Severino Francisco
A maneira como a gente torce por um clube é uma das coisas mais misteriosas que existem. Tudo começa em um lance do acaso e se transforma em um estilo, um modo de sentir, de ver e de viver a vida. Passei a torcer para o Corinthians nos tempos em que morei em São Paulo, de 1966 a 1970, quando o time ficou sem ganhar um título 22 anos.
Os donos dos botecos afixavam nas tabuletas: “Fiado, só quando o Corinthians for campeão”. E eis um claro enigma do Coringão: neste ínterim, a torcida do Corinthians só cresceu de maneira avassaladora.
Corinthians é amor incondicional, é paixão desmedida, é loucura. Eu tenho a impressão de que, se conhecesse o Timão, o poeta Maiakóvski seria um corinthiano doente: “Comigo a anatomia enlouqueceu/Eu sou todo coração”, proclamou o poeta. Só um corintiano ensandecido e febril poderia escrever um verso como esse.
Ultimamente, evito assistir a jogos do Corinthians porque a sofrência é tamanha que torna-se quase insuportável. E, agora, a diretoria do clube acrescentou um elemento dramático: contratou o técnico Fernando Diniz, conhecido por incentivar os comandados a saírem jogando, perigosamente, da baliza do goleiro corinthiano Hugo Souza, em meio a uma selva de botinadas dos jogadores inimigos.
Diniz dirigiu o Corinthians em nove jogos e, em nenhum deles, houve nenhuma saída temerária da turma de zaga do Timão. Eu pensei: Diniz tomou juízo. Que nada, no jogo de domingo, contra o São Paulo, o meio-campista Ranieri recebeu a bola de Hugo Souza na pequena área, errou a passada para a esquerda, tentou dar um passe e colocou a bola nos pés do atacante adversário, que fuzilou nas redes corinthianas, empatando um jogo que estava totalmente dominado pelo Coringão.
É verdade que o Corinthians virou o jogo e ganhou de 3×2. Fez de tudo para perder, no entanto, felizmente, não conseguiu. Apesar da vitória, aquela jogada desastrosa está rodando em videotape em minha cabeça. E me fez lembrar do craque Gérson, o Canhotinha de Ouro, regente do meio de campo do Brasil na conquista do Tricampeonato em 1970 no México.
Na Copa de 1966, Gérson e uma geração de outros jogadores brilhantes, Tostão, Jairzinho e Edu sucumbiram em meio à bagunça da CBF, que convocou quatro times. Mas, na Copa de 1970, Gérson foi um leão. Defendeu, atacou e deu passes de 30 e 40 metros, com a bola girando no alto e caindo, milimetricamente, no peito de Pelé e Jairzinho, cara a cara com o goleiro.
Gérson foi um dos mais talentosos meio-campistas do futebol brasileiro e mundial. Quando ele recebia passes de virada pelo alto, a matada de bola no peito valia o ingresso. A bola vinha torta, era amortecida e morria lentamente na ponta da chuteira. Com toda essa classe, ao perceber que a bola rondava, perigosamente, a área do Brasil, ele não pensava duas vezes, dava um bico para fora do estádio, sem o mínimo pudor.
A Copa do Mundo de 2026 entrou em contagem regressiva. Só faltam 30 dias. Causa-me calafrios pensar que, em algum momento, os beques brasileiros adotem o dinizismo e entreguem o jogo de bandeja para os alemães, os espanhóis ou os franceses. Espero que se lembrem do craque Gérson nestas circunstâncias e deem um bico para fora do estádio de ganhar um leitão. Como diria, Ary Barroso, flamenguista doente, ao narrar os jogos do rubro-negro: nem quero ver, nem quero ver…

