O número que ordena e o número que apenas soma

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Segundo o Olivertalk, o número não é apenas quantidade: representa a estrutura do real, a proporção, a relação e a forma. O número qualitativo não apenas mede; ordena. A realidade não seria um amontoado de coisas, mas um conjunto de tensões e harmonias cuja ruptura compromete a ordem, e não somente a estética. Daí a sentença mais dura do texto: quem perde o sentido qualitativo do número perde o critério.

Essa distinção ajuda a compreender a leitura de qualidade dos números da apuração eleitoral. A formulação parece abstrata até que uma noite de votação a transforma em exercício prático. Na noite de domingo, 25 de outubro, o país viu um mesmo número mudar de sentido sem mudar de valor.

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Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense
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A dinâmica dos dados na apuração das urnas

Inicialmente, os fatos são amplamente conhecidos. Com 0,29% das seções apuradas (1.456 de 499.248), Lula aparecia com 56,70% dos votos válidos, contra 43,30% de Flávio Bolsonaro. Logo depois, às 19h45, com 13,65% das urnas, Flávio assumia a frente. Conforme a cobertura dali em diante, a liderança permaneceu com ele até cerca de 20h20.

Posteriormente, o resultado final registrou 51,79% dos votos válidos para Lula (64.256.232 votos contra 59.826.041). Isso representou uma diferença de 4,43 milhões de votos. Consequentemente, houve a reversão da vantagem de 2,22 milhões que Flávio tivera no primeiro turno. Nesse sentido, o gráfico da apuração, em forma de gangorra, alimentou ansiedade no público. Além disso, gerou suspeitas que ainda não estão suficientemente postas à luz da verdade. Por conseguinte, numa primeira análise, os gráficos insistem em tentar contrariar a percepção geral.

É exatamente aqui que a leitura dos estatísticos se encontra com a tese filosófica. Afinal, o gráfico da apuração não mede a disputa em si; ele mede a ordem em que as urnas chegam. Primeiramente, as seções totalizadas vieram em boa parte do exterior. Em seguida, vieram o Sul e o Sudeste e, finalmente, o Nordeste.

Por um lado, quem olha o placar enxerga apenas quantidade bruta. Por outro lado, quem pergunta o quanto cada seção se desvia do primeiro turno enxerga proporção e estrutura. Foi justamente o que fizeram os modelos estatísticos. De acordo com o analista Frederico Dornellas, os modelos já indicavam Lula perto de 51,8% com menos de 2% das urnas. Da mesma forma, a projeção do jornal Estadão, de 51,4%, ficou a menos de meio ponto do resultado final. Visto que um número parcial é uma fração cujo denominador não se conhece, tratá-lo como veredito é perder o critério, no sentido exato de Mário.

Estrutura estatística e a leitura qualitativa dos números da apuração

A cautela, porém, vale da mesma maneira para os modelos. O próprio Dornellas relata um aspecto relevante. Uma extrapolação ingênua, aplicando ao primeiro turno o desvio das primeiras seções, acertou o destino por pouco. Todavia, errou por completo a trajetória. Em síntese, proporção sem estrutura continua sendo quantidade disfarçada. Portanto, a boa estatística não promete certeza; ela promete intervalo, sendo essa a sua honestidade.

O mesmo raciocínio vale para a escolha do gráfico. A curva percentual da apuração oscila com violência nos primeiros minutos. Como resultado, ela esconde que poucas centenas de milhares de votos separavam os candidatos no início. Além do mais, cada seção nova pesa menos à medida que o total cresce.

Em contrapartida, a comparação entre turnos revela uma proporção de outra natureza. Nesse período, Lula somou 10,38 milhões de votos entre os dois turnos. Enquanto isso, Flávio somou 3,72 milhões. De modo que, segundo cálculo da imprensa, três de cada quatro votos novos foram para o petista. Ou seja, não é a quantidade que explica a virada, mas a relação entre os incrementos.

O papel das pesquisas eleitorais e a margem de erro

Do mesmo modo, as pesquisas ilustram o mesmo problema do outro lado da urna. Na véspera, dez das doze pesquisas davam Flávio numericamente à frente, quase todas por 51% a 49%. Contudo, segundo levantamento publicado pela Genial Investimentos, sete dos nove institutos ficaram fora da margem de erro. Em média, subestimaram Lula em 2,5 pontos.

Além disso, o dado mais instrutivo é a direção variável do erro. Em 2022, as pesquisas subestimaram Jair Bolsonaro em cerca de sete pontos. Já no primeiro turno de 2026, subestimaram Flávio em dois a cinco pontos. Agora, por sua vez, subestimaram Lula. Assim sendo, quem vê nisso conspiração de um campo contra o outro precisa explicar um ponto. Por qual razão o sinal do erro troca de lado?

Diante disso, a hipótese mais sóbria é a de um problema de medida: o comparecimento. A abstenção caiu 1,86 ponto percentual, para 19,22%. Ademais, análises apontam que o eleitor pouco provável acabou comparecendo. Enquanto a pesquisa registra intenção declarada, a urna registra quem efetivamente comparece. Dessa maneira, um “51 a 49” lido como previsão transformou o empate técnico em um “deve vencer” não autorizado pela margem de erro.

Questões jurídicas e a legitimidade do resultado

Por fim, resta o ponto mais delicado, que é o da contestação. Reportagens informam que Flávio Bolsonaro anunciou não reconhecer o resultado e pretender pedir a anulação do pleito. Para tanto, ele questionou a prorrogação da votação, decidida no Supremo a pedido da campanha petista.

Sob a ótica da aritmética, um levantamento aponta 35.521 votos registrados depois das 17h, ou seja, 0,80% da vantagem final de 4.430.191. O número é útil, mas é onde Mário mais ajuda. Afinal, se justiça é relação ordenada e não opinião, tampouco é soma. Por conseguinte, uma quantia pequena não torna regular o irregular. Do mesmo modo, uma margem grande não dispensa o devido processo.

