Flamengo não conseguiu ir para o vestiário durante a confusão em São Januário. Foto: Gilvan de Souza/Flamengo
Flamengo não conseguiu ir para o vestiário durante a confusão em São Januário. Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

Violência nos estádios já matou nove torcedores em 2017. Cinco deles em clássicos estaduais

Publicado em Esporte

Nove torcedores morreram dentro ou fora dos estádios em 2017 no futebol brasileiro. Cinco deles em clássicos. Os dados são do professor e sociólogo Mauricio Murad, da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), no Rio de Janeiro. Especializado e com livros publicados sobre o tema, Murad  contabiliza, desde 2012, o número de óbitos causados por violência nas arenas do país. Neste ano, cinco mortes foram em clássicos. A última vítima é Davi Rocha, 27, com um tiro no tórax durante  a confusão generalizada em São Januário, no sábado, após a derrota do Vasco para o Flamengo por 1 x 0.

“É um dado preocupante. Estamos apenas no sétimo mês do ano e na 12ª rodada do Campeonato Brasileiro, uma competição em que as rivalidades são mais agudas e o número de óbitos é maior”, avalia o professor Mauricio Murad em entrevista por telefone, ao blog. Entre 85% e 95% das mortes são fora dos estádios. O restante, dentro”, explica. No ano inteiro de 2016, houve 13 mortes. Em 2017, já são 9.

As mortes em clássicos viraram rotina neste ano. Em 13 de fevereiro, Diego Silva dos Santos, 28, torcedor do Botafogo, foi morto por um flamenguista com espeto de churrasco a caminho do Estádio Nilton Santos antes do clássico pela Taça Guanabara, o primeiro turno do Campeonato Carioca. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) apontou que Diego morreu de hemorragia interna e externa e que ele foi ferido por um objeto perfurante, um espeto de churrasco segundo a investigação da polícia.

Em 9 de abril, o torcedor do Bahia Carlos Henrique Santos de Deus, 18, morreu após deixar a Arena Fonte Nova depois do clássico entre Bahia e Vitória pelo Campeonato Baiano. Além de Carlos Henrique, um outro torcedor foi baleado ao deixar o estádio, mas resistiu.

Há três semanas, houve morte antes do clássico entre Vila Nova e Goiás, pela Série B do Campeonato Brasileiro. Davi Ícaro Silva foi baleado na nuca a caminho do Serra Dourada. O torcedor do Goiás estava em uma moto, quando o motorista de um carro emparelhou e disparou vários tiros. Dentro do estádio também houve briga entre torcedores dos dois clubes. Na semana passada, o STJD puniu os dois clubes com a perda de cinco mandos de campo, obrigação de jogar a 200km do Serra Dourada e multa de R$ 50 mil.

Em 20 de fevereiro, Leonardo Henrique Brandão, 17, torcedor do Coritiba, foi morto antes do clássico entre Coritiba e Atlético-PR, na Arena da Baixada. A Polícia Militar assumiu a culpa da tragédia. O autor do tiro, um sargento da PM, contou que foi colocar a submetralhadora  na cinta que segura a arma e um tiro foi disparado. Ele foi afastado das funções.

Segundo o professor, sociólogo e autor do livro A violência no futebol: novas pesquisas, novas ideias e novas propostas, a quantidade de mortes nos estádios diminuiu de 2012 para 2017, mas a crueldade aumentou. “Há mortes por foice e enxada. Outras causadas por atropelamento, com uma van lotada. No Arruda (no Recife), recentemente, houve o caso de vasos sanitários arremessados. Sem contar o torcedor do Botafogo, que foi morto com um espetinho de churrasco antes do clássico contra o Flamengo. Diminuiu o número, mas aumentou a crueldade”, disse nesta segunda-feira ao blog.

Mauricio Murad também atribui a queda quantitativa no número de mortes ao período da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos do Rio-2016, que também recebeu jogos de futebol. “Havia um processo para garantir mais segurança, mas aumentou a perversidade, o método da violência, a letalidade”, lamenta Murad, que coordena a pesquisa na Universidade Salgado de Oliveira. A instituição de ensino superior só contabiliza óbitos documentados, com inquérito policial. Por isso, o ranking da Universo registra, por exemplo, mortes em investigação.

 

Ranking da morte dentro e/ou fora dos estádios no Brasil

  • 2012: 23
  • 2013: 30
  • 2014: 20 + 2 em investigação
  • 2015: 16 + 1 em investigação
  • 2016: 13 + 4 em investigação
  • 2017: 9

Fonte: Professor Mauricio Murado, Mestrado da Universidade Salgado de Oliveira (Universo)