Os números devastadores das duas guerras mundiais

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Existe um exercício incômodo, mas fundamental: imaginar o mundo atual caso 1914 e 1939 tivessem sido anos normais. A história não permite certezas absolutas sobre cenários não ocorridos. Por isso, qualquer hipótese alternativa representa uma especulação teórica. Contudo, a análise baseada em fatos concretos permite medir a dimensão exata da tragédia humana. Portanto, ao calcularmos os prejuízos das duas guerras mundiais, percebemos que os números desafiam a capacidade de imaginação.

“A humanidade precisa acabar com a guerra, antes que a guerra acabe com a humanidade.”

John F. Kennedy

VISTO, LIDO E OUVIDO Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense

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Tecnologia sem moral

Inicialmente, a Primeira Guerra Mundial provocou a morte de 9 a 10 milhões de militares. Além disso, o conflito deixou aproximadamente 20 milhões de feridos no campo de batalha. Igualmente, milhões de civis morreram devido à fome, deportações forçadas e epidemias graves. Nesse sentido, o confronto inaugurou a guerra industrial em nível global. Assim, metralhadoras, artilharia pesada e gases venenosos transformaram jovens em estatísticas frias. Consequentemente, uma geração inteira de europeus pereceu nas trincheiras continentais. O continente europeu, que se considerava o centro da civilização, descobriu que a tecnologia sem moral gera barbárie.

Posteriormente, a Segunda Guerra Mundial superou todo esse horror acumulado. Estima-se que entre 70 e 85 milhões de pessoas perderam a vida nesse período. Esse volume representava cerca de 3% da população global da época, sendo a maioria composta por civis. De fato, esse total inclui os 6 milhões de judeus assassinados no Holocausto nazista. Além disso, a contagem abrange os milhões de soviéticos e chineses mortos em combates, cercos e massacres.

“O século XX já nos mostrou, com cerca de 100 milhões de mortos, o que acontece quando esquecemos a diplomacia.”

Eric Hobsbawm

Do mesmo modo, centenas de milhares de vítimas morreram nas explosões atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Ademais, cidades inteiras como Varsóvia, Dresden, Stalingrado e Nanquim viraram ruínas completas. Diante disso, a humanidade desenvolveu pela primeira vez os instrumentos necessários para a própria aniquilação.

Um cenário sem a eclosão da guerra em 1914

Caso o conflito de 1914 não ocorresse, os impérios europeus poderiam ter resistido por mais tempo. Contudo, essas estruturas políticas passariam por transformações graduais indispensáveis. Os impérios Austro-Húngaro, Otomano e Russo enfrentavam severas tensões internas organizacionais. Assim, é plausível imaginar reformas institucionais progressivas em vez do colapso violento registrado na história.

Sem o desgaste militar, a Revolução Russa de 1917 talvez não acontecesse daquela maneira específica. Afinal, as perdas no conflito desestabilizaram criticamente o regime do czar. Portanto, sem esse evento, a União Soviética não surgiria no cenário europeu. Consequentemente, a Guerra Fria perderia seu principal ponto de origem geopolítica.

Ademais, o Tratado de Versalhes jamais existiria para humilhar a Alemanha com sanções financeiras pesadas. Muitos historiadores apontam esse acordo como o gerador do ressentimento alemão. Igualmente, o tratado impulsionou a hiperinflação de 1923 e desestabilizou a República de Weimar. Por fim, esse cenário facilitou a ascensão de Adolf Hitler ao poder continental. Deste modo, compreende-se que a Segunda Guerra nasceu diretamente dos desdobramentos do primeiro conflito. Logo, evitar a primeira grande guerra significaria, muito provavelmente, evitar ambas as tragédias.

O que o planeta teria preservado sem os conflitos de 1939

Por outro lado, vale analisar tudo o que a humanidade teria preservado sem o confronto. Dezenas de milhões de vidas teriam sido salvas nos territórios atingidos. Consequentemente, a sociedade manteria as famílias que nunca puderam nascer nas décadas seguintes. Além disso, preservaríamos cientistas, artistas, professores e trabalhadores que não puderam produzir suas obras. Desta forma, a perda demográfica representa um futuro inteiro subtraído da civilização.