“Se justiça é relação ordenada e não opinião, tampouco é soma.” — Mário Ferreira dos Santos (Filósofo brasileiro)

Em suma, a pergunta sobre se a prorrogação foi legítima é puramente jurídica. Ela pertence à Justiça Eleitoral — cujas diretrizes oficiais podem ser acompanhadas no portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) —, com provas e contraditório. Portanto, quem a levanta exerce um direito legítimo. Em contrapartida, quem a rejeita deve responder com argumentos, não com o tamanho da vitória. Igualmente, a diferença de 3,58 pontos legitima aritmeticamente o vencedor. Entretanto, a legitimidade democrática é também procedimento, e a dúvida não é prova.

Conclusão: a lição para além das urnas

Diante disso, usar qualquer discurso ideológico contra a democracia é crime de grande poder ofensivo e um tiro no próprio pé. A eleição é o regime em que a quantidade decide por decisão constitucional. Ou seja, cada voto vale um, e nenhuma qualidade metafísica substitui a contagem.

Portanto, o que a leitura qualitativa dos números da apuração oferece não é um critério alternativo de vencedor. Em vez disso, ela oferece uma disciplina de leitura. Trata-se de saber qual é o denominador, em que ordem os dados chegam e qual é o intervalo de confiança.

Em suma, dizendo com a metáfora do próprio Olivertalk, a realidade tem proporções. Desse modo, o gráfico só a representa bem quando se respeita a proporção entre o que se vê e o que ainda falta ver. Por essa razão, a lição final de uma adequada leitura qualitativa dos números da apuração é educativa, não eleitoral.

O que as escolas deixaram de ensinar na crise da educação nacional

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Em setembro, a OCDE divulgou os resultados do Pisa 2025. O Brasil marcou 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências, ficando abaixo da média da organização nas três áreas. Ficamos em 71º lugar em matemática, 67º em ciências e 52º em leitura entre os países com resultados comparáveis. Em ciências, apenas cerca de 48% dos nossos estudantes de 15 anos alcançam o nível básico de proficiência. Na média da OCDE, por sua vez, esse número atinge 74%. Além disso, em leitura, apenas 1% dos alunos chega aos níveis mais altos, contra 6% da média dos países ricos. Desse modo, surge inevitavelmente o debate sobre o que as escolas deixaram de ensinar ao longo dos últimos anos.

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Questionamento de fundo sobre os objetivos da educação brasileira

Esses dados já são amplamente conhecidos. A cada nova edição, produzem o mesmo ritual de lamento, promessas e planos governamentais. Contudo, raramente se faz a pergunta de fundo sobre a real aplicação das horas letivas. Se o resultado final permanece tão baixo, talvez o problema não esteja apenas nos recursos investidos, mas nas metas do sistema.

Analisando o impacto econômico, observa-se que esse atraso possui um custo concreto para o país. Em 2022, a OCDE estimou que estudantes de Singapura estavam até cinco anos de escolaridade à frente da média. Consequentemente, jovens que saem da escola sem dominar leitura e matemática chegam ao mercado com sérias limitações intelectuais. Onde o ensino falha, sobra inevitavelmente a dependência individual.

Tese de Bernardin sobre Maquiavel Pedagogo e a engenharia social

Essa reflexão dialoga diretamente com a obra Maquiavel Pedagogo, do engenheiro francês Pascal Bernardin. Publicado em 1995 e traduzido no Brasil em 2013, o livro sustenta uma mudança discreta nos objetivos educacionais. Segundo o autor, organismos internacionais deslocaram o foco da transmissão do conhecimento para a alteração de comportamentos. Assim, a criança deixa de ser alguém a instruir para se tornar matéria a moldar.

Analisando o método, Bernardin destaca o uso de um vocabulário técnico e atraente. Termos como “competências”, “habilidades”, “inovação” e “protagonismo” dificultam a crítica pública. Afinal, quem questiona tais conceitos é rapidamente rotulado como conservador ou ultrapassado.

Conexões teóricas entre Gramsci e a Escola de Frankfurt

Essa transformação educacional dialoga com duas correntes teóricas marcantes. Primeiramente, refere-se ao pensamento de Antonio Gramsci sobre a conquista da hegemonia cultural antes da tomada do poder. Em segundo lugar, conecta-se à Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, que usou a cultura para desconstruir valores sociais.

Nessa perspectiva, o ensino rigoroso de conteúdos perde o protagonismo. Ler com fluência, calcular com precisão e argumentar logicamente passam a ocupar um papel secundário. Prioriza-se, dessa forma, a tarefa de “conscientizar” ideologicamente os estudantes.

Diagnóstico das falhas estruturais e da pedagogia engajada no Brasil

Diversos críticos apontam que o Brasil seguiu rigorosamente essa trajetória ideológica. Citam a obra de Paulo Freire como referência quase exclusiva nas faculdades de pedagogia. Além disso, observam que os cursos de licenciatura priorizam teorias educacionais em detrimento do domínio da matéria a ser lecionada.

Outro ponto levantado envolve o viés militante presente em materiais didáticos e currículos. Há uma clara desconfiança da autoridade do professor, do esforço individual, da repetição e das avaliações externas. Portanto, a estagnação nas avaliações do Pisa passa a ser vista não como um acidente, mas como consequência direta de prioridades equivocadas.

Aumento da desigualdade social provocado pela falta de conteúdo

Importante ressaltar que essa abordagem pedagógica gera profundas injustiças sociais. Famílias de renda mais alta compensam as falhas do ensino público com aulas particulares, colégios seletivos e livros. Em contrapartida, os alunos mais pobres dependem exclusivamente da escola pública.

