Conheça a Península de Setúbal, região produtora de vinhos em Portugal

Compartilhe

A vinícola funciona numa antiga fábrica de uniformes na área oeste do Alentejo

Setúbal – A menos de 50 quilômetros de Lisboa fica uma região produtora de vinho, que não é a mais importante, como o Douro e Dão, ao norte, ou o Alentejo, ao sul. É sim, uma região distinta antes chamada Terras de Sado, rebatizadas como Península de Setúbal, ao oeste do Alentejo. Seu terroir é formado pelas planícies arenosas e marcado pela proximidade do Oceano Atlântico e dos rios Tejo e Sado e da Serra da Arrábida, fatores que geram um microclima especialmente favorável para a produção das castas Castelão, Fernão Pires e Moscatel, típicas da região.

Quem já não tomou alguma vez na vida o vinho Periquita? Por muito tempo foi o tinto português por excelência. Só que o nome da uva é Castelão. Periquita era a propriedade rural que coube a José Maria da Fonseca, que saiu de Coimbra, ao norte, para tomar posse das terras com vinhedos no Azeitão e passou a fazer o vinho com a Castelão, logo batizado com o nome do local: Cova da Periquita, depois só Periquita. É tão icônico que tem até confraria que se reúne a cada dois anos no dia do aniversário do fundador a 31 de maio.

A vinícola funciona numa antiga fábrica de uniformes que José Maria da Fonseca comprou para envelhecer o vinho, que foi o primeiro a ser engarrafado em Portugal. Atualmente a quarta e quinta gerações dirigem a casa fundada em 1834, que conta com um museu onde há também registro de notas de exportação para o Brasil, até hoje grande consumidor dos rótulos.

Cooperativismo

Jardim da vinícola José Maria da Fonseca. Crédito: Liana Sabo/CB/D.A Press

Outro templo da vitivinicultura da Península de Setúbal é o Palácio da Bacalhôa, considerada a mais bela quinta da primeira metade do século 15. Em 1936, o palácio foi comprado e restaurado pela norte-americana Orlena Scoville, cujo neto torna a propriedade num dos maiores produtores de vinho, já em 1970. Até hoje é um forte exportador de vinho para o Brasil.

Mais de 250 produtos saem da Adega de Palmela, uma das maiores da região, que reúne 300 associados, e tem obtido frequentemente prêmios internacionais graças à qualidade de seu portfólio de vinhos modernos, dos quais 70% são tintos e 30% brancos. Destaque para o vinho Abafado Pedras Negras. Criada em 1958, a Cooperativa Agrícola Santo Isidro de Pegões investiu na modernização e no portfólio de vinhos nos últimos 25 anos e se tornou competitiva empresa lusitana que exporta para o Brasil. Destaque para o Papo Amarelo Reserva branco feito de Antão Vaz, Verdelho e Fernão Pires. Importante centro de vinificação é a Sociedade Vinícola de Palmela, onde se encontra a maioria dos viticultores, que começaram a vinificar e engarrafar as suas próprias marcas desde 1964.

Garrafa no mar

Enóloga Da Quinta do Brejinho. A garrafa teve no fundo do mar. Crédito: Liana Sabo/CB/D.A Press

De Setúbal, um ferry boat leva o visitante pelo rio Sado que encontra o Atlântico, até a região de Tróia, onde dá pra ver ainda ruínas romanas. A grande novidade quem oferece é a Quinta Brejinho da Costa, que lançou vinhos no Atlântico para serem resgatados numa experiência única e cara. Sai por 600 euros (cerca de R$ 3.300) a chance de mergulhar no oceano e trazer à tona uma garrafa de tinto feita de Touriga Nacional e Touriga Franca. “Durante o mergulho poderá maravilhar-se com a observação da vida marítima”, assinala o programa oferecido nos meses mais quentes de junho a setembro.

Não muito distante dali fica Serenada, nova e pouco conhecida vinícola que como o nome sugere oferece um lugar ideal para descanso em seu hotel boutique. Seus vinhos assinados pela proprietária Jacinta Sobral, que é enóloga e farmacêutica, ainda não chegaram ao Brasil.

Se os vinhos da Península de Setúbal com mais de 600 rótulos são bem aceitos no mundo todo, a gastronomia da região não fica atrás. Focada nos produtos do mar, surpreende pela variedade e extremo sabor dos pratos, como de lula, camarão, mexilhões, além do bacalhau, servido de diversas maneiras.

