Brinde ao Beiras

Publicado em Crônicas

 

Severino Francisco

 

 

Na quinta-feira, à noite, dei uma passada na 109 Sul para sentir o clima do Beirute, que celebrou 60 anos. O Beiras estava lotado, fervilhava com gente de várias gerações, todos tinham uma história com o bar que se tornou uma das esquinas de Brasília. São histórias de celebração, de encontros e desencontros. Muitas dessas histórias estão registradas na exposição organizada pelo Cedoc do Correio (Cilene, Chiquinho e Mauro). Elas mostram como o Beirute esteve presente nos momentos mais importantes da vida de Brasília.

As matérias captam tão bem o espírito do bar porque foram escritas por jornalistas que eram fregueses do Beiras. Eram beirutianos que sentaram para tomar um porre, para conversar sobre as peças de teatro, para assistir a um jogo da Copa do Mundo de Futebol, para namorar, para conversar com os amigos ou para fazer tudo isso ao mesmo tempo. O Beirute é o bar mais democrático da cidade e boa parte da história cultural de Brasília passou por lá. Todos os estereótipos sobre Brasília (pessoas frias, gente que não conversa, lugar em que não se esbarra em gente) se dissipam no Beirute.

Frequentei muito o Beiras nas décadas de 1970 e 1980, mas, depois me mudei para longe e o acesso ficou mais difícil. Evocarei algumas histórias desse tempo. Nos anos 1970 e 1980, Brasília era pequena e, depois dos espetáculos de teatro ou shows, os artistas em trânsito pela cidade iam fatalmente ao bar. Havia uma mística de bar dos artistas. Lá, não eram tietados ou assediados para autógrafos. Era possível sentar em uma mesa e conversar com Caetano Veloso, Itamar Assumpção, Jards Macalé, Fernanda Montenegro ou a turma do Asdrubal Trouxe o Trombone.

O bar acolhe bem a brasilienses de todas as tribos e repele qualquer tentativa de estigma. O presidente Lula era um dos frequentadores nos primeiros tempos nos quais morou em Brasília. O roqueiro Renato Russo batia o ponto na mesa número 58, na qual compôs várias canções. Lá, ele conheceu o grupo Liga Tripa, que promovia arrastões musicais, convidando as pessoas a fazerem serenatas pelas superquadras. E, mais tarde, Renato gravaria com a Legião Urbana, a canção Nossa Senhora do Eixão, de Nonato Veras e Nicolas Behr.

O gosto regional dos brasilienses está na origem de vários pratos famosos do Beirute, muitas vezes inventados em cima da hora para atender os clientes. Assim, nasceu o kibe com recheio de queijo para os mineiros. O pessoal de Goiânia pediu e foi atendido em colocar ovo em cima.

Samuel Citrinovski, o Samuca, um dos autores da famosa marchinha do Pacotão (Geisel, você nos atolou/E Figueiredo também vai nos atolar/Aiatolá, venha nos salvar/Esse governo já ficou gagá,Geisel…”) virou nome de um prato. Nas comemorações dos 40 anos do Beiras, Samuca veio de São Paulo especialmente para celebrar a data e pediu um filé, com batata, queijo e ervilha. Virou o prato do Samuca.

Nos anos 1980, o meu amigo José Damata apresentou várias mostras do Cinema Voador no Beirute. Damata é uma mistura de Cancão de Fogo com Zé do Telhado, heróis picarescos do cordel que dão nó até em pingo d’água. Costumava “matar” verbalmente figuras ilustres. Dizia: “Estou arrasado, Chico Buarque morreu”. Em tempos nos quais não havia internet, era um deus-nos-acuda para desfazer a versão falaciosa.

Certa vez, dirigiu a pontaria para o jornalista Fernando Lemos, na época, editor-executivo do Correio. No outro dia, o bem-humorado Fernando Lemos ligou para Damata e quis saber a repercussão de sua morte no Beirute: “Metade ficou triste, metade adorou”, respondeu o gaiato Damata.

Vizinha do Beirute, na quinta-feira, a editora do site do Correio Mariana Niederauer chegou com as filhas Laura (4 anos), escanchada no colo, e Alice (6 anos), segurada em uma mão. Fiquei preocupado com as meninas naquele ambiente tumultuado da festa dos 60 anos do Beiras, mas Mariana me dissuadiu ao perguntar para Laura qual era o restaurante preferido na cidade: “Beirute”, cravou Laura, tímida, mas sem titubear.

 

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