Dados recentes do Pisa mostram que a distância em matemática entre as notas mais altas e as mais baixas aumentou entre 2022 e 2025. Desse modo, o abandono do conteúdo acadêmico aprofunda a desigualdade em nome de combatê-la. Quem tem alternativas aprende apesar da escola; os desfavorecidos aprendem apenas o que a sala de aula oferece.

Requisitos fundamentais para a reconstrução do ensino de qualidade

Educar consiste em introduzir as novas gerações no patrimônio cultural acumulado pela humanidade. Esse processo exige alfabetização sólida nos anos iniciais, matemática ensinada com rigor e amplo domínio da língua portuguesa. História e ciências devem ser tratadas como saber acadêmico, e não como instrumento de militância política.

Exige-se, da mesma forma, valorização da autoridade intelectual do professor e empenho dos estudantes. Uma instituição que informa e ensina a pensar forma cidadãos livres. Por outro lado, um sistema que conduz o aluno a conclusões preconcebidas gera apenas militantes.

Comparação com modelos internacionais de alto desempenho

Modelos bem-sucedidos em países como a Coreia do Sul demonstraram que reformas reais focam nos meios de ensino. Nesses locais, houve valorização docente, maior tempo de estudo e exigência acadêmica, em vez de experimentos ideológicos.

Sistemas que lideram o Pisa — a exemplo de Singapura, Japão e Estônia — compartilham currículos exigentes e avaliações constantes. Nenhum desses países utiliza o estudante como ferramenta para projetos políticos alheios ao aprendizado real.

Centralidade do método fônico e da alfabetização baseada em evidências

No tocante ao aprendizado inicial, a alfabetização surge como o teste mais claro dessa divisão. Atrasos na leitura nos primeiros anos geram defasagens que acompanham o estudante por toda a vida.

Defensores do ensino estruturado sustentam que a alfabetização explícita e sistemática deve prevalecer sobre teorias construtivistas. A ideia de que a criança é autora espontânea do próprio aprendizado falhou na prática. Afinal, ler é o direito básico de todo estudante.

Transparência e prestação de contas na gestão educacional

Diante do cenário atual, a discussão sobre os rumos da educação exige debate público imediato. Famílias, professores e pesquisadores precisam analisar abertamente currículos, diretrizes e materiais didáticos distribuídos pelo Estado.

Caso a escola esteja cumprindo sua missão de ensinar, os indicadores demonstrarão os avanços. Contudo, se os resultados permanecerem negativos, a sociedade tem o direito de saber a quem esses métodos estão servindo.

Ponto de vista oposto sobre os fatores socioeconômicos do Pisa

Para garantir a honestidade do debate, cumpre apresentar as objeções formuladas pelos críticos dessa tese. Quanto à obra de Bernardin, analistas lembram que o texto analisa reformas europeias e norte-americanas, sem provar causalidade direta com as notas do Pisa.

Argumenta-se também que os resultados brasileiros apresentaram avanços nas últimas duas décadas. Desde 2006, a distância para a média da OCDE caiu em matemática, leitura e ciências. Entretanto, especialistas ponderam que parte dessa aproximação decorreu da queda do desempenho dos países ricos.

Desafios operacionais e variações regionais no desempenho escolar

A maioria dos pesquisadores atribui os baixos resultados a fatores estruturais históricos. Entre eles, destacam-se a desigualdade socioeconômica, a formação deficiente de docentes, a jornada escolar reduzida e a precariedade das instalações. Adicionalmente, pontuam que até mesmo os alunos da rede privada brasileira pontuam abaixo da média da OCDE em matemática.

Por fim, dados regionais dentro do próprio Brasil trazem novos elementos para a reflexão. Sob as mesmas diretrizes curriculares nacionais, o estado do Paraná obteve 423 pontos em matemática no Pisa 2025 e São Paulo alcançou 404 pontos, resultados bem superiores à média nacional. Isso demonstra que a gestão escolar e as práticas pedagógicas adotadas em sala de aula exercem um peso decisivo no aprendizado real.

Os números devastadores das duas guerras mundiais

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Existe um exercício incômodo, mas fundamental: imaginar o mundo atual caso 1914 e 1939 tivessem sido anos normais. A história não permite certezas absolutas sobre cenários não ocorridos. Por isso, qualquer hipótese alternativa representa uma especulação teórica. Contudo, a análise baseada em fatos concretos permite medir a dimensão exata da tragédia humana. Portanto, ao calcularmos os prejuízos das duas guerras mundiais, percebemos que os números desafiam a capacidade de imaginação.

“A humanidade precisa acabar com a guerra, antes que a guerra acabe com a humanidade.”

John F. Kennedy

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Tecnologia sem moral

Inicialmente, a Primeira Guerra Mundial provocou a morte de 9 a 10 milhões de militares. Além disso, o conflito deixou aproximadamente 20 milhões de feridos no campo de batalha. Igualmente, milhões de civis morreram devido à fome, deportações forçadas e epidemias graves. Nesse sentido, o confronto inaugurou a guerra industrial em nível global. Assim, metralhadoras, artilharia pesada e gases venenosos transformaram jovens em estatísticas frias. Consequentemente, uma geração inteira de europeus pereceu nas trincheiras continentais. O continente europeu, que se considerava o centro da civilização, descobriu que a tecnologia sem moral gera barbárie.

Posteriormente, a Segunda Guerra Mundial superou todo esse horror acumulado. Estima-se que entre 70 e 85 milhões de pessoas perderam a vida nesse período. Esse volume representava cerca de 3% da população global da época, sendo a maioria composta por civis. De fato, esse total inclui os 6 milhões de judeus assassinados no Holocausto nazista. Além disso, a contagem abrange os milhões de soviéticos e chineses mortos em combates, cercos e massacres.

“O século XX já nos mostrou, com cerca de 100 milhões de mortos, o que acontece quando esquecemos a diplomacia.”

