais precisamente, que nunca teve coragem de reformar em profundidade.
A frase que foi pronunciada:
“Não defendemos, nem no Brasil nem na Argentina, que o FMI deva intervir para proteger os bancos.”
Charles Dallara

História de Brasília
Quanto às quadras do Setor Comercial Residencial, é preciso que o povo veja (VEJA) a numeração, para saber que é correspondente à da superquadra que fica logo atrás. (Publicada em 18.05.1962)
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade
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Paulatinamente ampliado, o regime Maquila, criado pela Lei 1064/97 é a joia da política industrial paraguaia. Empresas estrangeiras que se instalam no país para exportar pagam um tributo único de 1% sobre o valor agregado dos produtos. Importam matéria-prima isenta de impostos, contratam com legislação trabalhista mais flexível, operam em um ambiente regulatório estável e exportam com custo tributário praticamente inexistente. Para completar, o modelo de tributação geral segue a lógica do “10-10-10”: alíquota máxima de 10% para o imposto de renda de pessoas físicas, 10% para pessoas jurídicas e 10% sobre o valor agregado. A renda de origem estrangeira, por sua vez, é integralmente isenta. Se os impostos altos já seriam suficientes para desestimular o investimento, a insegurança jurídica crônica do ambiente de negócios brasileiro completa a equação que resulta na expulsão dos brasileiros do país.
O Brasil vive um ciclo de instabilidade normativa que torna impossível planejar o médio e o longo prazo. Mudanças frequentes de regras, regulamentações que chegam incompletas, decisões judiciais imprevisíveis e reformas tributárias que entram em vigor sem que se conheçam as alíquotas definitivas criam o que especialistas definem como vácuo normativo, condição letal para quem precisa calcular retorno sobre investimento. O exemplo mais eloquente é a própria reforma tributária em curso. Apresentada como modernização necessária, a iniciativa transformou-se em fonte de insegurança inédita, com a transição em andamento sem que existam normas regulamentadoras essenciais sobre o crédito, o ressarcimento e obrigações acessórias. Como alertou análise publicada pelo Jornal O Semanário, é impossível que empresas operem no escuro, calculando riscos com base em projeções especulativas em vez de leis definidas.
“Insegurança jurídica afasta investimento mais do que juros altos”, disse o secretário Jorge Lima, lembrando que mudanças frequentes de regras e a fragmentação regulatória criam imprevisibilidade incompatível com projetos de médio e longo prazo. Enquanto o Brasil mergulha nesse ambiente de incerteza, o Paraguai atrai investidores com uma vantagem que não tem preço: a previsibilidade.
O governo paraguaio não muda as regras no meio do jogo. A consequência aparece nas estatísticas de fuga de capital humano de alta renda. Relatório da consultoria Henley and Partners aponta que o Brasil está entre os dez países com maior saída líquida de milionários em 2025. Os destinos vão desde Portugal, Espanha e Estados Unidos até os Emirados Árabes, mas o Paraguai se destaca por uma combinação única de proximidade geográfica, facilidade migratória e benefícios fiscais imediatos.
Há uma dimensão histórica nessa inversão de papéis que merece reflexão. O Paraguai construiu boa parte de sua atual infraestrutura com recursos e financiamentos brasileiros, incluindo a Ponte da Amizade e a própria Usina de Itaipu. Por décadas, o país foi olhado de cima, associado ao atraso, ao contrabando e à informalidade. Hoje, aquele mesmo Paraguai colhe os frutos de décadas de política econômica coerente, sistema tributário simples e estável e gestão pública que, embora modesta em recursos, prima pela eficiência e pela previsibilidade.
Ciudad del Este, antes caricatura do comércio informal, hoje concentra mais de 98 mil brasileiros e transformou-se em polo empresarial, industrial e universitário. Quase 30 mil estudantes brasileiros cursam medicina em universidades paraguaias, atraídos pelo custo até quatro vezes menor do que nas faculdades privadas brasileiras. “No Brasil se paga na faixa de 30% em impostos. Se houvesse uma contrapartida equivalente, as pessoas pagariam sem reclamar. Mas esse retorno não vem. No Paraguai, a receita menor obriga uma gestão mais eficiente, coisa que não é prioridade no Brasil.” Diz Cláudio Shimoyama, economista brasileiro com empresa de consultoria no Paraguai, à Gazeta do Povo.
Quando empresas com mais de um século de tradição no Brasil decidem transferir unidades de produção para o país vizinho, o sinal não poderia ser mais inequívoco. A perda é dupla, como alertam economistas: os empregos que deixam de ser criados aqui e o investimento produtivo que vai fortalecer economias vizinhas. Cada fábrica que migra para o Paraguai leva consigo postos de trabalho, recolhimento de tributos e geração de renda que ficariam no Brasil em condições mínimas de competitividade.