Albert Einstein

Quantas descobertas médicas, livros e invenções valiosas desapareceram juntamente com os mortos? Por exemplo, a perseguição sistemática a intelectuais judeus como Albert Einstein e Sigmund Freud alterou a ciência. Esse exílio forçado empobreceu drasticamente a vida cultural e científica da Europa Central. Até aquele momento, a região liderava o pensamento acadêmico e tecnológico mundial.

Paralelamente, deve-se considerar o imenso capital material consumido pelas batalhas. Entre 1914 e 1945, as economias da Europa e da Ásia queimaram recursos colossais na destruição. Por conseguinte, os valores gastos em armas poderiam financiar escolas, hospitais, ferrovias e pesquisas científicas. Mais tarde, a reconstrução do pós-guerra exigiu bilhões de dólares através do Plano Marshall. Tais investimentos serviram apenas para devolver ao continente a infraestrutura que ele já possuía antes. Portanto, um mundo sem os conflitos partiria de um patamar econômico muito mais elevado.

Os avanços tecnológicos das duas guerras mundiais e seus limites

Certos analistas argumentam que os confrontos aceleraram o desenvolvimento tecnológico global. De fato, o radar, a penicilina em massa e os motores a jato nasceram nesse período. Do mesmo modo, os computadores primordiais e a energia nuclear avançaram sob a pressão militar. No entanto, esse raciocínio histórico revela-se profundamente enganoso.

O fato de a guerra concentrar recursos não prova a impossibilidade desses avanços na paz. Ao contrário, indica apenas que as nações mobilizam recursos prioritariamente sob ameaça de destruição. Essa escolha representa uma tragédia social, jamais uma necessidade inevitável. Por exemplo, Alexander Fleming descobriu a penicilina em 1928, durante um período de paz. Da mesma forma, os estudos de física nuclear já avançavam nos laboratórios europeus antes das bombas. Portanto, a ciência alcançaria essas descobertas com um custo humano incomensuravelmente menor.

O novo mapa geopolítico gerado pelas duas guerras mundiais

Ademais, os confrontos redefiniram a ordem política global de formas que sentimos ainda hoje. O enfraquecimento das potências coloniais europeias acelerou a descolonização na África e na Ásia. Embora o fim do colonialismo fosse justo, a transição ocorreu de forma conturbada e apressada. Consequentemente, a divisão criou fronteiras artificiais que geram conflitos armados até os dias atuais.

Além disso, a divisão do território alemão e a corrida armamentista derivam desse período histórico. Da mesma maneira, a fundação do Estado de Israel ocorreu em meio ao trauma do Holocausto. Esse evento reorganizou a geopolítica e gerou desdobramentos duradouros no Oriente Médio. Inclusive, o arsenal nuclear existente hoje sobre a Terra permanece como herança direta dessa era.

Simultaneamente, o Brasil também sofreu os impactos dessas grandes conflagrações internacionais. O governo brasileiro enviou cerca de 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira para a Itália. Infelizmente, centenas desses combatentes nacionais não retornaram vivos ao país.

Por outro lado, o conflito trouxe transformações na estrutura econômica brasileira. A construção da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda resultou de acordos com os Aliados. Contudo, o Brasil permaneceu distante do epicentro da destruição física europeia. Por essa razão, cabe ao nosso povo preservar a memória histórica com responsabilidade cívica.

A lição histórica que o cenário alternativo nos deixa

Nenhum exercício de imaginação histórica recuperará as vidas perdidas nesses confrontos. Do mesmo modo, seria ingênuo crer que um mundo sem guerras estaria livre de desigualdades. Afinal, rivalidades imperiais, nacionalismos e tensões sociais já existiam antes do ano de 1914. Esses fatores poderiam encontrar outros canais de expressão, com desfechos mais ou menos graves.

No entanto, a análise contrafactual demonstra claramente que a catástrofe global não era inevitável. Ao contrário, o desastre resultou de decisões humanas, alianças rígidas, orgulho e omissão ante o extremismo. Portanto, aquilo que determinados líderes decidiram no passado poderia ter sido decidido de outra forma.