Eric Hobsbawm

Do mesmo modo, centenas de milhares de vítimas morreram nas explosões atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Ademais, cidades inteiras como Varsóvia, Dresden, Stalingrado e Nanquim viraram ruínas completas. Diante disso, a humanidade desenvolveu pela primeira vez os instrumentos necessários para a própria aniquilação.

Um cenário sem a eclosão da guerra em 1914

Caso o conflito de 1914 não ocorresse, os impérios europeus poderiam ter resistido por mais tempo. Contudo, essas estruturas políticas passariam por transformações graduais indispensáveis. Os impérios Austro-Húngaro, Otomano e Russo enfrentavam severas tensões internas organizacionais. Assim, é plausível imaginar reformas institucionais progressivas em vez do colapso violento registrado na história.

Sem o desgaste militar, a Revolução Russa de 1917 talvez não acontecesse daquela maneira específica. Afinal, as perdas no conflito desestabilizaram criticamente o regime do czar. Portanto, sem esse evento, a União Soviética não surgiria no cenário europeu. Consequentemente, a Guerra Fria perderia seu principal ponto de origem geopolítica.

Ademais, o Tratado de Versalhes jamais existiria para humilhar a Alemanha com sanções financeiras pesadas. Muitos historiadores apontam esse acordo como o gerador do ressentimento alemão. Igualmente, o tratado impulsionou a hiperinflação de 1923 e desestabilizou a República de Weimar. Por fim, esse cenário facilitou a ascensão de Adolf Hitler ao poder continental. Deste modo, compreende-se que a Segunda Guerra nasceu diretamente dos desdobramentos do primeiro conflito. Logo, evitar a primeira grande guerra significaria, muito provavelmente, evitar ambas as tragédias.

O que o planeta teria preservado sem os conflitos de 1939

Por outro lado, vale analisar tudo o que a humanidade teria preservado sem o confronto. Dezenas de milhões de vidas teriam sido salvas nos territórios atingidos. Consequentemente, a sociedade manteria as famílias que nunca puderam nascer nas décadas seguintes. Além disso, preservaríamos cientistas, artistas, professores e trabalhadores que não puderam produzir suas obras. Desta forma, a perda demográfica representa um futuro inteiro subtraído da civilização.

Albert Einstein

Quantas descobertas médicas, livros e invenções valiosas desapareceram juntamente com os mortos? Por exemplo, a perseguição sistemática a intelectuais judeus como Albert Einstein e Sigmund Freud alterou a ciência. Esse exílio forçado empobreceu drasticamente a vida cultural e científica da Europa Central. Até aquele momento, a região liderava o pensamento acadêmico e tecnológico mundial.

Paralelamente, deve-se considerar o imenso capital material consumido pelas batalhas. Entre 1914 e 1945, as economias da Europa e da Ásia queimaram recursos colossais na destruição. Por conseguinte, os valores gastos em armas poderiam financiar escolas, hospitais, ferrovias e pesquisas científicas. Mais tarde, a reconstrução do pós-guerra exigiu bilhões de dólares através do Plano Marshall. Tais investimentos serviram apenas para devolver ao continente a infraestrutura que ele já possuía antes. Portanto, um mundo sem os conflitos partiria de um patamar econômico muito mais elevado.

Os avanços tecnológicos das duas guerras mundiais e seus limites

Certos analistas argumentam que os confrontos aceleraram o desenvolvimento tecnológico global. De fato, o radar, a penicilina em massa e os motores a jato nasceram nesse período. Do mesmo modo, os computadores primordiais e a energia nuclear avançaram sob a pressão militar. No entanto, esse raciocínio histórico revela-se profundamente enganoso.

O fato de a guerra concentrar recursos não prova a impossibilidade desses avanços na paz. Ao contrário, indica apenas que as nações mobilizam recursos prioritariamente sob ameaça de destruição. Essa escolha representa uma tragédia social, jamais uma necessidade inevitável. Por exemplo, Alexander Fleming descobriu a penicilina em 1928, durante um período de paz. Da mesma forma, os estudos de física nuclear já avançavam nos laboratórios europeus antes das bombas. Portanto, a ciência alcançaria essas descobertas com um custo humano incomensuravelmente menor.

O novo mapa geopolítico gerado pelas duas guerras mundiais

Ademais, os confrontos redefiniram a ordem política global de formas que sentimos ainda hoje. O enfraquecimento das potências coloniais europeias acelerou a descolonização na África e na Ásia. Embora o fim do colonialismo fosse justo, a transição ocorreu de forma conturbada e apressada. Consequentemente, a divisão criou fronteiras artificiais que geram conflitos armados até os dias atuais.

Além disso, a divisão do território alemão e a corrida armamentista derivam desse período histórico. Da mesma maneira, a fundação do Estado de Israel ocorreu em meio ao trauma do Holocausto. Esse evento reorganizou a geopolítica e gerou desdobramentos duradouros no Oriente Médio. Inclusive, o arsenal nuclear existente hoje sobre a Terra permanece como herança direta dessa era.

Simultaneamente, o Brasil também sofreu os impactos dessas grandes conflagrações internacionais. O governo brasileiro enviou cerca de 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira para a Itália. Infelizmente, centenas desses combatentes nacionais não retornaram vivos ao país.

Por outro lado, o conflito trouxe transformações na estrutura econômica brasileira. A construção da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda resultou de acordos com os Aliados. Contudo, o Brasil permaneceu distante do epicentro da destruição física europeia. Por essa razão, cabe ao nosso povo preservar a memória histórica com responsabilidade cívica.

A lição histórica que o cenário alternativo nos deixa

Nenhum exercício de imaginação histórica recuperará as vidas perdidas nesses confrontos. Do mesmo modo, seria ingênuo crer que um mundo sem guerras estaria livre de desigualdades. Afinal, rivalidades imperiais, nacionalismos e tensões sociais já existiam antes do ano de 1914. Esses fatores poderiam encontrar outros canais de expressão, com desfechos mais ou menos graves.

