Olimpíada de matemática

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Severino Francisco

O meu neto Judá, de 7 anos, chegou em casa com uma notícia impactante: ele havia sido escolhido para ser o representante da sala em uma olimpíada de matemática com todas as segundas séries do colégio. A novidade causou, a um só tempo, alvoroço e apreensão. E isso porque Judá é do signo de câncer, sujeito a fortes emoções e a dificuldades em lidar com as perdas.

Não foi só em casa que a escolha suscitou receios. O próprio professor que o indicou ficou com uma ponta de cisma e perguntou ao Judá como ele reagiria em caso de uma derrota no concurso. Em vez de acalmar os ânimos, a resposta do atleta olímpico da matemática só botou mais inquietação na cabeça do mestre e de todos os familiares: “Sinceramente, não tenho a menor ideia”.

Com isso, instalou-se um suspense de matar o Hitchcock, diria Moreira da Silva. Mãe, avós e tios se mobilizaram para treinar Judá nas contas, simulando os mais variados cenários possíveis. O evento poderia ser uma glória ou uma frustração na vida da criança. Então, todos não mediram esforços para prepará-lo da melhor maneira possível para a disputa.

Durante vários natais, eu tive de vestir e me investir de Papai Noel para divertir as crianças. Vocês que nunca representaram o papel não têm ideia de como é complicado. Primeiro, a gente pega uma roupa comprada em loja com artigos de 1,99, que fica guardada o ano inteiro em um saco. O cheiro de borracha estragada da barba é terrível. Como se não bastasse, a produção lá de casa é exigente nos ínfimos detalhes.

Impõe uma pança de travesseiros que escorregam o tempo todo e ameaçam estragar com toda a brincadeira. Para quem não viveu a experiência, eu vos garanto que é um sufoco. Depois disso, passei a valorizar muito mais o desprezado ofício do ator. No entanto, valia a pena todo sacrifício, pois quando eu passava de relance pela janela de vidro, depois da meia-noite, com todas as luzes apagadas, as crianças emitiam intrépidos grunhidos de felicidade que me atingiam em cheio.

Felizmente, me vi livre do desafio porque, apesar de emotivo, Judá tem a mente racional, afeita à matemática e desconfiou: “Mas me digam uma coisa, não entendo como Papai Noel traz presentes. Por onde ele entra se a nossa casa não tem chaminé?”

Com isso, resolvemos não mais promover a aparição de Papai Noel durante a noite de Natal e me vi liberado da árdua incumbência. Sem isso, apesar de todo o transtorno, não teria coragem de dizer não. Mesmo porque, em uma hora de aperto, o assunto pode render uma crônica salvadora.

Mas voltemos à olimpíada de matemática, tema da história. A mãe de Judá foi buscá-lo na escola, preocupada, tensa e aflita com o que poderia ter acontecido. E se ele perdesse a competição? Cairia em um choro difícil de conter? Ficaria abalado? Não seria melhor evitar expô-lo a situações delicadas como essa? Com essas dúvidas dramáticas na cabeça, ela dirigiu-se à escola.

Depois de esperar minutos que pareciam  uma eternidade,  finalmente, o Judá saiu e anunciou: “Tenho boas notícias”. A mãe logo ficou animada em eliminar o motivo da angústia. E ele continuou: “Fiz uma coisa muito legal hoje, descobri umas casinhas de caramujo e fiquei procurando o tempo todo em vários lugares da escola”. Sem conter a ansiedade, meio irritada, ela perguntou: “E a olimpíada de matemática????” “Ah, eu ganhei”, respondeu Judá, desinteressado.

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