A lógica, como resumiu o Instituto Liberal, é racional e implacável: a decisão de migrar não é falta de patriotismo, é resposta a um sistema que pune quem produz. O Brasil tem mercado interno gigantesco, recursos naturais abundantes, matriz energética competitiva, capital humano qualificado e localização estratégica. O que lhe falta, como diagnosticou o secretário Jorge Lima, é a capacidade de sustentar políticas de médio e longo prazo que criem ambiente favorável ao investimento.
Enquanto países como Índia, Indonésia e Turquia cresceram entre 50% e 80% na última década, o Brasil avançou cerca de 8% no mesmo período. Não é o Paraguai que se tornou extraordinariamente atraente. É o Brasil que se tornou extraordinariamente caro, burocrático e imprevisível.
A frase que foi pronunciada:
“Tudo que está sendo feito lá, poderia estar sendo feito aqui…”
Paulo Guedes sobre a economia paraguaia

História de Brasília
Agora, que Brasília já está crescendo, e está muito diferente, vem recebendo a visita de muita gente. Há, entretanto, uma dificuldade tremenda: quanto à numeração dos blocos, e das quadras residenciais da W-3. (Publicada em 18.05.1962)
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Números recentes do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, IEDI, com base em dados da UNIDO, trazem um diagnóstico incômodo, embora já não propriamente surpreendente, o Brasil está perdendo relevância industrial em ritmo acelerado. Em um mundo no qual a indústria de transformação permanece como eixo estruturante da inovação tecnológica, da produtividade e da geração de empregos de maior qualificação, o país parece avançar na contramão, como se observasse, à distância, uma corrida da qual já participou com mais vigor.
A retração de 1,8% na produção industrial brasileira em 2025 não é apenas um dado conjuntural, desses que se diluem com o tempo e desaparecem das análises mais rigorosas, mas um sintoma de um problema mais profundo, persistente e, sobretudo, cumulativo: a falta de dinamismo. A trajetória recente evidencia uma perda contínua de posição relativa no cenário global, algo que não se constrói de um ano para outro, mas que também não se explica apenas pelo peso do passado. No ranking global de dinamismo industrial elaborado pelo IEDI, o Brasil aparece na 72ª colocação entre 83 países no quarto trimestre de 2025, um resultado que o coloca atrás de praticamente todos os polos industriais relevantes. Mais eloquente do que a posição em si é o movimento: uma queda sequencial que inclui o recuo expressivo de 44 posições em relação ao mesmo período do ano anterior, um deslocamento que, por sua magnitude, dispensa e, ao mesmo tempo, exige explicações.
Esse tipo de deterioração raramente decorre de um único fator. Ele é, em geral, a expressão visível de engrenagens que deixam de funcionar de forma coordenada. Custos elevados, insegurança jurídica, complexidade tributária e infraestrutura deficiente continuam a compor o conhecido mosaico de entraves à competitividade, mas o que chama atenção é a persistência desses elementos, mesmo diante de sucessivos diagnósticos. Como observou recentemente o economista-chefe do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, “o Brasil não enfrenta um problema de falta de diagnóstico, mas de dificuldade em transformar diagnóstico em ação consistente”, uma constatação que, embora recorrente, parece resistir ao desgaste do tempo.
No plano internacional, o cenário tampouco oferece conforto. Ao contrário, tornou-se mais competitivo e mais estratégico. Países centrais passaram a adotar políticas industriais ativas, muitas vezes combinando subsídios diretos, incentivos fiscais e investimentos robustos em inovação e transição energética. Os Estados Unidos, por meio do Inflation Reduction Act, mobilizaram centenas de bilhões de dólares em apoio à indústria verde, enquanto a União Europeia avançou com seu plano de reindustrialização focado em autonomia estratégica. Não se trata apenas de proteger mercados internos, mas de reposicionar cadeias produtivas inteiras. Nesse contexto, a ausência de resposta coordenada não é neutra, ela implica perda de espaço.
O problema brasileiro, como frequentemente apontam relatórios do Banco Mundial e da OCDE, reside menos na falta de iniciativas pontuais e mais na fragmentação das políticas públicas. Programas são anunciados com frequência, mas carecem de continuidade, integração e avaliação de impacto. A instabilidade regulatória e a imprevisibilidade das regras acabam por elevar o custo de investimento, especialmente em setores intensivos em capital e tecnologia.