No entanto, a análise contrafactual demonstra claramente que a catástrofe global não era inevitável. Ao contrário, o desastre resultou de decisões humanas, alianças rígidas, orgulho e omissão ante o extremismo. Portanto, aquilo que determinados líderes decidiram no passado poderia ter sido decidido de outra forma.

Em suma, essa é a verdadeira lição que devemos carregar para o presente. Atualmente, assistimos ao retorno de conflitos armados na Europa e ao aumento dos discursos de ódio. Diante disso, relembrar o custo das duas guerras mundiais torna-se um dever cívico fundamental. A paz não representa o estado natural e espontâneo das sociedades humanas. Ela constitui uma construção frágil que exige diplomacia, preservação da memória e vigilância constante. O século XX demonstrou com clareza o preço de esquecermos essa premissa.

O Estado como quintal: o preço de insistirmos num modelo viciado

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O patrimonialismo no Brasil e o conceito do Homem Cordial, formulado por Sérgio Buarque de Holanda em 1936, aliam-se ao corporativismo entranhado nas nossas instituições. Consequentemente, esses fatores transformaram a nossa república e o presidencialismo num sistema corroído por crises contínuas.

Portanto, existe aqui uma espécie de enfermidade hereditária, transmitida de governo para governo fruto da assimilação de uma cultura nefasta. De fato, são situações que transformam o aparelho do Estado num quintal para a satisfação de interesses privados. Diante disso, esses interesses nunca são públicos e jamais atendem ao bem comum. Em síntese, presenciamos a privatização do Estado por um sistema vicioso. Esse modelo resiste a todo remédio, inclusive àqueles recomendados pela Constituição de 1988. Por causa dessa estrutura, não surpreende que permaneçamos correndo em círculos. Ficamos entregues à sanha de vontades que corroem o Estado por dentro. Além disso, essas práticas distanciam-se do que deseja o cidadão comum, que é quem paga essa conta.

A herança do patrimonialismo no Brasil se recusa a morrer

Convém lembrar que o problema não nasceu ontem. Da mesma forma, a questão não pertence a um único partido, governante ou ideologia. Na verdade, essa tragédia vem da própria formação do Estado brasileiro. A Coroa portuguesa ergueu o país tratando o território e a administração como extensões do patrimônio do soberano. Naquela época, o mundo ocidental seguia os ditames do mercantilismo.

Mais tarde, o jurista e sociólogo Raymundo Faoro detalhou essa estrutura em sua obra clássica de 1958:

“O estamento burocrático se apropria da máquina pública e a conduz em benefício próprio, sobrevivendo a todas as mudanças de regime: da Colônia ao Império, do Império à República, da República Velha ao Estado Novo e à democracia de 1988. Trocam-se as vestes, permanecem os donos.” — Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder

Por sua vez, Sérgio Buarque de Holanda ofereceu a chave de leitura mais fina desse fenômeno. Segundo o autor, o “homem cordial” não representa uma pessoa bondosa. Pelo contrário, trata-se daquele que atua a partir do coração e das afinidades pessoais. Por essa razão, esse indivíduo enfrenta dificuldades para distinguir a esfera íntima da esfera pública. Para ele, o critério da regra impessoal cede sempre ao favor, ao parentesco e à lealdade pessoal. Como resultado, o Estado passa a conceber o cargo como benesse, a regra como obstáculo e o interesse coletivo como mera abstração.

O impacto do corporativismo no século XX

Ademais, o corporativismo somou-se a esse caldo cultural ao longo do século XX. A engenharia institucional herdada do varguismo organizou a sociedade em categorias tuteladas pelo Estado e deixou marcas profundas. Hoje, diversas corporações, de carreiras estatais a grupos econômicos organizados, operam a defesa de seus privilégios com extraordinária eficácia. Enquanto isso, o cidadão comum sem lobby nem gabinete paga a conta integralmente.

Por exemplo, levantamentos recentes de portais de transparência indicam que penduricalhos e verbas indenizatórias elevam os vencimentos de milhares de servidores acima do teto constitucional de R$ 44,0 mil. Assim, supersalários, benefícios fiscais sem avaliação de resultado e aposentadorias especiais tornaram-se sintomas de um mesmo mal: a captura do interesse geral por grupos de pressão.

O presidencialismo como correia de transmissão dos privilégios

Atualmente, o nosso presidencialismo de cooptação assenta-se exatamente nesse terreno viciado. O sistema combina eleições proporcionais, multipartidarismo fragmentado e um Executivo que necessita de maioria para governar. Por isso, essa fórmula produziu o arranjo que o cientista político Sérgio Abranches batizou de “presidencialismo de coalizão”. Em tese, a fórmula é legítima, pois toda democracia plural exige negociação. Contudo, na prática, a coalizão tem sido construída menos em torno de programas e mais na distribuição de cargos, verbas e vantagens.

Assim, cada novo governo descobre que a governabilidade possui um preço elevado. Esse preço é cobrado em ministérios, estatais, fundos e emendas parlamentares. Inclusive, a execução dessas emendas tornou-se obrigatória e pouco transparente nos últimos anos. De acordo com dados do Orçamento Geral da União, os recursos alocados via emendas parlamentares saltaram de cerca de R$ 10 bilhões em 2015 para mais de R$ 50 bilhões nos ciclos orçamentários recentes.

Episódios como o chamado orçamento secreto mostram até onde avança a privatização do orçamento. O Supremo Tribunal Federal considera esse mecanismo incompatível com a Carta Magna. No entanto, o instrumento ainda serve para ameaçar opositores políticos na prática. Trata-se de dinheiro público distribuído sem critério claro e sem rastreabilidade para o contribuinte. Quando o dinheiro de todos atende à conveniência de poucos, o Estado deixa de ser a casa comum e converte-se num feudo.

