Os números devastadores das duas guerras mundiais

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Existe um exercício incômodo, mas fundamental: imaginar o mundo atual caso 1914 e 1939 tivessem sido anos normais. A história não permite certezas absolutas sobre cenários não ocorridos. Por isso, qualquer hipótese alternativa representa uma especulação teórica. Contudo, a análise baseada em fatos concretos permite medir a dimensão exata da tragédia humana. Portanto, ao calcularmos os prejuízos das duas guerras mundiais, percebemos que os números desafiam a capacidade de imaginação.

“A humanidade precisa acabar com a guerra, antes que a guerra acabe com a humanidade.”

John F. Kennedy

VISTO, LIDO E OUVIDO Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense

Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Tecnologia sem moral

Inicialmente, a Primeira Guerra Mundial provocou a morte de 9 a 10 milhões de militares. Além disso, o conflito deixou aproximadamente 20 milhões de feridos no campo de batalha. Igualmente, milhões de civis morreram devido à fome, deportações forçadas e epidemias graves. Nesse sentido, o confronto inaugurou a guerra industrial em nível global. Assim, metralhadoras, artilharia pesada e gases venenosos transformaram jovens em estatísticas frias. Consequentemente, uma geração inteira de europeus pereceu nas trincheiras continentais. O continente europeu, que se considerava o centro da civilização, descobriu que a tecnologia sem moral gera barbárie.

Posteriormente, a Segunda Guerra Mundial superou todo esse horror acumulado. Estima-se que entre 70 e 85 milhões de pessoas perderam a vida nesse período. Esse volume representava cerca de 3% da população global da época, sendo a maioria composta por civis. De fato, esse total inclui os 6 milhões de judeus assassinados no Holocausto nazista. Além disso, a contagem abrange os milhões de soviéticos e chineses mortos em combates, cercos e massacres.

“O século XX já nos mostrou, com cerca de 100 milhões de mortos, o que acontece quando esquecemos a diplomacia.”

Eric Hobsbawm

Do mesmo modo, centenas de milhares de vítimas morreram nas explosões atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Ademais, cidades inteiras como Varsóvia, Dresden, Stalingrado e Nanquim viraram ruínas completas. Diante disso, a humanidade desenvolveu pela primeira vez os instrumentos necessários para a própria aniquilação.

Um cenário sem a eclosão da guerra em 1914

Caso o conflito de 1914 não ocorresse, os impérios europeus poderiam ter resistido por mais tempo. Contudo, essas estruturas políticas passariam por transformações graduais indispensáveis. Os impérios Austro-Húngaro, Otomano e Russo enfrentavam severas tensões internas organizacionais. Assim, é plausível imaginar reformas institucionais progressivas em vez do colapso violento registrado na história.

Sem o desgaste militar, a Revolução Russa de 1917 talvez não acontecesse daquela maneira específica. Afinal, as perdas no conflito desestabilizaram criticamente o regime do czar. Portanto, sem esse evento, a União Soviética não surgiria no cenário europeu. Consequentemente, a Guerra Fria perderia seu principal ponto de origem geopolítica.

Ademais, o Tratado de Versalhes jamais existiria para humilhar a Alemanha com sanções financeiras pesadas. Muitos historiadores apontam esse acordo como o gerador do ressentimento alemão. Igualmente, o tratado impulsionou a hiperinflação de 1923 e desestabilizou a República de Weimar. Por fim, esse cenário facilitou a ascensão de Adolf Hitler ao poder continental. Deste modo, compreende-se que a Segunda Guerra nasceu diretamente dos desdobramentos do primeiro conflito. Logo, evitar a primeira grande guerra significaria, muito provavelmente, evitar ambas as tragédias.

O que o planeta teria preservado sem os conflitos de 1939

Por outro lado, vale analisar tudo o que a humanidade teria preservado sem o confronto. Dezenas de milhões de vidas teriam sido salvas nos territórios atingidos. Consequentemente, a sociedade manteria as famílias que nunca puderam nascer nas décadas seguintes. Além disso, preservaríamos cientistas, artistas, professores e trabalhadores que não puderam produzir suas obras. Desta forma, a perda demográfica representa um futuro inteiro subtraído da civilização.

