Severino Francisco
A pandemia do Coronavírus estabeleceu uma cultura do confinamento e deixou a muitos em casa mais tempo. Então, uma boa alternativa foi entregar-se à leitura de livros. Uma das leituras que me marcaram durante esse período foi a de As coisas mais belas do mundo, de Valter Hugo Mãe (Biblioteca Azul). Hugo é um dos mais importantes escritores de língua portuguesa vivo.
Ele tem o dom de dizer as palavras essenciais para cada momento. Costuma repetir que é desajeitado para escrever narrativas dirigidas às crianças. Bem, ele pode ser desajeitado no sentido gauche de Carlos Drummond de Andrade ou excêntrico de Clarice Lispector.
Mas, esse traço não o desqualifica; pelo contrário, o eleva em humanidade. É o que vemos em As coisas mais belas do mundo, livrinho escrito para crianças, mas, como ocorre com toda obra literária de qualidade, rico em encanto e sabedoria para pessoas de qualquer idade.
O próprio Valter registra em uma nota que a narrativa evoca e celebra a sua relação com o avô materno, Antônio Alves. Sempre lhe pedia que explicasse as coisas mais complexas: “Eu soube sempre que meu mundo era afetivo. Quer dizer, o que eu sabia era sobretudo gostar de alguém. Era o que o meu avô valorizava em mim, o empenho colocado em gostar de alguém. Toda a sabedoria devia resultar na pura capacidade de amar e cuidar de alguém”.
Na ficção, o garoto narrador apresenta o avô como um detetive de interiores, que inspecionava os sentimentos: “Quando perguntei porquê, ele respondeu que só assim se fala verdadeiramente da felicidade. Para estudar o coração das pessoas é preciso um cuidado cirúrgico”. O avô tinha cuidado para evitar que ele se desiludisse: “Quem se desilude morre por dentro. Dizia: é urgente viver encantado. O encanto é a única cura possível para a inevitável tristeza”.
No entanto, a questão mais importante que permeia o diálogo entre o garoto e o avô é a beleza. Certo dia, o avô lhe pergunta: quais são as coisas mais belas do mundo? E o garoto imagina muitas possibilidades: dos filhotes de cão aos gatos, passando pelo verão, o comportamento dos cristais, os lobos ou as nuvens vistas do avião: “Pensei que as mais belas coisas do mundo haveriam de ser as amarelas e as vermelhas”.
Todavia, o avô desconversa e propõe outra questão em forma de pergunta: “Ele sorriu e quis saber se não haviam de ser a amizade, o amor, a honestidade e a generosidade, o ser-se-fiel, educado, o ter-se respeito por cada pessoa. Ponderou se o mais belo do mundo não seria fazer-se o que se sabe e pode para que a vida de todos seja melhor”.
Ao fim, percebemos que o interlocutor do garoto é uma espécie de filósofo disfarçado de avô. É como se um Sócrates mais afetuoso se reencarnasse para um diálogo com uma criança: “Explicava que aprender é mudar de conduta, fazer melhor. Quem sabe melhor e continua a cometer o mesmo erro não aprendeu nada, apenas acedeu à informação. Ele pensava que dispomos de informação suficiente para termos uma conduta mais cuidada. Elogiava insistentemente o cuidado”.
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