Claudio Valentinetti

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Severino Francisco

Tudo ficava mais agitado, barulhento, dramático, divertido e polêmico quando Claudio Valentinetti chegava. Não me lembro como ficamos amigos, mas sei que desde o primeiro instante, ele passou a me chamar de “cangaceiro” e, eu, a ele, de “possesso” porque sempre tinha uma diatribe engatilhada na ponta da língua. Ele nos deixou na segunda-feira aos 76 anos, depois de enfrentar diabetes, vulnerabilidades no pulmão e problemas na coluna.

Valentinetti era um brilhante crítico de cinema e tradutor. É autor de Glauber – Um olhar europeu, um dos melhores livros sobre o cineasta baiano. O fato de ser sobrinho da arquiteta Lina Bo Bardi não é fortuito. Lina, uma das líderes da revolucionária universidade da Bahia, dirigida pelo reitor Edgar Santos, apresentou o cineasta baiano a Valentinetti nas visitas à família em Milão: “um rapaz com os cabelos cacheados, de olhar ardente e aveludado, como o de uma onça, poeta e jornalista, animador cultural (que palavra feia!) e catalisador de toda uma geração”, como lembra Valentinetti no livro sobre Glauber.

Se Glauber influiu em Lina, ela também influenciou Glauber. Lina não era uma arquiteta convencional. Em 1958, A ópera dos vinténs, de Berthold Bretch, em montagem de Martim Gonçalves, seria apresentada no Teatro Castro Alves, em Salvador. Ocorre que o teatro pegou fogo. Mas, durante a reconstrução, em uma atitude de arrojo, Lina criou o cenário dos destroços e a peça foi encenada em cima das ruínas. Com certeza, experiências como essa impactaram Glauber.

O contato com a obra de Glauber abriu as portas para conhecimento do cinema brasileiro. Para Valentinetti, o Cinema Novo foi, “entre as correntes cinematográficas que se desenvolveram durante os anos 1960, talvez a mais viva, a mais interessante”. Mas Valentinetti escreveu também obras importantes sobre Orson Welles, Eduardo Coutinho, Othon Bastos, Joaquim Pedro Andrade e Rita Hayworth. Além disso, traduziu para o italiano Gabriel García Marquez, Jorge Amado, Carlos Fuentes, Fernando Savater, Fernando Pessoa, entre outros.

De maneira semelhante à tia Lina Bo Bardi, Valentinetti se abrasileirou, sem deixar de ser italiano. A indignação contra as injustiças sociais, o obscurantismo político e a mediocridade cultural era seu estado natural. Valentinetti tinha quatro traços inconfundíveis: a inteligência cintilante, o anarquismo, a afetuosidade e certo mau-humor sempre bem-humorado, que não poupava a ninguém, nem a si mesmo. Era um humanista, da cabeça aos sapatos.

Valentinetti tinha uma visão de mundo completamente marcada pelo cinema. Durante o velório, no Campo da Esperança, apareceu Humphrey Bogart, em carne e osso, quer dizer, Ariel, o garçon do Dom Giovanni, no Lago Sul, restaurante preferido de Valentinetti. Lá, conheceu o poeta e jornalista piauiense Paulo José Cunha, que teve de aprender rudimentos de italiano para conviver com a turma. Valentinetti e Paulo ideavam escrever uma biografia de Vladimir Carvalho.

A saúde de Valentinetti ficou instável nos últimos dois anos e a companheira Erika foi uma guerreira e uma anja da guarda no amparo em momento tão dramático. Durante análise, perguntaram   porque havia se apaixonado por Valentinetti e ela não soube responder na hora. No entanto, em casa, chegou à conclusão de que ele era o homem que idealizava: bonito, inteligente, culto e irreverente.

Ele era uma pessoa preciosa, que fará muita falta. Que o Don Giovanni crie, com urgência, a pizza Valentinetti.

PS: Fui informado de que a pizza Claudio já existe no Don Giovanni e é a mais requisitada.

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