Outro ponto crítico, talvez o mais silencioso e ao mesmo tempo o mais determinante, é a produtividade. Dados recentes do IBGE indicam que o crescimento econômico observado em 2025, da ordem de 2,3%, não foi acompanhado por ganhos robustos de eficiência, o que reforça a percepção de que o país cresce sem transformar estruturalmente sua base produtiva. Como sintetizou um relatório do IPEA, “sem avanços consistentes de produtividade, o crescimento tende a ser limitado e vulnerável a choques externos”, uma advertência que se projeta para além do curto prazo.
Essa limitação se manifesta de forma concreta: produtos importados tornam-se progressivamente mais competitivos no mercado interno, enquanto as exportações brasileiras enfrentam dificuldades crescentes para se inserir em cadeias globais de valor, especialmente aquelas mais intensivas em tecnologia. O resultado é um processo de desindustrialização que não se anuncia de forma abrupta, mas que se consolida lentamente, quase de maneira silenciosa, até se tornar evidente demais para ser ignorado.
Evidentemente, o impacto desse quadro ultrapassa os limites das fábricas. A indústria possui um conhecido efeito multiplicador sobre a economia, ela articula cadeias produtivas, estimula inovação e sustenta empregos de maior qualificação e renda. Quando esse setor perde dinamismo, o efeito se difunde, menor crescimento, redução de oportunidades e aumento da vulnerabilidade externa. Como já afirmou a própria Confederação Nacional da Indústria, “não há desenvolvimento sustentável sem uma base industrial sólida”, uma frase que, à primeira vista, pode soar como um lugar-comum, mas que encontra respaldo consistente na experiência internacional.
O debate sobre as causas, inevitavelmente, transita pelo terreno das escolhas de política econômica. Há leituras distintas, por vezes conflitantes, sobre prioridades e estratégias. No entanto, independentemente da perspectiva adotada, há um ponto de convergência difícil de contornar, resultados importam, e os resultados, até aqui, têm sido insuficientes para reverter a tendência de perda de relevância industrial.
Isso não significa, contudo, que o cenário esteja dado de forma irreversível. Experiências internacionais mostram que processos de reindustrialização são possíveis quando há consistência de políticas, estabilidade institucional e foco claro em competitividade. Mas essas experiências também indicam que o primeiro passo é reconhecer o problema sem ambiguidade, o segundo é transformá-lo em prioridade política efetiva. A competição global por produção, tecnologia e investimento tornou-se mais intensa e mais seletiva. Países que hesitam, que fragmentam suas estratégias ou que postergam reformas estruturais acabam ficando para trás, e recuperar terreno, uma vez perdido, tende a ser um exercício mais custoso e mais demorado.
Recolocar a indústria no centro da estratégia de desenvolvimento implica em avançar na simplificação tributária de forma efetiva, melhorar o ambiente de negócios, investir em infraestrutura, qualificar a mão de obra e estimular a inovação de maneira integrada. Sem esses elementos, o país continuará assistindo, quase sempre com perplexidade tardia, à erosão de sua base produtiva. A década que se desenha ainda está em aberto, mas os sinais já são suficientemente claros para indicar os riscos de repetição de padrões conhecidos, crescimento baixo, produtividade estagnada e perda de protagonismo. Trata-se, como quase sempre, de escolhas, e das consequências que inevitavelmente decorrem delas.
A frase que foi pronunciada:
“Por meio de um processo contínuo de inflação, o governo pode confiscar, secretamente e sem ser notado, uma parte importante da riqueza de seus cidadãos.”
John Maynard Keynes

Gordon Anthony (Getty Images)
História de Brasília
Se os cariocas soubessem disto, viriam fazer compra em Brasília. O feijão aqui custa 75 cruzeiros, o arroz 35 e o filet mignon (que existe) está sendo vendido a 140 cruzeiros. (Publicada em 17. 05.1962)
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Ciclos históricos raramente se desenvolvem em linha reta. Ao contrário, movem-se como um pêndulo, ora avançando em determinada direção, ora reagindo com igual intensidade no sentido oposto. Essa percepção, que atravessa séculos de reflexão política e filosófica, encontra eco até mesmo na ciência, na formulação clássica da Terceira Lei de Newton: a toda ação corresponde uma reação de mesma intensidade. Aplicada à dinâmica das sociedades, essa ideia ajuda a compreender momentos de inflexão como o que parece se desenhar no mundo contemporâneo.
Nas últimas décadas, consolidou-se um modelo de globalização que buscava reduzir fronteiras econômicas, integrar culturas e promover fluxos intensos de pessoas, capitais e ideias. Esse movimento foi, em muitos aspectos, responsável por avanços tecnológicos, expansão do comércio e aumento da interdependência entre as nações. No entanto, como ocorre em todo processo histórico de grande escala, os efeitos não foram homogêneos nem isentos de tensões.
