Paulo Andrade

Publicado em Crônicas

 

Severino Francisco

 

 

O artista plástico Paulo de Andrade, que nos deixou neste fim de semana, morava na 312 Norte e havia um antropólogo da Funai no quinto andar. Certa noite, abriu o elevador e encontrou dois índios, com pinturas no corpo, armados de borduna, arco e flecha. Não falavam nada, provavelmente não dominavam a língua portuguesa.

Paulinho perguntou se iriam à casa do antropólogo e pelos olhares entendeu que sim. Apertou o número do andar e seguiram. Eles ficaram olhando para o infinito da porta do elevador e foram embora quando a porta abriu.

Naqueles 20 segundos, Paulinho teve uma iluminação sobre a síntese que Brasília representa entre modernidade e ancestralidade brasileiras. Por isso, decidiu fazer a série de gravuras O eterno retorno – Uma leitura de Nietzsche no Planalto Central. Animadas por cores vibrantes, as imagens projetam índios fortes e altivos, índios do Xingu, com os corpos tatuados de pinturas. Parecem estampas pops concebidas por Andy Warhol.

Em uma das gravuras, um grupo de índios homens forma uma fila na faixa central da Esplanada dos Ministérios no meio dos carros em movimento. Em outra, mulheres índias jogam futebol em frente ao Palácio da Alvorada. Em uma terceira, brincam na área externa do Museu da República. A série traduz uma visão de solidariedade e encantamento de parte da juventude brasiliense pelos índios na década de 1980.

A série nasceu de um trabalho de colagens com cartões-postais. Como a cidade era muito vazia, Paulinho e vários amigos começaram uma brincadeira de ocupar a cidade com imagens recortadas. Daí surgiu a ideia de situar os índios dentro dos espaços arquitetônicos modernistas de Brasília. Recentemente, ele atualizou a série com novas intervenções e versões.

Paulinho esteve em Brasília, pela primeira vez, em 1969. A sensação era de que era a última trincheira da ditadura a cair. No entanto, mesmo assim, ele voltou e ficou. Descobriu uma outra cidade completamente distinta da que concebera.

Não havia mar, mas ela tinha um céu maravilhoso e um espaço aberto a voos da imaginação. Logo, fez amigos e, nos anos 1980, participou do movimento Cabeças, de ocupação cultural da cidade e de criação de uma linguagem brasiliense nas artes visuais: “Brasília é a cidade que me deu régua e compasso”, afirma Paulinho em entrevista ao Correio, concedida a repórter Vanessa Aquino: “A gente faz amigos de uma maneira diferente de outros lugares. Nunca me senti sozinho aqui”.

Paulo morreu no último fim de semana. Ele foi vencido por um câncer agressivo, que lhe provocou muito sofrimento. Mas, o lado triste, como destacou a amiga e médica Ana Costa, é que ele peregrinou durante seis meses e não teve acesso a tratamento nos hospitais públicos, pois não dispunha de plano de saúde. Em lance de trágica ironia, morreu no dia em que teria agendada a primeira consulta na oncologia, graças a uma ação judicial.

Paulo pintou lindas telas em acrílico sobre as árvores do Plano Piloto, o pandemônio da pandemia que matou mais de 700 mil brasileiros, a série escárnios de análise dos acontecimentos políticos contemporâneos, a série existencial itinerários da dor, a série de desenhos sobre personagens do jazz e sobre os golpes políticos. Deixa como legado um rico acervo de imagens.

Mas o que me parece mais marcante é a série sobre os índios no cenário do Plano Piloto. Com ela, Paulinho deu uma contribuição importante para a criação de uma identidade visual brasiliense. Essas serigrafias permanecem vivas em minhas retinas.

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