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Sobre infância, luto e colonialismo

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Ève Guerra conta que Repatriação nasce de um sentimento de duplo fracasso: o fracasso de um primeiro romance inacabado e abandonado sobre a guerra civil no Congo-Brazzaville e o afundamento em uma vida que se desfaz, na qual se prolonga indefinidamente um luto inconsolável. Para compreender e fazer o que ela chama de “autópsia desse desastre”, a autora francesa de origem congolesa e italiana mergulhou na escrita do primeiro romance, premiado em 2024 com o Goncourt do primeiro romance, um braço prestigiado do não menos prestigiado Goncourt. 

No texto, a protagonista conta a saga para trazer o corpo do pai, morto na África, de volta para a França, onde deveria ser enterrado. Estudante de letras, falida e, agora, órfã, Annabella não está bem. Ela não está bem há muito tempo. Assim como Ève desmoronou quando precisou enfrentar o desastre de perder o pai em outro continente e não ter dinheiro para trazê-lo de volta. “A escrita deste livro nasce de um sentimento de raiva, ao mesmo tempo que de desilusão. Mas acredito que Repatriação coloca três questões que eu precisava desvendar antes de entrar na idade da razão: somos verdadeiramente livres ou, ao contrário, estamos enraizados em uma paisagem, em um lugar de nascimento, em uma família? Para que serve a literatura? Como alguém se torna escritor?”, conta a autora, que foi uma das convidadas da Festa Literária Internacional de Paraty em julho deste ano. 

O título Repatriação designa, antes de tudo, uma realidade que Ève classifica como bastante prosaica: encontrar 20 mil euros para repatriar o corpo do pai, morto na República dos Camarões, uma urgência administrativa, financeira e burocrática. “E foi justamente essa trivialidade da palavra que me interessou, porque ela diz algo de cruel sobre a morte quando não se tem dinheiro”, observa a autora. Mas o título contém mais: repatriar é trazer de volta à pátria. “E a questão da pátria, do pertencimento, do enraizamento, está no centro do livro”, aponta.

Annabella vive em Lyon, na França, e não tem uma pátria fixa. Passou a infância na mata congolesa, criada pelo pai francês, de origem italiana e voluntariamente expatriado na África. Repatriar o corpo do pai é também tentar repatriar uma história familiar dispersa, reunir os fragmentos de uma infância africana e de uma vida francesa que não coincidem. “E há ainda um terceiro sentido, mais íntimo: Annabella precisa repatriar a si mesma — retornar a si depois de anos de ausência do mundo, de mentira e de fuga. A repatriação é, portanto, ao mesmo tempo, um procedimento administrativo, um gesto de memória e um renascimento interior”, explica Ève, que transita na corda bamba entre a autoficção e a ficção e conversou com o Correio sobre o livro e como a história de Annabelle traduz o sentimento de uma geração.

Repatriação

De Ève Guerra. Tradução: Diogo Cardoso. Companhia das Letras, 178 páginas. R$ 79,90

Para enfrentar a realidade, Annabella recorre frequentemente à ficção. Qual é o lugar da ficção e da literatura na vida contemporânea, em que muitas vezes somos confrontados com uma realidade que se desenrola cada dia mais rapidamente em função das redes sociais e da internet?

Em Repatriação, a ficção — ou a mentira — não é uma fuga da realidade: é a ferramenta que permite enfrentá-la, relê-la e torná-la suportável. As redes sociais, úteis para fazer circular informações, descobrir o mundo e conhecer outras culturas, são também, por meio do uso excessivo das telas, uma forma de escapar da vida, que acaba nos afastando da própria vida. As redes sociais frequentemente funcionam por seleção e repetição, algo que um livro não faz, e os conteúdos confirmam sobretudo nossos gostos, nossas indignações e nossas convicções, graças ao sistema de algoritmos. Isso cria uma espécie de câmara de eco, na qual nossas certezas nunca correm o risco de ser confrontadas, como acontece em um romance. As obras de ficção, sobretudo quando são escritas por grandes escritores capazes de colocar em cena ideias e opiniões por vezes contraditórias às suas próprias, podem ser justamente o espaço da reinterpretação, da transformação e da redefinição das certezas e, portanto, de uma leitura mais refinada do mundo.

O livro fala também de toda uma geração e das questões que envolvem a entrada na vida adulta dos jovens nascidos no século 21. Esse tema é importante para você? 

Sim, essa leitura me parece muito pertinente. Repatriação pode ser lido como um romance sobre a saída da infância e a entrada na vida adulta, com toda a desorientação que isso implica. Annabella tem 23 anos, e esse simples detalhe já a situa em um momento de transição: ela não é mais criança, mas ainda não está estabelecida em uma forma estável de vida adulta. O romance explora essa zona flutuante em que é preciso inventar o próprio lugar sem manual de instruções, em um mundo marcado pela instabilidade afetiva e pela precariedade das referências. Por isso, pode-se falar de um livro sobre uma geração nascida no século 21 ou, pelo menos, que chegou à idade adulta em um mundo no qual as certezas herdadas ruíram. Há uma cena muito eloquente a esse respeito. Annabella percebe que os longos anos de estudo que dedicou não lhe servem para nada e, sobretudo, não a ajudam a encontrar um emprego. Penso que a minha geração, e a que vem depois, está um pouco inquieta diante da ideia de que tudo aquilo que aprendeu, pacientemente e com muito esforço, talvez não sirva mais para nada, já que a inteligência artificial fará seu trabalho melhor e mais rapidamente.

Você já falou, em entrevistas, sobre as semelhanças entre Annabella e você: você nasceu no Congo, fugiu da guerra ainda muito jovem e é francesa de origem italiana. A voz de Annabella seria também uma voz periférica, a voz, de certa maneira, dos problemas contemporâneos gerados pela colonização? 

Sim, mas de maneira mais indireta e encarnada por meio dos personagens do que sob a forma de um ensaio de denúncia. Repatriação aparece como uma crítica ao colonialismo porque mostra como a ordem colonial continua a estruturar os corpos, as relações familiares, a violência, os privilégios e até mesmo a maneira de viver em um país africano quando se é um ocidental, como é o pai de Annabella. A crítica ao colonialismo também passa pela representação da família como um microcosmo de poder. As relações entre o pai francês de origem italiana, a mãe congolesa e a filha mostram como a dominação colonial se prolonga na intimidade, no casal e na filiação. Não se trata apenas da denúncia de um passado já encerrado: o romance sugere que o colonialismo deixa marcas psíquicas e sociais que sobrevivem a ele. É preciso, contudo, evitar reduzir o livro a uma simples crítica política. O livro é também um romance sobre a infância, o luto, a mentira e a reconstrução de si.

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