Severino Francisco
Tenho um amigo a quem apelidei de Hugo Nitroglicerina, em razão da maneira explosiva com que fala a verdade. Para Hugo, a verdade é um instinto que ele pratica 24 horas por dia. E o interessante e que não a esgrime apenas contra os outros, mas também contra si mesmo, quando é o caso. Esse instinto da verdade costuma produzir efeitos cômicos, absurdos, surreais e alucinatórios.
Ele é jornalista e, certa ocasião, fazia reportagem sobre a compra de carteira de motorista no Entorno e se deparou com o nome adivinhe de quem na lista? Da própria mãe. Hugo não teve dúvida: colocou na matéria. Pode parecer maluquice, mas, antes de lançar o veredito de Juízo Final, acompanhemos o desenlace da história.
De fato, a mãe conseguiu a carteira e, pouco tempo depois, se envolveu em um grave acidente de trânsito. Chegou à conclusão de que não tinha condições de dirigir e nunca mais pegou em um volante. Hoje, ele reconhece que o filho estava certo. Ou seja: em seu aparente desvario, Hugo é muito lúcido.
Todavia, permita o leitor que eu evoque algumas histórias reveladoras do nosso personagem. Eu costumava chegar à Redação antes da estátua de Assis Chateaubriand, mas já encontrava o Hugo fazendo uma varredura nas páginas dos jornais.
Ele era uma espécie de ombudsman delirante, que sempre costumava pinçar alguma notícia excêntrica: “Vocês sabiam que o cara que limpa bunda de lutador de sumô ganha 3 mil euros? Ganha mais do que vocês, que vestem terno Armani, ouvem mentiras desses bandidos de colarinho branco e se acham muito importantes”.
Filho de uma família de fazendeiros do interior de Minas Gerais, ele coleciona muitas histórias fantásticas. Segundo uma delas, estava jogando uma partida de futebol na roça com os primos, quando um leitão invadiu o campo e fez um gol de bicicleta sensacional, que interferiu no placar.
Desde que divulguei a história do leitão artilheiro em uma crônica, Hugo Nitroglicerina não tem mais sossego. A todo momento é assediado por emissários do Real Madrid, do Milan, do Manchester United e do Barcelona. O Barça ofereceu mais de 200 milhões de euros. Ao saber da negociação, o Real Madrid atropelou as tratativas e bancou uma proposta de 250 milhões de euros.
Enquanto isso, o leitão artilheiro continua a encantar as plateias do futebol da roça. Quando menos se espera, ele entra em campo e aplica bicicletas de deixar envergonhado o inventor e mestre da jogada espetacular, Leônidas da Silva, o diamante negro.
Não sei o que os olheiros de Ancelotti fazem para ignorar o nosso craque suíno. Ele é o legítimo representante do futebol-arte, que, de tanta vergonha dos últimos resultados, fugiu dos estádios brasileiros e foi refugiar-se nos campos esburacados das roças.
Aliás, acabo de receber a notícia de que o gol mais bonito de 2025 acaba de ser anulado. Todos os que assistiram ao vídeo concluíram que o gol mais belo do ano foi o do leitão artilheiro. Messi, Mbappé e Harry Krane que se segurem nas tamancas. Se, em vez de Neymar, Ancelotti tivesse convocado o leitão artilheiro para o ataque da nossa Seleção, a gente já estava com a mão no caneco.
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