Em suma, essa é a verdadeira lição que devemos carregar para o presente. Atualmente, assistimos ao retorno de conflitos armados na Europa e ao aumento dos discursos de ódio. Diante disso, relembrar o custo das duas guerras mundiais torna-se um dever cívico fundamental. A paz não representa o estado natural e espontâneo das sociedades humanas. Ela constitui uma construção frágil que exige diplomacia, preservação da memória e vigilância constante. O século XX demonstrou com clareza o preço de esquecermos essa premissa.

A conta alta que chega em janeiro de 2027

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Os desafios econômicos do Brasil em 2027 mostram-se extremamente complexos. O segundo turno de 25 de outubro opõe duas visões de país. Contudo, essa disputa coloca o vencedor diante de um mesmo problema fiscal. O Brasil chega a 2027 com inflação acima da meta. Além disso, os juros seguem entre os mais altos do mundo. A dívida pública mantém trajetória ascendente. Por conseguinte, existe um espaço político muito estreito para corrigir esses desequilíbrios.

O primeiro turno antecipou esse cenário de divisão. Flávio Bolsonaro (PL) somou 47,03% dos votos válidos. Por outro lado, Lula (PT) alcançou 45,16%. Portanto, o eleitorado mostrou-se dividido quase ao meio. Essa divisão antecipa um governo sem folga de capital político, independentemente do resultado. Se o eleito for de direita, o mercado esperará ajuste e reformas. No entanto, o eleitor exigirá a manutenção dos benefícios. Conciliar essas duas expectativas será o desafio central.

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O cálculo fiscal e os desafios econômicos do Brasil em 2027

O governo federal opera com déficit primário projetado em torno de 0,5% do PIB em 2026. Esse dado consta nos relatórios oficiais do Boletim Focus do Banco Central. Paralelamente, a dívida líquida do setor público deve passar de cerca de 70% do PIB neste ano para aproximadamente 79% em 2029. Além disso, a dívida bruta caminha para a casa dos 90%. Vale lembrar que essa é a métrica observada pelas agências de risco.

O arcabouço fiscal em vigor limita o crescimento real da despesa. Contudo, a norma depende de arrecadação crescente para ser cumprida. Dessa forma, boa parte do mercado duvida do alcance das metas dos próximos anos sem receitas extraordinárias. O novo presidente herda, portanto, uma decisão incômoda. Ele precisará perseguir o equilíbrio por meio de cortes politicamente custosos. Caso contrário, aceitará a deterioração e pagará o preço em prêmio de risco.

Juros altos e o peso da dívida pública

Esse movimento marcou o quinto corte consecutivo. A taxa Selic caiu para 13,75% ao ano em setembro. Apesar disso, a taxa permanece em patamar fortemente restritivo. Por conseguinte, o resultado nominal tem déficit próximo de 8,5% do PIB. É exatamente aí que a dívida cresce, pois o cálculo inclui os juros.

Cada ponto percentual de juros a mais encarece o serviço da dívida em dezenas de bilhões de reais por ano. A queda dos juros é o maior alívio fiscal disponível. No entanto, essa redução não se decreta por canetada. Ela depende de credibilidade no mercado. Se um governo sinalizar frouxidão nas contas, ele verá o efeito oposto. Nesse caso, a curva futura se afastará do desejado.

Inflação e a autonomia do Banco Central

As projeções para o IPCA de 2026 estão em torno de 5%. Esse valor fica acima do teto de tolerância da meta de 3%. Além disso, o Banco Central projeta inflação acima do centro da meta no horizonte relevante.

Um presidente eleito será tentado a pressionar por cortes mais rápidos de juros. Afinal, qualquer governante busca destravar o crescimento econômico. O respeito à autonomia da autoridade monetária será um teste de maturidade. Esse teste ocorrerá mesmo quando as decisões atrapalharem o calendário político. Afinal, interferir na instituição garante dólar mais caro e inflação mais persistente. Para um governo de direita, esse teste é ainda mais simbólico, pois ele se apresenta como fiador da ortodoxia.

