Entrevista com o Judá

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Severino Francisco

Enquanto o mundo explode, a sala de minha casa virou ciclovia, palco de teatro, pista de skate e sala de videoaula. Meus dois netos, Aurora, de 7 anos, e Judá, de 3, vieram morar com a gente durante a crise sanitária. Toda criança é uma manifestação divina. A inocência deles compõe um contraste pungente com a tragédia da pandemia. Aurora é personagem da coluna. Mas, agora, resolvi juntar várias coisas que o Judá fala para uma entrevista. Ele representa todas as crianças confinadas. Fala, garoto!

Como é o seu nome?

Judá de Lavor Sobrera.

Qual é a sua cor preferida?

Azul, ué!

E esta história de empilhar duas cadeiras para pegar iogurte na geladeira? Você é malandro?

Não, eu sou o Judá.

Então, você é marrento?

Não, eu sou um lindo.

A sua mãe é bacana?

Sim, é bacana e não é uma bruxa.

Pode soltar a sua avó, eu vi primeiro.

Eu é que vi primeiro.

Por que você faz tanta bagunça na casa?

Bagunçar é que é arrumar.

Você é um anarquista?

Não, eu sou o Judá.

Você é meu amigão?

Não, eu não sou seu amigão.

Mas, então, quando você me pedir um sorvete escondido de sua mãe, eu não vou te dar.

Tá bem, eu sou seu amigão.

Que pose é esta que você está fazendo?

Os homens descansam assim na cama.

Você gosta de histórias de contos de fadas?

Tem meninos na história?

Não, nessa só tem princesas…

Quer saber? Tô “foia”.

Diga “tô fora…”

Tô “foia”. Você não me ama.

Amo sim. Quem ama corrige, ensina, educa e impõe limites.

Conta outra história.

Está bem, vou contar outra história: era uma vez a Pepa …

E fim!!!

Como assim?

Essa história não funcionou.

Você é muito independente?

Sim, eu sou poderoso.

Você gosta muito da sua mãe e da sua irmã?

Sim, não tenho espada, mas defendo a irmã e a mãe.

O que está comendo pra ficar tão forte?

Cheetos.

E o que mais?

Balinha.

O que você conversa com o céu de Brasília?

Ei, você aí, está me ouvindo? Ei, está me ouvindo?

Severino

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