Severino Francisco
Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro… Estamos em contagem regressiva dramática para a estreia do Brasil na Copa do Mundo contra Marrocos. É um suspense de matar o Hitchcock, diria Moreira da Silva. Que me desculpem os entendidos, mas entrarei novamente em campo para dar as minhas caneladas.
Eu vi alguns comentaristas criticando o Ancelotti por não ter um time completo às vésperas da estreia. Nada a ver. Muitos campeões do mundo só conseguiram armar um time no meio da competição. Garrincha e Pelé eram reservas nos dois primeiros jogos, na Copa de 1958, a primeira ganha pelo Brasil. Só entraram no terceiro jogo, contra a União Soviética, para não saírem mais.
Na campanha vitoriosa de 2002, Felipão arrumou o meio de campo do Brasil, com a entrada de Kleberson, tornando a defesa mais sólida, no decorrer da competição, nas quartas de final. O mesmo ocorreu com a Argentina na última Copa do Mundo em 2022, quando sagrou-se campeã. Então, esse não é o problema.
Com Vinicius Jr., Raphinha e Luiz Henrique, o Brasil tem um dos melhores ataques das últimas quatro Copas. Na de 2014, era Neymar, Fred e Hulk; na de 2018, era Neymar, Gabriel Jesus e Phillipe Coutinho; em 2022, era Neymar, Richarlison e Vinicius Jr. Só não temos um maestro para comandar e ditar o ritmo do jogo no meio de campo, como tivemos Didi, Gérson Canhotinha, Toninho Cerezo e Falcão.
Em 1994 e em 2002, ganhamos a Copa sem termos um craque no meio de campo, mas contávamos com dois excelentes laterais para ajudar na armação das jogadas, Jorginho e Branco e, em seguida, Cafu e Roberto Carlos. Além disso, nossos atacantes Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho também armavam. Agora, não temos laterais dessa categoria. Na Copa de 2018, o Brasil tomou um baile da Bélgica por causa de Kevin De Browine. E, contra a Croácia, o craque Modric não deixou o meio de campo do Brasil ver a cor da bola.
Claro que Ancelotti sabe de tudo isso muito mais do que nós torcedores mortais. Tanto que em jogo recente do Brasil contra a Croácia, o nosso técnico brincou com Modric: “Será que você não tem um avô brasileiro?” Os técnicos brasileiros precisam investir nos meio-campistas. Ainda bem que Ancelloti desistiu de quatro atacantes e, ao menos, povoou o meio de campo com Casemiro, Bruno Guimarães e Paquetá.
Nossos jogadores de meio de campo são muito bons, são titulares em grandes times da Premiere League, mas não temos um craque naquele setor para fazer a diferença. Nossos laterais são sofríveis, perdemos Wesley, que era o melhor. Então, nunca senti a estreia tão imprevisível em uma Copa como essa. Estou na posição de Ary Barroso, flamenguista doente, que, ao narrar os jogos do time de coração, quando o Vasco atacava, ele confessava ao microfone: “Ih, nem quero ver, nem quero ver…”
Porém, a graça do futebol é que acontecem muitas coisas imprevisíveis em uma partida. E que os deuses joguem seus dados. Torço para que as minhas análises e previsões estejam completamente erradas. Que vença o melhor, mas se o Brasil perder, isso não vai ficar assim. Vamos acampar em frente à sede da Fifa, pedir intervenção militar, fiscalização no código-fonte, gol auditável e VAR impresso.
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