Como superar os gargalos orçamentários nos desafios econômicos do Brasil em 2027

Orçamento rígido e promessas generosas

A maior parte da despesa federal é obrigatória. Esse grupo inclui Previdência, benefícios assistenciais, pessoal e pisos constitucionais de saúde e educação. Além disso, existe a vinculação do salário mínimo a diversos gastos. Somam-se a isso as emendas parlamentares impositivas. Essas emendas reduziram a margem de manobra do Executivo.

Há também a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Essa medida já está em vigor e é popular demais para ser revertida. Contudo, sua compensação depende de tributação mínima sobre rendas mais altas. Prometer redução de impostos, manutenção de programas sociais e ajuste fiscal ao mesmo tempo é aritmeticamente inviável. Portanto, o eleito terá de escolher o que será sacrificado. A conta do eleitor, em geral, chega muito depressa.

Governabilidade e o papel do Congresso Nacional

Qualquer agenda econômica passa necessariamente pelo Legislativo. O Congresso eleito em outubro tende a ser fragmentado e protagonista do Orçamento. Um presidente de direita poderá contar com uma bancada afinada em pautas liberais. Essas pautas incluem privatizações e desburocratização. No entanto, o apoio do Centrão costuma ter preço em cargos e emendas.

A tensão política é bastante conhecida no Brasília. A base que ajuda a aprovar reformas é a mesma que pressiona por gastos. Sem uma coalizão sólida, as reformas administrativa e previdenciária dificilmente avançam. Afinal, essas são as matérias mais difíceis no Parlamento.

Crescimento medíocre e produtividade estagnada

O mercado projeta expansão do PIB em torno de 1,9% em 2026. Esse ritmo esconde um problema estrutural do país. O crescimento potencial brasileiro é baixo, o mercado de trabalho está aquecido e a produtividade avança pouco. Com o desemprego em patamares reduzidos, qualquer estímulo de demanda converte-se em inflação. Ou seja, o estímulo não vira produção real.

A saída exige obrigatoriamente ganhos de oferta. Isso significa investimento em infraestrutura, melhora do ambiente de negócios e segurança jurídica para concessões. Além disso, exige qualificação da mão de obra. No entanto, essa é uma agenda de longo prazo que não rende dividendos eleitorais em quatro anos.

O cenário internacional e a estrutura fiscal de 2027

Reformas em transição e o impacto tributário

A reforma tributária sobre o consumo já foi aprovada. Porém, sua implementação se estenderá por anos. Esse processo trará regulamentações, conflitos federativos e riscos de aumento da complexidade. O próximo presidente terá de conduzir essa transição sem desfigurá-la.

Além disso, ele precisará enfrentar o que ficou de fora da proposta original. Isso inclui a tributação da renda e do patrimônio, além da reforma administrativa. Também exige a revisão de subsídios e renúncias fiscais. Afinal, esses benefícios consomem parcela relevante da arrecadação e raramente sofrem cortes.

Cenário externo, câmbio e geopolítica

O dólar projetado perto de R$ 5,20 depende de fatores externos e internos. Ele reflete a percepção de risco fiscal e o ciclo de juros americano. Além disso, as tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos afetam as projeções. A disputa tecnológica entre Washington e Pequim também gera impactos. Paralelamente, a dependência do agronegócio em relação à China exige uma diplomacia comercial pragmática.

Afinidade ideológica com Washington não garante concessões automáticas. Inclusive, um alinhamento automático pode custar mercados valiosos. A ratificação do acordo Mercosul-União Europeia e a reputação ambiental do país também pesam bastante. Especialmente após a COP30, esses fatores definirão o acesso a mercados e capital.

Famílias endividadas e o crédito caro

O crédito caro e o comprometimento da renda com dívidas reduzem o consumo. Por conseguinte, esses fatores aumentam a taxa de inadimplência. Medidas de renegociação parecem tentadoras para qualquer governo. Contudo, se forem mal desenhadas, elas estimulam novo endividamento e pressionam bancos públicos. Trata-se de um problema complexo que combina economia, política social e risco fiscal.

