Craques da poesia

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Severino Francisco

Nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um… Tento disfarçar, mas a verdade nua e crua é que, a cada jogo, entro em contagem regressiva dramática. Talvez eu esteja mal-acostumado, pois, nesta longa estrada da vida, tive o privilégio de assistir o Brasil ser campeão do mundo em três Copas. A memória do futebol-arte está impressa em minhas retinas.

Por isso, é duro assistir aos jogos da atual Seleção Brasileira. Em alguns instantes, tenho a impressão de que a França é o Brasil pela habilidade, técnica, talento e intensidade. Parece uma seleção africana, tamanha é a presença de descendentes de migrantes de origem negra. É um novo mapa do futebol que se desenha no mundo. Mas eu acho que o Brasil pode melhorar muito se o Ancelotti colocar o Endrick e o Luiz Henrique para formar o ataque com Vini Jr., pois são os legítimos representantes do futebol-arte brasileiro.

Enquanto esperamos a batalha contra a Escócia, evocarei a história do encontro entre dois craques piauienses da moderna canção brasileira: Torquato Neto e Climério Ferreira. Aliás, quando eu disse que estava escrevendo a biografia A profissão do sonho – Clodo, Climério e Clésio, meu vizinho Néio Lucio (que nos deixou recentemente), comentou: “Então, será uma festa para você cronista, pois eles têm um Lago Paranoá de histórias, ou melhor, um mar de histórias”. E ele estava certo.

Mas vamos à história dos dois craques piauienses. Durante a infância e parte da adolescência, ambos moraram na Rua São João, antiga Pacatuba, em Teresina. Ao saber da coincidência, fiquei curioso para saber do diálogo de música e poesia. Eram quase da mesma geração, quase da mesma idade, conviveram na mesma pequena rua de Teresina. No entanto, a parceria desaconteceu.

Eles se cruzaram, mas só foram companheiros de peladas. A poesia e a música não entraram em campo. Climério cresceu jogando futebol de salão no antigo Quartel de Polícia. Torquato trajava o uniforme completo do craque, com camisa do São Paulo, o time do coração, meia e chuteiras. Climério batia bola com os pés descalços, não era dos primeiros a serem escolhidos quando se formavam os times, mas enrolava bem e mantinha acesa a paixão pelo futebol.

Na verdade, Torquato só se tornou o poeta que a maioria conhece quando se mudou para Salvador aos 16 anos, estudou no mesmo colégio de Gilberto Gil, foi apresentado pelo poeta Duda Machado a Caetano Veloso e se tornou um dos líderes mais radicais do movimento tropicalista.

Em parceria com Gilberto Gil, Torquato compôs a bela canção A rua, que evoca as reminiscências de menino na Rua São João. Ela descortina a cena lírica de uma capital com ritmo de cidade do interior: “Ê, São João, ê, Pacatuba/ê, rua do Barrocão/ê, Parnaíba passando/separando a minha rua/das outras, do Maranhão/de longe pensando nela/meu coração de menino/bate forte como um sino/que anuncia procissão”.

Climério e Torquato são craques é da poesia cantada, na qual aplicaram dribles requintados, chapéus e folhas secas: “Como é triste/ essa nossa vida de artista/depois de perder Vilma pra São Paulo/perder Maria Helena pro dentista.”  Apesar de conhecer a história, continuo surpreso de eles não terem feito tabelinhas de poesia. Climério torce pelo Botafogo e, certamente, vai torcer e se retorcer pelo Brasil contra a Escócia. Com a sabedoria de Buda piauiense, Buda da Asa Norte, vai sorver  cada lampejo do Brasil. É muito bom quando o Brasil resolve ser Brasil.

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