O sol engarrafado

Moscatel de Setúbal da vinícola José Maria da Fonseca. Crédito: Liana Sabo/CB/D.A Press

Já a uva Moscatel dá origem ao vinho mais famoso feito do outro lado da ponte que atravessa o rio Tejo, diante de Lisboa. Doce e oxidado por até 20 anos em toneis de madeira, o Moscatel de Setúbal faz parte da mais notável trinca dos vinhos de Portugal junto com o Porto e a Madeira. Há também uma rara variação tinta feita com a uva Moscatel Roxo.

Eles harmonizam muito bem com a típica doçaria portuguesa, toda à base de gemas de ovos, surgida nos conventos porque eram a sobra. As claras tinham sempre outro fim: eram usadas para engomar os hábitos das freiras. O Moscatel de Setúbal pode ser Colheita, quando indica o ano da safra; 10 anos ou 20 anos, dependendo do envelhecimento em tonéis. O mais destacado é o da categoria Superior.

Além da vinícola gigante José Maria da Fonseca, destaca-se na região a Venâncio da Costa Lima, que em 2011 recebeu o prêmio de melhor moscatel do mundo e este ano completa 110 anos de existência. Está nas mãos da quarta geração da família Costa Lima, que celebrou a história do fundador com o lançamento de uma edição especial do centenário: um Moscatel de Setúbal de 30 anos.

Certificação

Uma das primeiras cantinas a exportar para diversos estados brasileiros – há mais de 10 anos colocou o pé em Goiânia – foi a Casa Ermelinda Freitas, fundada em 1920 com a produção de vinhos a granel. Comandada por Leonor Freitas, que tem ao seu lado a filha Mariana, a vinícola sempre foi dirigida por mulheres. O primeiro vinho foi engarrafado em 1997 e hoje dispõe de 300 rótulos distribuídos em 80 linhas diferentes, das quais 60% são tintos e o restante, brancos com três moscatéis.

Cinco vinhos da Venâncio da Costa Lima. Crédito: Liana Sabo/CB/D.A Press

A importadora Porto a Porto acaba de receber o Moscatel de Setúbal Doce DOC, produzido pela Adega de Palmela, que está disponível na CS Vinhos Asa Norte por R$ 86,75. “Além de sobremesas à base de frutas, harmoniza bem com queijos azuis intensos, como roquefort ou gorgonzola”, sugere o sommelier Chaves.

Criada há 33 anos com o objetivo de garantir a origem e a qualidade dos vinhos, a Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal – CVRPS é responsável pela certificação da D.O. Setúbal, que inclui o Moscatel de Alexandria e o Moscatel Roxo, D. O. Palmela e a I.G. Península de Setúbal presente em diferentes vinhos brancos, rosados, tintos, espumantes, frisantes e licorosos da região. Atualmente, a Comissão é dirigida por Henrique Soares, que tem buscado novos mercados para os vinhos. Portugal desde a semana passada tem novo governo. Assumiu o primeiro ministro Luis Montenegro, de direita.

* A colunista viajou a convite da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal

Liana Sabo

Posts recentes

Copa do Mundo inspira festival gastronômico na cidade

20ª edição do Festival Brasil Sabor contará com mais de 80 restaurantes participantes

20 horas atrás

Uma semana, três jantares especiais

Eventos no B Hotel e nos restaurantes Almeria e Fogo de Chão unem alta gastronomia…

3 dias atrás

Leve sua mãe para se deliciar em um restaurante no próximo domingo

Opções não faltam! Quem quiser sair com a mãe no próximo domingo pode escolher entre…

1 semana atrás

Chef italiano do Vittoria d’Italia homenageia a Mamma com receitas que aprendeu com a Nonna

Bistrô Vittoria d’Italia, na Asa Norte, aposta na tradicional gastronomia do País da Bota, mas…

2 semanas atrás

Pirenópolis celebra vinho e jazz neste fim de semana

Wine Jazz Piri é uma boa opção para o brasiliense aproveitar no feriadão

2 semanas atrás

Restaurantes da Associação da Boa Lembrança da Região Centro-Oeste apresentam a coleção de pratos 2026

Os seis restaurantes do Centro-Oeste que fazem parte da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança…

2 semanas atrás