Previdência, estatais e as escolhas do novo governante

Previdência, indexação e gastos sociais

A pressão demográfica atua de forma lenta, porém implacável. O envelhecimento da população eleva despesas com aposentadorias e com o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Além disso, a regra de reajuste do salário mínimo transmite cada aumento a toda a folha de benefícios.

A reforma de 2019 comprou tempo, mas não resolveu o problema estrutural. Por isso, discutir a desindexação de benefícios ou rever pisos constitucionais é um tabu em ano eleitoral. Um presidente de direita precisará dizer com franqueza onde pretende cortar. Ele precisará agir sem atingir os mais pobres, que formam parte de sua base eleitoral. Programas como o Bolsa Família dificilmente serão desmontados. Portanto, a questão central é definir quem os financiará e com qual critério.

Estatais, preços administrados e investimentos

A política de preços de combustíveis e energia é fonte recorrente de atrito. O mesmo ocorre com a governança da Petrobras e o papel dos bancos públicos. Privatizar pode reduzir a pressão fiscal e atrair capital estrangeiro. No entanto, processos mal conduzidos geram contestação judicial e perda de valor.

Ao mesmo tempo, o investimento público encontra-se comprimido pelo custeio. Por essa razão, a infraestrutura depende de concessões e parcerias com o setor privado. Todavia, essas parcerias só aparecem quando há previsibilidade regulatória. A direita costuma prometer destravar o investimento privado. Para cumpri-la, ela precisará oferecer regras estáveis e respeitá-las no longo prazo

Dilemas do mandato e o que esperar de 2027

O dilema próprio da direita no poder

Um governo de direita enfrenta uma contradição que a campanha raramente admite. O discurso de redução de impostos colide com a necessidade de manter programas populares. Além disso, enfrenta o apetite do Centrão por recursos e a rigidez dos gastos obrigatórios.

Há também o risco de buscar resultados por atalhos. Esses atalhos incluem renúncias fiscais, créditos subsidiados ou pressão sobre estatais. Tais medidas desmontariam a credibilidade conquistada com o mercado. Por fim, existe a dimensão política. O capital eleitoral de um líder polarizador pode dificultar acordos no Congresso. Isso ocorre no momento em que as reformas exigem ampla interlocução.

Confiança, classificação de risco e fluxo de capital

O Brasil segue abaixo do grau de investimento na maioria das agências de risco. Por isso, o custo de financiamento do Tesouro reflete essa percepção negativa. Os primeiros sinais do presidente eleito serão lidos em tempo real pelos investidores. Essa leitura começará pela escolha da equipe econômica.

Nomes respeitados e um desenho fiscal crível podem reduzir o prêmio de risco. Por outro lado, ruídos ou interferências em instituições técnicas produzem o efeito inverso. A janela entre a eleição e a posse é o período em que a incerteza cobra seu preço no câmbio e nos juros futuros.

Custo de vida e poder de compra da população

Por trás dos indicadores agregados está o orçamento doméstico. Alimentos, aluguéis, serviços e tarifas pesam mais para quem ganha menos. Por conseguinte, o eleitor cobra do governo aquilo que sente no supermercado. Ele não julga o governo pelos relatórios do Banco Central.

Políticas de contenção de preços por meio de tabelamentos ou controle artificial aliviam apenas no curto prazo. Contudo, elas cobram uma conta alta no médio prazo. Essa conta vem na forma de déficits maiores ou represamento de tarifas. O presidente que resistir a esse atalho enfrentará impopularidade antes de colher resultados. Trata-se de um custo que poucos governantes aceitam pagar.

O que esperar do futuro econômico do país

O próximo presidente não terá lua de mel com o eleitorado. A janela de legitimidade, de poucos meses, deverá ser usada com extrema clareza. Ele precisará anunciar a âncora fiscal, definir a relação com o Banco Central e apresentar um calendário de reformas.

Um governo de direita que honre a responsabilidade fiscal poderá colher queda de juros e valorização do real. Contudo, se ceder à tentação de gastar para agradar o eleitor, repetirá erros históricos. Em ambos os casos, o país já não tem margem para adiar suas escolhas.

