Manifestações pela paz

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Severino Francisco

Quando explodiu a guerra, assisti a vários comentaristas dizerem que as sanções não atingiriam a Rússia, pois Putin era um gênio da estratégia, tinha amealhado uma reserva da ordem de 600 bilhões de dólares e não sentiria o impacto das medidas. Bem, mesmo sem ser um estudioso em relações internacionais, os argumentos não me convenceram.

Putin é racional, mas, como qualquer déspota, ele pode ter se empolgado e extrapolado. Qualquer que seja o resultado militar, Putin já é o grande perdedor da guerra. No melhor cenário para ele, se ganhar, se ocupar a Ucrânia ou se obrigá-la a renunciar à entrada para a Otan, a iniciativa insensata da invasão foi desastrada e ele pagará um alto preço político e econômico. Ele precisará da adesão dos ucranianos para anexar o país e não conseguirá depois do morticínio covarde que ordenou.

Ao pedir negociação, negar o ataque e, no outro dia, invadir a Ucrânia, Putin perdeu a credibilidade. Como é que algum país vai negociar qualquer coisa com a Rússia, a partir de agora, enquanto Putin for o Tzar, com qual segurança?

Putin tem como obsessão restituir a grandeza histórica da  Rússia dos tempos do império ou da União Soviética, no entanto, a ação açodada de invasão da Ucrânia, na verdade, transformará a Rússia em uma Venezuela, uma pária global. Diferentemente do que se dizia, as sanções contra a Rússia surtiram efeito imediato.

A retirada estratégica do sistema financeiro global e o congelamento de parte das reservas depositadas em bancos da Europa e dos Estados Unidos provocaram um abalo na economia russa logo no primeiro dia. O rublo está derretendo, os russos se aglomeram nas filas para sacar dinheiro nos bancos, os juros subiram, os oligarcas entraram em pânico. Ninguém pode prever o que acontecerá quando desencadeia uma guerra, mesmo que seja um estrategista maquiavélico.

Para mim, o fato mais alentador, em meio à tragédia humanitária, foi o ensaio de um rechaço mundial em favor da paz. É significativo que a maior manifestação tenha ocorrido na  Alemanha, onde o trauma da Segunda Guerra Mundial está muito vivo na memória. Em Berlim, foram mais de 100 mil pessoas, mas as manifestações se espalharam por Tchecoslováquia, França, Israel, Coreia do Sul, Dinamarca, Tailândia e por 32 cidades da Rússia.

Na Rússia, apesar de todo cerceamento, elas foram registradas e o mundo inteiro viu a polícia de Putin reprimir, com truculência, jovens e idosos que protestavam pacificamente contra a barbárie da guerra e eram arrastados, da maneira mais covarde, por uma horda de agentes. A imprensa russa está proibida de usar as palavras “invasão” e “guerra”; o correto é “operação especial”. Como acreditar nos relatos do governo russo sobre o ataque à Ucrânia?

A guerra é uma declaração de falência da civilização e deve ser evitada de todas as maneiras. Não tem santos nesta história, mas a invasão de um país é inaceitável. Que os governantes e os diplomatas entrem em campo e resolvam as questões geopolíticas de segurança conversando e negociando. A maioria dos povos de todas as nações do mundo não quer guerra. Espero que essa onda de manifestações antibélicas se espraie por todo o mundo.

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