O mistério de Galeno

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Severino Francisco

Fui ver a exposição Galeno – O mistério do simples, na Caixa Cultural, e fiquei inebriado e me lembrei de um verso do Carlos Drummond: “Dos cem prismas de uma joia/quantos há que não presumo”.

É uma exposição concisa, que condensa os múltiplos aspectos da vida e da obra do artista: a dimensão da família, a herança da arte popular, a transformação do popular em contemporâneo, a participação em obras públicas e a criação de camisas para o time de Brazlândia e reportagens e fotos publicadas no Correio Braziliense.

Os objetos que ele incorporou à sua obra não são aleatórios, como ocorre em certas vertentes da arte contemporânea; são sempre objetos com uma intensa carga de história e afetividade.

Alguém já disse, maliciosamente, que Galeno reincidia nos materiais, signos e símbolos da infância. Realmente, ele utiliza os mesmos carrinhos, latas, canoas, estilingues, bilros, lamparinas, lagartixas, barracos e monumentos, mas para compor um quebra-cabeças de infinitas possibilidades líricas. É um jogo de pura invenção.

Por isso, embora esteja sempre ligado, atavicamente, a determinados objetos afetivos, varia e surpreende. Athos Bulcão dizia que Brasília era um museu a céu aberto e deveria educar, cotidianamente, os brasilienses para cultivar a arte. Tenho dúvidas de que isso aconteça com todos. Contudo, no caso de Galeno, a cidade funcionou mesmo como uma grande escola ao ar livre.

Nasceu em Parnaíba, no Piauí, e se mudou para Brasília em 1965, aos oito anos. Com a inquietação de curumim arteiro, paulatinamente, assimilou o espírito da cidade ao vivenciar a arquitetura de Niemeyer, os painéis de Athos Bulcão, as banderinhas de Volpi e a pintura de Rubem Valentim, inspirada nos signos do candomblé e da cultura afro-brasileira. Aprendeu a valorizar a sua vida de menino nordestino e a olhar para os objetos, as brincadeiras e as festas sob um prisma modernista.

Em vez de jogar a experiência de menino nordestino embaixo do tapete e copiar a última moda de Paris ou de Nova York, ele construiu uma obra marcada pela invenção e pela autenticidade. Por isso, suas obras têm um requinte de arte contemporânea e uma alegria de festa popular brasileira. Brasília foi transpassada pelo parnaíba piauiense; e a memória do parnaíba foi tocada pelo modernismo de Brasília.

A exposição de Galeno deixa a impressão de que ele podia transformar tudo em arte. É uma obra que, cada vez mais, se decantava e se depurava rumo ao mistério do simples.

Em entrevista a Nahima Maciel para o Correio, Paulo Herkenhoff, o curador da mostra O mistério do simples, não hesita em classificar a obra de Galeno na mesma categoria de notável em que estão Alfredo Volpi, Rubem Valentim, Hélio Oiticica e Alberto da Veiga Guignard: “Se a gente escrever a história da cor no Brasil, o Galeno é fundamental.” Senti falta de que a exposição tivesse um catálogo no qual Herkenhoff escrevesse isso com todas as letras.

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