Anncelotti não participou presencialmente da reunião. Foto: Odd Andersen/AFP
Dallas — Depois de cobrir a classificação da Espanha contra a França, no Texas, leio que as prioridades da Seleção no início do ciclo para a edição centenária da Copa do Mundo em 2030 são conquistar a Copa América de 2028 e terminar em primeiro lugar nas Eliminatórias da América do Sul. Não, o Brasil não pode se dar ao luxo de começar mais um projeto do hexacampeonato com discursos simplistas sobre ganhar ou perder esse ou aquele torneio.
O Brasil sai da Copa do Mundo sem goleiro. Alisson, Ederson e Weverton passaram. Deixa a Copa de 2026 com um lateral dos dois lados: o destro Wesley, que foi cortado depois de uma contusão no amistoso contra o Egito antes da estreia. Douglas Santos entregou um bom desempenho, mas tem 32 anos. Não há meio de campo faz tempo. Faltam camisas 5, 8 e 10. Procura-se um 9 no padrão Haaland desde o último jogo de Ronaldo em Copas na eliminação contra a França nas quartas de final de 2006, em Frankfurt.
Faz bem ganhar a Copa América, fechar em primeiro nas Eliminatórias, mas é preciso senso de urgência. A CBF precisa decidir qual será a identidade de jogo da Seleção e procurar jogadores capazes de executá-la. Carlo Ancelotti já tem esse modelo? A Seleção entregará bola aos adversários em troca de 34% de posse como fez diante da Noruega?
O plano é continuar dependente de um fora de série como Neymar, mesmo quando ele não tem condição alguma de ser quem foi, ou a prioridade montar um time, sem se escorar em talentos individuais. A Espanha teve identidade no triunfo por 2 x 0 contra a França. Lamine Yamal estava em campo, mas o ponta-direita parecia mais um em campo.
Essas e outras respostas deveriam ser dadas presencialmente pelo técnico Carlo Ancelotti na reunião da CBF. O italiano não retornou ao Brasil. Descansa em Vancouver, no Canadá. Danilo desembarcou sozinho no Rio de Janeiro. Um fim de festa no mínimo constrangedor dois meses depois da badalada convocação no Museu do Amanhã.
Ganhar a Copa América e as Eliminatórias é supérfluo neste estágio. Carlo Alberto Parreira fez isso no ciclo para 2006. Ganhou o torneio continental no Peru (2004), a Copa das Confederações (2005), terminou em primeiro no processo seletivo para a Copa e caiu nas quartas contra a França. Dunga ganhou a Copa América (2007), a Copa das Confederações (2009), fechou as Eliminatórias em primeiro e amargou eliminação contra a Holanda nas quartas. Tite ganhou a Copa América (2019), as Eliminatórias e foi vítima da Croácia.
As próximas Eliminatórias serão disputadas sem Argentina, Paraguai e Uruguai. Os três países compartilharão a Copa com Espanha, Marrocos e Portugal. Logo, podem até participar do processo seletivo no papel de seleções neutras, quase como “café com leite”. Liderar essa disputa, portanto, terá menos peso do que em ciclos anteriores.
O ciclo começa projetando o que o Brasil já fez — e não deu certo. Não o que é necessário. O desafio é resgatar a identidade do futebol brasileiro. Encontrar as peças capazes de encaixar no quebra-cabeça. Não será fácil. Finalista da Copa, a Espanha olhou com carinho para a medalha de prata sob a batuta de Luis de La Fuente nos Jogos de Tóquio-2020.
A Seleção derrotou a Espanha por 2 x 1 naquela partida liderada por André Jardine. Ele até foi auxiliar de Tite por um tempo, mas a falta de um projeto para ele o levou ao “exílio” no San Luis, no América do México e agora no Shabab Al-Ahli dos Emirados Árabes Unidos. A Espanha transformou uma prata em projeto. O Brasil deixou um ouro sem legado.
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