Por conseguinte, o conflito deixa de ser um debate sobre projetos de país nesse arranjo. Tudo se reduz a uma contabilidade mesquinha de favores. O Executivo cede para sobreviver e o Legislativo cobra para apoiar. Da mesma forma, as demais instituições aprendem a defender o seu quinhão. Desse modo, ninguém se sente responsável pelo conjunto, pois o conjunto não pertence a ninguém.

Os perigos de manter o patrimonialismo no Brasil

Seria um grande erro tratar esse quadro como mera inconveniência administrativa. Pelo contrário, manter esse modelo gera custos concretos e crescentes para o país.

1. Gargalo econômico

Em primeiro lugar, enfrentamos o custo econômico. Um Estado capturado mostra-se caro e ineficiente. A máquina pública gasta muito com a própria manutenção e destina poucos recursos para o saneamento, segurança, educação e saúde. Embora a carga tributária brasileira supere 33% do PIB, o retorno em serviços públicos permanece desproporcionalmente baixo. Além disso, investidores reagem com cautela diante de regras instáveis e privilégios concedidos aos detentores do poder. Consequentemente, o crescimento econômico fica aquém do potencial do país década após década. Trata-se do “correr em círculo”: muito movimento e nenhum avanço real.

2. Impacto na estrutura social

Em segundo lugar, destacamos o custo social. A privatização do aparelho estatal aprofunda a desigualdade social. Afinal, os privilégios concentram-se no topo da pirâmide entre os cidadãos com acesso aos corredores do poder. Por outro lado, os serviços públicos mais precários atendem justamente à população mais vulnerável. Um país que aplica a lei com rigor para uns e com flexibilidade para outros ensina uma lição perversa diária. A sociedade aprende que o mérito e o esforço valem menos do que a proximidade com os poderosos.

3. Risco político e moral

Em terceiro lugar, encaramos o perigo político e moral. A repetição contínua de crises, escândalos e acomodações gera um cinismo corrosivo. O cidadão que enxerga a política apenas como balcão de negócios passa a desconfiar da própria democracia. Portanto, esse desencanto torna-se terreno fértil para aventureiros e salvadores da pátria. Esses atores prometem romper com a corrupção sem oferecer instituições melhores. Na verdade, eles buscam apenas a concentração de poder pessoal enquanto repetem o modelo viciado. A história brasileira e a de países vizinhos provam que o remédio autoritário não cura a doença patrimonialista. Pelo contrário, o autoritarismo agrava o quadro ao trocar o quintal dividido por muitos pelo quintal de um só.

4. O custo do tempo perdido

Por fim, sofremos com o custo do tempo perdido. Desafios urgentes exigem políticas públicas de Estado de longo prazo, tais como:

  • A transição demográfica acelerada e o envelhecimento da população;
  • A crise climática global e a transição energética;
  • A revolução tecnológica da inteligência artificial;
  • A qualificação profissional da mão de obra nacional.

Países que enfrentam essas transformações com instituições sólidas avançam rapidamente. Por outro lado, as nações reféns de interesses imediatistas ficam para trás. Uma vez consolidado, esse atraso histórico torna-se extremamente difícil de reverter.

Romper o ciclo do patrimonialismo no Brasil exige escolhas estruturais

Felizmente, nada disso representa um destino inevitável. Nenhuma herança cultural permanece imutável para sempre. O Brasil já provou sua capacidade de aprovar reformas importantes quando houve mobilização social. Contudo, precisamos reconhecer que o ciclo não se rompe por voluntarismo moral ou simples troca de nomes no poder. O avanço exige mudanças estruturais profundas:

  1. Transparência radical no uso dos recursos públicos: Rastreabilidade plena de emendas, contratos e benefícios fiscais, aliada à avaliação periódica de resultados. O que não pode ser explicado ao cidadão não deve ser pago com o seu dinheiro.
  2. Profissionalização da administração pública: Critérios estritamente técnicos para a ocupação de cargos de confiança, definição de metas e fim dos penduricalhos que desfiguram o teto remuneratório.
  3. Reforma do sistema político: Redução da fragmentação partidária, fortalecimento da fidelidade programática e adequação do custo das campanhas eleitorais.
  4. Fortalecimento dos órgãos de controle: Garantia de independência funcional para que a fiscalização não dependa da boa vontade do fiscalizado.
  5. Engajamento da cidadania: Formação de uma sociedade que vigie e cobre ativamente seus representantes, deixando de tratar o favor como algo normal.

O Brasil não é refém do seu passado, mas continuará sendo enquanto fingir que ele não existe. Manter o patrimonialismo no Brasil e a estrutura corporativa atual significa aceitar que o Estado sirva a quem o ocupa, e não a quem o sustenta. Cada ciclo de crise encerrado sem reformas estruturais funciona apenas como o prólogo da próxima tragédia. A pergunta urgente para o país não é se podemos nos dar ao luxo de mudar, mas por quanto tempo mais suportaremos não mudar.

O trigo e o joio

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CIArce

A menos de duas semanas do primeiro turno de 4 de outubro, o Brasil chega às urnas carregando, ao mesmo tempo, dois dos maiores escândalos de corrupção e eleições de sua história recente. O caso do Banco Master e o esquema de descontos indevidos sobre aposentadorias do INSS não são episódios menores nem circunscritos.

Lama

Esses fatos atravessam partidos, atingem o entorno da Presidência da República e, o que é mais grave para a estabilidade institucional do país, colocam sob suspeita parte dos próprios ministros do Supremo Tribunal Federal. É difícil lembrar de um momento em que a política, o sistema financeiro, a Previdência e a mais alta corte do país tenham sido salpicados pelo mesmo tipo de lama, ao mesmo tempo, às vésperas de uma eleição presidencial.