Em diversas regiões do mundo ocidental, parte significativa da população passou a perceber esse modelo não como progresso compartilhado, mas como uma transformação acelerada que afetava identidades culturais, estruturas econômicas e formas tradicionais de vida. Surge, então, o que muitos analistas descrevem como um movimento de reação. Não necessariamente organizado ou uniforme, mas perceptível em diferentes países e contextos. Trata-se de uma resposta social e política a mudanças consideradas excessivas ou desconectadas das expectativas de parcelas relevantes da população.
Na Europa, por exemplo, o crescimento de partidos e movimentos críticos à globalização, às políticas migratórias amplas e à centralização de decisões em organismos supranacionais revela uma mudança no humor político. Nos Estados Unidos, fenômenos eleitorais recentes também indicam uma reconfiguração do debate público, com maior ênfase em soberania nacional, controle de fronteiras e revisão de acordos econômicos. Esse movimento não pode ser compreendido apenas como uma rejeição simplista ao novo. Em muitos casos, ele expressa preocupações concretas com emprego, segurança, identidade cultural e coesão social. Ao mesmo tempo, também carrega riscos, especialmente quando se traduz em polarização extrema ou em soluções simplificadas para problemas complexos.
No Brasil, sinais desse pêndulo histórico também se manifestam. O país, que por décadas oscilou entre diferentes projetos políticos e econômicos, experimenta hoje um ambiente de forte polarização ideológica. Parte da sociedade demonstra resistência a agendas percebidas como impostas de cima para baixo, enquanto outra parcela defende a continuidade de transformações sociais e institucionais iniciadas nas últimas décadas.
Esse embate revela algo mais profundo do que simples divergência política. Ele expõe uma disputa sobre o próprio sentido do desenvolvimento, da identidade nacional e do papel do Estado. Em outras palavras, trata-se de uma disputa sobre quais valores devem orientar o futuro da sociedade.
O filósofo Friedrich Nietzsche já falava, no final do século XIX, sobre o avanço do niilismo a perda de referências tradicionais de sentido e valor. Para Nietzsche, esse processo poderia levar a uma crise profunda, na qual antigos sistemas de crenças deixam de oferecer respostas, sem que novos paradigmas estejam plenamente consolidados. A leitura contemporânea desse diagnóstico sugere que parte das tensões atuais pode estar relacionada a esse vazio de referências. Em um mundo onde tradições são questionadas, instituições são desafiadas e identidades são redefinidas, não surpreende que surjam movimentos de reação buscando restaurar algum tipo de estabilidade ou continuidade.
No entanto, é importante reconhecer que o pêndulo da história não opera de forma mecânica ou previsível. A reação a um determinado movimento não significa necessariamente um retorno simples ao passado. Muitas vezes, o que emerge é uma síntese imperfeita entre elementos antigos e novos, moldada pelas circunstâncias específicas de cada época. Nesse sentido, falar em “fim” de um determinado modelo pode ser menos preciso do que reconhecer um processo de transformação. O que está em curso não é apenas a rejeição de ideias associadas à globalização ou a determinadas correntes políticas, mas a tentativa de redefinir os termos do debate em um mundo cada vez mais complexo e interdependente.
O ponto central não está em tomar partido de uma ou outra direção do pêndulo, mas em compreender a lógica que move esse movimento. Ignorar os sinais de insatisfação social pode levar à intensificação de tensões. Por outro lado, respostas precipitadas ou simplificadoras podem agravar problemas que exigem soluções mais elaboradas. O desafio das sociedades contemporâneas é atravessar esse período de transição sem comprometer princípios fundamentais como liberdade, pluralismo e respeito às instituições.
Se há, de fato, uma contrarrevolução em curso, ela não deve ser entendida apenas como negação do que veio antes, mas como parte de um processo maior de ajuste histórico. O pêndulo se move, mas o ponto de equilíbrio ainda está em disputa. E talvez seja justamente aí que reside a principal lição desse momento: mais do que celebrar ou temer o movimento do pêndulo, é preciso compreender que a estabilidade duradoura não nasce dos extremos, mas da capacidade de construir sínteses que preservem o que há de essencial enquanto se adaptam às exigências do tempo presente.
A frase que foi pronunciada:
“A vida do Homem oscila, como um pêndulo, entre a dor e o tédio, tais são na realidade os seus dois últimos elementos”.
Schopenhauer

História de Brasília
Parece que foi ontem. O jornal ainda era um acampamento, todos nós morávamos no local de trabalho, porque ninguém tinha apartamento. Amanhecíamos e anoitecíamos juntos. Foi assim que equipe se consolidou. (Publicada em 16.05.1962)