O trigo e o joio

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CIArce

A menos de duas semanas do primeiro turno de 4 de outubro, o Brasil chega às urnas carregando, ao mesmo tempo, dois dos maiores escândalos de corrupção e eleições de sua história recente. O caso do Banco Master e o esquema de descontos indevidos sobre aposentadorias do INSS não são episódios menores nem circunscritos.

Lama

Esses fatos atravessam partidos, atingem o entorno da Presidência da República e, o que é mais grave para a estabilidade institucional do país, colocam sob suspeita parte dos próprios ministros do Supremo Tribunal Federal. É difícil lembrar de um momento em que a política, o sistema financeiro, a Previdência e a mais alta corte do país tenham sido salpicados pelo mesmo tipo de lama, ao mesmo tempo, às vésperas de uma eleição presidencial.

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Os desdobramentos do Banco Master e o cenário político nacional

O Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025 após acumular dívidas próximas de R$ 40 bilhões, deixou de ser apenas um caso de insolvência bancária. O processo tornou-se sinônimo de uma crise sistêmica profunda.

Seu controlador, Daniel Vorcaro, foi preso duas vezes: a primeira quando tentava deixar o Brasil de jato particular, e a segunda em nova fase da Operação Compliance Zero. Atualmente, Vorcaro negocia uma delação premiada cujo alcance ainda permanece desconhecido.

O que já se sabe basta para inquietar a opinião pública. Reportagens apontam repasses mensais a Guido Mantega e milhões pagos ao escritório da família do ex-ministro Ricardo Lewandowski.

Investigação

Além disso, destaca-se um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, interrompido apenas quando o banco foi liquidado. A lista de citados atravessa todo o espectro político, de Michel Temer a Flávio Bolsonaro, que teria negociado dezenas de milhões com Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. A investigação chegou também ao Senado, com apurações da Polícia Federal sobre o então líder do governo na Casa, Jaques Wagner.

A Operação Sem Desconto e as fissuras institucionais no STF

Em paralelo, o esquema de descontos associativos indevidos sobre benefícios do INSS, que a Operação Sem Desconto apura desde 2024, voltou a ganhar força ao longo de 2026. Houve o indiciamento de um ex-procurador-geral do instituto, a quebra de sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva autorizada pelo relator da CPMI autorizada pelo relator da CPMI e delações que envolveram até um ex-ministro do Trabalho.

Fatos

Além disso, destaca-se um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, interrompido apenas quando o banco foi liquidado. A lista de citados atravessa todo o espectro político, de Michel Temer a Flávio Bolsonaro, que teria negociado dezenas de milhões com Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. A investigação chegou também ao Senado, com apurações da Polícia Federal sobre o então líder do governo na Casa, Jaques Wagner.

Contudo, o ritmo das apurações, ainda sem data de julgamento para Vorcaro e sem desfecho conclusivo para a CPMI do INSS, mostra que essa clareza dificilmente chegará a tempo.

A responsabilidade compartilhada entre os Poderes da República

Nesse cenário, é justo cobrar também a condução do governo federal. Volta e meia se repete a crítica de que o presidente Lula tem dedicado parcela desproporcional de seu terceiro mandato a atos de palanque e à manutenção de uma campanha praticamente permanente.

Para os críticos, esse estilo se sobrepõe à rotina mais discreta de administrar as contas públicas com o mesmo cuidado que qualquer chefe de família aplica ao próprio orçamento doméstico. Trata-se de uma crítica legítima e recorrente ao estilo presidencial, ainda que seja preciso reconhecer que ela expressa um julgamento sobre prioridades de governo, e não um fato apurado por órgãos de controle.

Mas seria simplista atribuir a crise institucional que o país atravessa apenas ao Palácio do Planalto. O Supremo Tribunal Federal, que deveria ser o fiador da legalidade nesse processo, viu-se ele próprio salpicado pelos dois escândalos, de forma direta ou indireta, por meio de familiares, ex-integrantes e decisões contraditórias entre ministros.

Desmoralização e perda paulatina de poder

Quando a mesma corte que investiga é também, em algum grau, investigada, o desgaste não fica restrito ao governo de plantão. Esse fator afeta a arquitetura inteira de freios e contrapesos sobre a qual se apoia a democracia brasileira.