VISTO, LIDO E OUVIDO

Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense
Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Os desdobramentos do Banco Master e o cenário político nacional

O Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025 após acumular dívidas próximas de R$ 40 bilhões, deixou de ser apenas um caso de insolvência bancária. O processo tornou-se sinônimo de uma crise sistêmica profunda.

Seu controlador, Daniel Vorcaro, foi preso duas vezes: a primeira quando tentava deixar o Brasil de jato particular, e a segunda em nova fase da Operação Compliance Zero. Atualmente, Vorcaro negocia uma delação premiada cujo alcance ainda permanece desconhecido.

O que já se sabe basta para inquietar a opinião pública. Reportagens apontam repasses mensais a Guido Mantega e milhões pagos ao escritório da família do ex-ministro Ricardo Lewandowski.

Investigação

Além disso, destaca-se um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, interrompido apenas quando o banco foi liquidado. A lista de citados atravessa todo o espectro político, de Michel Temer a Flávio Bolsonaro, que teria negociado dezenas de milhões com Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. A investigação chegou também ao Senado, com apurações da Polícia Federal sobre o então líder do governo na Casa, Jaques Wagner.

A Operação Sem Desconto e as fissuras institucionais no STF

Em paralelo, o esquema de descontos associativos indevidos sobre benefícios do INSS, que a Operação Sem Desconto apura desde 2024, voltou a ganhar força ao longo de 2026. Houve o indiciamento de um ex-procurador-geral do instituto, a quebra de sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva autorizada pelo relator da CPMI autorizada pelo relator da CPMI e delações que envolveram até um ex-ministro do Trabalho.

Fatos

Além disso, destaca-se um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, interrompido apenas quando o banco foi liquidado. A lista de citados atravessa todo o espectro político, de Michel Temer a Flávio Bolsonaro, que teria negociado dezenas de milhões com Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. A investigação chegou também ao Senado, com apurações da Polícia Federal sobre o então líder do governo na Casa, Jaques Wagner.

Contudo, o ritmo das apurações, ainda sem data de julgamento para Vorcaro e sem desfecho conclusivo para a CPMI do INSS, mostra que essa clareza dificilmente chegará a tempo.

A responsabilidade compartilhada entre os Poderes da República

Nesse cenário, é justo cobrar também a condução do governo federal. Volta e meia se repete a crítica de que o presidente Lula tem dedicado parcela desproporcional de seu terceiro mandato a atos de palanque e à manutenção de uma campanha praticamente permanente.

Para os críticos, esse estilo se sobrepõe à rotina mais discreta de administrar as contas públicas com o mesmo cuidado que qualquer chefe de família aplica ao próprio orçamento doméstico. Trata-se de uma crítica legítima e recorrente ao estilo presidencial, ainda que seja preciso reconhecer que ela expressa um julgamento sobre prioridades de governo, e não um fato apurado por órgãos de controle.

Mas seria simplista atribuir a crise institucional que o país atravessa apenas ao Palácio do Planalto. O Supremo Tribunal Federal, que deveria ser o fiador da legalidade nesse processo, viu-se ele próprio salpicado pelos dois escândalos, de forma direta ou indireta, por meio de familiares, ex-integrantes e decisões contraditórias entre ministros.

Desmoralização e perda paulatina de poder

Quando a mesma corte que investiga é também, em algum grau, investigada, o desgaste não fica restrito ao governo de plantão. Esse fator afeta a arquitetura inteira de freios e contrapesos sobre a qual se apoia a democracia brasileira.

Nesse sentido, é razoável dizer que a responsabilidade pela atual crise de credibilidade não pertence a um único Poder. O problema decorre de um entrelaçamento complexo entre política, mercado financeiro e Justiça, setores que se acostumaram, ao longo de décadas, a naturalizar zonas de influência mútua.

O direito ao voto informado e os custos ocultos da corrupção

Diante disso, cabe a pergunta que qualquer eleitor tem o direito de fazer antes de votar: quem, entre os nomes que disputam ou sustentam candidaturas em outubro, esteve de fato alheio a esses episódios, e quem apenas não foi, até agora, formalmente citado?

“A República do rabo preso”

Trabalhador partido

No caso do INSS, milhões de aposentados sofreram descontos associativos retirados de seus benefícios sem autorização válida, causando um dano concreto. Fato recorrente ao orçamento de famílias que já sentem, na ponta, os efeitos da desaceleração econômica. Corrupção, nesses dois casos traduz-se em dinheiro público mal cuidado, ausência de fiscalização e benefício previdenciário corroído. Vale lembrar que tudo isso às vésperas de um pleito que decidirá quem lidará com as consequências fiscais desses episódios pelos próximos anos.

A Polícia Federal, a CGU e a própria CPMI seguem na apuração de fatos, depoimentos e produzindo provas, num processo lento, imperfeito e sem muita esperança de conclusão integral às vésperas do pleito. A opinião pública, por sua vez, manifesta ceticismo quanto ao fim dessas apurações e à efetiva condenação dos réus, sobretudo das elites no poder.

Separar o trigo do joio, portanto, configura uma tarefa urgente que deveria caber prioritariamente à Justiça. Contudo, na prática institucional vigente, não há, de fato, a quem recorrer internamente.