Albert Einstein

Quantas descobertas médicas, livros e invenções valiosas desapareceram juntamente com os mortos? Por exemplo, a perseguição sistemática a intelectuais judeus como Albert Einstein e Sigmund Freud alterou a ciência. Esse exílio forçado empobreceu drasticamente a vida cultural e científica da Europa Central. Até aquele momento, a região liderava o pensamento acadêmico e tecnológico mundial.

Paralelamente, deve-se considerar o imenso capital material consumido pelas batalhas. Entre 1914 e 1945, as economias da Europa e da Ásia queimaram recursos colossais na destruição. Por conseguinte, os valores gastos em armas poderiam financiar escolas, hospitais, ferrovias e pesquisas científicas. Mais tarde, a reconstrução do pós-guerra exigiu bilhões de dólares através do Plano Marshall. Tais investimentos serviram apenas para devolver ao continente a infraestrutura que ele já possuía antes. Portanto, um mundo sem os conflitos partiria de um patamar econômico muito mais elevado.

Os avanços tecnológicos das duas guerras mundiais e seus limites

Certos analistas argumentam que os confrontos aceleraram o desenvolvimento tecnológico global. De fato, o radar, a penicilina em massa e os motores a jato nasceram nesse período. Do mesmo modo, os computadores primordiais e a energia nuclear avançaram sob a pressão militar. No entanto, esse raciocínio histórico revela-se profundamente enganoso.

O fato de a guerra concentrar recursos não prova a impossibilidade desses avanços na paz. Ao contrário, indica apenas que as nações mobilizam recursos prioritariamente sob ameaça de destruição. Essa escolha representa uma tragédia social, jamais uma necessidade inevitável. Por exemplo, Alexander Fleming descobriu a penicilina em 1928, durante um período de paz. Da mesma forma, os estudos de física nuclear já avançavam nos laboratórios europeus antes das bombas. Portanto, a ciência alcançaria essas descobertas com um custo humano incomensuravelmente menor.

O novo mapa geopolítico gerado pelas duas guerras mundiais

Ademais, os confrontos redefiniram a ordem política global de formas que sentimos ainda hoje. O enfraquecimento das potências coloniais europeias acelerou a descolonização na África e na Ásia. Embora o fim do colonialismo fosse justo, a transição ocorreu de forma conturbada e apressada. Consequentemente, a divisão criou fronteiras artificiais que geram conflitos armados até os dias atuais.

Além disso, a divisão do território alemão e a corrida armamentista derivam desse período histórico. Da mesma maneira, a fundação do Estado de Israel ocorreu em meio ao trauma do Holocausto. Esse evento reorganizou a geopolítica e gerou desdobramentos duradouros no Oriente Médio. Inclusive, o arsenal nuclear existente hoje sobre a Terra permanece como herança direta dessa era.

Simultaneamente, o Brasil também sofreu os impactos dessas grandes conflagrações internacionais. O governo brasileiro enviou cerca de 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira para a Itália. Infelizmente, centenas desses combatentes nacionais não retornaram vivos ao país.

Por outro lado, o conflito trouxe transformações na estrutura econômica brasileira. A construção da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda resultou de acordos com os Aliados. Contudo, o Brasil permaneceu distante do epicentro da destruição física europeia. Por essa razão, cabe ao nosso povo preservar a memória histórica com responsabilidade cívica.

A lição histórica que o cenário alternativo nos deixa

Nenhum exercício de imaginação histórica recuperará as vidas perdidas nesses confrontos. Do mesmo modo, seria ingênuo crer que um mundo sem guerras estaria livre de desigualdades. Afinal, rivalidades imperiais, nacionalismos e tensões sociais já existiam antes do ano de 1914. Esses fatores poderiam encontrar outros canais de expressão, com desfechos mais ou menos graves.

No entanto, a análise contrafactual demonstra claramente que a catástrofe global não era inevitável. Ao contrário, o desastre resultou de decisões humanas, alianças rígidas, orgulho e omissão ante o extremismo. Portanto, aquilo que determinados líderes decidiram no passado poderia ter sido decidido de outra forma.

Em suma, essa é a verdadeira lição que devemos carregar para o presente. Atualmente, assistimos ao retorno de conflitos armados na Europa e ao aumento dos discursos de ódio. Diante disso, relembrar o custo das duas guerras mundiais torna-se um dever cívico fundamental. A paz não representa o estado natural e espontâneo das sociedades humanas. Ela constitui uma construção frágil que exige diplomacia, preservação da memória e vigilância constante. O século XX demonstrou com clareza o preço de esquecermos essa premissa.

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