Maria Lúcia Godoy

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Severino Francisco

Uma das interpretações que me provoca mais enlevo é a de Maria Lúcia Godoy para a Bachiana número 5, de Villa-Lobos. Eu sinto como se fosse uma das expressões mais sublimes da brasilidade, tão legítima, inclusive, porque nasceu da música de Bach. As minhas evocações de Maria Lúcia Godoy estão ligadas a Glauber Rocha.

A primeira vez que eu a ouvi foi em cena antológica de Deus e o Diabo na Terra do Sol, mixada como trilha sonora. Corisco (Othon Bastos) e Maria, a mulher do vaqueiro (Yoná Magalhães) se encontram no meio da caatinga. Glauber pediu que a câmera girasse em torno dos dois em um beijo selvagem sob o fundo da Bachiana número 5 de Villa-Lobos com a voz de Maria Lúcia Godoy soando como uma música dos anjos no meio do descampado inóspito.

Em entrevista ao Correio, o cineasta Walter Lima Jr. contou que quem levou Villa-Lobos para Deus e o Diabo na Terra do Sol foi ele. Glauber queria Brahms. Quando Walter leu o roteiro, indo para Salvador, ficou chocado e disse: “Glauber, colocar Brahms no meio desta caatinga aqui? O que tem a ver?” O acervo de Villa-Lobos foi montado na Europa. Com Paulo Gil Soares, Walter foi até a Aliança Francesa, em Salvador, roubou os discos e deu para o Glauber ouvir. O cineasta baiano ficou em êxtase.

Mais recentemente, em 1981, no enterro de Glauber, Maria Lúcia Godoy entoa novamente de maneira sublime a Bachiana número 5, a fotógrafa Paula Gaitan, escorre uma chuva de pétalas sobre o caixão do cineasta. A voz de Maria Lúcia ganhou um acento trágico pelas circunstâncias, muito diferente do tom epifânico do beijo de Othon Basttos (Corisco) e Maria (Yoná Magalhães).

A outra referência liga Maria Lúcia Godoy a Brasília dos tempos pioneiros da construção. Todo final do dia, JK encerrava o expediente no Rio e vinha para Brasília de avião fiscalizar e dar estímulo aos engenheiros e operários que erguiam a capital modernista. O ritmo Brasília inaugurado por JK conseguia aliar, de maneira desconcertante, trabalho e diversão.

O exemplo vinha do chefe, nascido e criado em Diamantina, cidade de Minas célebre pelo espírito romântico. Como bom diamantinense, ele era um pé de valsa incorrigível, apreciava fazer serenata, tocar violão e ver a Lua. Quando passou a frequentar Brasília para acompanhar as obras de construção, o gosto pela música se irradiou por toda a cidade. E começou pelo Catetinho, com as serestas marcadas para as reuniões de trabalho.

Os saraus aconteceram de maneira espontânea, com a participação dos amigos de JK: Dilermando Reis, César Prates, Silvio Caldas, Altemar Dutra, Glória Maria. Com menos frequência, apareciam Elizete Cardoso, Francisco Petrônio e Maria Lúcia Godoy, que vinha com integrantes de um madrigal de Belo Horizonte.

Mas ela independe dessas relações com o cinema ou com os tempos pioneiros da capital. Maria Lúcia Godoy cantou do repertório erudito até as serestas. Ninguém interpretou como ela a música de Villa-Lobos. É algo de uma pungência de nos fazer chorar as tais lágrimas de esguicho de que falava Nelson Rodrigues.

Com a sua morte, nesta semana, aos 100 anos, fiquei envergonhado de só conhecê-las por essas pequenas, mas tocantes e inesquecíveis referências. No entanto, ainda é tempo de ouvir os 16 discos que gravou essa mineira de Mesquita, evocada nesses versos de Carlos Drummond de Andrade. ” Lembrar as serras de Minas,/Demolidas, como dói!/Mas me consolo se escuto/Maria Lúcia Godoy./Foi-se o ferro de Itabira?/Ouro não se destrói!/Está na voz da mineira/ Maria Lúcia Godoy.”

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