Nesse sentido, é razoável dizer que a responsabilidade pela atual crise de credibilidade não pertence a um único Poder. O problema decorre de um entrelaçamento complexo entre política, mercado financeiro e Justiça, setores que se acostumaram, ao longo de décadas, a naturalizar zonas de influência mútua.

O direito ao voto informado e os custos ocultos da corrupção

Diante disso, cabe a pergunta que qualquer eleitor tem o direito de fazer antes de votar: quem, entre os nomes que disputam ou sustentam candidaturas em outubro, esteve de fato alheio a esses episódios, e quem apenas não foi, até agora, formalmente citado?

“A República do rabo preso”

Trabalhador partido

No caso do INSS, milhões de aposentados sofreram descontos associativos retirados de seus benefícios sem autorização válida, causando um dano concreto. Fato recorrente ao orçamento de famílias que já sentem, na ponta, os efeitos da desaceleração econômica. Corrupção, nesses dois casos traduz-se em dinheiro público mal cuidado, ausência de fiscalização e benefício previdenciário corroído. Vale lembrar que tudo isso às vésperas de um pleito que decidirá quem lidará com as consequências fiscais desses episódios pelos próximos anos.

A Polícia Federal, a CGU e a própria CPMI seguem na apuração de fatos, depoimentos e produzindo provas, num processo lento, imperfeito e sem muita esperança de conclusão integral às vésperas do pleito. A opinião pública, por sua vez, manifesta ceticismo quanto ao fim dessas apurações e à efetiva condenação dos réus, sobretudo das elites no poder.

Separar o trigo do joio, portanto, configura uma tarefa urgente que deveria caber prioritariamente à Justiça. Contudo, na prática institucional vigente, não há, de fato, a quem recorrer internamente.

A frase que foi pronunciada:

” Se o Banco Master foi criado no governo Bolsonaro, Vorcaro virou banqueiro no governo Bolsonaro e virou prisioneiro no governo Lula, porque aliados de Lula não querem investigação? Para favorecer Bolsonaro? “

Dona Dita acompanhando o noticiário

História de Brasília

A Câmara dos Deputados perdeu 75 minutos discutindo o projeto revogando a proibição contra lutas de galos. Pois bem. Depois disso, em 45 minutos aprovou 17 outros projetos, muitos dos quais de grande importância. ( Publicada em 26.05.1962)



A corrupção e o preço do pão  nosso de cada dia

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CIArce

Existe uma desconexão silenciosa no debate público brasileiro. De um lado, o preço da cenoura, do tomate, do leite e da carne sobe nos supermercados. Isso corrói o orçamento das famílias de menor renda e daqueles que dependem do Bolsa Família para colocar comida na mesa.Por outro lado, a corrupção é tratada como um assunto distante. Muitos a encaram como um tema abstrato, restrito à classe média escolarizada e à elite política.

Pragas

Contudo, falta ligar os dois fenômenos no debate nacional. A corrupção e o preço dos alimentos estão intimamente conectados. Afinal, os desvios não representam um problema paralelo ao custo de vida; eles funcionam como uma de suas principais causas estruturais.

"Entre os beneficiários do Bolsa Família, apenas 14% apontam a corrupção como o principal problema do país, contra 27% entre os não beneficiários."
— Pesquisa BTG Pactual/Nexus (setembro de 2026)

Os dados da percepção pública e a lógica da sobrevivência

Os números da pesquisa BTG Pactual/Nexus, divulgada em setembro de 2026, expõem essa desconexão com clareza. Entre quem ganha até um salário mínimo, o índice cai para 12%, um terço do registrado entre quem recebe mais de cinco salários mínimos (32%).

O recorte por escolaridade segue o mesmo padrão: 31% dos eleitores com ensino superior citam a corrupção como prioridade, contra 18% entre os que possuem apenas o ensino fundamental.

O próprio instituto associou o resultado a uma lógica de sobrevivência. Quem vive no aperto financeiro diário simplesmente não possui margem mental para conectar o preço do feijão à propina paga em uma licitação.

