E Bolsonaro não desce do palanque

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A campanha eleitoral de 2022 ao Palácio do Planalto começou há cinco meses, desde que Jair Bolsonaro assumiu o comando da República. E o maior responsável por isso é o próprio capitão reformado. O homem não desceu do palanque – e, ao mesmo tempo, estimula aliados e filhos a manterem o clima eleitoral. Enquanto o país ainda mostra dificuldades em sair da imensa crise que se meteu – e isso está longe da cota de culpa do presidente, pelo menos por ora – , a entourage governista faz espuma na tentativa de manter a chama da divisão política acesa.

E aqui vai o primeiro dos problemas. Quando joga para a torcida, Bolsonaro não amplia a força política, basta ver as últimas pesquisas. É que, por mais que existam campos polarizados, o eleitor do centro é maioria. É aquele que observa a partida para além das disputas partidárias, esperando apenas que a vida melhore, que o desemprego caia e que o poder de consumo de serviços e bens aumente. Esse cidadão votou no PT no passado e apoiou Bolsonaro em 2108 apenas na esperança de melhorar na vida, sem se importar com disputas no Congresso ou cores partidárias. Ao que tudo indica é neste grupo que mais Bolsonaro perde apoiadores, por mais que tenha conseguido encher as ruas domingo retrasado com correligionários-raiz.

O segundo problema – existem outros, mas fiquemos com dois apenas – é que políticos que apoiaram Bolsonaro por estratégia eleitoral avançam com legitimidade contra a turma mais radical do bolsonarisno. É o caso, por exemplo, do governador de São Paulo, João Doria (PSDB). É preciso registrar que o tucano foi cuidadoso ao longo da entrevista concedida ao Correio na última sexta-feira. Defendeu a aprovação da reforma da Previdência e tentou se distanciar das controvérsias com o governo Bolsonaro. Ao ser questionado sobre o pior inimigo do Planalto, Doria foi direto: “O maior inimigo do governo Bolsonaro são os aliados de Bolsonaro, aqueles que produzem tanta confusão, tantos confrontos desnecessários”, disse.

Os aliados de Bolsonaro, considerando os filhos, a trupe adoidada de ministros e um guru desbocado nos Estados Unidos, são o pior do governo. Imaturos, conseguem produzir fumaça suficiente para anular os aspectos positivos da equipe ministerial, um caso lembrado por Doria, inclusive, que se trata do chefe da pasta de Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas. “(Esses ‘aliados’) afastam o governo do foco primordial, que é a reforma da Previdência, estabelecem uma pauta negativa que não é a verdadeira do presidente Bolsonaro, de uma relação distante e conflituosa com o Legislativo e com o Judiciário.”

Doria, como se sabe, é candidatíssimo do PSDB para a disputa pelo Planalto em 2022. O que Bolsonaro e os aliados adoidados fazem é antecipar a largada da disputa. O único que perde é o presidente.

Livro I

Mércio Gomes, professor de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lança na próxima quarta (5), o livro Brasil Inevitável (editora Topbooks). A obra analisa, a partir da ótica do acadêmico, o comportamento do brasileiro hoje e no passado. O texto de Gomes debate com os principais intérpretes desse país complexo, entre eles, Gilberto Freyre, Sergio Buarque, Darcy Ribeiro e Vilém Flusser. O lançamento será no restaurante Carpe Diem, a partir das 19h.

Livro II

No próximo dia 13 será lançado In spite of you – Bolsonaro and The New Brazilian Resistence (OR Books, 172 págs.), no Centro Avançado Multidisciplinares da Universidade de Brasília (Ceam-UnB). Editado por Conor Foley, o livro apresenta artigos de Dilma Rousseff, Fernando Haddad, Eugênio Aragão, Márcia Tiburi e mais 11 autores, o livro análise os mais recentes episódios da política Brasília a partir do olhar dos opositores ao governo Bolsonaro.

O principal relato é o da ex-presidente petista – Dilma estará no evento na UnB -, que acusa a elite financeira em conjunto com segmentos do Judiciário e da mídia em mentir para a população, o que resultou no impeachment. Até aí, o artigo faz parte da narrativa estabelecida pelo PT há pelo menos três anos. A dificuldade de Dilma é buscar em algum momento uma análise crítica dos próprios mandatos, o que poderia levar o leitor a avançar na complexidade de erros e acertos dos mandatos petistas. Sem isso, o texto da ex-presidente prega para convertidos.

O artigo de Haddad, ao contrário, é mais propositivo, onde o ex-prefeito parece de fato preocupado em analisar as eleições a partir de um perspectiva mais ampla. “Uma importante lição que podemos tirar da nossa campanha eleitoral é a necessidade de a esquerda ir além de suas próprias fileiras”, escreve Haddad. “Devemos estar constantemente atentos aos perigos do ‘sectarismo de esquerda’ e rejeitar esse dogmatismo estreito. As pessoas não precisam concordar conosco em tudo para trabalhar conosco em torno do que concordamos.”

O livro será lançado também em Londres e Nova York ainda neste mês.

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