A frase que foi pronunciada:

” Se o Banco Master foi criado no governo Bolsonaro, Vorcaro virou banqueiro no governo Bolsonaro e virou prisioneiro no governo Lula, porque aliados de Lula não querem investigação? Para favorecer Bolsonaro? “

Dona Dita acompanhando o noticiário

História de Brasília

A Câmara dos Deputados perdeu 75 minutos discutindo o projeto revogando a proibição contra lutas de galos. Pois bem. Depois disso, em 45 minutos aprovou 17 outros projetos, muitos dos quais de grande importância. ( Publicada em 26.05.1962)



A corrupção e o preço do pão  nosso de cada dia

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CIArce

Existe uma desconexão silenciosa no debate público brasileiro. De um lado, o preço da cenoura, do tomate, do leite e da carne sobe nos supermercados. Isso corrói o orçamento das famílias de menor renda e daqueles que dependem do Bolsa Família para colocar comida na mesa.Por outro lado, a corrupção é tratada como um assunto distante. Muitos a encaram como um tema abstrato, restrito à classe média escolarizada e à elite política.

Pragas

Contudo, falta ligar os dois fenômenos no debate nacional. A corrupção e o preço dos alimentos estão intimamente conectados. Afinal, os desvios não representam um problema paralelo ao custo de vida; eles funcionam como uma de suas principais causas estruturais.

"Entre os beneficiários do Bolsa Família, apenas 14% apontam a corrupção como o principal problema do país, contra 27% entre os não beneficiários."
— Pesquisa BTG Pactual/Nexus (setembro de 2026)

Os dados da percepção pública e a lógica da sobrevivência

Os números da pesquisa BTG Pactual/Nexus, divulgada em setembro de 2026, expõem essa desconexão com clareza. Entre quem ganha até um salário mínimo, o índice cai para 12%, um terço do registrado entre quem recebe mais de cinco salários mínimos (32%).

O recorte por escolaridade segue o mesmo padrão: 31% dos eleitores com ensino superior citam a corrupção como prioridade, contra 18% entre os que possuem apenas o ensino fundamental.

O próprio instituto associou o resultado a uma lógica de sobrevivência. Quem vive no aperto financeiro diário simplesmente não possui margem mental para conectar o preço do feijão à propina paga em uma licitação.

O impacto financeiro dos desvios públicos no PIB

Essa desconexão possui um custo econômico mensurável. Estudos convergem para uma conclusão alarmante: a corrupção drena entre 1,4% e 5% do Produto Interno Bruto brasileiro todos os anos.

  • Fiesp: Estimou o rombo entre R$ 41,5 bilhões e R$ 69 bilhões anuais (dados de base).
  • IBPT: Calculou um prejuízo de cerca de R$ 160 bilhões, equivalente a 8% de tudo o que o país produz.
  • ONU: Citada por juristas, chegou à cifra de R$ 200 bilhões por ano (entre 4% e 5% do PIB).

Esses montantes comprovam que uma fatia relevante da riqueza nacional é sistematicamente desviada de sua função original, prejudicando a saúde, a infraestrutura e a saneamento básico.

Como a corrupção e o preço dos alimentos se conectam na prática

Esse desvio de recursos pressiona os preços por caminhos bastante concretos. Obras superfaturadas encarecem a logística de transporte de alimentos, formando o chamado Custo Brasil.

Além disso, recursos destinados à fiscalização sanitária e ao crédito rural subsidiado sofrem desvios. Isso reduz a produtividade do campo e, por consequência, diminui a oferta de alimentos no mercado interno.

Por fim, o Estado perde receita para a corrupção. Para compensar essa diferença, o governo eleva a carga tributária sobre bens de consumo básico ou amplia o endividamento público. Essa dinâmica pressiona as taxas de juros e encarece o crédito para toda a cadeia produtiva, chegando ao consumidor final na etiqueta do supermercado.

O cenário internacional e a Transparência Internacional

A literatura global sobre desenvolvimento reforça esse elo. O Índice de Percepção da Corrupção, elaborado anualmente pela Transparência Internacional, revela uma correlação persistente entre baixa integridade institucional e baixo desenvolvimento humano.

O Brasil ocupa atualmente a 107ª posição entre 182 países avaliados. O país registrou nota 35 em uma escala de 0 a 100 — a segunda pior marca da série histórica iniciada em 2012. O índice brasileiro permanece abaixo da média global e da média das Américas, ambas situadas em 42 pontos.

"Onde a corrupção é elevada, a eficiência do gasto público cai, o investimento produtivo perde atratividade e o círculo se fecha contra o cidadão comum."
— Relatório da Transparência Internacional

A inflação de alimentos e os bolsões de pobreza

Enquanto a integridade institucional patina, a inflação de alimentos corrói o poder de compra das famílias vulneráveis. Em 2026, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou sucessivas altas puxadas pelo grupo de alimentação:

  • Cenoura: Acumulou alta de 80% nos primeiros quatro meses do ano.
  • Leite longa vida: Subiu 13,66% apenas no mês de abril.
  • Cebola: Registrou alta de 11,76%.
  • Tomate: Avançou 6,13%.

Trata-se de produtos essenciais, sem substitutos fáceis na dieta das classes populares. São justamente esses consumidores que mais sofrem as consequências sistêmicas da má gestão e dos desvios de recursos.

O papel da corrupção estrutural e a necessidade de informação

Casos recentes de macrocorrupção — como as investigações de desvios no INSS e os esquemas ligados ao Banco Master — expuseram falhas profundas no sistema financeiro. Cada real desviado nesses esquemas representa verbas que deixam de financiar o apoio à agricultura familiar ou a segurança alimentar.

É preciso reconhecer, contudo, que a inflação de alimentos também responde a fatores externos. Questões climáticas, entressafras, cotações internacionais de commodities e choques geopolíticos afetam os custos.

A corrupção não se isola como a única variável da equação. No entanto, ela atua como um imposto invisível sobre cada refeição, enfraquecendo a capacidade do Estado de amortecer crises.

Romper esse ciclo exige, acima de tudo, informação e educação cívica. Explicar a relação entre a corrupção e o preço dos alimentos com dados concretos é uma forma de justiça social. É preciso devolver às famílias de menor renda a certeza de que a luta contra a corrupção não é um luxo de elite, mas uma condição indispensável para garantir o sustento de todos.