O impacto financeiro dos desvios públicos no PIB

Essa desconexão possui um custo econômico mensurável. Estudos convergem para uma conclusão alarmante: a corrupção drena entre 1,4% e 5% do Produto Interno Bruto brasileiro todos os anos.

  • Fiesp: Estimou o rombo entre R$ 41,5 bilhões e R$ 69 bilhões anuais (dados de base).
  • IBPT: Calculou um prejuízo de cerca de R$ 160 bilhões, equivalente a 8% de tudo o que o país produz.
  • ONU: Citada por juristas, chegou à cifra de R$ 200 bilhões por ano (entre 4% e 5% do PIB).

Esses montantes comprovam que uma fatia relevante da riqueza nacional é sistematicamente desviada de sua função original, prejudicando a saúde, a infraestrutura e a saneamento básico.

Como a corrupção e o preço dos alimentos se conectam na prática

Esse desvio de recursos pressiona os preços por caminhos bastante concretos. Obras superfaturadas encarecem a logística de transporte de alimentos, formando o chamado Custo Brasil.

Além disso, recursos destinados à fiscalização sanitária e ao crédito rural subsidiado sofrem desvios. Isso reduz a produtividade do campo e, por consequência, diminui a oferta de alimentos no mercado interno.

Por fim, o Estado perde receita para a corrupção. Para compensar essa diferença, o governo eleva a carga tributária sobre bens de consumo básico ou amplia o endividamento público. Essa dinâmica pressiona as taxas de juros e encarece o crédito para toda a cadeia produtiva, chegando ao consumidor final na etiqueta do supermercado.

O cenário internacional e a Transparência Internacional

A literatura global sobre desenvolvimento reforça esse elo. O Índice de Percepção da Corrupção, elaborado anualmente pela Transparência Internacional, revela uma correlação persistente entre baixa integridade institucional e baixo desenvolvimento humano.

O Brasil ocupa atualmente a 107ª posição entre 182 países avaliados. O país registrou nota 35 em uma escala de 0 a 100 — a segunda pior marca da série histórica iniciada em 2012. O índice brasileiro permanece abaixo da média global e da média das Américas, ambas situadas em 42 pontos.

"Onde a corrupção é elevada, a eficiência do gasto público cai, o investimento produtivo perde atratividade e o círculo se fecha contra o cidadão comum."
— Relatório da Transparência Internacional

A inflação de alimentos e os bolsões de pobreza

Enquanto a integridade institucional patina, a inflação de alimentos corrói o poder de compra das famílias vulneráveis. Em 2026, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou sucessivas altas puxadas pelo grupo de alimentação:

  • Cenoura: Acumulou alta de 80% nos primeiros quatro meses do ano.
  • Leite longa vida: Subiu 13,66% apenas no mês de abril.
  • Cebola: Registrou alta de 11,76%.
  • Tomate: Avançou 6,13%.

Trata-se de produtos essenciais, sem substitutos fáceis na dieta das classes populares. São justamente esses consumidores que mais sofrem as consequências sistêmicas da má gestão e dos desvios de recursos.

O papel da corrupção estrutural e a necessidade de informação

Casos recentes de macrocorrupção — como as investigações de desvios no INSS e os esquemas ligados ao Banco Master — expuseram falhas profundas no sistema financeiro. Cada real desviado nesses esquemas representa verbas que deixam de financiar o apoio à agricultura familiar ou a segurança alimentar.

É preciso reconhecer, contudo, que a inflação de alimentos também responde a fatores externos. Questões climáticas, entressafras, cotações internacionais de commodities e choques geopolíticos afetam os custos.

A corrupção não se isola como a única variável da equação. No entanto, ela atua como um imposto invisível sobre cada refeição, enfraquecendo a capacidade do Estado de amortecer crises.

Romper esse ciclo exige, acima de tudo, informação e educação cívica. Explicar a relação entre a corrupção e o preço dos alimentos com dados concretos é uma forma de justiça social. É preciso devolver às famílias de menor renda a certeza de que a luta contra a corrupção não é um luxo de elite, mas uma condição indispensável para garantir o sustento de todos.