Severino Francisco
A passagem dos 70 anos de publicação de Grande Sertão: Veredas não é apenas uma data chapa-branca estéril, ela enseja leituras, releituras e revisões. Nelson Rodrigues, o nosso profeta do óbvio, viveu uma relação tensa e contraditória com Guimarães Rosa. O criador do Grande Sertão: Veredas recomendava aos escritores que fizesse pirâmides e não biscoitos. Enquanto isso, Nelson fabricava os biscoitos finos na cozinha dos jornais, trabalhava mais do que remador de Ben Hur, como ele mesmo dizia. Chegava a escrever três crônicas por dia: uma de costumes, outra de cultura e uma terceira sobre futebol.
Por isso, quando o dileto amigo Otto Lara Resende afirmou que Rosa era um gênio, Nelson sentiu-se humilhado e ofendido, e revirou-se de inveja. “Uma besta esse Otto”, defendeu-se. Permaneceu alguns dias indignado com o Otto: “Nunca me chamou de gênio”, admitiu com a coragem extrema de sempre.
Mas a morte abrupta de Rosa, três dias depois de tomar posse de uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, provocou a perturbação em Nelson, que vazou para as crônicas: “Justamente a morte de Rosa tocou meu íntimo e confesso pântano.”
Após a morte de Guimarães Rosa, Nelson começou a ficar inquieto pelas dúvidas que o escritor suscitava. E foi conversar no boteco Garoto do Papai com Carlos Heitor Cony e com meu amigo Reynaldo Jardim, que trabalhou na redação do Correio. Claro que o assunto era Guimarães Rosa. Nelson atribuía a Carlos Heitor Cony a definição de Rosa como “um novo Coelho Neto”, escritor parnasiano marcado pela retórica vazia, alvo preferencial do modernismo. Oswald de Andrade o chamava de “Coelho Avô”.
No entanto, ao mencionar Rosa, Cony teria abandonado Coelho Neto e comparado o inventor de Grande Sertão: Veredas com o Conselheiro Acácio, personagem de Eça de Queiroz, que só repete lugares comuns. “Aquele sujeito que morre para provar que viveu é Acácio. Tenha santa paciência. Mas é Acácio”. No escândalo, Nelson balbuciou: “E A terceira margem do Rio também é Acácio?” O outro fez a concessão: “A terceira margem é bom!”,
Quando Nelson avistou Reynaldo, perguntou o que achava de Guimarães Rosa, e o poeta disparou: “Um bolha!” Nelson protestou, argumentando com a invenção da linguagem, mas Reynaldo refutou com veemência polêmica: “Um falsário! Um falsário!”
Em crônica para a Folha de S. Paulo, Cony conta uma versão diferente dos fatos e reveladora do processo de criação de Nelson. O nosso profeta do óbvio perguntou a Jardim o que achava do Rosa. Com a franqueza habitual, o poeta disse que não gostava. No dia seguinte, Nelson escreveu que Jardim achava Rosa “uma besta”. A Cony, o nosso Freud de Madureira pediu opinião sobre uma frase que ganhou destaque nos jornais com a morte de Rosa: “A gente morre para provar que viveu”. Cony foi suscinto: “Tem um bafio acaciano”. Foi o pretexto para Nelson escrever uma série de cinco crônicas, com pequenas variações, nas quais Cony aparecia de dedo em riste, fazendo uma revisão crítica de calçada, dando pulos de indignação: “Acácio! Acácio!”.
Cony acreditava que Nelson testava as próprias ideias que não tinha coragem de expressar. E, em seguida, colocava tudo que queria dizer na boca dos amigos. No entanto, depois daquele embate com Cony e com Reynaldo, nos quais confrontou suas dúvidas, Nelson deu um desfecho dramático e fulminante para a crônica: “Comecei a beber meu copo de leite (a úlcera tinha contrações de víbora moribunda). E, súbito, fui varado por uma dessas certezas inapeláveis: Guimarães Rosa era o único gênio de nossa literatura.”
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